A tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa) é uma tartaruga fluvial (Morfologicamente, é um cágadomundoestranho.abril.com.br/ Qual é a diferença entre tartaruga, jabuti e cágado?), da família Podocnemididae, encontrada no rio Amazonas e seus afluentes.

É uma espécie de grande porte, sendo que os maiores exemplares chegam a alcançar 90 cm de comprimento ou mais. Possui casco preto acinzentado no dorso, e amarelo com manchas escuras na parte ventral. A carne e os ovos são bastante apreciados, constituindo a base de diversos pratos da culinária amazônica. Também é conhecida pelos nomes de araú, jurará-açu e tartaruga-do-Amazonas.

Todas as tartarugas do gênero Podocnemis se encontram atualmente no Anexo II da Convenção CITES, assinada por mais de 100 países em todo o mundo, pelo que o seu comércio e utilização obedece a regras muito restritas.

Etimologia O termo “jurará-açu” advém do dialeto tupi antigo, em que “jurará” é derivado da “iurará”, que significa cágado ou quelônio; e o termo “açu”, tido como adjetivo para algo grande, originando o nome “jurará-açu” ou “cagado grande”.CARVALHO, M. B. Dicionário tupi (antigo) – Português. [S.l.: s.n.], p. 324, 1987. No mais, a origem desse nome ainda remete à deusa da mitologia tupi-guarani, Jurará-açu, que foi transformada em tartaruga por Tupã como punição por ter libertado Anhangá da prisão.

Já Podocnemis, do grego antigo, é uma junção de “podós”, que significa pé, e “knemís” originário de greva (componente de armaduras antigas que cobria a perna), em razão das grandes escamas presentes no animal. E expansa advém de expansão, exprimindo a sua característica mais marcante, o grande tamanho de sua carapaça.

Taxonomia e Sistemática A tartaruga-da-amazônia se enquadra na ordem dos Testudines, na subordem Pleurodira. Apesar do nome tartaruga, é na realidade um cágado. As espécies que compõem a ordem Testudine teriam desenvolvido seu modo de vida há 240 milhões de anos, no Triássico, tendo o casco com seu trunfo.ALIBARDI, L.; THOMPSON, M. Epidermal differentiation during carapace and plastron formation in the embryonic turtle Emydura macquarii. Journal of Anatomy, London, v.194, p 531-545, 1999. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1467953/. Acesso em 28 abr. 2021.

De acordo com levantamentos arqueológicos, sabe-se que o gênero Podocnemis é presente na América do Sul pelo menos desde o cenozoico, e hoje ainda existem 6 espécies do gênero descritas, incluindo a Pondocnemis expansa.CADENA, E et al. Podocnemididae and Chelidae turtles from the early Miocene, Middle Magdalena Valley, Colômbia: the oldest record of Podocnemis and Chelus in South America. Journal of Vertebrate Paleontology 26(3): 47A. 2006 Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/276467209_Early_to_Middle_Miocene_Turtles_from_the_Northernmost_Tip_of_South_America_Giant_Testudinids_Chelids_and_Podocnemidids_from_the_Castilletes_Formation_Colombia. Acesso em: 28 abr. 2021.

O descritor da tartaruga-da-amazônia foi Schweigger, no ano de 1812, a quem se atribui a nomeação oficial do animal. Ainda assim, pode-se encontrar sinônimos como: Emys amazonica, Hydraspis bitentaculata, Testudo Arrau.ITIS. Pondocnemis expansa., 2021. Disponivel em: https://www.itis.gov/servlet/SingleRpt/SingleRpt?search_topic=TSN&search_value=202120#null. Acesso em: 29 abr. 2021.

Distribuição geográfica e habitat A tartaruga-da-Amazônia é endêmica da América do Sul e apresenta distribuição ampla nos afluentes do rio Essequibo, Orinoco e por toda a Bacia Amazônica, com presença nos rios do Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Suriname, Peru e Venezuela.ERNST, C. H. et al. Turtles of the World. Smithsonian Institution Press. p. 313, 1989.VOGT, R. C. Tartarugas da Amazônia. Lima. p. 104, 2008.FERRARA, C.R. et al. Quelônios Amazônicos, Guia de identificação e distribuição. Wildlife Conservation Society: Manaus - AM, p. 182, 2017.

Seu habitat é majoritariamente aquático, vivendo essencialmente em ambientes de águas claras, e podem ser encontradas em menor número em águas escuras e até mesmo em lagoas localizadas em florestas. Essa espécie pode exibir grande variação de habitat, principalmente em resposta às alterações na precipitação, com deslocamento para florestas alagadas durante as estações chuvosas, consumindo os frutos e sementes que caem na água. Já nos períodos de seca, deslocam-se para rios em busca de praias para reproduzirem-se.SOUZA F. L. Uma revisão sobre padrões de atividades, reprodução e alimentação de cágados brasileiros (Testudines, Chelidae). Phyllomedusa, Piracicaba, v.3, n.1, p.15-27, 2004.RUEDA-ALMOCID, J. V. et al. Las tortugas y los cocodrilianos de los países andinos Del tropico. Bogotá: Panamericana, 2007.

Biologia e história natural Características da espécie miniaturadaimagem|290x290px|Indivíduo de P. expansa, no Zoológico de São Paulo. Autor: Mike Peel. A tartaruga-da-amazônia (P. expansa) é considerada a maior espécie do gênero Podocnemis e a maior espécie de tartaruga de água doce da América do Sul. As fêmeas podem ser conhecidas como “tartarugas”, os machos como “capitarí”, os indivíduos grandes como “careta”, juvenis como “chapanera”, filhotes como “pocera”, entre outros nomes para a espécie em geral: Jipú, Harra, Arrau, Tortuga, Kuwe, Kubee, Tsapanilu, Tsapeindu.

esquerda|miniaturadaimagem|296x296px|Podocnemis expansa em tabuleiro Monte Cristo, Pará. Fonte: IBAMA

Seu peso pode chegar a 90kg, apesar de ser cada vez mais raro encontrar indivíduos muito grandes e pesados no Brasil, mesmo em áreas de desova.CANTARELLI, V. H. Alometria reprodutiva da tartaruga-da-Amazônia (Podocnemis expansa): bases biológicas para o manejo. Doutorado, Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Universidade de Sao Paulo, Piracicaba, SP, Brazil. 2006. Uma de suas principais características é a estrutura do seu casco. O casco ósseo é coberto por placas córneas, compreende a carapaça achatada, com manchas escuras (pretas, laranjas, marfim), formada por 37 escudos, e a região do plastrão com 13 escudos,IBAMA - Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis. 1989a. Projeto Quelônios da Amazônia - 10 anos. IBAMA, 119 pp. especializados para natação em correntes moderadas nos rios.RIVAS, D. Podocnemis expansa (Arrau Sideneck Turtle). The Online Guide to the Animals of Trinidad and Tobago. 2015. Disponível em: https://sta.uwi.edu/fst/lifesciences/sites/default/files/lifesciences/documents/ogatt/Podocnemis_expansa%20-%20Arrau%20Sideneck%20Turtle.pdf. Acesso em: 30 abril 2021. A cor do casco pode variar de marrom, cinza e verde oliva, e possuem um longo pescoço.

A espécie apresenta acentuado dimorfismo sexual, sendo a fêmea maior que o macho. No macho adulto, a carapaça é mais estreita, apresenta entre 40 e 50cm de comprimento e entre 30 e 38cm de largura, além de apresentar cauda maior. Em contraste, na fêmea adulta, o comprimento da carapaça é de aproximadamente 64-71cm, com largura de 43-55cm.OJASTI, J. Wildlife utilization in Latin America: Current Situation and prospect for sustainable management. Rome: Food and Agriculture Organization of the United Nations. 1996. Além disso, nos machos a placa anal se apresenta em formato "U", e nas fêmeas se apresenta em formato "V".

Ainda, nos indivíduos mais jovens pode-se observar a presença de manchas amarelas na região da cabeça, assim como nas fêmeas, que, em contrapartida, perdem a coloração da cabeça de amarelo para marrom ao longo dos anos. Suas patas anteriores possuem cinco unhas, enquanto as patas posteriores possuem quatro unhas. Na cabeça de cada indivíduo pode-se observar padrões, únicos para cada um e análogos a impressões digitais. miniaturadaimagem|265x265px|Estrutura óssea Podocnemis expansa. Autor: David J Stang. Possui hábitos diurnos, incluindo forrageamento, todavia a postura de ovos ocorre no período noturno.

Alimentação A tartaruga-da-amazônia é generalista e teoricamente onívora, mas sua alimentação é muito diversificada, e alimenta-se predominantemente de forma herbívora (especialmente na fase adulta). Sua alimentação difere em função da sazonalidade e disponibilidade dos recursos.CUNHA, F. L. R. Dieta de quatro espécies do gênero Podocnemis (Testudines, Podocnemididae) na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uatumã, Amazonas, Brasil. 2013. 71 f. Dissertação (Mestrado em Ecofisiologia, Ictiologia, Mamíferos aquáticos, Recursos pesqueiros, Aquacultura, Sistemática e Biol) - Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Manaus, 2013.

Nas épocas de cheias, alimenta-se principalmente da vegetação em lagos ou lagoas e partes inundadas de mata, frutas, sementes, legumes, folhas; sua alimentação pode incluir também esponjas de água doce, ovos, peixes mortos e outros restos animais. Nas épocas de seca, a alimentação pode incluir folhas, troncos, talos, sedimentos, detritos, ou cascas de árvores.GARCEZ, J. R. Alimentação de tracajá (Podocnemis unifilis), iaçá (Podocnemis sextuberculata) E tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa) no rio Juruá, Amazonas. Manaus: UFAM, 2012. 59 f.; il. color.

Por outro lado, a fêmea, durante a época de reprodução, quase não se alimenta ou não se alimenta, deixando seu estômago vazio ou com algas filamentosas, enquanto os filhotes recém-nascidos se alimentam de vegetação e de peixes, apesar de apresentarem enzimas típicas de animais de dieta herbívora.

Já foi, ainda, observada diferenciação entre a alimentação de machos e fêmeas - em análises estomacais, as fêmeas possuíam maior quantidade de frutos, enquanto machos apresentavam maior quantidade de sementes.PEDRICO, A.; MALVASIO, A. Dieta de Podocnemis expansa e P. Unifilis procedentes do entorno do Parque Nacional do Araguaia. Anais da 57ª Reunião Anual da SBPC - Fortaleza, CE. 2005.

Reprodução e ciclo de vida miniaturadaimagem|324x324px|Período reprodutivo de P. expansa, tabuleiro de Monte Cristo, Pará. Autor: IBAMA. A estimativa de vida em cativeiro é de aproximadamente 25 anos, enquanto em vida livre excede os 20 anos.ROSAMOND GIFFORD ZOO EDUCATION VOLUNTEERS. Giant South American Turtle. 2006. Disponível em: http://www.rosamondgiffordzoo.org/assets/uploads/animals/pdf/GiantSouthAmericanTurtle.pdf. Acesso em: 30 abril 2021. Indica-se que para serem considerados indivíduos adultos, as fêmeas devem apresentar comprimento linear da carapaça por volta de 500mm, e machos devem apresentar um valor de 350mm. São animais ovíparos, as fêmeas chegam à idade reprodutiva em 4 ou 5 anos, ou em até 8 anos (há indicações de que a maturidade sexual esteja mais ligada ao tamanho corporal do que à idade), e podem depositar entre 100 e 150 ovos por ano. Normalmente, o tamanho corporal da mãe, o peso dos ovos e tamanho da ninhada são diretamente proporcionais – quanto maior a mãe, maior o peso dos ovos e maior a ninhada.BONACH, K. Manejo de ninhos de tartaruga-da-amazônia. 2003. Tese (Doutorado em Ecologia de agroecossistemas). Universidade de São Paulo. 2003.

A época de nidificação acompanha a época mais seca dos rios, e o período de desova varia em função da localização geográficaIBAMA. Manejo conservacionista e monitoramento populacional de quelônios amazônicos. Ministério do Meio Ambiente, 2016.:

Rio Araguaia e Rio Trombetas: setembro-outubro. Rio Tapajós: outubro-novembro.PRITCHARD, P. C. H.; TREBBAU, P. 1984. The Turtles of Venezuela. Society for the study of amphibians and reptiles. 403 pp.

De maneira geral, no Brasil, o período de migração para os tabuleiros é de junho a agosto, e a desova e eclosão entre agosto e dezembro.