A jataí-amarela (Tetragonisca angustula), ou simplesmente jataí, é uma abelha social da subfamília dos meliponíneos, de ampla distribuição no Brasil. Apresenta cabeça e tórax pretos, abdômen escuro e pernas pardacentas. Mede até quatro milímetros de comprimento. Constrói ninhos de cera em espaços ocos na natureza. A entrada do ninho tem o formato de um dedo de luva e é, geralmente, ramificada (motivo pelo qual a espécie também é chamada "sete-portas" e "três-portas"). Ela é fechada quando algum perigo se aproxima, como uma abelha iratim ou uma formiga. Tem o hábito de morder a roupa das pessoas e de se enroscar nos cabelos se for provocada, mas não tem ferrão, sendo considerada uma abelha dócil e de fácil manejo pelos meliponicultores. Produz mel claro, de aroma suave e muito valorizado; porém escasso.
A jataí-amarela se diferencia da jataí-do-sul (Tetragonisca fiebrigi) pela cor da lateral do tórax. A T. angustula a possui mais escura, até mesmo preta, enquanto na T. fiebrigi, a lateral do tórax é amarelada.
Outros nomes e etimologia Esta espécie de abelha também é chamada de jataí-amarela, abelha-ouro, jataí, abelha-mirim, mosquitinha-verdadeira, sete-portas, três-portas, abelha de botas e minguinho. "Jataí" e "jati" procedem do tupi antigo îate'i.<ref>NAVARRO, E. A. Dicionário de Tupi Antigo: a Língua Indígena Clássica do Brasil. São Paulo. Global. 2013. p. 164.</ref>
Nomes vernáculos UmutinaHUARE, D. T. Léxico remanescente Umutina — repertório linguístico de seus lembrantes. 2015. 98 f. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Universidade do Estado de Mato Grosso. 2015.: julô SabanêAntunes de Araújo, Gabriel. 2004. A Grammar of Sabanê: A Nambikwaran Language. 94. Utrecht: LOT. Dissertação de Doutorado. Vrije Universiteit Amsterdam.: iwimata
Taxonomia e filogenia A T. angustula é um membro da ordem Hymenoptera, que é uma das quatro maiores ordens de insetos. É da família Apidae, que é composta de abelhas, e da subfamília Meliponíneo, que são abelhas com cestas de pólen. Junto com outras espécies na tribo Meliponini, a T. angustula é uma abelha eussocial sem ferrão. Existem cerca de 500 espécies conhecidas nesta tribo, a maioria das quais estão localizadas nos neotrópicos. A T. angustula tem duas subespécies descritas, T. angustula fiebrigi e T. angustula angustula, que têm coloração diferente em seu mesepisterno e ocupam regiões ligeiramente diferentes.
Descrição e identificação A T. angustula é uma abelha excepcionalmente pequena, com cerca de 4–5 mm. Assim como todas as outras abelhas da tribo Meliponini, não possui ferrão e tem uma reduzida venação na asa e cerdas nas pernas. A subespécie T. angustula fiebrigi tem o mesepisterno amarelo-claro, enquanto que, na T. angustula angustula, este é preto. As abelhas guardas, que compõem cerca de 1-6% de cada colmeia, pesam mais do que as abelhas forrageiras em cerca de 30% e têm cabeças comparativamente menores que as operárias, bem como pernas traseiras mais longas. Dentro da tribo de abelhas-sem-ferrão, a T. angustula tem um pronunciado dimorfismo de tamanho entre a rainha e castas operárias.
Distribuição e hábitat miniaturadaimagem|347x347px|Este é um mapa da distribuição de T. angustula, que cobre grande parte da América do Sul, juntamente com a América Central e partes do México A T. angustula tem uma grande distribuição de hábitat na América Central e do Sul. A espécie é encontrada tanto no norte, como no México, e no sul, até a Argentina. Foi rotulada como "uma das espécies de abelhas mais difundidas nos neotrópicos". A subespécie T. angustula fiebrigi é encontrada mais no hemisfério sul, ocupando partes do Brasil, Argentina, Paraguai e de outros países do sul. A subespécie T. angustula angustula tem uma presença maior no Brasil e é encontrada mais no hemisfério norte, ocupando Panamá, Venezuela, Costa Rica, Nicarágua, entre outros.
A distribuição da T. angustula sobrepõe-se a muitas outras espécies de abelhas-sem-ferrão, com uma correlação especialmente grande com a distribuição da Paratrigona subnuda através da Mesoamérica. Na Mata Atlântica, o desmatamento para plantações de cana-de-açúcar é extensivo e contribui para a raridade da T. angustula nessa área, assim como da abelha-sem-ferrão Melipona scutellaris.Ninhos para T. angustula são encontrados em muitas configurações diferentes. Seus ninhos são os ninhos de abelhas predominantes na recuperação de hábitats florestais, mas também estão presentes em florestas estruturadas, em florestas esgotadas e em ambientes urbanos. Como outras abelhas-sem-ferrão, a T. angustula encontra cavidades preexistentes, como furos em troncos de árvores, cavidades em paredes ou mesmo ninhos de formigas ou cupins abandonados, para seus novos locais de nidificação.
Ciclo da colônia A colônia de T. angustula só se reproduz uma vez por ano, ao contrário de muitas abelhas, que podem se reproduzir três ou quatro vezes em um ano. O maior ciclo de colônia ocorre durante o verão na América do Sul, com a maioria das novas incubações ocorrendo entre dezembro e março. Esta época do ano coincide com as melhores condições de forrageamento, que asseguram que alimentos suficientes podem ser fornecidos para as larvas. Cada colônia tem uma rainha reprodutora para acasalar e pôr ovos.
Enxameação As colônias são fundadas por enxameamento. Uma jovem rainha e uma pequena fração de trabalhadoras deixam o ninho da mãe para um novo local de ninho. Antes de enxamear, as abelhas exploradoras exploram cavidades adequadas na área que rodeia o ninho da mãe. A exploração geralmente dura entre dois dias e duas semanas. Os novos locais de ninho estão a poucas centenas de metros do ninho da mãe para permitir o contato contínuo com o mesmo. Esse contato pode durar de uma semana até seis meses para T. angustula, sendo mais longo do que para muitas outras espécies de abelhas. Os recursos são transferidos do ninho da mãe para o novo ninho, incluindo pólen, mel e cera, mas o novo ninho continua a ter pequenos estoques em comparação com o primeiro. A cera, que vem do ninho da mãe, é usada para selar rachaduras e furos no novo local.
Uma colônia em enxameação pode ter até 10 mil abelhas, mas menos de 10% se deslocam para o novo ninho. Algumas trabalhadoras ajudam a instalação da colmeia no novo local e depois retornam ao ninho da mãe dentro de alguns dias. A colônia da mãe não pode produzir outro enxame enquanto o novo ninho é dependente dela. Então, assim que o novo ninho estiver pronto, a conexão é cortada.
Construção do ninho thumb|250px|left|Abelha T. angustula na entrada de cera de sua colmeia thumb|250px|left|Abelha T. angustula na entrada de cera de sua colmeia
Uma vez que um local de ninho é encontrado, a cavidade existente deve ser limpa. Depois que o recipiente preexistente está pronto para ser habitado, os trabalhadores constroem vários favos de cria horizontais no centro do ninho. Esta câmara de cria é cercada por camadas de cera, chamadas de invólucro, o que ajuda a manter um clima constante na câmara de incubação.
Abelhas-sem-ferrão adicionam um tubo de entrada distinto aos seus ninhos. Este tubo também é feito de cera e é pensado para auxiliar na proteção contra predadores. O tubo é, em média, de 2 cm de comprimento e 0,6 cm de diâmetro e geralmente é fechado durante a noite. As abelhas soldado são vistas guardando esta entrada a todas as horas.
Comportamento
Acasalamento Depois que o ninho é limpo e construído, a rainha virgem deixa o ninho para encontrar um companheiro. Antes de partir, a rainha executa um "voo de orientação" para ajudá-la a encontrar a colmeia após o acasalamento. Este voo é uma série de círculos no ar com a cabeça da rainha de frente para a entrada do ninho. A rainha virgem parte para seu voo nupcial com idade em torno de 7 a 15 dias. Em alguns casos, as rainhas saem em um segundo voo nupcial, acasalando com outro macho. alt=Enxameação de jataí.|miniaturadaimagem|Machos de abelha jataí nas proximidades de uma nova colmeia que está se estabelecendo aguardam a chegada da princesa para realizar o voo nupcial Acredita-se que os machos se juntem de muitas colônias diferentes para formar agregações reprodutivas compostas por centenas de machos, o que proporcionaria à rainha a oportunidade de comparar múltiplos companheiros e encontrar o melhor candidato. Agregações maiores também podem ser mais bem-sucedidas em atrair rapidamente uma rainha devido ao aumento da quantidade de feromônio masculino presente, tornando o voo nupcial mais curto. As rainhas tendem a retornar ao ninho de 2 a 7 dias após sairem para acasalamento, para então iniciar a ovoposição.
Divisão do trabalho Como muitas outras espécies de abelhas-sem-ferrão, as trabalhadoras da T. angustula participam de diferentes atividades com base na idade. O tempo médio de vida das abelhas operárias é de cerca de 21 dias, mas muitas vivem até cerca de 60 dias. As primeiras tarefas que as abelhas operárias desempenham incluem cortejar a rainha (ficando à sua volta na colmeia) e ajudar na oviposição (ver seção sobre cuidados com as crias). As abelhas jovens (entre 1 até cerca de 15 dias de idade) também ajudam a colocar cera nos favos de ninho e a limpá-lo. O comportamento de forrageamento começa cerca de 16 dias após o surgimento de uma abelha operária e continua para o resto de sua vida. O comportamento de higienização e a manipulação de resina são mais comuns em abelhas "antigas", com cerca de 20 a 55 dias de idade.
As abelhas operárias realizam muitas atividades ao longo de suas vidas, e, apesar da idade dividir as operárias trabalhadoras entre diferentes tarefas, há uma grande sobreposição de atividades entre elas. As abelhas operárias não protegem a colmeia, uma vez que este trabalho é deixado para abelhas soldado, que são maiores.
Cuidados com as crias O comportamento de cuidados das crias, juntamente com a oviposição, é conhecido como processo de aprovisionamento. Antes da ocorrência da oviposição, os trabalhadores enchem as células da colmeia de alimentos. Uma vez que o ovo é colocado na célula, ele fica coberto e não tende a mudar. Assim, quaisquer diferenças entre as abelhas durante seu desenvolvimento inicial devem vir de diferenças no ambiente dentro de suas células. O tamanho das células e a quantidade de alimento em cada uma são os principais fatores determinantes do tamanho e do papel da abelha que se desenvolve dentro delas. Portanto, as operárias da T. angustula cumprem seu maior papel antes de um ovo ser colocado em uma célula.
Operárias, machos, soldados e rainhas são todos morfologicamente distintos na T. angustula, e essas diferenças resultam dos variados ambientes de desenvolvimento encontrados na célula.
Operárias A porcentagem média de trabalhadoras em um ninho da T. angustula é de cerca de 83,6%. Embora os índices possam mudar ligeiramente entre cada ninho, as operárias compõem a maior parte de cada ninhada. O tamanho das células e o consumo de alimentos geralmente são vistos como base para comparações, já que a maioria das células em um ninho é para operárias.
Soldados alt=Soldado jataí.|esquerda|miniaturadaimagem|Soldado da abelha jataí paira em frente ao tubo de entrada da colmeia Das operárias produzidas, cerca de 1-6% são de tamanho de soldado. Os soldados ocupam as células no centro do favo e as abelhas operárias enchem essas células com comida extra em relação aos trabalhadores normais. Este é um exemplo em que a disponibilidade nutricional durante o desenvolvimento afeta o desenvolvimento de larvas.
Machos Uma troca é vista entre a produção de operárias e machos dentro de uma ninhada. Os machos são produzidos em níveis mais altos quando a disponibilidade de alimentos aumenta, porque eles recebem mais alimentos em suas células, o que significa que os machos são geralmente produzidos no final do verão (de fevereiro a abril), quando os alimentos são abundantes. Cerca de 16,3% de uma ninhada é constituída por machos, mas isso muda dependendo da estação.