Ganesha (), também aportuguesado como Ganexa, é um dos mais conhecidos e venerados deuses do hinduísmo. Este epíteto é composto das palavras gaṇa (sânscrito: गण = tropas, grupos, exércitos) + īśa (sânscrito: ईश = senhor), as quais, por acomodação eufônica formam Gaṇeśa. É o primeiro filho de Xiva e Pārvatī, irmão de Escanda, e o esposo de Budhi (Aprendizado) e Siddhi (Realização). Ele é chamado também de Vinayaka em canaresa, malaiala e Marata, Vinayagar e Pillayar em tâmil, e Vinayakudu em Telugo. Ga simboliza Buddhi (intelecto) e Na simboliza Vijñāna (sabedoria). Ganesha é considerado removedor de obstáculos, proporcionador do sucesso e da fartura, mestre do intelecto, da sabedoria e chefe do exército celestial, e por isso também, esta divindade é encontrada sempre na porta de todos os templos hindus e na porta das casas dos hindus como o protetor. Ele é representado como uma divindade amarela ou vermelha, com uma grande barriga, quatro braços e a cabeça de elefante com uma única presa, montado em um rato. É, habitualmente, representado sentado, com uma perna levantada e curvada por cima da outra. Em geral, antepõe-se, ao seu nome, o título Hindu de respeito śrī ou shri.
Ganesha é o símbolo das soluções lógicas e deve ser interpretado como tal. Seu corpo é humano enquanto a cabeça é de um elefante; ao mesmo tempo, seu transporte (vahana) é um rato. Desta forma, Ganesha representa uma solução lógica para os problemas: é o "Destruidor de Obstáculos". Sua consorte é Buddhi (um sinônimo de "mente") e ele é adorado junto de Lakṣmi (a deusa da abundância) pelos mercadores e homens de negócio. O culto de Ganesha é amplamente difundido, mesmo fora da Índia. Seus devotos são chamados Gaṇapatyas.
Iconografia Assim como acontece com todas as outras formas nas quais o hinduísmo representa os deuses, a figura de Ganesha é, também, um arquétipo cheio de múltiplos sentidos e simbolismo, que expressa um estado de perfeição assim como os meios de obtê-la.
Ganesha é o som primordial, om, do qual todos os hinos teriam nascido. Quando Śakti (Energia) e Xiva (Matéria) se encontram, ambos, o Som (Ganesha) e a Luz (Escanda), nascem. Ele representa o perfeito equilíbrio entre força e bondade, poder e beleza. Também simboliza as capacidades discriminativas que provêm a habilidade de perceber a distinção entre verdade e ilusão, o real e o irreal.
Uma descrição de todas as características e atributos de Ganesha podem ser encontradas no Gaṇapati Upaniṣad (um Upaniṣad dedicado a Ganesha) do ṛṣi Atharva, no qual Ganesha é identificado com Brahman e Atman. Este Hino Védico também contém um dos mais famosos mantras associados com esta divindade: Om Gam Gaṇapataye Namah (literalmente: "saudação ao Senhor das tropas").
Nos Vedas, pode-se encontrar uma das mais importantes e comuns preces propiciatórias a Ganesha, na parte que constitui o segundo maṇḍala ou livro do Ṛg Veda: gaṇānāṃ tvā gaṇapatiṃ havāmahe kaviṃ kavīnāmupamaśravastamam | jyeṣṭharājaṃ brahmaṇāṃ brahmaṇas pata ā naḥ ṣṛṇvannūtibhiḥ sīda sādanam || 1 (Ṛg Veda 2.23.1)
De acordo com as estritas regras da iconografia hindu, as figuras de Ganesha com somente duas mãos são tabu. Por isso, as figuras de Ganesha são vistas habitualmente com quatro mãos, que significam sua divindade. Algumas figuras podem ter seis, outras oito, algumas dez, algumas doze e outras quatorze mãos, cada uma carregando um símbolo que difere dos símbolos nas outras mãos, havendo aproximadamente cinquenta e sete símbolos no total, segundo alguns estudiosos.
A imagem de Ganesha é composta de quatro animais: homem, elefante, serpente e o rato. Eles contribuem para formar a imagem. Todos eles, individual e coletivamente, têm profunda significância simbólica.
O deus da boa fortuna Em termos gerais, Ganesha é uma divindade muito amada e frequentemente invocada, já que é o "Deus da Boa Fortuna" que proporciona prosperidade e fortuna é também o "Destruidor de Obstáculos" de ordem material ou espiritual. É por este motivo que sua graça costuma ser invocada pelos seus devotos antes de eles iniciarem qualquer tarefa (por exemplo: viajar, prestar uma prova, realizar um assunto de negócios, uma entrevista de trabalho, realizar uma cerimônia etc.) com mantras como: Aum śri Gaṇeśāya Namah ("reverência ao senhor Ganesha"), ou similares. É também por esse motivo que, tradicionalmente, todas as sessões de bhajana (cântico devocional hindu) iniciam com uma invocação de Ganesha, o Senhor dos "bons inícios". Por toda a Índia de cultura hindu, o Senhor Ganesha é a primeira deidade colocada em qualquer nova casa ou templo.
Além disso, Ganesha é associado com o primeiro cakra, que representa o instinto de conservação e sobrevivência e o de procriação. O nome desse chacra é mūlādhāra.
Atributos Corporais Cada elemento do corpo de Ganesha tem seu próprio valor e seu próprio significado:
A cabeça de elefante indica fidelidade, inteligência e poder discriminatório; O fato de ele ter uma única presa (a outra estando quebrada e sendo usada como caneta)WILKINSON, P. O livro ilustrado da mitologia: lendas e histórias fabulosas sobre grandes heróis e deuses do mundo inteiro. Tradução de Beth Vieira. 2ª edição. São Paulo. Publifolha. 2002. p. 40. indica a habilidade de Ganesha de superar todas as formas de dualismo; é descrito também que ele retirou sua outra presa para escrever os Vedas, quando estes foram compilados por Vyasadeva, tido como encarnação literária de Deus, responsável pela escrita da literatura sagrada na atual era em que vivemos, retirando o conhecimento da oralidade. As orelhas abertas denotam sabedoria, habilidade de escutar pessoas que procuram ajuda e para refletir verdades espirituais. Elas simbolizam a importância de escutar para poder assimilar ideias. Orelhas são usadas para ganhar conhecimento. As grandes orelhas indicam que quando Deus é conhecido, todo conhecimento também é; A tromba curvada indica as potencialidades intelectuais que se manifestam na faculdade de discriminação entre o real e o irreal; Na testa, o Triśūla (arma de Xiva, similar a um tridente) é desenhado, simbolizando os três estados de consciência, conhecidos no śaivismo como jagrat, svapna e suṣupta (vigília, sono e sono profundo) e a superioridade de Ganesha sobre ele; também representam os chamados "três modos da natureza material", bondade, paixão e ignorância, que são superados por Ganesha e seu pai, Xiva. A barriga de Ganesha contém infinitos universos. Ela simboliza a benevolência da natureza e equanimidade, a habilidade de Ganesha de sugar os sofrimentos do Universo e proteger o mundo; A posição de suas pernas (uma descansando no chão e a outra em pé) indica a importância da vivência e participação no mundo material assim como no mundo espiritual, a habilidade de "viver no mundo sem ser do mundo". Os quatro braços de Ganesha representam os quatro atributos do corpo sutil, que são: mente (manas), intelecto (buddhi), ego (ahamkara), e consciência condicionada (citta). O Senhor Ganesha representa a pura consciência — o ātmān — que permite que estes quatro atributos funcionem em nós; A mão segurando uma machadinha é um símbolo da restrição de todos os desejos, que trazem dor e sofrimento. Com esta machadinha Ganesha pode repelir e destruir os obstáculos. A machadinha é também para levar o homem para o caminho da verdade e da retidão; A segunda mão segura um chicote, símbolo da força que leva o devoto para a eterna beatitude de Deus. O chicote nos fala que os apegos mundanos e desejos devem ser deixados de lado; A terceira mão, que está em direção ao devoto, está em uma pose de bênçãos, refúgio e proteção (abhaya); A quarta mão segura uma flor de lótus (padma), e ela simboliza o mais alto objetivo da evolução humana, a realização do seu verdadeiro eu.
O Senhor cuja forma é Om direita|85px|Om ou Aum
Ganesha é também definido como Omkara, que significa "tendo a forma de Om (veja a seção Os nomes de Ganesha). De fato, a forma do seu corpo é uma cópia do traçado da letra Devanāgarī que indica este grande Bija Mantra. Por causa disso, Ganesha é considerado a encarnação corporal do Cosmos inteiro: ele está na base de todo o mundo fenomenal (Viśvadhara, Jagadoddhara). Além disso, na língua tâmil, a sílaba sagrada é indicada precisamente por uma letra que relembra o formato da cabeça de Ganesha.
A presa quebrada thumb|direita|230px|Estátua de Ganesha no Distrito de Andra Pradesh, na Índia A presa quebrada de Ganesha, como descrita acima, simboliza inicialmente sua habilidade de superar ou "quebrar" as ilusões da dualidade. Porém, existem muitos outros sentidos que têm sido associados a este símbolo.
"Um elefante normalmente tem duas presas. A mente também frequentemente propõe duas alternativas: o bom e o mau, o excelente e o expediente, fato e fantasia. A cabeça de elefante do Senhor Ganesha porém tem apenas uma presa por isso ele é chamado "Ekadanta, " que significa "(aquele de) Presa única", para lembrar a todos que é necessário possuir determinação mental". (Sathya Sai Baba)
Existem várias anedotas que explicam as origens deste atributo particular (veja seção Como Ganesha quebrou uma de suas presas?)
Ganesha e o rato thumb|esquerda|230px|Ganesha montado em seu rato. Note as flores oferecidas pelos devotos. Uma escultura do Templo de Vaidyeśvara em Talakkadu, em Karnataka, na Índia
De acordo com uma interpretação, o divino veículo de Ganesha, o rato ou muśika representa sabedoria, talento e inteligência. Ele simboliza investigação diminuta de um assunto difícil. Um rato vive uma vida clandestina nos esgotos. Então ele é também um símbolo da ignorância que é dominante nas trevas e que teme a luz do conhecimento. Como veículo do Senhor Ganesha, o rato nos ensina a estar sempre alerta e iluminar nosso eu interior com a luz do conhecimento.
Ambos Ganesha e Muśika amam modaka, um doce que é tradicionalmente oferecido para os dois durante cerimônias de adoração. O Muśika é normalmente representado como sendo muito pequeno em relação a Ganesha, em contraste para as representações dos veículos das outras divindades. Porém, já foi tradicional na arte maharaśtriana representar Mushika como um rato muito grande, e Ganesha estando montado nele como se fosse um cavalo.
Outra interpretação diz que o rato (Muśika ou Akhu) representa o ego, a mente com todos os seus desejos, e o orgulho da individualidade. Ganesha, guiando sobre o rato, se torna o mestre (e não o escravo) dessas tendências, indicando o poder que o intelecto e as faculdades discriminatórias têm sobre a mente. O rato (extremamente voraz por natureza) é habitualmente representado próximo a uma bandeja de doces com seus olhos virados em direção de Ganesha, enquanto ele segura um punhado de comida entre suas patas, como se esperando uma ordem de Ganesha. Isto representa a mente que foi completamente subordinada à faculdade superior do intelecto, a mente sob estrita supervisão, que olha fixamente para Ganesha e não se aproxima da comida sem sua permissão.
Casado ou Celibatário? É interessante notar como, de acordo com a tradição, Ganesha foi gerado por sua mãe Pārvatī sem a intervenção de Xiva, seu marido. Xiva, de fato, sendo eterno (SadāXiva), não sentia nenhuma necessidade de ter filhos. Consequentemente, o relacionamento entre Ganesha e sua mãe é único e especial.
Essa devoção é o motivo pelo qual as tradições do sul da Índia o representam como celibatário (veja o conto Devoção por sua mãe). É dito que Ganesha, acreditando ser sua mãe a mais bela e perfeita mulher no universo, exclamou: "Traga-me uma mulher tão bonita quanto minha mãe e eu me casarei com ela".