Platyrrhini ou platirrinos são o clado de primatas que inclui os macacos do Novo Mundo, ou seja, do continente americano. Distribuem-se por todas as Américas do Sul e Central e em algumas regiões do México. Não possuem rinário e suas narinas são distantes entre si e voltadas para os lados que os diferem dos seus parentes próximos, os Catarrhini, que apresentam as narinas orientadas para baixo. Possuem dentição com três pré-molares (em cada hemi-mandibula), diferente dos macacos do Velho Mundo, que apresentam apenas dois pré-molares. Nas espécies de maior porte, a cauda tende a ser preênsil. Possuem uma diversidade de 21 gêneros e cerca 204 espécies e subespécies.
Características Morfologia e características gerais Os primatas do Novo Mundo são de pequeno-médio porte, variando do sagui pigmeu (o menor primata do mundo) com 14-16 cm e com peso de 120-190 g, até o muriqui do sul, com 55-70 cm e com peso de 12-15 kg. A diferença fenotípica mais utilizada para separar os primatas do Novo Mundo dos primatas do Velho Mundo é a posição das narinas, que nos primeiros é posicionada para os lados, enquanto que nos últimos são posicionadas para baixo. Essa característica, no entanto é um caráter primitivo dentre os primatas simiiformes, também compartilhado pelos Tarsiiformes. A única característica exclusiva de Platyrrhini entre os primatas é o osso jugal (ou zigomático) e parietal estarem em contato no crânio.
Além disso, os primatas do Novo Mundo são os únicos que possuem representantes com cauda preênsil, diferentemente da cauda não preênsil e geralmente curta dos primatas do Velho Mundo. A cauda também evoluiu com o aumento da massa corporal. De uma cauda para balançar e sustentar nos menores Platyrrhini, até uma cauda preênsil para agarrar, nos representantes maiores. Dentro desses primatas de cauda preênsil, a especialização é menor nos caiararas (gênero Cebus, de menor tamanho dentro do grupo) e maior em bugios e membros da subfamília Atelinae, os maiores do grupo. Uma nova função da cauda confere agilidade, balanço e segurança no suporte e na locomoção arborícola. Outras funções especiais da cauda evoluíram ao mesmo tempo de forma independente do aumento da massa corpórea.
Os primatas desenvolveram capacidades sensoriais que os permitem sobreviver muito bem em diversos hábitats. O sentido de tato dos macacos do Novo Mundo têm sido relacionado tanto com interações sociais quanto por escolha de alimentos. A maioria deles não possui polegar oponível (exceto os macacos-pregos, gênero Sapajus). Este grupo (exceto os bugios) não possui a visão tricromática (três cones de cor) dos macacos do Velho Mundo. Na maioria dos primatas do Novo Mundo, a visão colorida baseia-se em um único gene no cromossomo X e outro gene autossômico, para produzir pigmentos que absorvem a luz de comprimentos de onda médio e longo, o que contrasta com a luz de comprimentos de onda curtos. Como resultado, os machos dependem de um único gene no cromossomo X de pigmentos médios/longos e são dicromáticos, assim como as fêmeas homozigotas. Fêmeas heterozigotas podem possuir dois alelos com sensibilidades diferentes dentro dessa faixa, podendo apresentar visão tri-cromática. Para os primatas, as vantagens de alta acuidade da visão tri-cromática ainda são incertas. Dentre as possíveis vantagens estão a melhor detecção de alimentos contra um fundo de folhagem madura, frutas maduras, folhas jovens ou ambos. Recentemente, constatou-se que os uacaris possuem um alto polimorfismo no gene relacionado à visão colorida no cromossomo X, com até seis alelos diferentes descritos.
Primatas platirrinos podem formar casais monogâmicos (saguis, sauás, macacos-da-noite), apresentar um sistema poliândrico (saguis), haréns (bugios) ou grupos com vários machos e fêmeas que acasalam entre si (macacos-aranha). Em geral apresentam um forte cuidado parental aos jovens. Podem apresentar grande dimorfismo sexual, com diferenças no tamanho corpóreo entre machos e fêmeas, diferenças no comprimento dos caninos e, mais raramente, dicromatismo sexual.
Nutrição e Dentição Os primatas do novo mundo são onívoros, com uma dieta variada podendo conter frutas, nozes, insetos, flores, ovos de aves, aranhas e pequenos mamíferos.
Diferem dos primatas do Velho Mundo também em relação a dentição. Primatas do novo mundo possuem doze pré-molares ao invés de oito; tendo uma fórmula dental de 2 incisivos, 1 canino, 3 pré-molares e 3 molares ou 2 incisivos, 1 canino, 3 pré-molares e 2 ou 3 molares em cada hemi-mandíbula. É possível contrastar esta fórmula dentária com os primatas Antropóides do Velho Mundo (que inclui os gorilas, chimpanzés, bonobos, gibões, orangotangos, e a maioria dos humanos) que compartilham uma fórmula dental de 2 incisivos, 1 canino, 2 pré-molares e 3 molares. A evolução dos hábitos alimentares e dos molares é correlacionada com o aumento da massa corporal e corresponde a necessidade de alimentos mais volumosos e de diferentes tipos.
Taxonomia e classificação Taxonomia A parvordem Platyrrhini É. Geoffroy, 1812 inclui somente os táxons de primatas do Novo Mundo. Juntamente com Catarrhini, compõe Simiiformes (também chamada de Anthropoidea), uma das duas infraordens da subordem Haplorrhini, que abrange a maior parte das espécies da Primates.
Platyrrhini é composta por 21 gêneros viventes, dentro dos quais são reconhecidas em torno de 152 espécies, ou 204 espécies e subespécies, além de cerca de 25 gêneros fósseis. Esses gêneros distribuem-se em três famílias, Cebidae, Atelidae e Pitheciidae, entretanto, há propostas que consideram a divisão de Platyrrhini quatro ou cinco famílias, incluindo as famílias Aotidae (separada de Pitheciidae) e Callithrichidae (separada de Cebidae), respectivamente.
O número de gêneros viventes que compõem Platyrrhini sofreu algumas importantes alterações nas últimas décadas (Garbino 2015). Classicamente eram reconhecidos 16 gêneros de primatas platirrinos: Alouatta, Aotus, Ateles, Brachyteles, Cacajao. Callicebus, Callimico, Callithrix, Cebuella, Cebus, Chiropotes, Lagothrix, Leonthopitecus, Pithecia, Saguinus e Saimiri (Hershkovitz 1977). Atualmente são também reconhecidos os gêneros Callibella e Mico, anteriormente parte do gênero Callithrix; o gênero Leontocebus, incluído anteriormente em Saguinus;o gênero Oreonax, previamente incluso em Lagothrix; e o gênero Sapajus, que fazia parte do gênero Cebus.
A seguinte lista resume os clados viventes atualmente incluídos em Platyrrhini até o nível de gênero, segundo a classificação proposta por Rosenberger, e seu posicionamento dentro da ordem Primates:
Subordem Strepsirrhini: lêmures ,galagos e lorisídeos. Subordem Haplorrhini: társios, macacos e humanos Infraordem Tarsiiformes:társios Infraordem Simiiformes Parvordem Catarrhini: macacos do velho Mundo (incluindo o Homem) Parvordem Platyrrhini Família Atelidae Subfamília Atelinae Tribo Alouattini Gênero Alouatta bugios, barbudos Gênero Brachyteles muriquis, mono-carvoeiros Tribo Atelini Gênero Ateles macacos-aranha Gênero Lagothrix macacos-barrigudos Gênero Oreonax macaco-barrigudo de cauda amarela Família Cebidae Subfamília Aotinae Gênero Aotus macaco-da-noite Subfamília Cebinae Gênero Cebus caiararas Gênero Sapajus macacos-prego Gênero Saimiri macacos-de-cheiro Subfamília Callitrichinae Tribo Callithrichini Gênero Callithrix saguis-de-tufo, saguis-da-serra Gênero Mico saguis Gênero Leontopithecus micos-leão Gênero Callibella sagui-anão Gênero Cebuella sagui-leãozinho Tribo Callimiconini Gênero Callimico mico-de-goeldi Tribo Saguinini Gênero Saguinus sagui, soim Gênero Leontocebus sagui, soim Família Pitheciidae Subfamília Pitheciinae Gênero Pithecia parauaçus Gênero Chiropotes cuxiús Gênero Cacajao uacaris Subfamília Callicebinae Gênero Callicebus sauás e guigós
Propostas filogenéticas Dentro da filogenia geral de primatas, os macacos do Novo Mundo aparecem mais relacionados ao grupo dos Catarrhini, ou macacos do Velho Mundo, no qual estão inclusos os macacos africanos e asiáticos, por exemplo, os babuínos, mandris e colobos, e os primatas de grande porte: orangotangos, gorilas, chimpanzés e humanos. Esses dois grupos, acrescidos dos társios, compõem os chamados primatas Haplorrhini (nariz simples), e esse posicionamento é sugerido tanto por características morfológicas de tecidos moles, como a perda de um rhinarium (focinho úmido, similar aos dos cães) especializado, informações morfológicas de crânio, dentição e esqueleto, incluindo a análise de material fóssil, e diversos marcadores moleculares.
As propostas mais recentes acerca do relacionamento entre os gêneros de Platyrrhini, baseada tantos em dados morfológicos quanto moleculares, dividem o gêneros em três grandes grupos: o primeiro, que corresponde à família Cebidae, está divido em dois pequenos grupos que incluem em um os gêneros Cebus + Saimiri como grupo irmão de Aotus e no outro Callithrix + Cebuella como grupo irmão de Callimico e estes gêneros acrescidos de Leontopithecus como grupo irmão de Saguinus.
O segundo grande clado, grupo irmão de Cebidae, corresponde à família Atelidae e inclui Brachyteles + Lagothrix como grupo irmão de Ateles e estes como grupo irmão de Alouatta; e o terceiro, grupo irmão dos dois anteriores, corresponde à família Pitheciidae e reúne os gêneros Cacajao e Chiropotes como grupos-irmãos, e ambos junto a Pithecia formam o grupo irmão de Callicebus.
História evolutiva e biogeografia Segundo estimativas com base em relógios moleculares e estudos baseados em registros fósseis, a divergência entre Platyrrhini e Catarrhini provavelmente aconteceu acerca de 35-40 milhões de anos atrás, período correspondente ao Eoceno Tardio. O entendimento da divergência entre esses dois grupos bem como a época de tal acontecimento é fundamental para levantamento de dados paleogeográficos, paleoclimáticos e outros mais necessários para a proposição de uma hipótese biogeográfica robusta acerca da colonização da América do Sul pelos Platyrrhini. Vale ressaltar que a continente sul americano, após sua separação do Gondwana (Cretáceo Superior), foi uma enorme ilha continente sem nenhuma ligação terrestre com os demais continentes por pelo menos 60 milhões de anos, finalmente se unindo a América do Norte via América central no Plioceno.
O registro fóssil de primatas para a América do Sul é relativamente escasso - especialmente quando em comparação com outros mamíferos. Os gêneros Branisella e Szalatavus do Oligoceno foram descritos e classificados dentro de Ceboidea, porém trazem poucas informações sobre a origem de Platyrrhini por consistirem em grande parte de material dentário e terem seu local de origem incerto. Fósseis do Paleoceno são encontrados principalmente na Europa e na Ásia, com um bom fóssil registro de primatas do Eoceno na África. Estudos biogeográficos sugerem que além da distância considerável que isolavam a África da América do Sul, o mar de Tétis exercia um papel eficaz como uma barreira de migração entre a África e a Europa. Um estudo apresentado em 2015, e baseado em análise de fósseis da espécie extinta Perupithecus ucayalensis encontrada na Bacia do rio Amazonas, e datada de 36 milhões de anos, mostrou semelhanças excepcionais com os fósseis da espécie africana Talahpithecus parvus, encontrada no território onde hoje é a Líbia. De acordo com a pesquisa, as comparações de crânio, dentes e outras partes encontrados na espécie Perupithecus ucayalensis não apresentavam muitas semelhanças com os dos primatas sul-americanos (extintos ou não), mas com os africanos da época do período Eoceno (segunda época da era Cenozoica, entre cerca de 55 milhões de anos e 36 milhões de anos atrás); o que pode indicar alguma relação entre ambos, e sugerir de algum modo uma hipotética "jornada intercontinental" através de migração oceânica. Ainda assim, mais estudos estão sendo conduzidos, de modo que a origem dos Macacos do Novo Mundo ainda continua sendo um mistério.