thumb|A Liberdade Guiando o Povo, de Delacroix (1830): uma personificação da liberdade. Liberdade (Latim: Libertas) é, de maneira geral, a condição daquele que é livre. É um conceito que assume grande variedade de sentidos entre os diversos autores que se ocuparam do tema, sendo difícil atribuir um significado consensual, mesmo em seus elementos fundamentais. Entre os sentidos possíveis, podemos apontar a capacidade de agir de si, sentindo ele mesmo que se desdobra em diferentes direções como, por exemplo, em autodeterminação, independência ou autonomia. Pode também ser compreendida sob uma perspectiva que denota a ausência de submissão e de servidão, própria da liberdade política, mas também pode se relacionar com a questão filosófica do livre arbítrio. Na política moderna, a liberdade é entendida como o estado de estar livre dentro da sociedade do controle ou das restrições opressivas impostas pela autoridade sobre seu modo de vida, comportamento ou visões políticas. Geralmente, mas nem sempre, se opõe à concepção de mundo determinista, o pensamento de Hobbes, por exemplo, é uma importante exceção a essa oposição. Com o fim da Guerra santa no período medieval, surge o conceito contemporâneo de liberdade.Robert Fisk: The US forces, like the Crusaders before them, are prisoners in their own fortresses
A palavra "liberdade" é frequentemente usada em slogans, como "Liberdade, Igualdade, Fraternidade".
Filosofia e metafísica Filósofos desde os primeiros tempos têm considerado a questão da liberdade. O imperador romano Marco Aurélio (121–180 d.C.) escreveu:
John Stuart Mill (1806-1873), em sua obra On Liberty, foi o primeiro a reconhecer a diferença entre liberdade como liberdade de agir e liberdade como ausência de coerção.
Em seu livro Dois Conceitos de Liberdade, Isaiah Berlin formalmente enquadrou as diferenças entre duas perspectivas como a distinção entre dois conceitos opostos de liberdade: liberdade positiva e liberdade negativa. Este último designa uma condição negativa em que um indivíduo é protegido da tirania e do exercício arbitrário da autoridade, enquanto o primeiro refere-se à liberdade que vem do autodomínio, a liberdade dos estados interiores como fraqueza e medo.
Liberdade Política na Historia O conceito moderno de liberdade política tem suas origens nos conceitos gregos de liberdade e escravidão.Rodriguez, Junius P. (2007) The Historical Encyclopedia of World Slavery: A–K; Vol. II, L–Z Ser livre, para os gregos, não era ter um mestre, e sim ser independente de um mestre (viver como melhor gostaria).Mogens Herman Hansen, 2010, Democratic Freedom and the Concept of Freedom in Plato and Aristotle Esse era o conceito grego original de liberdade. Está intimamente ligado ao conceito de democracia, como disse Aristóteles:
Isso se aplicava apenas a homens livres. Em Atenas, por exemplo, as mulheres não podiam votar ou ocupar cargos e eram legal e socialmente dependentes de um parente do sexo masculino.
As populações do Império Persa gozavam de algum grau de liberdade. Cidadãos de todas as religiões e grupos étnicos receberam os mesmos direitos e tiveram a mesma liberdade religiosa, as mulheres tiveram os mesmos direitos que os homens e a escravidão foi abolida (550 a.C.). Todos os palácios dos reis da Pérsia foram construídos por trabalhadores pagos em uma época em que os escravos normalmente faziam esse trabalho.Arthur Henry Robertson, John Graham Merrills (1996). Human Rights in the World: An Introduction to the Study of the International Protection of Human Rights. Manchester University Press. .
Ideologias
Liberalismo Para o liberalismo, a liberdade é a liberdade de indivíduos para escolherem o que fazer com suas vidas, desde que respeitem o direito dos outros de fazer o mesmo. Os liberais defendem e apoiam ideias como os direitos individuais (incluindo direitos civis e direitos humanos), livre mercado, democracia, secularismo, igualdade de gênero, igualdade racial, internacionalismo, liberdade de expressão, liberdade de imprensa e liberdade religiosa."O liberalismo situa-se no plano político-religioso. Defende a absoluta liberdade individual, tanto de pensamento como de ação, na vida privada e pública.", Dom Dadeus Grings. Dialética da política: história dialética do cristianismo. EDIPUCRS; GGKEY:3PUD50DKR6P. p. 257."(...) o liberalismo incorporou ideias como o livre comércio, a democracia e a autodeterminação nacional.", William Outhwaite. Dicionário do pensamento social do século XX. Jorge Zahar Editor; 1996. ISBN 978-85-7110-345-0. p. 421.Corentin de Salle. A Tradição da Liberdade - Grandes Obras do Pensamento Liberal. Movimento Liberal Social; ISBN 978-989-97083-1-0. p. 18. O filósofo John Locke, muitas vezes creditado como o fundador do liberalismo argumentou que cada homem tem um direito natural à vida, à liberdade e à propriedade."All mankind ... being all equal and independent, no one ought to harm another in his life, health, liberty, or possessions", John Locke, Second Treatise of Government
Libertarianismo De acordo com a Encyclopædia Britannica, os libertários mantêm a liberdade como seu principal valor político, apoiando as liberdades civis, especialmente o direito natural, os direitos negativos e uma redefinição do moderno estado de bem-estar. O pensamento político da direita libertária caracteriza-se pela prioridade normativa à liberdade, com a necessidade de maximizar o âmbito da liberdade individual e minimizar o propósito da autoridade pública de acordo com os direitos de propriedade privada.
O libertarianismo é guiado pelo princípio comumente conhecido como Princípio da Não Agressão (PNA). O Princípio de Não Agressão afirma que a agressão contra um indivíduo ou a propriedade de um indivíduo é sempre uma violação imoral da vida, liberdade e direitos de propriedade de uma pessoa.
Anarquismo Embora muitos anarquistas vejam a liberdade de forma ligeiramente diferente, todos se opõem à autoridade, incluindo a autoridade do estado, do capitalismo e do nacionalismo. Para o revolucionário anarquista russo Mikhail Bakunin, a liberdade não significava um ideal abstrato, mas uma realidade concreta baseada na liberdade igual dos outros. Em um sentido positivo, a liberdade consiste no “desenvolvimento mais completo de todas as faculdades e poderes de cada ser humano, pela educação, pelo treinamento científico e pela prosperidade material”. Tal concepção de liberdade é "eminentemente social, porque só pode ser realizada na sociedade", não isoladamente. Em um sentido negativo, a liberdade é "a revolta do indivíduo contra toda autoridade divina, coletiva e individual".
Socialismo A concepção socialista de liberdade está intimamente relacionada com a visão socialista de criatividade e individualidade. Influenciados pelo conceito de trabalho alienado de Karl Marx, os socialistas entendem a liberdade como a capacidade de um indivíduo se envolver em trabalho criativo na ausência de alienação, onde "trabalho alienado" refere-se ao trabalho que as pessoas são forçadas a realizar e o trabalho não alienado refere-se a indivíduos que perseguem seus próprios interesses criativos.
Filósofos miniaturadaimagem|Allegoria - La Liberté - 1890 xilografia, autor desconhecido
Espinoza Para Baruch Espinoza (1632-1677), a liberdade possui um elemento de identificação com a natureza do "ser". Nesse sentido, ser livre significa agir de acordo com sua natureza.
É mediante a liberdade que o Homem se exprime como tal e em sua totalidade. Esta também é a sua própria realização, enquanto meta dos seus esforços.
Tendemos a associar a fruição da liberdade a uma determinação constante e inescapável. Contudo, os ditames de nossa vida estão sendo realizados a cada passo que damos. Assim, a deliberação está também a cargo da vontade humana (na qual se inserem as leis físicas e químicas, biológicas e psicológicas).
Diretamente associada à ideia de liberdade está a noção de responsabilidade, vez que o ato de ser livre implica assumir o conjunto dos nossos atos e saber responder por eles.
Leibniz Para Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), o agir humano é livre a despeito do princípio de causalidade que rege os objetos do mundo material.
Pecotche Para Carlos Bernardo González Pecotche (1901-1963), a liberdade é prerrogativa natural do ser humano, já que nasce livre, embora não se dê conta até o momento em que sua consciência o faz experimentar a necessidade de exercê-la como único meio de realizar suas funções primordiais da vida e o objetivo que cada um deve atingir como ser racional e espiritual. Como princípio, assinala ao homem e lhe substancia sua posição dentro do mundo.
É preciso vinculá-la muito estreitamente ao dever e à responsabilidade individual, pois estes dois termos, de grande conteúdo moral, constituem a alavanca que move os atos humanos, preservando-os do excesso, sempre prejudicial à independência e à liberdade de quem nele incorre.
A liberdade é como o espaço, e que depende do ser humano que ela seja, também como ele, mais ampla ou mais estreita, vinculada ao controle dos próprios pensamentos e das atitudes. O conhecimento é o grande agente equilibrador das ações humanas e, em consequência, ao ampliar os domínios da consciência, é o que faz o ser mais livre.
Philip PettitA exposição dos argumentos de Philip Petit foi baseada na seguinte obra: Pettit, Philip. "Teoria da Liberdade"; tradução de Renato Sérgio Pubo Maciel; coordenação e supervisão Luiz Moreira – Belo Horizonte: Del Rey, 2007. 272 páginas. A relevância de Philip Pettit reside em sua construção de uma teoria da liberdade que traz consigo implicações práticas para a consecução das finalidades de uma democracia.
Para iniciar sua empreitada filosófica, Pettit resgata dois pontos importantes do debate filosófico acerca da liberdade:
(i) o tratamento simbiótico imprimido à liberdade da vontade e à liberdade política; e
(ii) a tradição republicana de conceptualização da liberdade como não dominação, posteriormente substituída pela percepção liberal desta enquanto não interferência.
Philip inicia sua abordagem pela ótica da liberdade da vontade. Para tanto, resgata as ideias desenvolvidas por Immanuel Kant quando posto diante da seguinte indagação: existe liberdade da vontade?
Schopenhauer Para Arthur Schopenhauer (1788-1860), a ação humana não é absolutamente livre. Todo o agir humano, bem como todos os fenómenos da natureza, até mesmo suas leis, são níveis de objetivação da coisa-em-si kantiana que o filósofo identifica como sendo puramente vontade.
Para Schopenhauer, o homem é capaz de acessar sua realidade por um duplo registro: o primeiro, o do fenômeno, onde todo o existente reduz-se, nesse nível, a mera representação.
No nível essencial, que não se deixa apreender pela intuição intelectual, pela experiência dos sentidos, o mundo é apreendido imediatamente como vontade, Vontade de Vida. Nesse caso, a noção de vontade assume um aspecto amplo e aberto, transformando-se no princípio motor dos eventos que se sucedem na dimensão fenomênica segundo a lei da causalidade.
O homem, objeto entre objetos, coisa entre coisas, não possui liberdade de ação porque não é livre para deliberar sobre sua vontade. O homem não escolhe o que deseja, o que quer. Logo, não é livre: é absolutamente determinado a agir segundo sua vontade particular, objetivação da vontade metafísica por trás de todos os eventos naturais. O que parece deliberação é uma ilusão ocasionada pela mera consciência sobre os próprios desejos. É poder viver sem ninguém mandar.
Sartre Para Jean-Paul Sartre (1905-1980), a liberdade é a condição ontológica do ser humano. O homem é, antes de tudo, livre.