João (Oxford, – Newark, ), também conhecido como João Sem-Terra, foi o Rei da Inglaterra de 1199 até sua morte. João perdeu o Ducado da Normandia e muitas de suas outras possessões para o rei em 1204, resultando na queda de quase todo Império Angevino e contribuindo para o crescimento da dinastia Capetiana no . A Primeira Guerra dos Barões no final de seu reinado levou à selagem da Magna Carta, um documento que algumas vezes é considerado como um dos primeiros passos rumo à Constituição do Reino Unido.
João era o filho mais novo do rei Henrique II e da rainha Leonor da Aquitânia, assim inicialmente não tinha esperanças de herdar terras significativas. Ele tornou-se o filho favorito de seu pai após uma frustrada rebelião de seus irmãos mais velhos entre 1173 e 1174. João foi nomeado Lorde da Irlanda em 1177 e recebeu terras na Inglaterra e no continente. Seus irmãos mais velhos, Guilherme, Henrique e Godofredo, morreram jovens; quando tornou-se rei em 1189, João era um herdeiro em potencial. Tentou sem sucesso uma rebelião contra os administradores de Ricardo enquanto este participava da Terceira Cruzada. Mesmo assim, foi proclamado rei em 1199 depois da morte de Ricardo, chegando a um acordo com Filipe II em 1200 para reconhecer sua posse das terras angevinas.
Quando a guerra voltou a estourar com a França em 1202, João conseguiu vitórias iniciais, porém a falta de recursos militares e seu tratamento de nobres normandos, bretões e angevinos resultaram na queda de seu império no norte da França em 1204. Ele passou grande parte da década seguinte tentando reconquistar essas terras, levantando enormes receitas, reformando as forças armadas e reconstruindo alianças continentais. As reformas judiciais de João tiveram um impacto duradouro na Inglaterra, também mostrando-se uma fonte adicional de receitas. O rei foi excomungado em 1209 após uma discussão com o papa Inocêncio III, porém a questão foi resolvida em 1213. João tentou derrotar Filipe novamente em 1214, porém falhou: seu exército foi dizimado na Batalha de Bouvines. Ao voltar para a Inglaterra enfrentou uma rebelião de muitos de seus barões, que estavam insatisfeitos com suas políticas fiscais e o tratamento recebido. Apesar de João e os barões terem concordado com a Magna Carta em 1215, nenhum dos lados cumpriu as exigências do acordo. Uma guerra civil começou pouco depois, com os barões recebendo ajuda de Luís VIII da França. Logo o confronto chegou em um impasse. João morreu de disenteria em 1216 enquanto fazia campanha no leste da Inglaterra; os apoiadores de seu filho conseguiram derrotar Luís e os barões rebeldes no ano seguinte.
Crônicos contemporâneos criticaram bastante João como rei e desde então seu reinado foi assunto de grande debate e revisões históricas do em diante. O historiador Jim Bradbury resumiu a opinião histórica contemporânea das qualidades positivas de João, salientando que ele é normalmente considerado um "administrador dedicado, um homem e general capaz". Mesmo assim, historiadores modernos concordam que ele também tinha muitas falhas, incluindo aquilo que Ralph Turner descreve como "traços de personalidade de mau gosto, até mesmo perigosos", como mesquinhez, maldade e crueldade. Essas qualidades negativas mostraram-se um abundante material para escritores na era vitoriana, e João permanece até hoje um personagem recorrente na cultura popular ocidental, principalmente como vilão em filmes e histórias mostrando as lendas de Robin Hood.
Tão extensa foi sua descendência que é possível traçar a ancestralidade de todos os presidentes dos Estados Unidos até si, com a exceção de Martin Van Buren. Entre seus outros descendentes famosos estão a socialite americana Paris Hilton e o ator britânico Guy Ritchie.
Início de vida Infância
thumb|317x317px|O Império Angevino (laranja) por volta do final do João nasceu em no Palácio de Beaumont, o filho mais novo do rei Henrique II da Inglaterra e sua esposa Leonor da Aquitânia. Seu pai tinha herdado a Inglaterra, Normandia e Anjou ao longo da costa do oceano Atlântico, expandindo seu império ao conquistar a Bretanha. Henrique tinha se casado com a poderosa Leonor, que governava o Aquitânia e tinha reivindicações a Tolosa e Auvérnia no sul da França, além de ter sido a ex-esposa do rei . O resultado foi a consolidação do Império Angevino, nomeado por causa do título paterno de Henrique de Conde de Anjou, especificamente por sua sede em Angers. Entretanto, esse império era inerentemente frágil: apesar de todas essas terras terem jurado lealdade ao rei inglês, cada uma tinha sua própria história, tradições e estruturas de governo. A extensão do poder de Henrique sobre as províncias diminuía consideravelmente a medida que se avançava para o sul, mal parecendo-se com o conceito moderno de império. Algumas conexões tradicionais entre as partes do império, como Inglaterra e Normandia, estavam lentamente se dissolvendo.
Não se sabia o que aconteceria após a morte de Henrique. Apesar do costume da primogenitura, em que o filho mais velho herda todas as posses do pai, estava espalhando-se lentamente pela Europa na época, ele era menos popular entre os reis normandos da Inglaterra. Muitos acreditavam que Henrique dividiria seu império, dando a cada filho uma parte considerável e esperando que eles continuassem a trabalhar juntos como aliados depois de sua morte. Complicando as coisas ainda mais estava o fato que as terras angevinas eram mantidas por Henrique apenas como vassalo do Rei da França, que na época vinham da rival Casa de Capeto. O rei inglês muitas vezes aliou-se com o Sacro Império Romano-Germânico contra a França, deixando a relação feudal ainda mais desafiadora.
João foi colocado aos cuidados de uma ama de leite pouco depois de seu nascimento, uma prática comum entre as famílias nobres medievais. Leonor partiu para Poitiers e enviou João e sua irmã Joana para a Abadia de Fontevraud em Anjou. Isto pode ter sido feito com o objetivo de direcionar seu filho mais novo, que não tinha perspectivas de herdar terras, para uma possível carreira eclesiástica. Leonor passou os anos seguintes conspirando contra o marido e nenhum dos pais desempenhou um papel ativo nos primeiros anos de vida de João. Um magister provavelmente lhe foi designado enquanto estava com Fontevrault, que era um professor encarregado de sua educação inicial e com a administração de seus criados e criadagem imediata. João posteriormente teve como tutor Ranulfo de Glanvill, um proeminente administrador inglês. Ele passou algum tempo como membro da criadagem de seu irmão mais velho Henrique, o Jovem, onde provavelmente teve aulas de caça e assuntos militares.
João cresceu até ter 1,65 metros de altura, relativamente baixo, com um "corpo poderoso e peito cheio" e cabelos ruivos escuros; para seus contemporâneos, ele parecia alguém vindo de Poitiers. João gostava de ler e, incomumente para o período, construiu uma biblioteca viajante. Gostava de jogos de azar, particularmente gamão, sendo um entusiasta da caça, até mesmo para padrões medievais. Ele gostava de música, mas não de canções. João tornaria-se um "conhecedor de joias", formando uma grande coleção, também ficando famoso por suas roupas opulentas e, segundo alguns crônicos franceses, por gostar de vinhos ruins. Ficou conhecido enquanto crescia por às vezes ser "genial, perspicaz, generoso e hospitaleiro"; por outro lado, podia ser invejoso, sensível e propenso a ataques de raiva, "mordendo e roendo os dedos" em ira.
Primeiros anos thumb|esquerda|230px|Iluminura de Henrique e Leonor, pais de João, em sua corte Henrique tentou resolver a questão da sucessão durante os primeiros anos de vida de João. Henrique, o Jovem, tinha sido coroado co-rei da Inglaterra em 1170, porém não recebera nenhuma espécie de poder vinda de seu pai; também lhe foi prometido a Normandia e Anjou como parte de sua herança futura. Ricardo, outro filho, seria nomeado Conde de Poitiers com controle também sobre a Aquitânia, enquanto Godofredo tornaria-se o Duque da Bretanha. Na época parecia muito improvável que João recebesse terras substanciais, com ele dessa forma sendo apelidado jocosamente de "Sem-Terra" por seu pai.
O rei queria assegurar as fronteiras da Aquitânia e decidiu prometer seu filho mais novo a Alice, filha e herdeira de Humberto III, Conde de Saboia. Como parte do acordo, foi prometido a João as terras de Saboia, Piemonte e Maurienne, além de outras possessões de Humberto. Henrique por sua vez transferiu os castelos de Chinon, Loudun e Mirebeau para João; como ele tinha apenas cinco anos de idade, seu pai continuou a controlá-los por motivos práticos. Henrique, o Jovem, não ficou satisfeito: apesar de ainda não ter recebido o controle de castelos na Inglaterra, esses também eram parte de sua futura herança e foram entregues sem que ele fosse consultado. Alice atravessou os Alpes e juntou-se à corte inglesa, porém morreu antes de poder se casar, deixando João novamente sem herança.
Os irmãos mais velhos de João lançaram uma revolta contra o pai em 1173 com o apoio de sua mãe. Henrique, o Jovem, estava irritado com sua posição subordinada ao rei e cada vez mais preocupado que seu irmão mais novo recebesse mais terras e castelos às suas custas, assim viajando para Paris e aliando-se com Luís VII. Leonor estava irritada pela contínua interferência do marido na Aquitânia e encorajou Godofredo e Ricardo a juntarem-se ao irmão. O rei Henrique saiu-se vitorioso sobre a coalizão de seus filhos, mas foi generoso com eles no acordo de paz resultante. Henrique, o Jovem, recebeu permissão de viajar livremente pela Europa com sua própria criadagem e cavaleiros, Ricardo recebeu a Aquitânia de volta e Godofredo pode retornar para a Bretanha. Apenas Leonor foi presa por seu papel na revolta.
João passou o conflito viajando junto com seu pai, recebendo vastas posses e terras pelo Império Angevino como parte do acordo de paz; a partir dai, a maioria dos observadores passaram a considerar João como o filho favorito de Henrique, porém ainda era o mais distante em termos da sucessão real. O rei começou a procurar mais terras para João, a maioria aos custos dos nobres do reino. Ele apropriou em 1175 as propriedades do falecido Reginaldo de Dunstanville, 1º Conde da Cornualha, e as deu ao filho. Henrique deserdou as irmãs de Isabel de Gloucester no ano seguinte, indo contra o costume legal, prometendo João à agora extremamente rica Isabel. No Conselho de Oxford de 1177, o rei dispensou Guilherme FitzAldelm como Lorde da Irlanda e o substituiu por João, que então tinha apenas dez anos.
thumb|330px|Representação do de Henrique e seus filhos. Da esquerda para direita: Guilherme, Henrique, Ricardo, Matilde, Godofredo, Leonor, Joana e João Henrique, o Jovem, travou uma curta guerra contra Ricardo em 1183 sobre a situação da Inglaterra, Normandia e Aquitânia. O rei apoiou Ricardo, com Henrique, o Jovem, morrendo de disenteria ao final da campanha. Henrique rearranjou seus planos de sucessão com a morte de seu primogênito: Ricardo seria o rei da Inglaterra, porém sem poder político até a morte do pai; Godofredo manteria a Bretanha; enquanto João tornaria-se o novo Duque da Aquitânia no lugar de Ricardo. Este recuou a ceder o título, com Henrique ficando furioso e ordenando que João e Godofredo marchassem para o sul e retomassem a Aquitânia pela força. Os dois atacaram a capital, com Ricardo respondendo ao atacar a Bretanha. A guerra terminou em um impasse e em uma reconciliação familiar tensa na Inglaterra no final de 1184.