thumb|180px|Uma taça de vinho branco com coloração tendendo ao dourado-âmbar
O vinho branco é um vinho com coloração variando do mais pálido amarelo-esverdeado até o mais profundo dourado-âmbar.GILETTE, P. A. e GILETTE, P. Playboy's book of wine. The Hamlyn Publishing Group Limited. 1974. p. 85. É elaborado a partir de uvas brancas — de coloração verde ou amarela, como a Chardonnay, a Sauvignon Blanc e o Riesling — ou, menos frequentemente, de uvas tintas cuja polpa não contenha pigmentos vermelhos, desde que suas cascas não entrem em contato com o mosto durante a vinificação.GILETTE, P. A. e GILETTE, P. Playboy's book of wine. The Hamlyn Publishing Group Limited. 1974. p. 57. É justamente a ausência dessa maceração que distingue o vinho branco dos vinhos tintos: a casca das uvas, rica em pigmentos, é separada do suco logo após o esmagamento, resultando em um líquido de coloração clara. A Pinot Noir, por exemplo, tem a polpa incolor — como a maioria das uvas tintas —, sendo comumente utilizada na produção de champanhe. As uvas tintureiras, contudo, não podem ser utilizadas para vinhos brancos, pois têm a polpa e o suco vermelhos.
O vinho branco apresenta grande diversidade de estilos — seco, meio-seco, suave, espumante e licoroso — com aromas que variam do floral e frutado ao mineral e tostado, conforme a casta utilizada, a região de produção e o método de vinificação.ROBINSON, Jancis. The Oxford Companion to Wine. 3. ed. Oxford: Oxford University Press, 2006. p. 754. Sua existência como produto específico data de pelo menos 2 500 anos.ROBINSON, Jancis. The Oxford Companion to Wine. 3. ed. Oxford: Oxford University Press, 2006. p. 761. É o segundo tipo de vinho mais consumido no mundo, depois do vinho tinto, sendo apreciado como aperitivo, acompanhamento de refeições e ingrediente culinário em diversas tradições gastronômicas.
Terminologia Alguns termos fundamentais são recorrentes no universo do vinho branco e importantes para a compreensão deste artigo:
Casta
Uma casta é uma variedade específica da espécie Vitis vinifera, a videira-europeia. Cada casta possui características genéticas próprias que determinam a cor, o aroma, a acidez, o teor de açúcar e o potencial de envelhecimento do vinho produzido. Exemplos de castas brancas clássicas são o Chardonnay, o Riesling e o Sauvignon Blanc.
Denominação de origem
Uma denominação de origem é uma certificação geográfica que protege o nome de um vinho ou produto produzido em uma região específica, sob regras rígidas de casta permitida, método de vinificação e padrões de qualidade. O exemplo mais célebre é o champanhe: apenas espumantes produzidos na região francesa de Champagne, a partir de castas autorizadas e pelo método tradicional, podem legalmente usar esse nome. Cada país adota sua própria nomenclatura: AOC (Appellation d'Origine Contrôlée) na França, DOC (Denominação de Origem Controlada) em Portugal e Itália, DO (Denominación de Origen) na Espanha, entre outros.
Terroir
O terroir é o conjunto de fatores naturais — solo, clima, altitude, exposição solar e relevo — que caracterizam uma região vitivinícola e conferem ao vinho produzido ali uma identidade única e irreproduzível em outro lugar. O conceito é central na tradição vitivinícola europeia e explica por que o mesmo Chardonnay produz vinhos radicalmente diferentes na Borgonha, na Califórnia e na Austrália.ROBINSON, Jancis. The Oxford Companion to Wine. 3. ed. Oxford: Oxford University Press, 2006. p. 697.
Vinificação
A vinificação é o conjunto de processos técnicos que transformam a uva em vinho. No caso do vinho branco, a vinificação distingue-se pela ausência de contato prolongado entre o mosto e as cascas. As principais etapas são a vindima, o esmagamento, a prensagem, a fermentação alcoólica, a estabilização e o engarrafamento.
História
Antiguidade A primeira evidência de vinho data de aproximadamente 7 500 anos, encontrada no atual Irã. Os resultados das escavações arqueológicas não permitem, contudo, determinar a partir de quando o vinho branco especificamente passou a ser produzido. A epigrafia fornece informações sobre a presença do vinho no Oriente Próximo: era produzido no "Alto País" (montanhas entre a Anatólia e a Armênia) e importado pela Mesopotâmia sobretudo a partir do terceiro milênio a.C. As tábuas de Hattusa designam o vinho pelo termo wiyana em língua hitita, GEŠTIN em sumério e karânu em acadiano, podendo ser vermelho, claro, bom, adoçado com mel, novo ou azedo.
Na Grécia Antiga, o vinho branco já era elaborado e consumido: Hipócrates, nascido por volta de 460 a.C., prescrevia-o correntemente a seus pacientes, citando o «vinho branco vinhoso» e o «vinho branco áspero» entre seus remédios — indício de diversidade de produção já nessa época. Entre os romanos, o modo de viticultura grego serviu de modelo. Os patrícios ricos organizavam banquetes em que o preço das iguarias era sinal de prestígio, e o vinho ocupava lugar de destaque. A conquista de regiões cada vez mais setentrionais levou os romanos a cultivar a videira e a buscar novas variedades silvestres adaptáveis a climas distantes, onde as castas mediterrâneas encontravam seus limites. Vinhas foram plantadas nas margens do Reno, fornecendo aos legionários uma bebida saudável em contraste com a água frequentemente imprópria para consumo. O vinho era bebido fresco no verão e quente no inverno, prática que ainda persiste no século XXI.
Idade Média O comércio do vinho não sobreviveu à queda do Império Romano do Ocidente, e a viticultura recuou enormemente. As tribos germânicas, que preferiam a cerveja, não viam interesse no comércio do vinho, e os vikings interromperam as rotas marítimas atlânticas. Ao sul, incursões sarracenas despovoaram as campanhas do sul europeu. O saber sobre o cultivo da videira foi preservado pela Igreja Católica: sendo o vinho necessário à celebração da missa, os religiosos plantaram videiras em latitudes elevadas e os domínios monásticos ampliaram progressivamente as superfícies cultivadas.JOHNSON, Hugh. The World Atlas of Wine. 6. ed. Londres: Mitchell Beazley, 2007. p. 44.
O comércio fluvial teve grande importância no desenvolvimento da viticultura. Os países germânicos aproveitaram a navegabilidade do Reno e do Danúbio para exportar sua produção. Carlos Magno (742–814) contribuiu para esse desenvolvimento ao promulgar seu Capitulare de Villis, conjunto de regras sobre o cultivo da videira em todos os seus domínios. Foi uma época de grande expansão da cultura do vinho branco na Alemanha e na Áustria — o vinhedo da Europa Central chegou a atingir 100 000 hectares, cerca de três vezes e meia a superfície dos anos 1990. A partir do século XIII, os comerciantes distinguiam o vinum hunicum (literalmente «vinho dos Hunos», de consumo popular) do vinum francium (vinho dos Francos), destinado à rica aristocracia. O reconhecimento das castas Riesling e Silvaner data do final da Idade Média.
Uma parte significativa do comércio europeu fazia-se por via marítima na fachada atlântica. A demanda crescente de ingleses, holandeses e escandinavos criou um impulso para o plantio de videiras entre Bordéus e La Rochelle. Pequenos vinhos brancos ácidos eram produzidos para exportação nos arredores do porto charentais, enquanto Bordéus exportava sobretudo os vinhos do alto-país que lhe chegavam pela Garonne. No século XVII, com a introdução do alambique nas margens do Charente, esses vinhos brancos dariam origem ao cognac. Nessa mesma época, os vinhos brancos secos apreciados pelos holandeses passaram a ser produzidos mais ao norte, em torno do porto de Nantes, originando os vinhedos atuais do Muscadet e do Gros-Plant-du-Pays-Nantais.ROBINSON, Jancis. The Oxford Companion to Wine. 3. ed. Oxford: Oxford University Press, 2006. p. 539.
No Mediterrâneo, as Cruzadas enriqueceram as repúblicas de Veneza e Génova, que se abasteciam de vinho grego para abastecer as tropas. O porto de Monemvasia, grande exportador de vinho branco, deu seu nome à casta Malvasia. Os cruzados descobriram também os vinhos de Moscatel e, ao regressarem, fizeram vir cepas que se enraizaram no Languedoc e na Espanha. O alto grau alcoólico desses vinhos facilitava a sua conservação durante o longo transporte para o norte europeu.
Época Moderna Em 1453, o Império Otomano tomou Constantinopla e o comércio do vinho entre o Mediterrâneo oriental e o norte europeu diminuiu fortemente. A Espanha, recém-saída da Reconquista, substituiu o vinho mediterrâneo pelo seu próprio, especialmente junto aos consumidores ingleses e holandeses. O porto de Sanlúcar de Barrameda começou a exportar grandes quantidades de vinho branco, ancestral do atual Xérès, chamado de sack em Inglaterra, onde fazia furor. Mesmo nos momentos de maior tensão diplomática entre os dois países — como durante o episódio da Invencível Armada em 1588 — o comércio nunca chegou a interromper-se, sendo por vezes assegurado por corsários. Entre 40 000 e 60 000 barris de 500 litros partiam anualmente das costas espanholas para a Inglaterra e os Países Baixos — volume que representava os dois terços da produção atual.
A partir do século XVI, as primeiras videiras europeias foram plantadas nas Américas: no México, no Peru, na Bolívia, na Argentina e no Chile. A Pequena Idade do Gelo pôs fim às viticultura setentrionais: a videira desapareceu do norte da Alemanha e a altitude máxima de cultivo recuou significativamente. Nos vinhedos mais setentrionais, as castas brancas foram naturalmente privilegiadas: mesmo com maturidade insuficiente, as uvas brancas produziam um vinho ácido ainda consumível, ao passo que as uvas tintas imaturas resultavam em vinhos sem cor e com taninos amargos. A interrupção da fermentação pelo frio do inverno favoreceu a descoberta da tomada de espuma do champanhe.PEYNAUD, Émile. Connaissance et travail du vin. 2. ed. Paris: Dunod, 1997. p. 201.
O enriquecimento de parte da população criou um interesse pelos vinhos raros. A descoberta dos benefícios da podridão nobre sobre a uva branca teria ocorrido por volta de 1650 na Hungria, para a elaboração do vinho de Tokaji. Esse vinho, apreciado pela Casa dos Habsburgos, conheceu um comércio florescente. O uso da podridão nobre só chegou às encostas do Reno 120 anos mais tarde; seu uso em Sauternes está documentado a partir de 1836.
Dom Pérignon é o lendário criador do champanhe: num vinhedo setentrional, onde nem a maturidade nem a cor suficientes podiam ser esperadas, elaborou um vinho especial que suscitaria um entusiasmo sem precedentes.
A moda de beber vinho branco seco e barato começou a difundir-se em Paris no século XVIII: para escapar aos impostos do octroi (taxa municipal cobrada na entrada da cidade), os parisienses adquiriram o hábito de se deslocar ao produtor, fora dos muros da cidade. Tabernas abriam às margens dos rios, transformando-se em guinguettes: o vinho aí consumido, proveniente das encostas do Sena ou do Marne, era ácido e ligeiro, mas preservado pelos curtos transportes da época.
Época Contemporânea thumb|Paisagem de vinhedos em Champagne O champanhe, criado no século XVIII, teve seu auge mundial no século seguinte. As cabeças coroadas europeias rapidamente puseram esse vinho na moda em suas cortes. Segundo Hugh Johnson, Talleyrand teria utilizado o champanhe para distender os ânimos nas negociações do Congresso de Viena. A ocupação da Champagne por tropas russas em 1815 fez o vinho espumante ser conhecido pela aristocracia russa; a negociante Veuve Clicquot entregou seu vinho aos ocupantes declarando: «Hoje eles bebem, amanhã eles pagarão». Os avanços da indústria do vidro permitiram democratizar o uso da garrafa, e a produção de vinho espumante aumentou consideravelmente, ganhando o continente americano.