thumb|Línguas pano (verde-escuro) e línguas tacanas (verde-claro): os pontos indicam a localização documentadas das línguas. As línguas panos são uma família linguística pertencente ao tronco Pano-Tacana. As línguas são faladas por povos indígenas no Brasil, no Peru e na Bolívia.

Descoberta Descrita como linguística e culturalmente uniforme,Shell, 1975b; Erikson, 1992 e 1994a a família Pano foi proposta pela primeira vez pelo francês Raoul de la Grasserie em 1890. nesse trabalho, o autor considera que a família é constituída por sete línguas:

"De la famille linguistique Pano. Sept langues Américaines, le Pano, le Mayoruna Domestica, le Mayoruna Fera, le Maxuruna, le Caripuna, le Culino, le Conibo et le Pacavara forment une seule famille linguistique."p. 438 (traduzido do francês: "Da família linguística pano. Sete línguas americanas: o pano, o mayoruna domestica, o mayoruna fera, o maxuruna, o caripuna, o culino, o conibo e o pacavara, formam uma só família linguística".)

De la Grasserie descreve a situação etnográfica e geográfica destes grupos, faz uma tabela lexical referente às partes do corpo, nomes de vegetais, adjetivos e de nomes e apresenta uma breve comparação fonético/fonológica dessas sete línguas. Por fim, o autor apresenta algumas anotações gramaticais sobre os pronomes e verbos. É através desse trabalho inicial que começa o tratamento dessas línguas como membros de uma mesma família linguística.

Classificação e distribuição geográfica Os povos Pano atuais ocupam os territórios do leste peruano, do oeste amazônico brasileiro e do noroeste da Bolívia. Segundo Suárez (1973, p. 137), o grupo Pano pode fazer parte de um tronco linguístico denominado Pano-Takanan, porém há outras propostas, como as de Swadesh (1960) que fala de um "Tacanapano" e de Lathrap (1970, p. 79) sobre um "Macro-Pano". Greenberg (1987, p. 273) propõe um filo do tipo Ge-Pano-Carib. Rodrigues (2000) questiona a hipótese de Greenberg, argumentando que tal hipótese está firmada somente em meios estritamente quantitativos. Assim, Rodrigues considera que o melhor meio para realizar essa classificação seria o qualitativo, concluindo o seguinte: "veo mayor plausibilidad en una hipótese Jê-Tupí-Carib que en la Ge-Pano-Carib."p. 102

A classificação de Loos dessa famíliaLoos (1999, p. 228-29) apresenta alguns homófonos de outras línguas, como por exemplo a língua Canamari, que consta dentro do subgrupo Capanawa e a língua Karipuna Br, que é classificado como "sem agrupamento".

Oliveira (2014) Classificação segundo Oliveira (2014, p. 123):Oliveira, Sanderson Castro Soares de (2014). Contribuições para a reconstrução do Protopáno. Brasília: Universidade de Brasília. (Tese de Doutorado). Grupo I: Kashíbo Grupo II Shípibo-Kónibo, Kapanáwa Marúbo (?) Grupo III: Chákobo, Kaxararí (?) Grupo IV: Yamináwa, Chanináwa, Sharanáwa Grupo V: Shanenáwa, Katukina Grupo VI: Poyanáwa (?), Amawáka Grupo VII Kaxinawá, Marináwa Yawanawá Grupo VIII: Mayorúna, Matís, Korúbo

Amarante Ribeiro (2005) Classificação segundo Amarante Ribeiro (2005):AMARANTE RIBEIRO, Lincoln Almir. Uma proposta de classificação interna das línguas da família Pano. Revista Investigações, v. 19, n. 2, p. 157-182, 2005.

Pano Grupo I Amawaka Grupo II Subgrupo II-1 Kashibo Nokaman Subgrupo II-2 Shipibo Kapanawa Panobo Grupo III Subgrupo III-1 Iskonawa Kaxinawa Subgrupo III-2 Subgrupo III-2-1 Nukini Remo Subgrupo III-2-2 Subgrupo III-2-2-1 Kanamari Katukina Marubo Subgrupo III-2-2-2 Mastanawa Tuxinawa Yoranawa Sharanawa Shanenawa Arara Yawanawa Xitonawa Yaminawa Subgrupo III-2-3 Kaxarari Poyanawa Grupo IV Subgrupo IV-1 Kapishto Matsés Kulina Matis Subgrupo IV-2 Atsawaka Arazaire Yamiaka Subgrupo IV-3 Karipuna Chacobo Pakawara

Línguas Pano O subgrupo Yaminawa: Yaminawa 500 P, Br Amawaca 200P Cashinawa/Honikoin 500P, Br Sharanawa/Shanindawa/Chandinawa/Inonawa/ Marinawa 300P Yawanawa 200 Br Chitonawa 35 Br Yoranawa/Nawa/Parquenawa 200P Moronawa 300Br Mastanawa 100P O subgrupo Chacobo Chacobo Arazaire† P Atsawaca† P Yamiaka† P Katukina/Camannawa/Waninnawa 300Br Pacawara 12 Bo O subgrupo Capanawa Capanawa/Pahenbakebo 400 P Shipibo/Conibo/Xetebo 8000 P Remo † Br Marubo 400 Br Waripano † / Panobo/Pano P Isconawa 30 P Taveri/Matoinahã†Br Língua sem agrupamento Cashibo/Cacataibo/Comabo 100 P Karipuna † Br Kaxarari 100 Br Nukimin †+/-136 Br Poyanawa † 137 Br Tutxinawa † Br Subgrupo Mayoruna kulina 35 Br Mawi X/9+e Kapishtana 17/14 dialect of Kulina Chema 12/7f Korubos 300 (aproximadamente) Br Chankuëshbo 5/2 Matses/Mayoruna 2000P, 2200 Br

O Matis faz parte de um subgrupo "Pano do Norte" ou "Mayoruna".Erikson (1994a, p.18) Neste grupo, estariam inseridos o Matsés, também conhecido como Mayoruna, o Korubo, o Maya e o Kulina-Pano. A língua matsés tem sido identificada por Kneeland (1994, 23) como uma língua à parte dentro da família Pano. O Matis mantém uma proximidade com a língua matsés, estudada Fields, H., Keneeland, Harriet. e Fleck, David. Os estudos feitos por Ferreira (2001a) demonstram que a estrutura gramatical interna da língua matis mantém uma distância significativa de outras línguas da família Pano, como a língua Katukina, estudada por Aguiar (1988 e 1994), a língua Poyanáwa, por Paula (1992), a língua MaruboCosta (1992, 2000) e a língua Caxinawa.Camargo, (1991) Dessa forma, tais estudos discutem a proposta feita por Erikson (1994), na qual há um subgrupo Mayoruna, assunto que trataremos mais adiante.

O matis e o mayoruna (matsés) são línguas distintas? Por muito tempo, duas questões têm sido levantadas: O grupo matis e Matsés constituem um único grupo? Falam a mesma língua?

Quando se verifica a forma com que ambos se referem a si próprios, percebe-se que o termo utilizado é o mesmo, matses. Porém, no trabalho com os Kulina-Pano, constatamos, in loco, que este grupo também utiliza "matses" para se autorreferirem. Não seria propriamente uma autodenominação, pois este termo significa "pessoas", "gente", ou ainda é um termo que os distingue dos não indígenas. Para aqueles que não fazem parte de algum grupo indígena, o termo utilizado é matses wötsi, ou seja, "a outra gente". No caso do Matsés e do Matis, este é o termo utilizado, mas para os Kulina (Pano), "o outro" é mayu, provavelmente seja daí que vem o termo "Mayoruna".

As línguas matis e a língua matsés, apesar de serem próximas, quando observadas em seu inventário lexical e até mesmo gramatical, fornecem evidências que são línguas distintas. Fleck e Ferreira (2005) fazem uma comparação léxico-estatística, comparando duzentos itens lexicais do Matis que aparecem em Ferreira (2001a) com os dados do Matsés. Nesse trabalho, o autor mostra que 53-72 por cento dos termos são cognatos.

Além do trabalho de léxico-estatística, também foram realizados os testes de compreensão, tanto por Fleck em seus trabalhos de campo, quanto os realizados pelo autor desta tese com os matis. Fleck (2003a) descreve que colocou um homem velho Matsés para ouvir os matis conversando por um sistema de rádio. Segundo ele, o velho não pôde entender tudo o que era dito, mas era possível entender o assunto. Já um outro rapaz Matsés, que foi trabalhar na frente de atração do Rio Ituí, disse que, depois de alguns meses convivendo com os Matis que ali também se encontravam, pôde se comunicar significativamente, mas sempre por meio de expressões simples. Várias vezes, nos trabalhos de campo realizados pelo autor deste artigo, foram feitos testes de compreensão entre os Matis e entre alguns falantes de Matsés. Em todas as vezes, foi dito que era possível compreender o assunto, mas não totalmente. Também foi possível colocar um rapaz Matsés para ouvir os Matis conversarem; logo após, eram feitas algumas perguntas a respeito do assunto, detalhes do que era dito e do que foi difícil de se compreender. Com relação ao assunto, o rapaz havia compreendido o geral; já os detalhes, algumas coisas eram possíveis de ser explicadas e outras não, sendo que a parte difícil para ele era acompanhar questões que envolviam detalhes da língua.

Com respeito à questão de ser uma variação dialetal ou de duas línguas distintas, tanto Fleck quanto o autor deste artigo verificaram, por meio dos testes realizados, que se está lidando com duas línguas distintas. Além destes testes realizados, os dois pesquisadores (op.cit) estão comparando algumas questões gramaticais, o que tem confirmado a distinção linguística destes dois grupos e que eles fazem parte de um novo grupo dentro da família Pano. Como pudemos notar acima, Loos (1999, p. 229) não cita os Matis, os Korubo e os Kulina-Pano em sua classificação. No entanto, estes quatro grupos e outros encontrados por Fleck entre os Matsés, como os Chankuëshbo e os Kapisho, parecem fazer parte desse subgrupo Mayoruna, proposto por Erikson (1994a). Fleck e Ferreira (2005) apresentam uma proposta de agrupamento que pode ser entendida como uma classificação do subgrupo Mayoruna: Languages known to be in or possibly in the Mayoruna subgroup.

Reconstrução A reconstrução do protopáno segundo Oliveira (2014):

Fonologia O sistema consonantal do protopáno (Oliveira 2014: 349, 385): Bilabial Alveolar Alveopalatal Retroflexa Velar Glotal Oclusiva *p *t *k, *kʷ *ʔ Nasal *m *n Tepe *r *ɽ Africada *ts *tʃ *tʂ Fricativa *β *s *ʃ *ʂ *h Aproximante *w *y

O sistema vocálico do protopáno (Oliveira 2014: 349, 385): Anterior Central Posterior Alta *i, *ĩ *ɨ, *ɨ̃ *o, *õ Baixa *a, *ã

Vocabulário