O Juiz de Paz da Roça é uma peça teatral de Martins Pena. Trata-se de uma comédia em um ato de 23 cenas, primeira obra de Martins Pena a ser representada, em 4 de outubro de 1838, no Teatro de São Pedro, pela companhia teatral de João Caetano.BBM INDICA: O juiz de paz da roça, de Martins Pena. Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (USP), São Paulo. Disponível em: https://www.bbm.usp.br/pt-br/Selecao-BBM-digital/-bbm-indica-o-juiz-de-paz-da-ro%C3%A7a-de-martins-pena-/. Acesso em: 26 jul. 2026.ALMEIDA, Rafael Loureiro de. Retoques sobre O juiz de paz da roça, de Martins Pena. Urdimento – Revista de Estudos em Artes Cênicas, Florianópolis, v. 2, n. 23, p. 160-172, 2014. DOI: 10.5965/1414573102232014160.
Há divergência quanto à data de composição do texto, mas a tradição biográfica atribui a escrita a 1833, cinco anos antes da montagem. A peça também foi encenada sem menção ao nome do autor, talvez por Martins Pena temer que a autoria prejudicasse sua carreira diplomática recém-iniciada no Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Enredo A peça passa-se na roça e aborda com humor o jeito particular de ser da gente roceira do Brasil do século XIX, focando as cenas em torno de uma família da roça e do cotidiano de um juiz de paz neste ambiente e explorando uma série de situações em que transbordam a simplicidade e inocência daquelas pessoas.
Na comédia, o juiz de paz é um pequeno corrupto que usa a autoridade e inteligência para lidar (e suportar) com a absurda inocência dos roceiros, que lhe trazem os mais cômicos casos. O escrivão aparece como servo mais próximo do juiz e viabiliza suas ordens; no entanto, não é intencionalmente corrupto e chega a surpreender-se com algumas decisões de seu superior. A família de Manoel João (incluindo o negro Agostinho) mais José da Fonseca formam o núcleo mais importante da peça. Os outros personagens são roceiros que servem para apresentar ao juiz de paz as esdrúxulas situações que ele deve resolver...MARTINS PENA, Luís Carlos. O juiz de paz da roça. Rio de Janeiro: Ministério da Cultura, Fundação Biblioteca Nacional, Departamento Nacional do Livro. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000103.pdf. Acesso em: 26 jul. 2026.
Personagens
Os personagens da peça, como os apresenta Martins Pena, são: Juiz de paz Escrivão do juiz (de paz) Manuel João, lavrador (guarda nacional). Maria Rosa, sua mulher Aninha, sua filha José (da Fonseca), amante de Aninha.
Lavradores: Inácio José José da Silva Francisco Antônio Manuel André Sampaio Tomás Josefa (Joaquina) Gregório negros
Fragmentos Os seguintes fragmentos ilustram passagens da comédia e a natureza de alguns personagens.
Cena IV Entra Manuel João com uma enxada no ombro, vestido de calças de ganga (tecido grosseiro de algodão) azul, com uma das pernas arregaçada, japona de baeta (tecido felpudo de lã) azul e descalço. Acompanha-o um negro com um cesto na cabeça e uma enxada no ombro, vestido de camisa e calça de algodão.
Aninha - Abença, meu pai.
Manuel João - Adeus, rapariga. Aonde está tua mãe?
Aninha - Está lá dentro preparando a jacuba (bebida preparada com agua, farinha e açúcar).
Manuel João - Vai dizer que traga, pois estou com muito calor. (Aninha sai. M. João, para o negro:) Olá, Agostinho, leva estas enxadas lá para dentro e vai botar este café no sol. (O preto sai. Manuel João senta-se.) Estou que não posso comigo; tenho trabalhado como um burro!
Cena IX Sala em casa do Juiz de Paz. Mesa no meio com papéis; cadeiras. Entra o Juiz de Paz vestido de calça branca, rodaque (casaco) de riscado, chinelas verdes e sem gravata.
Juiz - Vamo-nos ficando parando para dar audiência. (Arranja os papéis.) O escrivão já tarda; sem dúvida está na venda do Manuel do Coqueiro... O último recruta que se fez já vai-me fazendo peso.
Nada, não gosto de presos em casa. Podem fugir, e depois dizem que o juiz recebeu algum presente. (Batem à porta.) Quem é? Pode entrar. (Entra um negro com um cacho de bananas e uma carta, que entrega ao Juiz. Juiz, lendo a carta:) "Ilmo. Sr. - Muito me alegro de dizer a V. Sa. que a minha ao fazer desta é boa, e que a mesma desejo para V. Sa. pelos circunlóquios com que lhe venero." (Deixando de ler:) Circunlóquios...... Que nome em breve! O que quererá ele dizer? Continuemos. (Lendo:) Tomo a liberdade de mandar a V. Sa. um cacho de bananas-maçãs para V. Sa. comer com a sua boca e dar também a comer à Sra. Juíza e aos Srs. Juizinhos. V. Sa. há de reparar na insignificância do presente; porém, Ilmo. Sr., as reformas da Constituição permitem a cada um fazer o que quiser, e mesmo fazer presentes; ora, mandando assim as ditas reformas, V. Sa. fará o favor de aceitar as ditas bananas, que diz minha Teresa Ova serem muito boas. No mais, receba as ordens de quem é seu venerador e tem a honra de ser - Manuel André de Sapiruruca." Bom, tenho bananas para a sobremesa. Ó pai, leva estas bananas para dentro e entrega à senhora. Toma lá um vintém para teu tabaco. (Sai o negro.) O certo é que é bem bom ser Juiz de Paz cá pela roça. De vez em quando temos nossos presentes de galinhas, bananas, ovos, etc., etc. (Batem à porta.) Quem és?
Escrivão, dentro - Sou eu.
Juiz - Ah, é o escrivão. Pode entrar.
Análise A peça é considerada a primeira comédia de costumes do teatro brasileiro e ponto de partida do próprio teatro nacional em sentido moderno, tendo estreado no mesmo ano em que se encenou António José, ou O Poeta e a Inquisição, de Gonçalves de Magalhães, obra apontada como marco fundador da tragédia de tema nacional.PIERSON, Colin M. Martins Pena: A View of Character Types. Latin American Theatre Review, Lawrence, KS: University of Kansas, v. 11, n. 2, p. 41-, 1978. Disponível em: https://journals.ku.edu/latr/article/download/316/291. Acesso em: 26 jul. 2026.
A sátira da peça incide sobre a fragilidade das instituições recém-criadas do Brasil Imperial, em especial o cargo de juiz de paz, instituído pela Constituição de 1824 como figura de justiça leiga próxima da população.JUIZ de paz e o Brasil atual: sátira de Martins Pena e o poder humano. Migalhas, 17 dez. 2025. Disponível em: https://www.migalhas.com.br/depeso/444299/juiz-de-paz-e-o-brasil-atual-satira-de-martins-pena-e-o-poder-humano. Acesso em: 26 jul. 2026. Um artigo de Érica Maia Campelo Arruda analisa a peça como registro da tensão entre a figura do juiz leigo da experiência regencial e a posterior consolidação do juiz de direito como garantidor de direitos fundamentais na tradição constitucional brasileira.ARRUDA, Érica Maia Campelo. "O Juiz de paz da roça" de Martins Pena: uma reflexão sobre o juiz de direito - de elite intelectual nacional a garantidor dos direitos fundamentais constitucionais no Brasil. Anais do CIDIL. Disponível em: https://periodicos.rdl.org.br/anacidil/article/view/258. Acesso em: 26 jul. 2026.
Rafael Loureiro de Almeida identifica intertextualidade entre a peça e uma quadrinha satírica sobre o "juiz de paz da roça" já em circulação em periódicos do período, como o Correio de Mentiras, sugerindo que a expressão e o tipo social já eram objeto de crítica não literária antes da dramatização de Martins Pena.
A crítica aponta a ambiguidade da personagem do juiz como recurso central da peça: a mesma figura que ameaça arbitrariamente os roceiros e declara derrogar a Constituição é também quem conduz a festa final, pedindo a viola e dançando com os demais, mecanismo que dilui a crítica social no riso, sem transformar o juiz em vilão inequívoco nem os roceiros em vítimas.
Referências
Ligações externas
Juiz Paz Roça, O Categoria:Arte no Brasil do século XIX Categoria:Peças de teatro da década de 1830