Imame, imamo ou imã (; ; plural: lit. "guia espiritual", "condutor") é um título muçulmano que designa o sacerdote encarregado de dirigir as preces na mesquita. Historicamente foi um título dado aos professores de direito e teologia islâmicas e aos califas, bem como é usado pelos soberanos do Iêmem. Designa-se por imamato ou imamado () o cargo ou dignidade de um imã, o território sob sua alçada e/ou sua missão espiritual.
Antecedentes históricos
thumb|upright=1.05|esquerda|Iluminura do representando a Batalha de Sifim, um dos confrontos entre e Ali thumb|upright=1.05|esquerda|Dracma de thumb|upright=1.05|esquerda|Pintura a óleo de 1868/1933 de Abaz Almuçavi retratando a Batalha de Carbala
A noção de imamato já começa a surgir nos primeiros tempos do islã. Com a morte de Maomé e a nomeação de Abu Becre como "vigário do Mensageiro de Deus" (Califate Raçul Alá, Khalifat Rasul Allah), a autoridade da comunidade muçulmana continuou sob um líder único, ao mesmo tempo que favoreceu o direito preferencial ao imamato dos companheiros coraixitas de Meca do profeta e negou implicitamente qualquer direito sob a relação sanguínea com ele. Esse princípio, porém, não permaneceria inalterado e logo seria discutido com a primeira crise do Califado Ortodoxo com a revolta contra Otomão . Ao fim da guerra civil, torna-se califa e a comunidade ficou dividida sobre a crença do imamato legítimo. Defensores de Otomão como califa, os otomânidas (uthmaniyya), repudiaram a revolta e subsequente califado de Ali , ao passo que entre os otomânidas havia, além dos partidários de Moáuia, os defensores dos princípios do primeiro califado, sobretudo o direito das primeiras famílias não haxemitas que acompanharam o profeta e que viviam sobretudo em Medina.
Apesar de criticado em vida, muitos membros da comunidade não apoiaram Ali e favoreceram a ideia de que a morte de Otomão foi injusta. Desse modo, embora também não favorecessem Moáuia, aceitaram-o pelo bem da unidade. Os partidários de Ali, chamados xiitas, sustentam a justeza da revolta contra Otomão, que em sua posição perdeu o direito ao califado por seus atos injustos. Para confrontar a reivindicação de Moáuia como vingador do assassinado Otomão, os xiitas buscaram uma liderança dentro do clã de Maomé, especialmente entre os filhos de Ali, de modo a restabelecer o imamato justo; apesar de assim fazerem, não repudiam Abu Becre e Omar . A crença de que Ali foi divinamente nomeado herdeiro de Maomé e recebeu poderes sobrenaturais, comumente atribuídos pelas fontes ao sobretudo lendário , é marginal. Das fileiras do xiismo surgiram os carijitas, dissidentes que repudiam Ali a partir do momento que concordou com uma arbitragem de seu conflito com Moáuia, mas igualmente repudiam Moáuia como rebelde contra o califado inicialmente legítimo de Ali.
Com a Segunda Guerra Civil após a morte de Moáuia em 680 e o estabelecimento dos omíadas como uma dinastia, as fronteiras entre xiitas e otomânidas se acentuaram. Os apoiantes das tradições do primeiro califado, após a tentativa falha de Abedalá ibne Azobair para restaurá-los, perderam suas esperanças. Eles idealizaram o período dos primeiros três califas e embora apoiassem o governo omíada, em contraste com os apoiantes sírios dos omíadas, não consideravam esse governo como parte do califado genuíno, que para eles acabou como Otomão. Em 680, a morte de Huceine e Haçane, filhos de Ali e netos de Maomé, na Batalha de Carbala nas mãos dos omíadas, aumentou a tendência radical dos partidários de Ali. Sob Almoquetar Atacafi, os elementos radicais cindiram do ramo conservador xiita sob pretexto de que a comunidade se perdeu ao negar o direito divino de Ali à sucessão do profeta e por aceitar o califado de Abu Becre e Omar. Esperavam com isso restaurar a justiça sobre a terra através do triunfo de seu imamem Maomé ibne Hanafia, a quem atribuíram o papel messiânico de Mádi.
Em vista da radicalização xiita, o movimento dos murjitas, iniciados por , tentou aproximar os xiitas moderados e otomânidas. Os primeiros murjitas creram na superioridade de Abu Becre e Omar em relação aos últimos califas e submeteram o caso de Otomão, Ali e os demais partidários da guerra civil ao julgamento de Deus. Aceitaram o Califado Omíada como decretado por Deus, sem necessariamente justificar sua conduta, e se opuseram a qualquer violação da paz da comunidade. Os carijitas, após falharem em persuadir Ibne Azobair a apoiá-los, declararam guerra intransigente à comunidade como um todo e começaram a escolher seus próprios imames. Os desacordos em relação ao tratamento de muçulmanos não carijitas e outros assuntos dividiram cada vez mais suas fileiras.
Sunismo Histórico
A doutrina sunita do imamato foi determinada pelo interesse, comum de otomânidas e murjitas, de defender a unidade e paz interna da comunidade muçulmana sob o califado histórico contra a ameaça imposta por movimentos oposicionistas, não implicando, porém, apoio inapto do registro do califado histórico; essa doutrina faz distinção entre o primeiro califado dos califas bem guiados (raxidune), o vigariato da profecia (khilafat al-nubuwwa), e o imamato posterior, que tinha caráter de reinado mundano (mulk) e também englobou imames injustos e opressivos. Apenas os bem guiados cumpriam as condições do verdadeiro imamato e seus atos e decisões foram unidos na suna. Nas controvérsias com os partidos da oposição, a legitimidade de seu governo e a justiça de seus atos eram regularmente defendidas contra qualquer crítica. Essa distinção é melhor representada na doutrina tradicionalista sunita como foi formulada no hádice canônico e nos credos hambalista e axarita.
No início do Califado Abássida a opinião tradicionalista de Medina, Baçorá, Bagdá e Síria geralmente apoiou a visão otomânida que restringia o Califado Ortodoxo aos primeiros 3 califas e rejeitava o califado de Ali. Porém, o tradicionalismo de Cufa que firmemente endossou a inclusão de Ali entre os califas bem guiados espalhou-se rapidamente. Mais adiante, Amade ibne Hambal, que de início apoiou a doutrina otomânida, também endossou essa visão e pelo o califado dos 4 bem guiados tornou-se dogma sunita indisputado. A doutrina hambalita e axarita insistiu fortemente que os quatro califas foram classificados em excelência de acordo com seus califados, condizendo com a visão desses credos de que apenas o mais excelente (alfdal) na comunidade islâmica poderia ser o califa legítimo. O imamato do menos excelente (almafdul), para os axaritas, é o reinado mundano.
thumb|upright=1.05|esquerda|Dirrã de thumb|esquerda|upright=1.05|Império Buída ca. 970 thumb|esquerda|upright=1.05|Califado Abássida ca. 892. A essa altura a autoridade califal estava muito debilitada, e o Estado se fragmentou em vários emirados localmente governados
Na visão tradicionalista os califas que sucederam os bem guiados chegavam próximos de possuir as condições ideais do califado, como foi frequentemente afirmado ao pio , porém não havia qualquer expectativa de que o vigariato da profecia podia ser restaurado ao passar dos 30 anos que duraria segundo um hádice famoso. Ao imamato posterior havia apenas condições mínimas. O imame tinha de ser muçulmano e coraixita e o imamato podia ser obrigatório sem qualquer ato de reconhecimento pela comunidade muçulmana; Amade ibne Hambal especificamente afirmou que havia validade no imamato por usurpação (galaba). Enquanto o muçulmano não deve se envolver numa guerra civil quando não há imã, são incumbências dele a obediência absoluta e apoio ativo do imame estabelecido, seja ele justo ou opressivo, piedoso ou depravado, exceto em caso de violação da xaria. O imamato pode ser perdido apenas através da apostasia ou negligência do dever do imame de providenciar a oração comunal, como afirmado no hádice.
A doutrina hanafismo e maturidismo inicial aproximavam-se das visões tradicionalistas; Abu Hanifa, que pertencia aos murjitas, não expressou preferência entre Otomão e Ali, mas classificou-os abaixo de Abu Becre e Omar. Essa visão foi tida como legítima em alguns credos hanafitas, mas a maioria adotou uma hierarquia segundo a ordem de sucessão. Segundo uma fonte antiga, Abu Hanifa também estipulou o imamato do "mais excelente", o que estava de acordo com o endosso do hádice restringindo o califado por 30 anos em alguns credos hanifitas. Em contraste com os hambalitas, os hanafitas raramente citam o imamato após os califas bem guiados e a obrigação de obedecer ao comando estava implícita na proibição de erguer sua espada contra outros muçulmanos.
A doutrina desenvolvida pelo xafeísmo e a escola calâm do se associaram e influenciaram consideravelmente o axarismo depois de (m. 1013). A doutrina xafeíta não restringiu o imamato legítimo ao mais excelente, mas considerou a possibilidade de nomeação do menos excelente, sobretudo se escolhê-lo evitaria a discórdia. Axafii e outros xafeítas proeminentes relatadamente classificaram Ali como mais excelente que Otomão (embora abaixo de Abu Becre e Omar), situando-o como o imamato "menos excelente". Tal postura menos rígida permitiu aos xafeítas lidar com o pós-Califado Ortodoxo como uma espécie de imamato que deveria ser julgado por padrões derivados do califado original. Um sistema legal compreensivo, fortemente influenciado pela teoria mutazilita, foi elaborado para definir as qualificações, investidura e funções do imã. Esse desenvolvimento chegou a seu zênite com , cuja obra al-Ahkam al-Sultaniyya tornou-se amplamente aceita como exposição autoritativa da doutrina sunita sobre o imamato.
A obra, escrita no tempo do ressurgimento do Califado Abássida no fim do período buída, almejava fortalecer as bases do atual califado no direito divino ao mesmo tempo que discutiu pela primeira vez o vizirado e o emirado que usurpou boa parte do califado, legitimando seu desenvolvimento desde o califa mantivesse total autoridade sobre seus ofícios. Sua obra foi imitada imediatamente pelo hambalita (m. 1066), que aceitou a exposição de Alboacém, alterando-a apenas nos pontos que divergiam da tradição hambalita. Porém, contrariou Alboacém ao reafirmar a validade do imamato por usurpação e negou a perda do imamato por imoralidade, injustiça, ou heterodoxia. Entre os maturiditas hanafitas, (m. 1099) discutiu muitas das doutrinas xafeítas, modificando-as ao ponto de vista da tradição hanafita. A ascensão da avaliação sunita do pós-Califado Ortodoxo nesse momento é reflexo do esforço do hambalita Abu Iala e o axarita (m. 1085-1086) para provar a legitimidade do imamato de Moáuia além daquele dos quatro bem guiados.
thumb|Império Seljúcida ca. 1092 thumb|Sultanato Mameluco do Cairo ca. 1317