Fantasia (; ) é um conceito presente na psicologia moderna desde a sua formação nos séculos XVIII e XIX, referindo-se em geral à imaginação produtiva ou criação voluntária de imagens mentais, as quais possuem algum teor de contraste com o que por vezes se contrapõe como a presença de objetos externos ou a "realidade". O termo foi utilizado por filósofos gregos como Platão e Aristóteles para se referir a capacidades da alma, e teóricos iniciais da psicologia científica o definiram de diversas maneiras na fenomenologia, psicofísica e psicanálise. Com a institucionalização da psicologia científica, foi sendo substituída a associação que essa faculdade tinha com a evocação da intuição, sentimentos vitais e estéticos, e transformada em grande parte no conceito de imaginação simplesmente como representação de objetos irreais. Também é utilizada em pesquisas e construtos da ciência atual.

Na psicanálise, é também considerada um mecanismo de defesa que consiste na criação de um sistema de vida paralelo, que existe apenas na imaginação de quem o cria, com o objetivo de proporcionar uma satisfação ilusória, que não é ou não pode ser obtida na vida real. Não pode ser confundida com a idealização, que cria um sistema em que se deseja viver, mas ao mesmo tempo, leva ao planejamento e a movimentação para que aquela idealização se torne realidade no futuro, o que acaba por implicar a tomada de decisões e mudanças realizadas no presente.Rossana Ribeiro da Graça Kikuti, Comportamento: Mecanismo de Defesa: Fantasia, IPE - Instituto de Pesquisas Evolutivas

Etimologia e conceito clássico O uso mais antigo do termo é encontrado em Platão, com o sentido de "aparição", substantivado do verbo φαίνεσθαι, "aparecer". Porém, também a associou como uma imitação (mimesis) da aparência, em contraste com a imitação da verdade: no Sofista, a "arte produtora de imagens" se subdivide em "icástica" (produtora de imagem) e "fantástica" (produtora de ilusão), essa última criando aparências de coisas irreais e associada ao sofista que produz falas ou pensamentos falsos. É resultante de uma mistura de percepção e opinião. No Filebo, é representada como um pintor que cria produtos fictícios, "fantasmas" (φαντάσματα).Camassa, Giorgio; Evrard, Etienne; Benakis, Linos; Pagnoni-Sturlese, Maria Rita. «Phantasie». In Ritter, Johann; Gründer, Karlfried; Gabriel, Gottfried. Historisches Wörterbuch der Philosophie online. Schwabe Online.

Em Aristóteles, é descrita como uma habilidade cognitiva separada, de uma forma que influenciará toda a filosofia posterior do conceito. É a faculdade da alma chamada por ele de "fantástica" (phantastikón, φανταστικόν), entre a sensação (aisthesis) e o pensamento (dianoia), a qual produz "fantasmas" (phantasmata), representações ou imagens dos objetos sensíveis. Ele criticou a afirmação de Platão de que a fantasia seria uma "mistura de percepção e opinião", pois considera que a percepção sempre está presente (seja na forma potencial ou atual, isto é, do sentido e do objeto de sentido), enquanto a fantasia aparece independentemente dos sentidos externos (como nos sonhos) e não ocorre atualmente a todo tempo (dá também exemplo de alguns animais não a tem). Além do mais, é para ele uma função não racional, geralmente falsa, independente da opinião, localizando-a na parte perceptiva da alma. Ela pertence também ao sensório comum, junto aos sentidos e suas funções associadas. Aristóteles considera os sonhos como derivados da capacidade fantástica: são fantasmas produzidos na parte perceptiva e derivados das experiências sensórias do estado desperto, apesar de não serem resultantes da percepção dos cinco sentidos propriamente dita; isso explica o porquê de os sonhos não exigirem a percepção geral em relação a objetos reais.

No tratado Da Alma, distingue três tipos de fantasia, em gradação de acordo com uma escala biológica dos animais: indeterminada (aóristos phantasía), constituída por representações táteis difusas nas formas mais baixas de animais durante um contato sensorial; sensível (aisthetikè phantasía), como mediadora do apetite em animais irracionais; e calculativa ou deliberativa (logistikè/bouleutikè phantasía), a maior, que aparece apenas em humanos, capaz de combinar várias imagens mentais. Aristóteles afirma que todo pensamento humano depende de fantasmas.

Para platônicos posteriores, a capacidade da fantasia teria o papel de centro unificado da consciência. Em Plotino, a potência formadora de imagens (phantastikón) é o ponto final da percepção, ao realizar julgamentos sobre o que é percebido pelos sentidos e formar suas imagens. Dessa maneira, ligando tanto os sensíveis quanto os inteligíveis, a memória retém e recorda as imagens formadas por essa capacidade.

Enquanto o conceito antigo dava ênfase à imaginação reprodutiva, fantasia ganhará a distinção atual de imaginação produtiva apenas posteriormente, conforme presente a partir de Filóstrato (século II-III), em Vida de Apolônio de Tiana:"Fantasia (phantasia)", disse Apolônio, "criou estes, uma artesã mais astuta do que a imitação. Pois a imitação moldará o que ela conhece, enquanto a fantasia criará o que ela não conhece; pois ela irá supor com referência à realidade, e o terror frequentemente deterá a imitação, enquanto nada pode deter a fantasia, pois prossegue impávida em direção ao objetivo que estabeleceu para si mesma"

Como "imaginação estética", um outro sentido muito adotado também depois entre pensadores modernos, aparece na Antiguidade apenas no tratado Do Sublime.

Em Sinésio de Cirene (373–414), combinando elementos aristotélicos e platônicos, como entre outros neoplatonistas, a phantasia é reabilitada do sentido aristotélico de potencialmente enganadora, e a alma, como parte intermediária, junto à sua função imaginativa, ganham superioridade. Para Sinésio, a fantasia é o "sentido dos sentidos (...) o mais geral órgão do sentido e o primeiro corpo da alma"."Se a visão de Deus é o bem maior, então a fantasia da felicidade é peculiarmente distinta. Aqui o sentido da sensibilidade torna-se óbvio; é o espírito da fantasia, abrangendo todos os sentidos (communissimus omnium sensus), o primeiro corpo da alma." ―Sinésio, Patrologia Graeca 66, p. 1289 B, C.Nesse contexto, os objetos da fantasia são considerados mais próximos da realidade do que os objetos do sentido do mundo externos (considerados como adquiridos por intermediários falíveis). Essa tendência se encontra também posteriormente nos filósofos islâmicos. Marsilio Ficino (1433–1499) irá expandir o sentido da fantasia, colocando-a num patamar superior em relação à imaginação, no processo de ascensão racional da alma até ao entendimento do Criador. Para ele, diferente da imaginação, a fantasia intui essências incorpóreas, como beleza e bondade. Em um exemplo, ele descreve:"Mesmo quando Platão está ausente, Sócrates pensa nele por meio de sua imaginação interior: a cor e a forma que ele viu, a voz suave que ouviu e tudo o mais que percebeu por meio dos cinco sentidos. Essa imaginação se eleva acima da matéria, mais do que a sensação, tanto porque, para pensar nos corpos, não precisa de sua presença, como também porque, como uma faculdade, pode fazer tudo o que os cinco sentidos fazem. Mas não é totalmente pura, porque só pode saber o que a sensação percebe ou concebe. A sensação é concernente aos corpos; a imaginação, às imagens dos corpos percebidos ou concebidos através dos sentidos. Pouco depois, Sócrates começa, por meio de sua fantasia, a fazer o seguinte julgamento sobre a semelhança geral de Platão que a imaginação reuniu por meio dos cinco sentidos: 'Quem é este homem com um corpo tão nobre, testa ampla, ombros largos, tez clara, olhos brilhantes, sobrancelhas levantadas, nariz aquilino, boca pequena e voz gentil? Este é Platão, um homem de boa aparência e um discípulo muito querido.' Você vê o quanto a fantasia de Sócrates supera sua imaginação. A imaginação montou a imagem de Platão, mas não sabia a quem ou a que tipo de homem a imagem se aplicava. A fantasia agora discerne que é a imagem desse homem chamado Platão, uma bela imagem de um bom homem e amigo." ―Marsilio Ficino, Teologia Platônica VIII, 1 esquerda|miniaturadaimagem|330x330px|"O médico curando fantasia", gravura por Matthaeus Greuter (c. 1600). Uma representação satírica de cura da loucura, extraindo-se fantasias. Também durante a Renascença, a fantasia foi considerada por diversos escritores modernos, como Montaigne e Shakespeare, como podendo afetar a saúde mental e física de diversas formas. Assim, os termos "fantasia" e "fantasmas" ganharam também uma conotação negativa, em que as patologias da faculdade imaginativa (tal como o seu excesso) eram analisadas por médicos, filósofos, demonologistas e teólogos. A alucinação imaginativa e a melancolia eram frequentemente associadas desde a Antiguidade, conforme a teoria dos humores, mas foram em particular os médicos do século XVII que abordaram o delírio fantástico de forma pandêmica.

Muito da demonologia se baseava na opinião de Santo Agostinho, segundo o qual demônios produziam imagens que, embora irreais, podiam afetar os sentidos como se fossem corpóreas: ele relatou, também, o exemplo de alguém acordado que vira uma imagem fantasmática, proveniente de alguém que a estava vendo em estado de sono (phantasticum); e também na opinião de Tomás de Aquino, que era concordante com essa opinião de Agostinho e afirmava que demônios não produziam milagres. Assim, Pierre Le Loyer afirmou que o diabo "apoderando-se do cérebro com a permissão de Deus, confunde os humores, dissipa os sentidos, cativa o intelecto, ocupa a fantasia, obscurece a alma, (...) e produz maravilhas que não se pode acreditar que viriam naturalmente de um corpo humano". Segundo o bispo Angelo Rocca, os demônios manipulavam o organum phantasticum (órgão da fantasia), e Prospero Lambertini (que se tornou o Papa Bento XIV) em sua obra De Imaginatione, et ejus viribus diferenciava os milagres genuínos e os efeitos orgânicos produzidos por fantasia (que lhe era sinônima de imaginação): assim, considerava as alegadas ressurreições de vampiros como "ficções fantasiosas enganadoras" (deceptae phantasiae figmenta).

Psicologia moderna

Desenvolvimentos iniciais Kant distinguia a imaginação (Einbildungskraf) em duas: reprodutiva e produtiva. A primeira seria a responsável pela pela função de síntese (reunir múltiplas impressões em uma unidade), enquanto a última serviria para conectar o sensível à categoria transcendental do entendimento. Goethe, de uma forma romântica e em contraste com Kant, descreve a fantasia (Phantasie) como uma das quatro faculdades da alma e propõe que ela se associe às faculdades racionais, pois poderia fornecer intuição sobre aspectos escondidos ou internos da Natureza. Os conceitos de Goethe e Kant serão adotados pelos teóricos da psicologia moderna.

Carl Gustav Carus, em Palestras sobre a Psicologia (1831), distinguirá a imaginação reprodutiva daquilo que especifica como "Phantasie": "a fantasia é uma imaginação criadora, um apelo a representações para vestir de alguma forma ideias emergentes da alma, em que essas representações [...] sofrem modificações essenciais". Ela ganha dimensão central em sua obra Psyche (1846), na qual expõe um progresso do desenvolvimento da alma e a fantasia é afirmada como núcleo básico originador das artes e ciências: "na medida em que a mente consegue criar algo novo, chamamos esse nível de Fantasia". Ernst Stiedenroth, em sua obra de psicologia de 1824, também vê a fantasia como se misturando ao pensamento e completando o intelecto, pois ela serviria para ser analisada posteriormente pela razão.