A Igreja de Nossa Senhora da Luz de Carnide, também designada por Santuário de Nossa Senhora da Luz, Convento de Nossa Senhora da Luz ou Igreja Paroquial de Carnide, é um importante templo católico situado na freguesia de Carnide, em Lisboa, Portugal.Ficha na base de dados SIPA Sendo sede da Paróquia de Carnide desde 1918.
Na Igreja de Carnide, foram classificados como monumento nacional o túmulo da infanta D. Maria, em 1910, e a capela-mor, em 1923.
História
Origens As mais antigas alusões a este local remontam ao século XIII, altura em que já se reconheciam propriedades medicinais nas águas da Fonte da Machada. Até ao século XIV, erguia-se nas imediações um modesto templo dedicado ao Espírito Santo, culto que viria a ser suplantado pela veneração mariana.
A tradição oral narra que um habitante local, de nome Pêro Martins, encontrava-se aprisionado no Norte de África, local onde lutara em cruzadas, quando testemunhou manifestações luminosas da Virgem. Ter-lhe-á sido prometido o fim do cativeiro, exigindo-se em troca a edificação de um santuário em honra à Nossa Senhora da Luz sobre esta fonte de Carnide, local onde o ex-cativo viria a descobrir uma efígie sagrada.
Após recuperar a liberdade em 1463, Pero Martins e a sua consorte, Inês Anes, alienaram todos os seus haveres na região Sul do país para financiar a construção da estrutura. A primeira pedra foi lançada com a autorização do prelado lisboeta D. Afonso Nogueira, e com ajuda dos vizinhos. A entronização da escultura ocorreu a 8 de Setembro de 1464, num acto solene que contou com enorme afluência popular e com a provável presença do monarca D. Afonso V. Foi igualmente instituída uma irmandade dedicada à conservação do templo, a qual contou perpetuamente com a adesão de membros da família real. Pouco tempo volvido, em 1467, D. Jorge da Costa integrou o complexo na Igreja Paroquial de Carnide, então tutelada pelo Mosteiro de Seiça, da Ordem de Cister.
A igreja sob o padroado régio Durante a segunda metade do século XVI, a infanta D. Maria, filha do rei D. Manuel I e de D. Leonor, assumiu o patrocínio do santuário como forma de agradecimento por ter recuperado a saúde através das águas da fonte milagrosa. A princesa traçou um plano ambicioso que implicava a substituição do pequeno templo medieval por uma estrutura grandiosa, complementada por um mosteiro e um hospital vocacionado para o acolhimento de peregrinos e doentes.
A tutela deste novo espaço motivou intensas disputas clericais. Em 1543, o rei D. João III procurou transferir o domínio de Seiça para a Ordem de Cristo, sob a jurisdição do Dom Prior do Convento de Tomar, a pretexto de que a presença dos frades melhoraria a assistência aos numerosos romeiros, aumentando o "fervor e a afluência de devotos, enquanto, por seu lado, os religiosos lucrariam espiritualmente com essa assistência, e materialmente com a fertilidade do sítio, que lhes facilitaria o abastecimento de víveres".
O Papa Júlio III determinou a supressão dos mosteiros de Seiça e Tarouca em 18 de Fevereiro de 1554, a favor das novas fundações de Carnide e Coimbra. O pontífice esteve reticente quanto à substituição de uma pela outra Ordem, algo a que, porém, o Papa Paulo IV viria a anuir em 26 de Maio do ano seguinte.
O rei D. Sebastião, no entanto, reverteu parcialmente esta medida quatro anos mais tarde, preservando as antigas instituições mas dotando a nova casa lisboeta com diversas comendas e benefícios situados em Tomar, Sintra e Pias. As fundações do recinto monacal da Luz iniciaram-se em 1559.
Na década seguinte, o cardeal D. Henrique encetou repetidas tentativas de encerrar a instituição com o intuito de ali sediar um seminário para formação de clérigos, intenção que deparou com forte contestação popular em 1567, originando uma bula papal que revogou essas pretensões. Em 1572, os bispos D. Jorge de Almeida e D. Manuel de Meneses foram encarregues de avaliar a viabilidade financeira do projecto do cardeal. Contudo, a intervenção providencial da infanta D. Maria assegurou a sobrevivência do mosteiro, confirmada por um breve de Gregório XIII em 1577.
Através de disposições testamentárias ditadas a 17 de Julho e a 31 de Agosto de 1577, a princesa instituiu uma avultada renda perpétua de 500$000 para a manutenção do seu mausoléu e ofícios fúnebres (obrigando à celebração de três missas na capela-mor e uma no hospital), alocando ainda 250$000 para despesas correntes da fábrica, como cera, azeite e ornatos. Adquiriu também terrenos contíguos a D. Maria Coutinha para o cultivo de pomares e hortas, deixando 600 cruzados para o sustento da Irmandade de São Sebastião.
A infanta viria no entanto a falecer a 10 de Outubro desse mesmo ano, ficando os seus restos depositados no Mosteiro da Madre de Deus até à conclusão das obras em Carnide: o enterro definitivo deu-se a 2 de Julho de 1597.
A pensão inicial suportada pelo Mosteiro de Seiça foi abolida em 1579, sendo substituída pelo escambo de três casais na zona de Sintra.
A intervenção da Infanta D. Maria As obras da nova frontaria e corpo religioso começaram em 1575, tendo a primeira e a segunda pedras sido assentes a 13 de Junho pela própria fundadora e pelo prior D. Frei Basílio. O risco original do templo, projectado para acolher um milhar de fiéis, é atribuído ao arquitecto Jerónimo de Ruão, presumindo-se a colaboração do seu pai, João de Ruão, e de Francisco de Holanda. Tratava-se de um templo de uma só nave — a capela-mor, de 19 metros de altura, e o coro (actual sacristia) ocupavam naquela planta o braço superior da cruz.
A complexa empreitada estendeu-se por várias décadas e envolveu inúmeros artífices, destacando-se o apontador Gregório Veloso e os arquitectos Baltazar Álvares e Pedro Nunes Tinoco, que também assumiram a direcção do hospital.
O programa decorativo e pictórico agregou talentos de enorme relevo. O retábulo principal, executado por volta de 1590, integrou pinturas de Francisco Venegas e Diogo Teixeira. Outras telas fundamentais executadas por volta de 1594, como uma Circuncisão e uma Sagrada Famíia, são atribuídas respectivamente a Fernão Gomes e a Diogo Teixeira. Domingos Vieira Serrão interveio numa das capelas do lado do Evangelho. O canteiro Francisco Gomes lavrou o escudo da infanta na fachada orientada a Sul em 1587, enquanto a estatuária em pedra para os nichos da capela-mor esteve a cargo do escultor Gonçalo Rodrigues e, posteriormente, entre 1601 e 1604, da iniciativa de Frei Pedro Moniz.
A inauguração oficial do templo celebrou-se a 8 de Setembro de 1596, com a presença do Governador do Reino, Cardeal Arquiduque Alberto, presidindo às cerimónias o antigo prior do Mosteiro e bispo resignatário de S. Tomé, D. Frei Martinho de Ulhoa, sendo então a milagrosa imagem de Nossa Senhora da Luz transferida da primitiva ermida para o sumptuoso templo.
No ano seguinte, após autorização de Filipe I, ocorreu a aguardada trasladação dos restos mortais da infanta. O alvorecer do século XVII pautou-se pelo contínuo apetrechamento do complexo. Em 1604, a velha fonte foi alvo de valorização com a edificação de um acesso em escadaria e um portal, sendo assinalada com uma cruz no ponto exacto da aparição.
As dependências conventuais cresceram substancialmente. Entre 1610 e 1616, com apoios financeiros do monarca, construiu-se metade do dormitório, a portaria, salas de despejos, uma Via Sacra abobadada, refeitórios, celeiro e duas celas azulejadas para o prior. Erigiu-se igualmente uma galeria superior com seis janelas, a qual detinha uma chaminé oculta e uma tribuna com ligação ao coro inferior, mencionando-se ainda a existência de uma "ministra" para armazenamento de vinho e duas pias na cozinha.
O tesouro litúrgico, que já contava com três cálices de prata dourada concebidos em 1589, foi enriquecido a quatro de Janeiro de 1621 pelo testamenteiro Manuel Vasconcelos. Este entregou um relicário contendo um espinho da coroa e um fragmento do Santo Lenho, uma figura sacra em prata dourada e uma cruz de pau-preto com um Agnus Dei.
Em 1636, o ourives André Fernandes executou uma imagem mariana em prata, oferecida por Helena Henriques. A fachada primitiva, o corpo da igreja e o retrocoro (dotado de uma galeria para convalescentes) foram dados como concluídos em 1626, época em que se instalaram as grades e o baldaquino do púlpito.
Documentos de 1606 relatam o plano de erguer diversas capelas com ordem dórica, sendo que até à década de 1640 o recinto albergou um total de 13 capelas, incluindo a de São Sebastião, a de D. Joana e a de Frei Martinho de Ulhoa.
Frei Nicolau de Oliveira reporta, em 1620, que o convento albergava 25 religiosos, chegando até aos 30 no seu pico.
Intervenções posteriores O advento do século XVIII trouxe as intervenções do arquitecto João Frederico Ludovice e do mestre Luís Nunes Tinoco, que em 1693 havia actuado no jazigo da princesa. O interior foi revestido com azulejaria da autoria de Policarpo de Oliveira Bernardes e, em 1714, o pintor Henrique Ferreira elaborou um painel narrativo sobre a génese do santuário para o reverso do altar-mor.
O violento sismo de 1755 reduziu a nave a escombros e mutilou severamente a frontaria. Apenas a secção da capela-mor, o arco do cruzeiro e fragmentos das paredes laterais resistiram, obrigando ao resguardo da figura sacra numa estrutura precária de madeira até à estabilização do edifício em 1758. Nessa época, a comunidade religiosa era composta por 15 a 18 freires e geria um rendimento de 7000 cruzados, acolhendo círios de povoações ribeirinhas como Alverca, Moita e Aldeia Galega.
O declínio da vivência monástica confirmou-se em 1792, altura em que o convento foi extinto por breve do Papa Pio VI. A jurisdição do priorado encerrou definitivamente em 1813. O espaço hospitalar cessou funções em 1814 para albergar um anexo do Colégio Militar, instituição que aí se fixou de forma permanente em 1873. Pelo mosteiro passou ainda uma Escola de Medicina Veterinária em 1830, e o espaço veio ainda a servir fins militares, acolhendo um quartel de cavalaria, brigadas de artilharia e, por último, a Formação do Comando do Colégio Militar.
Após a demolição dos fragmentos da velha fachada em 1833, os materiais foram reaproveitados em 1840, sendo o excedente canalizado para infra-estruturas públicas da capital. Coube ao arquitecto Valentim José Correia delinear e reconstruir, em 1870, a frontaria actual, posicionando-a junto ao transepto e encurtando significativamente a dimensão longitudinal do templo. Em simultâneo, procedeu-se à supressão do cadeiral do coro e à criação do adro. Nos últimos anos do século XIX, o antigo retrocoro foi convertido em sacristia e introduziu-se um guarda-vento financiado por José do Nascimento.
Após um efémero uso do mosteiro como aquartelamento de artilharia, a igreja assumiu em 1918 a sede da paróquia de Carnide. Múltiplas campanhas de restauro sucederam-se: o painel de Pêro Martins foi removido do retábulo em 1936, o relógio da torre foi retirado em 1939 e as ossadas da infanta D. Maria foram transferidas para uma arca de menores dimensões entre 1944 e 1947.
O impacto do sismo de 1969 impeliu obras estruturais profundas financiadas pela Paróquia e entregues à firma Amadeu Gaudêncio.
Descrição thumb|Fachada principal da igreja.|343x343px
Exterior O edifício religioso implanta-se no cruzamento entre a Estrada da Luz e uma via paralela ao Largo da Luz. O acesso à fachada principal, orientada a Este, é feito via dois degraus que conduzem a um adro com ciprestes e bancos de madeira. No pavimento deste recinto frontal subsiste uma laje sepulcral em cantaria calcária, cuja inscrição epigráfica se encontra num estado avançado de desgaste. Nas imediações, do lado direito, localiza-se o Colégio Militar, instituição que ocupa as antigas instalações do Hospital da Luz (ou de Nossa Senhora dos Prazeres).
Arquitectura