thumb|Mitra sacrificando um touro O mitraísmo, também conhecido como os mistérios mitraicos ou o culto de Mitra, era uma religião de mistérios romana centrada no deus Mitra. Embora inspirado pela adoração iraniana da divindade zoroastriana (iazata) Mitra, o Mitra romano está ligado a uma nova e distinta imagem, o grau de continuidade entre a prática persa e greco-romana é discutível. Os mistérios eram populares entre o exército imperial romano entre dos séculos I e IV.

Os adoradores de Mitra tinham um sistema complexo de sete graus de iniciação e refeições rituais comunais. Os iniciados se autodenominavam syndexioi, aqueles "unidos pelo aperto de mão". Eles se reuniam em templos subterrâneos, agora chamados de mitreu, que sobrevivem em grande número. O culto parece ter tido seu centro em Roma e era popular em toda a metade ocidental do império: no sul (África romana e a Numídia), no oeste (Dácia romana), no norte quanto a Bretanha romana e em menor extensão na Síria romana no leste.

O mitraísmo é visto como um rival do cristianismo primitivo. No século IV, os mitraístas enfrentaram a perseguição dos cristãos e a religião foi subsequentemente suprimida e eliminada do Império Romano no final do século.

Vários achados arqueológicos, incluindo pontos de encontro, monumentos e artefatos, contribuíram para o conhecimento moderno sobre o mitraísmo em todo o Império Romano. As cenas icônicas de Mitra o mostram nascendo de uma rocha, matando um touro e compartilhando um banquete com o deus Sol. Cerca de 420 sítios arqueológicos renderam materiais relacionados ao culto. Entre os itens encontrados estão cerca de mil inscrições, 700 exemplos da cena da matança de touros (tauroctonia) e cerca de 400 outros monumentos. Estima-se que haveria pelo menos 680 mitreus na cidade de Roma. Nenhuma narrativa escrita ou teologia da religião sobreviveu; informações limitadas podem ser derivadas das inscrições e referências breves ou passageiras na literatura grega e latina. A interpretação da evidência física permanece problemática e contestada.

História thumb|Mitra e o Touro, afresco encontrado na cidade de Marino.

Nome O termo "mitraísmo" é uma convenção moderna. Os escritores da era romana se referiam a ela por frases como "mistérios mitraicos", "mistérios de mitras" ou "mistérios dos persas". Eruditos atuais, às vezes, se referem à religião greco-romana como "mitraísmo romano" ou "mitraísmo ocidental" para distingui-la do culto persa de mitra.

O culto de Mitra antes do mitraísmo Mitra era uma divindade indo-iraniana cuja referência mais antiga remonta ao segundo milénio a.C.. O culto surgiu na Índia tendo se difundido pela Pérsia e mais tarde pelo Médio Oriente.

Num tratado entre os Hititas e os mitanitas assinado no , Mitra é apresentado como deus dos contratos. Na Índia, surge nos hinos védicos como um deus da luz, associado a Varuna.

Julga-se ter sido Dario I a reconhecer pela primeira vez o zoroastrismo como religião oficial do Império Aqueménida.

O zoroastrismo é uma religião dualista que postula a existência de dois Deuses absolutos, o bem e o mal, ao qual atribui ao deus bom o nome de Aúra-Masda e ao deus mal o nome Angra Mainiu. O fundador, Zaratustra, opunha-se ao sacrifício dos bois, elemento que se encontra no mitraísmo.

Dario I e os sucessores não pretenderam erradicar as antigas crenças pagãs, uma vez que essa política poderia gerar oposição política. A religião zoroastrista acabou por receber influências de elementos pagãos anteriores. Uma inscrição encontrada em Susa, datada da época de Artaxerxes II menciona Mitra junto com Aúra-Masda e uma deusa chamada Anaíta. No Avestá, Mitra surge como um deus benéfico, colaborador de Aúra-Masda, desempenhando funções de juiz das almas.

A invasão da Pérsia por Alexandre Magno em provocaria a decadência do culto de Mitra, que sobreviveu apenas entre os aristocratas que habitavam a parte ocidental do Império Persa, na fronteira com o mundo greco-romano. A partir daí, o culto de Mitra difundiu-se nas regiões vizinhas. Ao reconhecer o imperador Nero como seu senhor, o rei realizou uma cerimónia associada a Mitra. O culto do deus encontra-se igualmente atestado entre os reis de Comagena.

A primeira referência na historiografia greco-romana ao culto de Mitra encontra-se na obra de Plutarco, que refere que os piratas da Cilícia celebravam ritos secretos relacionados com Mitra no ano 67 a.C.

Hoje é sabido que não havia ligação entre o culto persa e do Mediterrâneo Oriental de Mitra persa e o da religião de mistérios do Império Romano chamada de Mitraísmo. Contudo, pesquisadores do século XIX como Franz Cumont, acreditavam que o culto romano era uma derivação oriental

O mitraísmo romano Tradicionalmente, autores como Plutarco atribuíam aos legionários romanos a introdução do culto de Mitra no Império Romano a partir de campanhas militares nas suas fronteiras orientais. As primeiras provas materiais do culto de Mitra datam de 71 ou 72: trata-se de inscrições feitas por soldados romanos que procediam da guarnição de Carnunto (atual Petronell-Carnuntum, na Áustria), na província da Panónia Superior e que possivelmente tinham estado no oriente, na luta contra os partos e no combate ao levante em Jerusalém.

Por volta do ano o autor Estácio refere a cena da tauroctonia na sua obra Tebaida.

Em finais do , o mitraísmo já estava amplamente popularizado no exército romano, bem como entre comerciantes, funcionários e escravos. A maior parte dos achados referem-se às fronteiras germânicas do império. Pequenos objectos de culto associados a Mitra têm sido encontrados em locais que vão da Roménia à Muralha de Adriano.

O mitraísmo no Baixo Império

Os imperadores do foram em geral protectores do mitraísmo, porque a sua estrutura fortemente hierarquizada permitia-lhes reforçar o seu poder. Assim, Mitra converteu-se no símbolo da autoridade e triunfo dos imperadores. Desde a época de Cómodo, que foi iniciado nos seus mistérios, os adeptos do culto eram oriundos de todas as classes sociais.

Numerosos templos foram encontrados nas guarnições militares situadas nas fronteiras do império. Na Inglaterra foram identificados pelo menos três ao longo da Muralha de Adriano, em Housesteads, Carrawburgh e Rudchester. Em Londres, também foram encontradas as ruínas de um mitreu. Outros templos de Mitra datados desta época podem ser encontrados na província da Dácia, (onde em 2003 foi encontrado um mitreu em Alba Tulia) e na Numídia, no norte de África.

No entanto, a maior concentração de mitreus se encontra em Roma e perto da cidade de Óstia, com um total de doze templos identificados, sendo provável que tenham existido centenas. A importância do mitraísmo em Roma pode ser avaliada a partir dos achados: mais de setenta e cinco peças de escultura, uma centena de inscrições e ruínas de templos e santuários em toda a cidade e subúrbios. Um dos mitreus mais destacados, que conserva o altar e os bancos de pedra, foi construído por debaixo de uma casa romana e sobrevive na cripta sobre a qual se construiu a Basílica de São Clemente em Roma.

Fim do mitraísmo Em finais do gerou-se um sincretismo entre a religião de Mitra e certos cultos solares de procedência oriental, que se cristalizaram na religião do Sol Invicto. Esta religião foi estabelecida como oficial no Império Romano em 274 pelo imperador Aureliano, que mandou construir em Roma um templo dedicado ao deus e criou um corpo estatal de sacerdotes para prestar-lhe culto. O máximo dirigente deste culto levava o título de "pontífice do Sol Invicto" (pontifex solis invicti). Aureliano atribuiu a Sol Invicto as suas vitórias no Oriente. Contudo, este sincretismo não implicou o desaparecimento do mitraísmo, que continuou existindo como culto não oficial. Muitos dos senadores da época professaram ao mesmo tempo o mitraísmo e a religião do Sol Invicto.

No entanto, este período representou o começo do fim do mitraísmo, provocado pelas perdas territoriais que o império sofreu em consequência da invasão dos povos bárbaros e que afectariam os territórios fronteiriços onde o culto estava muito arreigado. A concorrência do cristianismo, apoiado por Constantino, tiraria adeptos ao mitraísmo. Importa realçar o facto do mitraísmo excluir as mulheres, situação que não se verificava no cristianismo. O cristianismo substitui o mitraísmo durante o até se converter na única religião permitida com Teodósio (379 - 395). O imperador Juliano tentou revitalizar o culto de Mitra, bem como o usurpador Eugénio, nos dois casos com pouco êxito. O mitraísmo foi abolido formalmente em 391, sendo provável que a sua prática tenha continuado várias décadas.

Em algumas regiões dos Alpes, o mitraísmo sobreviveu até ao , bem como no Oriente, onde teve um renascimento breve. Acredita-se que o mitraísmo teve um importante papel no desenvolvimento do maniqueísmo, outra doutrina que seria concorrencial ao cristianismo.

Ritual, práticas e dias sagrados do mitraísmo O ritual do mitraísmo era complicado e significativo. Incluía uma complexa cerimônia de iniciação em sete estágios ou graus, o último dos quais firmava uma amizade mística com o deus. Longas provas de abnegação e mortificação da carne constituíam complementos necessários ao processo de iniciação. A admissão à completa participação no culto habilitava uma pessoa a participar dos sacramentos, sendo o mais importante o batismo e uma refeição sagrada de pão, água e, possivelmente, vinho. Outras observâncias incluíam a purificação lustral (ablução cerimonial com água santificada), a queima de incenso, os cânticos sagrados e a guarda dos dias santos. Imitando a religião astrológica dos romanos, cada dia da semana era dedicado a um corpo celeste. Uma vez que o sol, como fonte de luz e fiel aliado de Mitra, era o mais importante desses corpos, seu dia era, naturalmente, o mais sagrado. Mais tarde, alguns ramos do mitraísmo se apropriaram do culto do Sol Invictus e celebravam o dia 25 de dezembro como dotado significação solar. Nessa data aproximada do solstício do inverno, marcava a volta do sol de sua longa viagem ao sul do Equador. Era, em certo sentido, o "dia do nascimento do sol", uma vez que assinalava a renovação de suas forças vivificadoras para benefício do homem. História da Civilização Ocidental - EDWARD McNALL BURNS - Vol. I - 2ª Edição - Editora Globo - Capítulo 5 - seção 4 :A Herança Mística e Extraterrena da Pérsia

Mitreu

thumb|250px|Mitreu em Óstia, Itália O culto de Mitra era realizado em templos denominados mitreu (palavra em latim cujo plural é mithraea). Estes espaços começaram por ser cavernas naturais; mais tarde, optou-se por construções escuras e sem janelas que imitavam as cavernas naturais. Os templos eram de capacidade limitada; a maior parte deles não podia receber mais do que trinta ou quarenta pessoas.

No mitreu podiam distinguir-se as seguintes partes: A antecâmara; O spelaeum ou spelunca (caverna), uma sala rectangular decorada com pinturas e com dois bancos posicionados junto a cada uma das paredes onde se faziam os banquetes sagrados; O santuário, no extremo da caverna, onde estavam o altar e a imagem (pintura, baixo-relevo ou estátua) de Mitra matando um touro.

Encontraram-se vários mitreus em territórios que pertenceram ao Império Romano, alguns dos quais foram transformados em criptas de igrejas cristãs. A maior concentração destes edifícios encontra-se em Roma, mas também se descobriram em locais como o norte da Inglaterra e a Palestina. A sua distribuição na antiga área do Império Romano encontra-se relacionada com a localização de quartéis e de instalações militares.

Mitologia e iconografia Não existem textos sobre o mitraísmo escritos pelos adeptos pelo que as únicas fontes para o conhecimento da religião são as imagens encontradas nos templos.

1. Relato mítico