Old Firm (lit. "Velha Firma", em inglês) é o nome popularmente dado ao maior clássico do futebol escocês, que envolve o Celtic Football Club e o Rangers Football Club, equipes de Glasgow, maior cidade da Escócia, que se confrontam desde 28 de maio de 1888, quando o Celtic venceu por 5 a 2.

É um dos clássicos de futebol mais antigos do mundo e ,devido às divergências culturais, religiosas e políticas, acaba sendo marcado por grande rivalidade e violência. Tendo no cantor inglês Rod Stewart (filho de um escocês e torcedor do Celtic) e nos irmãos Angus e Malcolm Young, instrumentistas da banda australiana AC/DC (nascidos em Glasgow, ainda que emigrados como crianças, torcedores do Rangers), alguns dos partidários no exterior mais ilustres da dupla.

História No segundo jogo da final da Copa da Escócia de 1909, com 60 000 espectadores no Estádio de Hampden Park, uma briga de enormes proporções entre torcedores dos dois clubes e também com a polícia, suspendeu a decisão e inaugurou a fase violenta deste confronto. A confusão iniciou-se por rumores de que os dois clubes, que já haviam empatado a primeira partida, teriam combinado nova igualdade no placar, pois haveria interesse econômico de ambos (com a venda de mais ingressos) em realizar um terceiro jogo para definir o campeão. O clássico receberia então o apelido de "The Old Firm", uma insinuação que ambos os clubes se beneficiariam financeiramente da antipatia mútua.LEME, Tiago (outubro de 2008). Futebol, política e religião. Placar n. 1323. Editora Abril, pp. 96-97

Estas equipes dominam amplamente a Liga Escocesa de Futebol, conquistando a maioria dos títulos disputados. Após um domínio inicial do Celtic, o Rangers o ultrapassou no início do século XX e mantem-se na dianteira desde então. O domínio é tamanho que ambos são ocasionalmente sondados para, tais como alguns clubes galeses, disputarem o Campeonato Inglês de Futebol, especialmente a partir do advento da Premier League.

Sob o comando de Jock Stein (que era protestante), o Celtic experimentou seu melhor momento entre 1966 e 1974, quando conseguiu o ineditismo de conquistar o campeonato escocês por nove vezes seguidas, diminuindo uma diferença de 14 títulos para cinco que o arquirrival possuía, recuperando-se de seu pior momento: entre os anos 1920 e 30, ficou justamente nove anos em jejum, em que oito taças ficaram com o Rangers e uma com o Motherwell.

Dentro desse período áureo, o clube teve seu ano inesquecível em 1967: além do campeonato escocês, venceu a Copa da Escócia, a Copa da Liga Escocesa e o mais importante, a Copa dos Campeões da UEFA sobre a favorita Internazionale, então, bicampeã.

O Celtic tornou-se com isso o primeiro clube de todo o Reino Unido a vencer a mais importante competição europeia de clubes. O elenco vencedor, todos formados por torcedores do time e nascidos a um raio de 50 quilômetros do estádio do clube, ficou conhecido como "Leões de Lisboa", alusão à cidade onde a final foi disputada.Top 10 maiores esquadrões da história da Liga dos Campeões (setembro de 2007). Trivela Especial - Guia da Liga dos Campeões 2007/08. Trivela Comunicações, p. 64 O sabor foi ainda melhor pois na mesma temporada, o rival Rangers também teve a chance de ser campeão continental, mas da Recopa Europeia, o segundo torneio em importância, perdendo para o Bayern Munique, então um clube sem títulos internacionais. A equipe já havia sido vice em 1961.

Os anos 1970, que marcavam o melhor momento da história do Celtic, viram uma decadência do Rangers, a despeito de em 1972 o clube ter finalmente ter conquistado o seu troféu europeu, justamente a Recopa. Os anos ruins dos Gers, que vinham conquistando a Liga poucas vezes, continuaram no início da década de 1980, em que o time perdeu momentaneamente o posto de antiCeltic, que passou a disputar os títulos nacionais com o Aberdeen ou com o Dundee United.

Em 1988, o Celtic conseguiu colocar a diferença em apenas três títulos. A balança começaria finalmente a pender para os protestantes justamente no momento em que o clube reviu seu posicionamento, com a chegada de Graeme Souness como técnico. Souness implantou diversas mudanças, desde a contratação de diversos ingleses, incluindo o primeiro negro do clube (Mark Walters) e, principalmente, ao fim do sectarismo contra católicos. O fim das restrições que o Rangers se impunha o recolocou como clube amplamente hegemônico nacionalmente, conseguindo repetir o grande feito do rival: entre 1989 e 1997, venceram a Liga Escocesa nove vezes consecutivamente, colocando diferença semelhante à que havia entre os rivais nos anos 1960: doze títulos. O Celtic, em paralelo, vivenciou uma de suas piores crises: esportivamente, chegou a passar sete anos sem conseguir sequer o vice-campeonato na liga, tendo como única conquista no período de seis anos a Copa da Escócia de 1994-95 - em temporada iniciada sob forte ameaça de extinção, evitada somente horas antes do fim do prazo oferecido pelo Royal Bank of Scotland ao ser comprado pelo empresário Fergus McCann. Mesmo após impedir na temporada 1997-98 que o rival chegasse a dez títulos escoceses seguidos, o Celtic só voltou a ter conquistas contínuas a partir do comando técnico de Martin O'Neill.

Sob o trabalho de O'Neill, o Celtic vem se mostrando melhor chegou a reduzir a diferença de títulos escoceses para nove em 2008 (novamente aumentada para doze, após um tricampeonato seguido do Rangers). A primeira década do novo século viu os dois serem vice-campeões europeus: em ambos os casos, na Copa da UEFA, que substituíra a Recopa (extinta em 1999) como segundo torneio europeu em prestígio. O Celtic a perdeu em 2003 e o Rangers, em 2008.

Já a segunda década começou marcada pela falência do Rangers, obrigado a recomeçar na quinta divisão logo após ter sido tricampeão em 2011. O campeonato ficou sem o clássico entre 2011 e 2016, com um jogo das equipes sub-17 em 2013 bastando para atrair 12 mil pessoas em clima de hostilidade. O Celtic conseguiu então, à altura de 2017, um hexacampeonato seguido. A temporada do hexa veio com o rival enfim retornando à elite, mas não impedindo a primeira vez em 108 anos que o campeonato foi vencido de forma invicta; nem a primeira tríplice coroa do Celtic (títulos no campeonato, na Copa da Escócia e na Copa da Liga Escocesa) em dezesseis anos, também invicta; tampouco a pior goleada sofrida em casa no clássico em 118 anos: o Celtic ganhou de 5-1 no Ibrox Stadium.

A despeito de largo período permeado por diversas conquistas do Celtic, o Rangers seguia mundialmente como clube mais vezes vencedor de um campeonato nacional. Essa marca, contudo, foi superada em 16 de maio de 2026, quando o Celtic chegou ao 56º título escocês contra 55 do vizinho, encerrando também 98 anos de liderança do Rangers em número de títulos escoceses. Um clássico na penúltima rodada, altura em que líder do certame seguiu sendo o supreendente Hearts, se mostrou decisivo para as pretensões de título dos alviverdes permanecerem vivas para a última (quando enfrentariam o próprio Hearts): no dia 10 de maio, o Celtic logrou triunfo de virada por 3-1, a incluir um gol de bicicleta (de Daizen Maeda).

Clássicos históricos

Curiosamente, embora dominem a liga escocesa, em somente cinco ocasiões o clássico serviu como jogo do título na competição: no jogo-desempate que decidiu a edição de 1904-05, em que a vitória por 2-1 do Celtic encerrou jejum de sete anos e abriu um hexacampeonato seguido ao clube; o 2-2 na temporada 1966-67, em que os alviverdes puderam mesmo dentro do estádio rival garantirem o troféu nacional em sua temporada mais gloriosa, semanas antes da conquista na Liga dos Campeões; o 4-2 da temporada 1978-79, no qual o Celtic superou com dez jogadores em campo (após uma expulsão) uma derrota parcial de 1-0, assinalando nos cinco minutos finais os dois últimos gols - em clássico que ganhou contornos míticos também pela ausência de maiores registros em vídeo em função de uma greve na imprensa; o 3-0 da temporada 1998-99, favorável ao Rangers dentro do estádio vizinho em um jogo tumultuado, repleto de expulsões, invasões de campo e necessidade de sutura no rosto do árbitro (cuja casa terminou vandalizada) no decorrer do chamado "jogo da vergonha". e o 5-0 do Celtic na temporada 2017-18, sinalizando a grande diferença de nível entre os dois rivais após a falência azul.

Rangers e Celtic não concordam quanto à maior goleada no duelo. Os torcedores dos Teddy Bears ressaltam o 8-1 no ano novo de 1943, minimizado pelos rivais como partida não-oficial em função da suspensão de torneios nacionais durante a Segunda Guerra Mundial. Já a torcida dos Bhoyz criaram a música "Hampden in the Sun" para destacar o 7-1 que decidiu a Copa da Liga Escocesa da temporada 1957-58, o resultado mais elástico em um confronto dito "oficial".

A questão político-religiosa

Além da grande rivalidade entre os clubes, da mesma cidade escocesa, as torcidas também trazem consigo questões alheias ao futebol. As torcidas defendem duas filosofias político-religiosas antagônicas em suas respectivas histórias de intensidade tal que o clássico é tido como o de maior ódio recíproco no mundo.GWERCMAN, Sérgio (outubro de 2004). Como o futebol explica o mundo. Superinteressante n. 205. Editora Abril, pp. 88-93

Em 1900, instalava-se em Glasgow um estaleiro, de nome Harland & Wolf, que tinha como norma não contratar católicos. Este fato trouxe à tona o problema religioso escocês, que imediatamente foi transferido para o futebol, já que ambos os clubes tinham identidades com as partes envolvidas, o Celtic, católico e Rangers, protestante. Ao longo do século XX, gerou-se a imagem erroneamente simplificada de que o Rangers não aceitava católicos até o ano de 1989, mas o clube inicialmente era uma equipe aberta. A política não escrita de recusar católicos foi adotada após a Primeira Guerra Mundial e não os impediu de defender o clube, desde que escondessem sua fé. Também não impediu o ingresso de um muçulmano ainda na década de 1930, o egípcio Mohamed Latif, e de um judeu, o israelense Avi Cohen, em 1987. O sectarismo, por outro lado, poderia atingir até mesmo protestantes, caso fossem casados com católicas. Alex Ferguson foi um exemplo famoso de protestante afetado por essa parte da medida.

Diferentemente do Rangers, o Celtic, apesar da identificação com os católicos, nunca se restringiu; sempre aceitou jogadores de todas as religiões, ainda que sofressem ressalvas: Jock Stein, maior treinador dos alviverdes, era protestante e não se livrou de uma discriminação inicial, que teria pesado para encerrar seu primeiro ciclo por lá, na década de 1950. Mas, já consagrado, incentivava os seus olheiros a, caso encontrassem jovens protestantes e católicos de talentos similares, a investirem nos protestantes e os convencerem a atuar no Celtic, uma vez que os católicos não seriam em nenhuma hipótese usados pelo Rangers. Kenny Dalglish é outro exemplo famoso de protestante que defendeu o Celtic em época em que o Rangers, clube que torcia, continuava restrito: foi na década de 1970.