thumb|253px|Ilustração original do género em Joseph Pitton de Tournefort, criador do taxón, 1694 - Legenda: A: Flor; B: Abertura basal da corola; C: Cálice; D: Pistilo ;E. Cálice em frutificação, F: Fruto, H-K: Estrutura do fruto; I: Tabique do fruto; G: Lóculos do fruto; L: Sementes.
Hyoscyamus L. é um género de plantas com flor pertencente à subfamília Solanoideae da família das Solanaceae. O género inclui cerca de 23 espécies consideradas válidas (embora tenha mais de 80 espécies descritas, com cerca de 60 delas a carecer de resolução taxonómica).Hyoscyamus em The Plant List, vers. 1.1, 2013. O género agrupa as espécies conhecidas pelo nome comum de meimendro, algumas das quais, como o «meimendro-negro» (Hyoscyamus niger) e o «meimendro-do-egipto» (Hyoscyamus muticus), são utilizadas desde tempos imemoriais como plantas medicinais e como enteógenos devido à acção parassimpaticolítica dos seus alcalóides, o que faz delas poderosos narcóticos.Franz Köcher: Die babylonische und assyrische Medizin in Texten und Untersuchungen. I–VI, Berlin 1963–1980, BAM 574:I 1–3.Martha Haussperger: Gab es vor Hippokrates bereits eine empirische Medizin in Vorderasien? In: Würzburger medizinhistorische Mitteilungen 17, 1998, pp. 113–128 (úŠAKIRA: Bilsenkraut). Descrição As espécies que integram o género Hyoscyamus são herbáceas anuais, bienais ou perenes, com pubescência de tricomas glandulares simples. Os caules são erectos e ramificados, com folhas simples, alternas, pecioladas ou sésseis, por vezes com as folhas basais em roseta. As inflorescências, em cimeiras escorpióides ou helicóides, aparentemente em espiga quando completamente desenvolvidas, raramente monoflorais, são terminais ou axilares. As flores são ligeiramente zigomórficas, hermafroditas, bracteadas, subsésseis ou sésseis, com o cálice campanulado de sépalas soldadas num tubo, com 5(8) lóbulos desiguais, persistente, acrescente, coreáceo na frutificação. A corola é pentalobulada com os lóbulos desiguais. O androceu apresenta 5(6) estames inseridos a diversas alturas na base do tubo da corola; são desiguais, dois mais longos que os outros três e, geralmente, exertos. Os filamentos são livres e pubescentes ao menos na base. O gineceu apresenta o estigma do estilo capitado. O fruto é um pixídio, incluído no cálice acrescente, bilocular com numerosas sementes obovoides ou reniformes, comprimidas e de superfície alveolada.Hyoscyamus en Valdés B., Talavera. S., & Fernández-Galiano E. Flora Vascular de Andalucía OccidentalHyoscyamus en Flora of China, Vol. 17 Page 306
O número cromossómico básico é x = 14, com 2n = 28, 56.Hyoscyamus muticus en Sahara Nature, Flore du SaharaSheidai, M. Mosallanejad, M. Khatamsaz, M., Karyological studies in Hyoscyamus species of Iran, Nordic Journal of Botany, vol. 19, Is. 3, p. 369-373 , 1999Tyagi B.R. & Dubey R., Karyotype Analysis of Egyptian Henbane, Hyoscyamus muticus L., Cytologia, vol. 54, nº 2, p. 313-317, 1989Hyoscyamus muticus en Alvarez Cruz, N.S., Hyoscyamus muticus L. in: Schmelzer, G.H. & Gurib-Fakim, A. (Editors), Prota 11(1): Medicinal plants/Plantes médicinales 1, PROTA, Wageningen, Netherlands, 2008. Composição, propriedades e usos Todas as espécies do género Hyoscyamus são consideradas plantas venenosas que, ainda que tenham certos usos farmacêuticos e medicinais considerados benéficos para diversas afecções quando em doses usualmente homeopáticas bem definidas. Dada a sua elevada toxicidade, devem manejar-se com extrema precaução, já que, entre outros aspectos, a quantidade de princípios activos perigosos nas espécies ou, incluso, num espécime em particular, pode variar de maneira importante e imprevisível segundo as condições edáficas e climáticas do lugar de recolha.
São plantas tóxicas que em certas doses podem ser mortais, pois contêm, em maior ou menor grau,entre outros, alcaloides tropânicos (hiosciamina, atropina e escopolamina), tanto nas folhas e flores como no resto da planta, incluindo a raiz e as sementes. Os extractos das folhas apresentam propriedades parasimpaticolíticas e a toxicidade das espécies de Hyosciamus é conhecida desde a antiguidade. Na Europa da Idade Média extractos de espécies deste género eram utilizados para provocar o sono e em práticas de bruxaria. Para moderno uso farmacêutico, algumas espécies, as que apresentam maiores concentrações de princípios activos, são recolectadas intensivamente ou cultivadas em maior ou menor escala, por exemplo em Inglaterra, Holanda, Eslováquia, Sicília, Malta, Creta,Muñoz Lopez de Bustamante F., Plantas medicinales y aromáticas - Estudio, cultivo y procesado, Mundi-Prensa Libros, p. 113-118, 1996Hyoscyamus niger en Plants for a Future Nigéria, Egipto e Paquistão.Hyoscyamus muticus en USDA, U.S. National Plant Germplasm System, GRIN TaxonomyHyoscyamus muticus en Alvarez Cruz, N.S., Hyoscyamus muticus L. in: Schmelzer, G.H. & Gurib-Fakim, A. (Editors), Prota 11(1): Medicinal plants/Plantes médicinales 1, PROTA, Wageningen, Netherlands, 2008Hyoscyamus muticus en Jstor - Global Plants
Para além dos atrás referidos alcaloides, de propriedades conhecidas desde a mais remota antiguidade, mesmo da pré-história, as diferentes espécies nas suas distintas partes podem conter outros princípios activos como, apenas para apresentar alguns exemplos, lignanamidas, grossamida e canabisina, substâncias que terão alguma acção anti-tumoral no cancro da próstataMa C.Y., Liu W.K. & Che C.T., Lignanamides and nonalkaloidal components of Hyoscyamus niger seeds, J. Nat. Prod., vol. 65(2), p. 206-9, 2002 e também ácido clorogénico, rutina e outros compostos (fenólicos, quercetina, glucósideos) susceptíveis de acção benéfica, entre outras, como potencial protector nas afecções coronárias, na doença inflamatória intestinal (IBD).Amir Reza Jassbi, Ramin Miri, Mehdi Masroorbabanari, Mojtaba Asadollahi, Mahshid Attarroshan & Ian T. Baldwin, HPLC-DAD-ESIMS Analyses of Hyoscyamus niger and H. reticulatus for their Antioxidant Constituents, Austin Chromatography, vol. 1(5), p. 1022, 2014 e como espasmolítico, antidiarreico, broncodilatador e bloqueante da hiperactividade da bexiga urinária.Gilani A.H., Khan A.U., Raoof M., Ghayur M.N., Siddiqui B.S., Vohra W. & Begum S., Gastrointestinal, selective airways and urinary bladder relaxant effects of Hyoscyamus niger are mediated through dual blockade of muscarinic receptors and Ca2+ channels, Fundam. Clin. Pharmacol., vol. 22(1), p. 87-99, 2008
Hyoscyamus muticus é de todas as espécies de Hyoscyamus, a que apresenta a acção venenosa mais activa. Uma intoxicação é potencialmente mortal e muito fácil de atingir, embora raras vezes tenha sido reportada.Storl W.D., Götterpflanze Bilsenkraut (Die Nachtschatten / Eine faszinierende Pflanzenfamilie), Nachtschatten Verlag, 144 pp., 2000, ISBN 978-3907080634.<ref name=LIN>[https://web.archive.org/web/20071213163543/http://www.linneo.net/plut/index2.htm Hyoscyamus muticus em Plantas útiles: Linneo via Wayback Machine, 13-12-2007]</ref>Hyoscyamus muticus en Fern K., Useful Tropical Plants, 2014 Ayari-Guentri S., Djemouai N.,Gaceb-Terrak R. & Rahmania F., Chemical Composition and Antioxidant Activity of Hyoscyamus muticus L. subsp. falezlez (Coss.) Maire from Algeria, Journal of Essential Oil Bearing Plants, vol. 20, Is. 5, p. 1370-1379, 2017Eeva M., Salo J.P. & Oksman-Caldentey K.M., Determination of the main tropane alkaloids from transformed Hyoscyamus muticus plants by capillary zone electrophoresis J. Pharm. Biomed. Anal., vol. 16(5), p.717-722, 1998 Distribuição geográfica e habitat As espécies do género têm distribuição natural pela Macaronésia, Europa, a Bacia do Mediterrâneo, o norte da África e a Ásia até à China, com um centro de diversidade no Irão e países vizinhos. O género está presente desde zonas ruderalizadas em meio urbano até às zonas mais desérticas de, por exemplo, a Península Arábica. Na Península Ibérica apenas estão presentes duas espécies: Hyoscyamus albus e Hyoscyamus niger, esta última muito menos frequente e praticamente limitada à metade setentrional desse território, enquanto a primeira abunda em toda a Península e, além disso, nas ilhas Baleares e nas ilhas Canárias.Hyoscyamus en Anthos - Sistema de información sobre las plantas de España, CSIC/RJB, Madrid, 2012 - Requiere búsqueda internaHyoscyamus em The Euro+Medit PlantBase, Botanic Garden and Botanical Museum Berlin-Dahlem, 2006
Em Portugal este género está representado pelas duas espécies presentes na Península Ibérica: Hyoscyamus albus L.; e Hyoscyamus niger L. A espécie Hyoscyamus albus é nativa da ilha da Madeira e considerada invasora nos Açores.Sequeira M, Espírito-Santo D, Aguiar C, Capelo J & Honrado J (Coord.) (2010). Checklist da Flora de Portugal (Continental, Açores e Madeira) . Associação Lusitana de Fitossociologia (ALFA). Taxonomia Na sua presente circunscrição taxonómica o género agrupa 23 espécies consideradas taxonomicamente válidas, as quais são distribuídas por dois subgéneros e diversas secções (ou em alguns casos, séries). A subdivisão do género não é consensual, variando com os autores. Uma das sistemáticas internas do grupo com maior consenso é a seguinte:
Subgénero Hyoscyamus Secção Hyoscyamus Subsecção Hyoscyamus Hyoscyamus reticulatus — nativa do oeste da Ásia e do Cáucaso Hyoscyamus pojarkovae — nativa do Irão, Iraque, Síria e Egipto Hyoscyamus kurdicus — nativa da Síria Hyoscyamus leucanthera — nativa do Irão Hyoscyamus afghanicus — nativa do Afeganistão Hyoscyamus multicaulis — nativa do Afeganistão Hyoscyamus squarrosus — nativa do Afeganistão, Irão, Turcomenistão e Paquistão Hyoscyamus kotschyanus — nativa do Irão Hyoscyamus arachnoideus — nativa do Irão Hyoscyamus turcomanicus — nativa do Médio Oriente Hyoscyamus niger — nativa da Europa, norte da África e Ásia Subsecção Pusilli Hyoscyamus pusillus — nativa da Rússia, Ásia Central e Egipto Subsecção Adictyi Hyoscyamus albus — nativa do sul e sueste da Europa, norte de África, Macaronésia e Médio Oriente Hyoscyamus cylindrocalyx — nativa do Médio Oriente Hyoscyamus desertorum — nativa do Egipto, Península do Sinais, Israel e Jordânia Secção Chamaehyoscyamus Hyoscyamus aureus — nativa do Egipto e do oeste da Ásia; naturalizada em Creta. Hyoscyamus senecionis Sektion Pumilio Hyoscyamus leptocalyx — nativa da Turquia Hyoscyamus longepedunculatus — nativa do Iraque.
Subgénero Dendrotrichon Hyoscyamus orthocarpus — nativa do Irão Hyoscyamus muticus — nativa do norte da África e do Oriente Médio Hyoscyamus boveanus — nativa do Egipto e da Península do Sinai Hyoscyamus falezlez (considerada por alguns autores como a subsp. falezlez de Hyoscyamus muticus) — nativa do norte da África Hyoscyamus nutans — nativa do Irão Hyoscyamus rosularis — nativa do Irão Hyoscyamus tenuicaulis — nativa do Irão Hyoscyamus insanus — nativa do Irão, Afeganistão e Paquistão. Incertae sedis Em incertae sedis (não incluídos nas subdivisiões taxonómicas anteriores): Hyoscyamus flaccidus C.Wright - Península ArábicaHypscyamus flaccidus en Wright C., Decades Kewenses XX. and XXI., Bulletin of miscellaneous information (Royal Gardens, Kew), August 1895, p. 184Schonbeck-Temesy E., Solanaceae in Rechinger K.H. (ed.), Flora Iranica − Flora des Iranischen Hochlandes und der umrahmenden Gebirge, Bd 100 - p. 49-79, Akademische Druck- und Verlagsanstalt, Graz, 1972Hyoscyamus en USDA, GRIN Taxonomy, U.S. National Plant Germplasm SystemHyoscyamus en The Euro+Medit PlantBase, Botanic Garden and Botanical Museum Berlin-Dahlem, 2006Hoare A.L. & Knapp S., A phylogenetic conspectus of the tribe Hyoscyameae (Solanaceae), Bulletin of The Natural History Museum (Botany Series), vol. 27, nº 1, p. 11-29, London, 1997