Francisco Glicério de Cerqueira Leite (Campinas, — Rio de Janeiro, ) foi um comerciante, professor, advogado, jornalista e político brasileiro. Destacou-se como republicano no fim do século XIX, sendo admitido como a Encarnação do Partido Republicano Paulista ou como o General das 21 brigadas

Família e formação Francisco Glicério de Cerqueira Leite nasceu em 15 de agosto de 1846, em Campinas, sendo filho de Antônio Benedito de Cerqueira Leite e de Maria Zelinda da Conceição Cerqueira. Seu pai era descendente de antigas famílias paulistas, os Garcia Velho e os Silva Leme; sua mãe era ex-escrava. Fez seus estudos primários na sua cidade natal, seguindo para um seminário em São Paulo.ARQUIVO MUNICIPAL. FRANCISCO GLICÉRIO. Portal de Campinas. Disponível em:https://web.archive.org/web/20140910152045/http://campinasnostalgica.wordpress.com/2014/06/16/francisco-glicerio-de-cerqueira-leite/. Acesso em: 24 de março de 2025.

Seguiu para a Faculdade de Direito, em 1862, porém, com o falecimento do pai, voltou para Campinas, com dificuldades financeiras.RIBEIRO, Antônio Sérgio. GLICÉRIO, Francisco. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/GLIC%C3%89RIO,%20Francisco.pdf. Acesso em: 24 de março de 2025. Ao lado de alguns amigos, como Campos Sales e Rangel Pestana, tornou-se um fervoroso propagandista republicano.FREIRE, Américo. SALES, Campos. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/SALES,%20Campos.pdf. Acesso em: 24 de março de 2025RIBEIRO, Antônio Sérgio. PESTANA, Rangel. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/PESTANA,%20Rangel.pdf. Acesso em: 24 de março de 2025

Trabalhos e casamento

Conseguiu um emprego numa tipografia, em Campinas, sendo promovido, depois, a revisor de jornal; chegou a trabalhar, também, como comerciário. O compadre de seu pai, o fazendeiro republicano Francisco de Paula Sales, pai de Campos Sales, ofereceu-lhe o emprego de professor de primeiras letras, em São João do Rio Claro, do qual aceitou. Ao voltar para Campinas, virou escrevente de cartório e depois recebeu o título de "advogado provisionado". Na função de advogado, estudou diversos sistemas de organização política, reforçando seus ideais. Em 1867, entrou para a recém-fundada Loja Maçônica Independência de Campinas.

miniaturadaimagem|Retrato de Francisco Glicério e família. Era casado com Adelina Melloni, de origem francesa. Tinha como filhos: Clotilde Glicério de Freitas, casada com o dr.Uladisláu Herculano de Freitas Guimarães, grande político paulista; Dr. Clóvis Glicério, engenheiro industrial, casado com Lucilla Rocha Glicério; Henriqueta Glicério; por fim, Maria Zelinda Glicério.RIBEIRO, Antônio Sérgio. FREITAS, Herculano de. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/FREITAS,%20Herculano%20de.pdf. Acesso em: 24 de março de 2025.

O Clube Radical e o ideal republicano

Em 1868, entrou no Clube Radical, ao lado dos amigos Luís Gama, Bernardino de Campos, Prudente de Morais, Américo de Campos, Antônio Lobo, Martinho Prado Júnior e Campos Sales.MELO, Demian de. CAMPOS, Bernardino de. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/CAMPOS,%20Bernardino%20de.pdf. Acesso em: 24 de março de 2025.LANG, Alice Beatriz. MORAIS, Prudente de. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/MORAIS,%20Prudente%20de.pdf. Acesso em: 24 de março de 2025.RIBEIRO, Antônio Sérgio. PRADO, Martinho. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/PRADO,%20Martinho.pdf. Acesso em: 24 de março de 2025. O grupo era republicano e abolicionista. No ano seguinte, surge o Radical Paulistano, jornal vinculado ao grupo, além do Gazeta de Campinas, fundado pelo mesmo fundador do Correio Paulistano, situado na capital. Trabalhariam, na redação do segundo, Francisco Glicério e Campos Sales.

Apesar da mais ampla liberdade de opinião vigente no Segundo Reinado, nunca se havia pensado na criação de um Partido Republicano. Somente no ano do término da Guerra do Paraguai, alguns liberais aliados a alguns jovens que ainda não haviam participado de atividades políticas assinaram, em 3 de dezembro de 1870, um manifesto republicano, fundando um clube e um jornal com essa tendência política. A partir disso, surge o Partido Radical que recebeu adesões em boa parte da província.

Em 1871, Glicério estabelece um escritório de advocacia, é eleito segundo-secretário da Sociedade Propagadora da Instrução, além de assumir como secretário da Santa Casa de Misericórdia e participar da fundação da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Fez parte, também, da organização da Companhia Campineira de Águas e Esgotos, uma iniciativa privada ao combate da febre amarela. Ainda fundaria, ao lado do velho amigo Campos Sales e de dissidentes de partidos monarquistas, o Colégio Culto à Ciência. Assim, Francisco Glicério construiu sua popularidade e o republicanismo em sua província.

Em 18 de abril de 1873, participou da célebre Convenção de Itu e, em 1° de julho, de uma convenção na cidade de São Paulo. Ao lado de diversos políticos, assinou o manifesto do Partido Republicano Paulista. Glicério ficou conhecido como o maior propagandista republicano de São Paulo; Glicério era a encarnação do Partido Republicano Paulista. O partido tentou comprar o Correio Paulistano, tentativa falha que resultou na fundação do jornal A Província de São Paulo, oficial do PRP, que começou a circular em 1875 e que originou O Estado de S. Paulo.

Glicério foi responsável por organizar o Diretório Republicano de Campinas. Apesar da fracassada eleição de 1876, que não rendeu a eleição de sequer um deputado, tanto geral quanto provincial, Campos Sales foi eleito para a Câmara Municipal de sua cidade natal, graças aos esforços do advogado. Todavia, não desistiu da campanha, passando a disseminar, mais ainda, seus ideais para diversos jornais, dentre eles o Jornal do Comércio, no Rio de Janeiro. Ademais, conquistou diversos jovens do interior paulista, como Júlio de Mesquita, Carlos de Campos, Alfredo Pujol e Alberto Sarmento, conhecidos como os mosqueteiros de Glicério.RIBEIRO, Antônio Sérgio. MESQUITA, Júlio de. FGV. Disponível em: https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/MESQUITA,%20J%C3%BAlio%20de.pdf. Acesso em: 26 de março de 2025. RIBEIRO, Antônio Sérgio. CAMPOS, Carlos de. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/CAMPOS,%20Carlos%20de.pdf. Acesso em: 26 de março de 2025.LOPES, Raimundo Hélio. PUJOL, Alfredo. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/PUJOL,%20Alfredo.pdf. Acesso em: 26 de março de 2025.

Em 1878, uma empresa de tração de animais, foi fundada em Campinas, contando com o apoio e investimento de Glicério, que logo no ano seguinte passou a integrar a direção. Em 1881, foi eleito vereador em Campinas.

Carreira política no Império Eleito em 1881, continuou como grande articulador republicano em São Paulo, elegendo, em 1882, seis deputados provinciais. Após a vitória, organizou-se uma comissão para organizar as celebrações, em Campinas, da qual Glicério compôs. Os resultados continuaram sendo esperançosos, pois, em 1884, foram eleitos três deputados federais, entre eles: Prudente de Morais e Campos Sales, ambos por São Paulo. Deixou o cargo em 1884, após o término da legislatura.

O Golpe da República

Em 1887, quando Dom Pedro II estava doente na Europa, reuniu-se com Júlio de Castilhos, líder republicano gaúcho, na expectativa de pressionar a princesa Isabel sobre a abolição.Assim como foi feito em São Borja, Glicério leu, em 1888, um manifesto do Diretório de São Paulo, propondo ao povo que em caso de morte do imperador, todos fossem convocados para decidir se queriam o terceiro Reinado da princesa Isabel, ou um novo regime. No mesmo ano, evitando uma catástrofe maior, foi assinada a Lei Áurea, extinguindo a escravidão no Brasil.ARQUIVO NACIONAL. LEI N°3.353, DE 13 DE MAIO DE 1888. Disponível em:https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lim/lim3353.htm. Acesso em: 30 de março de 2025.

Em 1889, tentou se eleger deputado geral, perdendo para um candidato conservador, apoiado por partidários e liberais. Após o fracasso republicano com o povo, era hora de dar um golpe. No início de novembro, foi à cidade de São Paulo, onde se reuniu com Campos Sales e Bernardino de Campos. Lá, recebeu notícias da Corte, encaminhadas por Aristides Lobo. Foi direto ao Rio de Janeiro, e, em 10 de novembro, reuniu-se na casa do marechal Deodoro da Fonseca, onde se encontrava Aristides Lobo, Quintino Bocaiuva, Ruy Barbosa, o coronel Benjamin Constant, o major Frederico Sólon de Sampaio Ribeiro e o tenente João Tomás de Cantuária. Nessa noite, decidiu-se a ruína do Império Brasileiro e o início da República.LEMOS, Renato. FONSECA, Deodoro da. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/FONSECA,%20Deodoro%20da.pdf. Acesso em: 30 de março de 2025.PINTO, Surama Conde Sá. LOBO, Aristides. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/LOBO,%20Aristides.pdf. Acesso em: 30 de março de 2025.LEMOS, Renato. BOCAIUVA, Quintino. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/BOCAIUVA,%20Quintino.pdf. Acesso em: 30 de março de 2025.LEMOS, Renato. CONSTANT, Benjamin. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/CONSTANT,%20Benjamin.pdf. Acesso em: 30 de março de 2025.ALENCAR, José Almino de. BARBOSA, Rui. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/BARBOSA,%20Rui.pdf. Acesso em: 30 de março de 2025.CASTRO, Celso. Proclamação da República. FGV Disponível em:https://atlas.fgv.br/verbetes/proclamacao-da-republica#:~:text=Em%2015%20de%20novembro%20de,j%C3%A1%20implica%20algumas%20ideias%20importantes. Acesso em: 30 de março de 2025.

Carreira Política na República

Vice-presidente de São Paulo

Desferido o Golpe da República, em 15 de novembro de 1889, estava na hora de formar um governo provisório. Em reunião na casa de Aristides Lobo, no mesmo dia, Glicério logo foi indicado para o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, cargo que recusou e indicou para o jornalista republicano gaúcho Demétrio Nunes Ribeiro.LOPES, Raimundo Hélio; NOLL, Izabel. RIBEIRO, Demétrio. FGV. Disponível em:https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/RIBEIRO,%20Dem%C3%A9trio.pdf. Acesso em: 5 de maio de 2025. Ainda teria indicado Quintino Bocaiuva para o Ministério das Relações Exteriores, Aristides Lobo para o Ministério do Interior e seu velho amigo Campos Sales para o Ministério da Justiça.

Em 17 de novembro, Glicério retorna a São Paulo, no intuito de organizar a política do estado. No dia anterior, uma junta governativa havia sido formada, com o deputado Prudente de Morais, o jornalista Rangel Pestana e o coronel Joaquim de Souza Mursa. Em dezembro, Prudente assumiria o governo paulista, por decreto federal, e Glicério se tornaria seu vice-presidente, juntamente com Luís Pereira Barreto.

Ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas

Devido aos desentendimentos entre Demétrio Ribeiro e o Marechal Deodoro, Glicério foi nomeado para a pasta, assumindo em 31 de janeiro de 1890. No cargo, tratou de resolver diversos problemas:

• Os relacionados à imigração, organizando o Serviço de Introdução e Localização de Imigrantes do Brasil;

• Os relacionados à colonização de algumas regiões, reorganizando a Inspetoria Geral das Terras e Colonização;

• Os gerados pelo desgaste do setor de comunicação, regulamentando a Repartição Geral de Telégrafos;

• Os relacionados à ineficiência de seu próprio ministério, criando um novo regulamento para a pasta;