Marco Licínio Crasso (115–53 a.C.; ) foi um político da gente Licínia da República Romana eleito cônsul por duas vezes, em 70 e 55 a.C., com Cneu Pompeu Magno nas duas vezes. Era filho de Públio Licínio Crasso, cônsul em 97 a.C., e teve pelo menos dois filhos, o general Públio Licínio Crasso, que morreu com ele em Carras, e o questor Marco Licínio Crasso. Nascido numa das famílias mais ricas de Roma, amealhou uma enorme fortuna durante sua vida e é considerado o mais rico romano da história de Roma e detentor de uma das maiores fortunas da história.

Começou sua carreira como um comandante militar sob o comando de Sula durante a guerra civil. Depois que Sula assumiu a ditadura, Crasso ganhou muito dinheiro em especulação imobiliária. Politicamente, ganhou muita proeminência depois de sua vitória sobre a revolta dos escravos liderado por Espártaco. Um patrono de Júlio César, Crasso se juntou a ele e Pompeu na aliança política não oficial conhecida como Primeiro Triunvirato. Juntos, os três dominaram completamente o sistema político romano, mas a aliança não se manteve estável indefinidamente por causa das ambições, egos e ciúmes entre eles. Enquanto César e Crasso permaneceram aliados pela vida toda, Crasso e Pompeu não se entendiam e este foi ficando cada vez mais enciumado com os sucessos espetaculares de César nas Guerras Gálicas. Depois da Conferência de Lucca, em 56 a.C., a situação melhorou e Crasso e Pompeu serviram novamente como cônsules no ano seguinte. Depois de seu mandato, Crasso foi nomeado governador da Síria romana, que ele utilizou como base para uma campanha militar contra o Império Parta, o inimigo de longa data de Roma no oriente. A campanha foi um fracasso total, resultando na desastrosa Batalha de Carras, na qual morreu juntamente com seu filho.

A morte de Crasso acabou de vez com a aliança de Pompeu e César. Num espaço de quatro anos, César cruzou o Rubicão e deu início à guerra civil contra Pompeu e os optimates.

Família e contexto thumb|direita|upright=1|Banquete na casa de Crasso, o homem mais rico de Roma. Marco Licínio Crasso era o segundo dos três filhos do eminente senador e vir triumphalis Públio Licínio Crasso e censor em 89 a.C.. Sua linhagem não descendia diretamente dos Crassos Dives, embora geralmente se assuma assim. Seu irmão mais velho, Públio (n. 116 a.C.), morreu logo depois da Guerra Social e Marcos se casou com sua esposa. Seu pai e seu irmão mais novo, Lúcio, se suicidaram em Roma no inverno de 87-86 a.C. para não caírem nas mãos dos marianos depois que os populares, liderados por Caio Mário e Cina.Plutarco. Crassus, 4.Cícero, Scaur. frag. em Ascônio 27G=23C.

Na época havia três ramos na casa dos Licínios Crassos () nos séculos II e I a.C. e muitos erros em identificações e linhagens surgiram, especialmente por causa da uniformidade da nomenclatura romana, de suposições modernas equivocadas e da disparidade das informações disponíveis entre as diversas gerações. Além disto, como "Dives", cognome dos Crassos Dives, significa "rico" e como este Marco Crasso era famoso por sua enorme riqueza, muitas vezes já se assumiu que ele seria membro desta linhagem. Mas nenhuma fonte antiga atribui a ele ou a seu pai o cognome "Dives", ao passo que elas citam explicitamente que sua grande fortuna foi adquirida e não herdada e também que ele foi criado em circunstâncias modestas.Plutarco, Crassus 1.

O avô homônimo de Crasso, Marco Licínio Crasso, pretor por volta de 126 a.C., recebeu o apelido jocoso grego "Agelasto" ("o severo") por seu contemporâneo Caio Lucílio, o famoso criador da sátira romanos, ao afirmar que ele teria sorrido apenas uma vez durante toda a sua vida. Seu avô, por sua vez, era filho de Públio Licínio Crasso, cônsul em 171 a.C., o irmão de Caio Licínio Crasso, cônsul em 168 a.C., que deu origem à terceira linhagem dos Licínios Crassos nesta época, cujo membro mais famoso foi Lúcio Licínio Crasso, o maior orador romano antes de Cícero e seu herói na infância. O próprio Crasso era um talentoso orador e foi um dos mais enérgicos e ativos advogados de seu tempo.

Carreira Juventude e a Primeira Guerra Civil

Depois dos expurgos marianos e da morte repentina de Caio Mário logo depois, o cônsul Lúcio Cornélio Cina (sogro de Júlio César) impôs novas proscrições sobre os senadores romanos e equestres sobreviventes que haviam apoiado Sula em sua primeira marcha sobre Roma em 88 a.C. para derrubar seus opositores.

A proscrição de Cina forçou Crasso a fugir para Hispânia. Depois da morte de Cina, em 84 a.C., Crasso seguiu para a província da África, onde os aliados de Sula estavam se juntando.Plutarco, Crassus 6 Quando Sula finalmente invadiu a Itália após o final da Segunda Guerra Mitridática, Crasso juntou-se a ele e a Metelo Pio, seu aliado mais próximo. Ele recebeu o comando da ala direita na Batalha da Porta Colina na qual os últimos marianos e os samnitas sobreviventes tentaram, pela última vez, expulsar Sula de Roma depois que ele tomou a cidade em sua segunda marcha.

Ascensão ao poder

thumb|esquerda|upright=1|Busto de Pompeu, o grande adversário de Crasso em toda a sua carreira. A preocupação seguinte de Crasso foi reconstruir a fortuna de sua família, confiscada durante as proscrições marianas. De acordo com Plutarco, Crasso amealhou a maior parte de sua fortune através de "rapina e fogo, aproveitando-se das calamidades públicos". Nas proscrições de Sula, nas quais as propriedades confiscadas de suas vítimas eram leiloadas a preços muitos baixos, Crasso foi um dos maiores compradores deste tipo de propriedade: de fato, Sula era apoiava especialmente este tipo de prática, pois queria dividir com quem estivesse disposto as consequências de seus atos. As proscrições de Sula asseguraram que os sobreviventes das perseguições marianas recuperariam suas fortunas perdidas às custas dos mais ricos aliados de Mário e Cina. Crasso ganhou parte de sua fortuna nestas proscrições, notavelmente a proscrição de um homem cujo nome não estava inicialmente na lista dos que foram proscritos, mas que foi incluído por que Crasso queria sua fortuna.(Plutarco, Crassus 6 (trad. Perrin, 1916). Segundo Plutarco, Crasso se especializava em comprar propriedades durante incêndios ou perigo de desabamento por conta dos frequentes distúrbios da época. Quando os edifícios pegavam fogo, Crasso e sua equipe treinada para apagar incêndios apareciam e Crasso se oferecia para comprar a propriedade, presumivelmente condenada, e, se possível, a dos vizinhos por preços muitíssimo baixos. Se sua oferta fosse aceita, Crasso então utilizava esta equipe, formada por cerca de 500 escravos comprados especificamente por seus conhecimentos de arquitetura e construção, para apagar o incêndio, na maior parte das vezes antes que os edifícios estivessem muito danificados; se estivessem, a equipe reconstruiria o edifício. Se a oferta não fosse aceita, então Crasso não ajudava a apagar o fogo.Plutarco, Crassus 2. Métodos similares foram utilizados por Crasso nos episódios razoavelmente comuns de desabamento de grandes edifícios conhecidos como ínsulas, notórios pela construção precária e condições pouco seguras. Crasso lucrava muito construindo sem muitos gastos novas ínsulas utilizando sua mão de obra escrava no lugar de antigas que haviam desabado ou queimado, especialmente por que havia na prática uma oportunidade de elevar os aluguéis.

Outra parte da riqueza de Crasso foi conseguida de forma mais convencional, através do tráfico de escravos, produção de suas minas de prata e especulação imobiliária. Sua fortuna foi estimada por Plínio, o Velho, em aproximadamente 200 milhões de sestércios e Plutarco afirma que a riqueza de Crasso cresceu de menos de 300 talentos para talentos, um valor computado pouco antes de sua partida para a desastrosa campanha parta.

Depois de recuperar sua fortuna, a preocupação seguinte de Crasso foi recuperar a sua relevância política. Como aliado de Sula, o homem mais rico de Roma e herdeiro de uma linhagem de cônsules e pretores, o futuro político de Crasso estava praticamente garantido. Seu problema era que, a despeito de seus sucessos militares, sua reputação estava sendo eclipsada por seu contemporâneo, Pompeu, que conseguiu de Sula um triunfo por sua vitória na África sobre um bando mal-ajambrado de dissidentes, um feito inédito por dois motivos. Primeiro por que ele sequer era um pretor, motivo pelo qual um triunfo foi negado, em 206 a.C., ao grande Cipião, o Africano, que tinha acabado de derrotar Asdrúbal, irmão de Aníbal, na Hispânia], anexando toda a região à República. Segundo, Pompeu havia derrotado concidadãos romanos e não um exército inimigo; neste caso, porém, um "quasi-precedente" já havia sido estabelecido por Lúcio Júlio César recebeu a mesma honraria por uma pequena vitória sobre aliados italianos (não cidadãos) na Guerra Social. A rivalidade de Crasso com Pompeu e sua inveja em relação aos triunfos dele iriam influenciar toda a sua carreira subsequente.

Crasso e Espártaco

thumb|direita|upright=1|Mapa da campanha de Crasso contra Espártaco na Terceira Guerra Servil. Crasso ascendia firmemente em sua carreira quando a política romana foi interrompida por dois grandes eventos: primeiro, a Terceira Guerra Mitridática, e segundo, a Terceira Guerra Servil, que foi uma revolta de dois anos de escravos romanos sob a liderança de Espártaco (73-1 a.C.).Shaw, Brent D. Spartacus and the Slave Wars. New York: Bedford/St. Martins, 2001. Pages 178–179.

Em resposta à primeira ameaça, o melhor general romano, Lúcio Licínio Lúculo, cônsul em 74 a.C., foi enviado para derrotar definitivamente Mitrídates VI, seguido logo depois por seu irmão, Marco Terêncio Varrão Lúculo, cônsul em 73 a.C. (cuja filha, Tértula, seria futuramente a esposa de Crasso, p.831). Em paralelo, Pompeu estava lutando na Hispânia contra Quinto Sertório, o último general mariano ainda em condições de luta, mas sem nenhuma vantagem notável. Pompeu só conseguiu vencê-lo quando Sertório foi assassinado por seus próprios comandantes.

O Senado inicialmente não levou a sério a revolta dos escravos e só agiu quando acreditou que a própria cidade de Roma estava ameaçada. Crasso se ofereceu para equipar, treinar e liderar as tropas às suas próprias custas, especialmente por que diversas legiões já haviam sido derrotadas e seus comandantes, mortos ou capturados. A única fonte a mencionar Crasso na função de pretor é ApianoApiano, Guerras Civis 1.121. e a data parece ser 73 ou, possivelmente, 72 a.C.. Lívio implica,Lívio, Ab Urbe Condita Epit. XCVI-XCVII. provavelmente incorretamente, que Crasso teria sido pretor em 72 a.C. contra Espártaco, sem a autorização específica de propretor. Se esta data for correta, seu consulado, 366 dias depois, em 70 a.C., seria ilegal de acordo com as leis impostas por Sula. Eutrópio chama Crasso de procônsul.Eutrópio 6.7.Penguin translator Rex Warner, Plut. Cras. 10, n. 26 citando Broughton MRR.

No fim, Crasso foi enviado pelo Senado para enfrentar Espártaco. A princípio, ele próprio teve muitos problemas para antecipar os movimentos dele e, especialmente, em inspirar seus próprios homens reforçando o moral geral das tropas depois de tantos desastres, Quando um segmento de seu exército fugiu do campo de batalha largando para trás suas armas, Crasso reviveu a antiga prática da dizimação, ou seja, a execução de um em cada dez homens da legião, escolhidos por sorteio. Plutarco relata que "muitas coisas terríveis e pavorosas de se ver" ocorreram durante as execuções, testemunhadas pelos sobreviventes.Plutarco, Crassus 10. Seja como for, segundo Apiano, o espírito das tropas melhorou sensivelmente depois, uma vez que Crasso conseguiu demonstrar que era "mais perigoso que o inimigo".Apiano, Guerras Civis I.18–19. Loeb Classics Edition, 1913.