é deter todo o saber, saber tudo que seja cognoscível e incognoscível, incluindo possibilidades, pensamentos, sentimentos, vida, passado, presente, futuro, e todo universo, etc. Em relação ao espaço-tempo há a noção de passado, presente e futuro, e o ser onisciente é capaz de saber tudo o que passou, desde a origem do universo até o que se passará, nos confins do mesmo.

A onisciência é um conceito vastamente aplicado nas artes, como na literatura e em produções cinematográficas. A saber: na narração, o narrador onisciente (3ª pessoa) - conhece tudo a respeito das personagens, suas ações e sentimentos, mas não faz parte da história.

Na maioria das religiões monoteístas esta habilidade extraordinária e não experimentável é tipicamente atribuída a um único Deus supremo, onde o conceito da onisciência se mantêm tradicionalmente como uma verdade absoluta.

História

Antiguidade oriental Desde as religiões antigas entre diversos povos, houve exaltação de uma sabedoria total e maior entre divindades em relação aos mortais. Exemplos iniciais mais conhecidos são encontrados nos egípcios e mesopotâmicos; sabe-se que povos do Oriente Próximo antecederam e influenciaram posteriormente os gregos. As divindades detinham uma sabedoria ativa, com funções de criação, providência para a população e decretar ordens, e essas primeiras noções incluíram um tipo de onisciência visual, geralmente atribuída a deuses que estariam acima no céu, como o papel do Sol em observar todo o seu alcance.Griffin, J. (1978). The Divine Audience and the Religion of the Iliad. In Jong, Irene J. F. de (1999). Homer: The Homeric world (em inglês). [S.l.]: Taylor & Francis Outra característica foi também a de presença ouvinte - a oniaudiência possibilitando ao deus conhecer e atender todas as requisições. A onisciência é vista em hinos aos deuses do Egito Antigo, por exemplo ao deus Ámon no período da dinastia raméssida (século XII a.C.):"Aquele que proclama o futuro em milhões de anos, a eternidade está diante de seu semblante, como o ontem quando passou"

"Ele olha para os seres humanos, e não há quem não o conheça; Ele ouve milhões entre eles. Tu és quem ouve com teus ouvidos, olhas para os milhões nas terras. Com muitos olhos e orelhas grandes, Ele lidera milhões com sua iluminação. O senhor da vida, que dá como deseja, o globo está sob seus cuidados." Na Antiga Mesopotâmia:“Senhor de me-s (ordenações/decretos) hábeis, aquele que estabelece entendimento, cuja mente é incompreensível, sabendo tudo! Enki de vasto conhecimento, líder dos deuses Anunna. O sábio, aquele que lança encantamentos, que dá palavras, que olha para as decisões. Que encontra conselhos, desde o anoitecer até o amanhecer quem fornece instruções. Enki, o senhor de ordens justas, eu vos louvo."–Hino a Enki pelo rei Ur-Ninurta (Ur-Ninurta B) (c. 1850 a.C.)"Aššur, magnífico senhor, que tudo sabe, honrado, superando o mais alto posto dos deuses, quem determina os destinos;"–Hino do rei Assurbanípal dedicado a Ashur (c. 650 a.C.).

Grécia Antiga Xenófanes (século V a.C.) é considerado como um dos primeiros entre os gregos que afirmou traços de onisciência a uma entidade completa:Heráclito também, em seus fragmentos chamando a divindade de "o Único Sábio", dentre outros nomes. Um exemplo considerado de onisciência é o fragmento 41: "Pois o Sábio (to Sophon) que é um conhece o plano segundo o qual tudo está sendo dirigido através de tudo."Anaxágoras expressa na sua doutrina do Nous (Mente):"Nous é a melhor e mais pura de todas as coisas, possui todo o conhecimento (lógon) sobre tudo e tem o maior poder. E a Mente sabia tudo o que é misturado, separado e discernível. Nous controla todas as coisas que tem vida, tanto as maiores quanto as menores. Nous controlou a revolução do todo, de tal forma que revolveu no princípio."–fragmento 12Sócrates reconhecia que uma divindade maior possuía conhecimento completo, o que é visto na narrativa de seu discípulo Xenofonte, afirmando em Memoráveis:"Pois não penses que o teu olho pode viajar por muitos outros pontos e, no entanto, o olho de Deus não pode ver o mundo inteiro de uma só vez; que tua alma possa refletir sobre as coisas no Egito e na Sicília, e o pensamento de Deus não é suficiente para prestar atenção ao mundo inteiro ao mesmo tempo... Então saberás que essa é a grandeza e a natureza da divindade, que Ele vê todas as coisas e ouve todas as coisas da mesma forma, e está presente em todos os lugares e atento a todas as coisas."Platão defendia que a sabedoria divina é a maior, que detém o conhecimento verdadeiro conforme a teoria das ideias, sugerindo a onisciência da Divindade/divindades em trechos de seu Apologia, Fedro, Fédon, O Banquete, A República, dentre outros. No diálogo Parmênides, o conhecimento perfeito (akribestaten epistemen) é afirmado como uma exclusividade de Deus: "E se algo compartilha do conhecimento absoluto, você diria que não há ninguém mais do que Deus para possuir esse conhecimento mais preciso? ... Então será possível Deus conhecer as coisas humanas, se ele tiver conhecimento absoluto?", ao que Sócrates responde: "Por que não?". Em Leis, o Ateniense dialoga: "vocês dois afirmam que os deuses sabem, ouvem e veem todas as coisas, e que nada do que é apreendido pelos sentidos ou pelas ciências pode escapar à sua atenção; e que são sumamente sábios (sophotaton)". No Timeu: "mas os princípios ainda mais altos do que esses são conhecidos apenas por Deus e pelo homem que é caro a Deus."

Aristóteles, na Metafísica 12:9, elabora seu conceito do pensamento de Deus como Motor Imóvel que conhece a si por completo, estando em contemplação de si próprio:"A natureza do pensamento divino envolve certos problemas; pois, embora o pensamento seja considerado a coisa mais divina observada por nós, a questão de como ele deve estar situado para ter esse caráter envolve dificuldades.... Evidentemente, então, Ele pensa naquilo que é mais divino e precioso, e não muda; pois mudança seria mudar para pior, e isso já seria um movimento.... Portanto, deve ser de si mesmo que o pensamento divino pensa, já que é a mais excelente das coisas, e seu pensamento é um pensamento sobre o pensamento."Isso gerou toda uma discussão na teologia posterior, alguns intérpretes considerando que essa afirmação não permitiria que Deus tivesse conhecimento do mundo e de todas as coisas contingentes que ocorrem, já que não pode se mover para olhar e saber as coisas. Outros argumentaram que a onisciência divina pode conhecer o mundo, com base na Metafísica 1:2: "devemos perguntar de que tipo são as causas e os princípios, cujo conhecimento é Sabedoria... conhecer todas as coisas deve pertencer a quem tem conhecimento universal no mais alto grau... Pensa-se que Deus esteja entre as causas de todas as coisas e seja um primeiro princípio, e que tal ciência somente Deus possa ter, ou Deus acima de todos os outros.", ou que a passagem da Metafísica 12:4 afirmaria identidade entre a causa motora e forma, permitindo que o Princípio conheça a todas as coisas existentes pois suas formas coincidem com Ele; mas o pensamento aristotélico parece negar que o primeiro princípio, como causa remota, coincida com a forma de seus efeitos.Salis, Rita. (2016). On the Omniscience of Aristotle’s Unmoved Mover: A Note on Metaphysics Λ 4, 1070 b 34-35. In Boudouris, Konstantine; Roth, Adam (eds.). (2018). The World Congress of Philosophy 2016 Proceedings. The Philosophy of Aristotle.

Hinduísmo Nos Vedas, não aparece ainda, mas a noção é recorrente em seus louvores catenoteístas: Agni é chamado de Jatávedas, que significa "aquele que conhece todos os seres criados"; Varuna é suplicado como "de acordo com sua sabedoria Varuna conhece a tudo", e Prajapati: "Tu apenas compreendes a todas estas coisas criadas, e ninguém além de Ti". Já nas Upanixadas posteriores é que aparece a palavra "onisciência" (em sânscrito, sarvajña; sarva ="tudo"; jña = raiz verbal de "conhecer"), que no pensamento indiano pode se referir tanto ao conhecimento espiritual pessoal de atman quanto à sapiência absoluta atribuída a deuses como Vixnu.Singh, Ramjee. (1979). The Concept of Omniscience in Ancient Hindu Thought. Oriental Publishers & Distributors.

Zoroastrismo No zoroastrismo, é conferido a Aúra-Masda o título supremo de Senhor da Sabedoria, com seu atributo de onisciência presente também nas emanações de Vahishta Mana e Vohu Mana. Nos Gatas, encontram-se diversas exaltações à sua sabedoria:"Mazda, que sabe todas as coisas, estabeleceu a melhor vida em harmonia com a Verdade"–Iasna 45Ahura Mazda é posteriormente chamado de Ormasde na 'Criação Original pálavi:"As criaturas vivem graças à misericórdia de Ormasde e, graças à generosidade de Ormasde, alcançam a Melhor Existência e, graças à gloriosidade e onisciência de Ormasde, serão libertadas do Adversário e chegarão à presença de Ormasde."–Bundahishn 26:9 Um fragmento de Demócrito traz seu relato sobre os sacerdotes persas (magos): “Sob os raios do sol ... os sábios <chamados> magoi, levantando as mãos ao que nós, os gregos, agora chamamos de 'ar', dizem: 'Zeus prediz tudo, ele tudo sabe, dá e toma <tudo>, e ele é o rei de todos <seres>'."

Budismo Desde o início do budismo, foi discutido se Sidarta Gautama, o Buda histórico, possuía o conhecimento de todas as coisas - a onisciência propriamente dita; ou se ela era atingível no estado de budeidade. Mas os primeiros sutras do Cânone Páli e a interpretação da linhagem Teravada indicam que os termos indicados como "onisciência" seriam traduções não equivalentes a esse significado e as alegações eram na verdade referidas ao conhecimento puro e verdadeiro que Buda tinha da realidade das coisas, e não que ele sabia todas as coisas.

A partir das linhagens Maaiana do budismo na Índia, a noção de Buda se expande a dimensões cósmicas e soteriológicas, em conceitos como Buda Primordial, Natureza de Buda e Tathagata; assim também, o termo sarvajña da tradição indiana é ampliado ao de uma onisciência divina absoluta. Começam nas escrituras do Prajnaparamita afirmações como: "Todo-conhecimento é imensurável e ilimitado", "A sabedoria perfeita é a fonte de todo-conhecimento dos Budas", "É porque o Senhor treinou-se exatamente nessa perfeição da sabedoria que o Tathagata adquiriu e conheceu a plena iluminação ou todo-conhecimento", "Quando se treina nesses estágios, treina-se na Budeidade, ou no estado de todo-conhecimento".

Após as excursões de Dharmakirti (século VII) no assunto sobre o que constitui uma cognição válida, a discussão quanto à possibilidade de um indivíduo totalmente onisciente é feita por Śāntarakṣita (século VIII) e seu aluno comentarista Kamalaśīla, que investigaram minuciosamente o assunto no Tattvasamgraha e seu comentário Panjika. Os argumentos no texto podem ser amplamente agrupados em quatro seções:McClintock, Sara L. (2010). Omniscience and the Rhetoric of Reason. Wisdom Publications.

A refutação de que as cognições, seja percebidas, inferidas ou não, possam ser usadas para refutar a onisciência. Uma demonstração da possibilidade da onisciência, através da apreensão da natureza universal sem existência própria (anatta) de todos os conhecíveis, em se examinando o que significa ser ignorante e a natureza da mente e da consciência. Uma demonstração da onisciência total, onde todas as características individuais (svalaksana) estão disponíveis para o ser onisciente. A demonstração específica da onisciência não exclusiva do Buda Shakyamuni.