miniaturadaimagem|Dioniso sentado, apoiado em um tirso, com um sátiro e uma ménade, Museu Arqueológico de Agrigento. c. 420–410 a.C. As Festas Dionisíacas eram celebrações de caráter cívico-religioso, ou seja, conciliavam aspetos da política e da identidade de Atenas, servindo como fator de agregação da sociedade ateniense. Dentro de algumas dessas festas eram realizados concursos teatrais que, envolvendo competitividade e sociabilização, serviam para suavizar conflitos internos dentro da pólis. DAGIOS 2013, p. 96-97

Em Atenas, eram celebradas cinco festas em honra a Dioniso: as Leneias, as Antestérias, as Dionísias Urbanas, as Oscofórias e as Dionísias Rurais. As Leneias, que ocorriam no mês Gamélion (atual janeiro-fevereiro), consistiam em uma antiga festividade dos gregos da Jônia. Nessa festividade ocorriam um sacrifício, uma procissão e um concurso teatral.ALMEIDA 2014, p. 63-64 As Antestérias, que ocorriam no mês Anthesterión (atual fevereiro-março), demarcavam o início da primavera e seu nome provavelmente está relacionado ao florescimento (anthos). As Grandes Dionísias ou Dionísias Urbanas, que ocorriam no mês Elaphebolión (atual março-abril), eram a festa de maior prestígio no contexto das festas dionisíacas. As Oscofórias, o festival da colheita das uvas, ocorriam no mês Pyanopsion (na segunda quinzena de outubro),MAFRA 193-1984, p.67 quando havia uma corrida de rapazes carregando ramos de parreira.PIQUÉ 1998, p. 203 As Dionísias Rurais, que aconteciam no mês Posídeon (atual dezembro-janeiro),ALMEIDA 2014, p. 60 eram realizadas provavelmente em 140 demos da Ática. Acredita-se que essa festa teve início como um cortejo fálico em direção a um culto que antecederia um sacrifício.ALMEIDA 2014, p. 62

O deus que inspirava as festas, Dioniso, em Roma conhecido como Baco, era o deus do êxtase e do vinho, uma bebida na qual se acreditava dar inspiração aos homens para a poesia e a música e aliviar suas tensões cotidianas. Nas festas havia o consumo de vinho em quantidade. Inclusive, durante as Antestérias, os garotos acima de três anos consumiriam seu primeiro copo da bebida. Nestas festas as pessoas eram tomadas pelo êxtase dionisíaco em danças e tanto mulheres quanto escravos gozavam de maiores liberdades durante a festa, o que reafirma o fator agregador das festas em si para a pólis. Este momento representava uma transgressão para com diversas separações sociais.ACKER 2014, p. 70-71

Existem várias mitologias a respeito do nascimento de Dioniso. Uma delas aponta que ele tem como mãe Sêmele, filha de Cadmo, primeiro soberano de Tebas, e como pai Zeus. Hera, esposa de Zeus, querendo matar Sêmele, a amante de seu marido, disfarça-se como sua criada e sugere que esta peça a Zeus para mostrar-se a ela em sua forma divina. Sêmele pede a Zeus que se mostre em sua verdadeira forma e atendendo ao seu pedido Zeus se mostra como um raio. Em decorrência disso, o palácio da princesa, já grávida de seis meses, pega fogo matando-a. Zeus recolhe seu filho do útero de Sêmele e o costura em sua coxa, de onde ele só sairá totalmente formado.BRANDÃO 2001, p. Por esse motivo Dioniso ficou conhecido como o deus duas vezes nascido. Esse mito também evidencia o antagonismo entre Hera e Dioniso. Hera é a deusa do casamento, extremamente avessa às traições do marido e representante das tradições instituídas na pólis, já Dioniso representa a quebra das convenções e costumes, o que fica muito claro durante as festas dionisíacas.

Outro mito muito recorrente e que nos ajuda a entender a associação de Dioniso à vinha fala sobre as constantes perseguições de Hera ao jovem filho de Zeus. Por ordem de seu pai, Hermes o transformou momentaneamente em cabrito e o entregou aos cuidados das ninfas Mácris, Baca, Brômia, Érato e Nisa que o criaram com muito esmero em uma gruta alimentando-o com mel. No monte Nisa, Dioniso teria inventado o vinho, que viria a ser muito representativo nas comemorações em honra ao deus, inclusive em competições de consumo de vinho que reuniam diversas camadas da sociedade ateniense. Conta-se no mito que Dioniso em suas andanças levou a vinha ao Egito, o que representa a propagação do culto geograficamente.

O Calendário das Festas

O calendário grego era usado pelos magistrados da Grécia Antiga para decretar as cerimônias dos festivais religiosos e episódios sagrados, delimitando os dias exatos para serem realizadas essas cerimônias e sacrifícios. Por muito tempo, Atenas foi a cidade com o maior número de festas no mundo grego. O calendário cívico-religioso ateniense assinalava pelo menos cento e vinte dias anuais com celebrações religiosas, ou seja, uma celebração a cada três dias. Variáveis em importância e proporção, essas festas eram um meio de integração da sociedade grega. Atenas, como uma pólis com muita influência no mundo grego, acabou disseminando as suas festas por varias colônias gregas. Na região da Ática, os festivais dionisíacos ocorriam principalmente no inverno até o começo da primavera, que são os meses de dezembro até março.

Em Atenas, os cinco festivais dionisíacos ocorriam, espaçadamente, durante todo o ano: as Lenéias em janeiro-fevereiro, as Antesterias em fevereiro-março, as Dionisías urbanas ou Grandes Dionísias em março-abril, as Oscofórias na segunda quinzena de outubro e as Dionisías rurais em dezembro-janeiro.MALHADAS 1983, p. 67

A Pólis Ateniense e as Festas Dionisíacas

miniaturadaimagem|Partenon, símbolo de Atenas

A definição grega para festa é muito complexa. Essa palavra vem do grego heorté e tinha conotação de “deleite, alegria, celebração”. As festas para os gregos são uma forma de interação social, de exercer a política e a religião.NOGUEIRA 2006 Além disso, as festas na Grécia antiga tinham um significado de união sagrada, de ligação entre os homens e os deuses através de determinados rituais, como as faloforias, destinadas a Dioniso. Talvez por esse motivo seja difícil discernir um governo totalmente laico, apesar de ao mesmo tempo ter ocorrido um importante processo de institucionalização.MOERBECK 2007, p. 147

A pólis ateniense está diretamente vinculada à religião; esta, por sua vez, liga o seres humanos com o seres divinos, através de mitos, por exemplo.BRANDÃO 2004, p. 10;125;131 Os mitos são parte muito importante da tradição dionisíaca. Eles são uma forma de fixar a consciência na população e trazem o conceito de dionisismo, o culto em honra a Dioniso, onde os participantes do festival tinham a chance de interagir de forma divina com Dioniso. Os mitos eram veiculados a praticamente todos os passos do cotidiano ateniense: a mitologia estava nas cerimônias religiosas, nas obras literárias, na cerâmica, na escultura, na pintura, nos conhecimentos partilhados. Das ligações míticas e políades com as Festas em homenagem a Dioniso vai surgir o teatro grego com a tragédia e a comédia. A tragédia nasce das animações ditirâmbicas e a comédia se desenvolve a partir dos cantos fálicos.TRABULSI 2004, p. 141 Os espetáculos em homenagem a Dioniso fizeram do teatro grego um espetáculo de interação e coesão na sociedade grega.DAGIOS 2013, p. 2

Os cultos dionisíacos eram muito comemorados por classes baixas da sociedade, como estrangeiros, escravos e mulheres. Os festivais em honra a Dioniso foram pouco a pouco ganhando espaço no calendário da Ática. As mudanças públicas, como a ideia do homem cidadão, as transformações políticas, como a transição do regime tirânico para o democrático, unido com a popularidade de Dioniso, fizeram com que ele se tornasse um deus em ascensão, conquistando, assim, um status de divindade cívica.ANDRADE 2013, p. 44

No equinócio da primavera, em março, eram celebradas as Dionísias Urbanas, a maior festa em honra a Dioniso. Elas não eram apenas um espetáculo para os atenienses. No início da primavera, os mares já estavam mais propícios à navegação e as cidades gregas recomeçavam a interagir entre si. Um exemplo disso é uma cerimônia que acontecia nas Dionísias Urbanas onde as cidades coligadas da Liga de Delos tinham que pagar tributos a Atenas a fim de reafirmar a sua superioridade diante das outras cidades-estados, uma vez que havia maior número de estrangeiros na solenidade.MOERBECK 2007 No período após o inverno, os mares ficavam mais propícios à navegação e em razão disso muitos estrangeiros chegavam para participar do festival. Eles vinham para Atenas não somente em razão das festas, mas também para fazer negócios e propaganda de suas cidades-estados.MALHADAS 1983, p. 67-79; FARIA 2010 Neste festival também ocorriam homenagens aos órfãos de soldados que morreram lutando pela pólis e aos estrangeiros que serviram Atenas.FARIA 2010

Em contrapartida, as Leneias, por acontecerem em um período de difícil navegabilidade marítima era um evento doméstico, onde participavam cidadãos e até metecos. Aos metecos era concedida a participação nas representações teatrais e no coro, sendo uma forma de mostrar a importância do crescimento econômico deste grupo para a pólis.

A Origem da Comédia, da Tragédia e do Drama Satírico thumb|Sátiros de Dioniso

Das festas dionisíacas surgem três gêneros literários: a comédia, a tragédia e o drama satírico.BECKER 2016 Ambos os gêneros comédia e tragédia tinham espaços nos festivais das Leneias e Dionisíacas Urbanas, entretanto a visibilidade e o crédito eram diferentes. As comédias tinham maior espaço nas Leneias, por volta de 442 a.C. foram oficialmente admitidas neste festival, já as tragédias iniciaram-se nas Grandes Dionisíacas, durante a tirania de Pisístrato, mais ou menos por volta de 533 a.C..MALHADAS 1983, p. 68 A partir dessas manifestações ao deus do vinho, como uma homenagem da cidade – Atenas – surge o teatro. AGUSTE 1977, p. 74

As representações cômicas aconteciam no festival das Leneias. A comédia surge do kômos, uma procissão que passava por várias cidades. Caracterizava-se pelo seu teor engraçado e importunava muitos residentes e viajantes para contar contos cômicos. Posteriormente, durante a primeira metade do século V a.C., a comédia ganha caráter literário, em regiões dóricas como Mégara e Sicília. Ao fim da Guerra Médica, a comédia é oficialmente incluída nos concursos atenienses. O gênero comédia tem na sua origem na ideia de liberdade de expressão e por isso era, e ainda é, utilizada para fazer críticas a indivíduos ou até mesmo à própria sociedade.AGUSTE 1977, p. 75

Sobre a comédia sabemos que por volta do século IV a.C. eram produzidas em torno de cinco comédias para cada festival das Leneias. Cada poeta cômico que iria competir levava sua respectiva peça – que possuía mesma organização teatral que as tragédias: dividida entre o coro (vinte e quatro figuras, muitas vezes separados em dois grupos) e até três atores que interpretavam as partes faladas.BALDRY 1969, p. 89

Outro gênero que apareceu através dos festivais em honra a Dioniso foi a tragédia. O festival das Dionisíacas Urbanas era onde esse gênero reinava.MALHADAS 1983, p. 74-75 O nome tragédia significa literalmente canção do bode, do grego tragos, bode, e oidé, canto. Tem esse nome por causa da importância do bode no culto da fertilidade de Dioniso. Pelo gênero tragédia, entendemos que sua construção reúne partes líricas, cânticos e diálogos, isso fez com que a origem tradicional desse gênero – mistura de coro com atores – permanecesse. Seu surgimento se deu no âmbito das celebrações dos cânticos de ditirambo em honra a Dioniso, quando o coroBALDRY 1969, p. 75 começou a responder a um ator.AGUSTE 1977, p. 71 Não é consensual, mas alguns estudos apontam que talvez a tragédia tenha começado com Téspis – por volta de 534 a.C. – com a incorporação de um hipokrites, uma espécie de intérprete que era responsável pelos monólogos e por responder ao corifeu (chefe do coro).