A neuropsicologia é uma interface ou aplicação da psicologia e da neurologia, que estuda as relações entre o cérebro e o comportamento humano. Sua principal área de atuação é na compreensão de como lesões, malformações, alterações genéticas ou qualquer agravo que afete o sistema nervoso causam déficits (alterações) em diversas áreas do comportamento e da cognição humana. Em outras palavras, a neuropsicologia atua mais frequentemente no estudo das funções mentais superiores, sem deixar de estudar áreas como sexualidade, emoção e agressividade, que tradicionalmente são investigadas por abordagens fisiológicas e biológicas (neurobiologia, neurofisiologia, psicofisiologia, psicobiologia). Ross JM, Duperrouzel J, Vega M, Gonzalez R. The Neuropsychology of Risky Sexual Behavior. J Int Neuropsychol Soc. 2016;22(6):586‐594. doi:10.1017/S1355617716000400Gray J.A.. The neuropsychology of the emotions and personality structure. Zh Vyssh Nerv Deiat Im I P Pavlova. 1987 Nov-Dec;37(6):1011-24. PMID: 3329434Joyal, Christian & Black, Deborah & Dassylva, Benoit. (2007). The Neuropsychology and Neurology of Sexual Deviance: A Review and Pilot Study. Sexual abuse : a journal of research and treatment. 19. 155-73. 10.1007/s11194-007-9045-4. Desse modo a neuropsicologia compõe fortemente o campo das neurociências, com ênfase na neurociência cognitiva. Atribui-se tanto ao psicólogo Donald Olding Hebb (1904-1985) como ao médico William Osler (1849-1919) a proposição do termo neuropsicologia.MADER, Maria Joana. Avaliação neuropsicológica: aspectos históricos e situação atual. Psicol. cienc. prof., Brasília , v. 16, n. 3, p. 12-18, 1996 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98931996000300003&lng=en&nrm=iso>. access on 19 May 2017 right|150px|thumb|Diagrama mostrando os lobos do córtex cerebral e cerebelo.

História da Neuropsicologia left|150px|thumb|Phineas P. Gage, em daguerreótipo

Como área de interface, sua história confunde-se com a história da psicologia e a da medicina. Já eram conhecidos desde a antiguidade que pessoas que sofriam traumatismos cranianos e, muitas vezes, passavam a ter alterações em suas funções mentais, tais como a linguagem, o pensamento e a memória, chegando mesmo a provocar alterações profundas e duradouras no seu comportamento (alterações de personalidade). Há indícios de sobrevivência após trepanação em crânios encontrados desde a pré história em regiões das antigas civilizações.THORWALD, Jürgen. O segredos dos médicos antigos. SP, Melhoramentos, 1990Trepanation Guide - History Acesso Abril, 2014 O papiro de Edwin Smith,ESPINOSA, J. A. L. Una rareza bibliográfica universal: el Papiro médico de Edwin Smith. ACIMED, v. 10 n. 3, Ciudad de La Habana, Mayo-jun. 2002. Acessado em: 20 de julho de 2012. linkCOSENZA, R. M.; FUENTES, D.; MALLOY-DINIZ, L. F. A evolução das ideias sobre a relação entre cérebro, comportamento e cognição. In: FUENTES, D.; MALLOY-DINIZ, L. F.; CAMARGO, C. H. P.; COSENZA, R. M. (Orgs.). Neuropsicologia: teoria e prática. Porto Alegre: Artmed, 2008. Cap. 1, p. 15-19. que descrevem conhecimentos e procedimentos médicos do Antigo Egito (3000 AEC) e atribuídos a Imhotep, arquiteto, alto sacerdote e médico do antigo Egito, retratando alterações comportamentais e cognitivas em pacientes com traumatismos cranianos e outras patologias do sistema nervoso.

Outros povos da idade antiga também possuíam conhecimento de que havia uma relação entre o corpo e o comportamento, embora houvesse divergência de qual órgão seria a sede da alma. Os hebreus, por exemplo, defendiam a hipótese cardíaca, de que a alma residiria no coração. Aristóteles, entre os gregos, era também partidário desta tese, e caberia ao cérebro a função de refrigerar o sangue. Entretanto, já havia os que postulavam que o cérebro seria a sede do pensamento. Alcmeão de Crotona, em 500 AEC, defendeu uma relação importante entre o cérebro e os processos mentais. Cláudio Galeno, médico de centuriões, ao estudar os ferimentos de batalha identificou que lesões no crânio eram capazes de provocar danos de comportamento, linguagem, memória e na inteligência. A Igreja Católica, na idade média, aceitava a tese de que o cérebro pudesse ser a sede da alma, e destinava aos ventrículos cerebrais a nobre função de abrigar o espírito.

Estudos mais recentes, de Franz Gall e Paul Broca, no século XIX EC, associavam regiões do cérebro como responsáveis por determinadas funções mentais; havendo algum dano, haveria algum tipo de sintomatologia.MIOTTO, Eliane Correa. Neuropsicologia: conceitos fundamentais. In: MIOTTO, E. C.; DE LUCIA, M. C. S.; SCAFF, M. (Orgs.). Neuropsicologia e as interfaces com as neurociências 1 reimpr. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2010. cap. 16, p. 137-142. Um caso histórico emblemático das relações entre lesão cerebral e a alteração das funções cognitivas foi o de Phineas P. Gage. Aos 25 anos de idade, era funcionário de construção de ferrovias da Rutland & Burlington. Um acidente com explosivos, que tinha tudo para tê-lo matado, lançou uma barra de ferro que atravessou seu crânio na região frontal, deixando-o cego do olho esquerdo, mas vivo. Sempre dedicado, bom trabalhador e capaz, Gage teve severas alterações de comportamento após este acidente. Tornou-se displicente, arruaceiro e briguento, passando a ter um comportamento totalmente diferente. A literatura sugere que ele passou a ter estas alterações duradouras em seu comportamento devido às lesões, que alteraram o funcionamento do seu cérebro.DAMÁSIO, A. R. O erro de Descartes: Emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. O caso de Gage é emblemático na neuropsicologia, pois mostra as relações entre lesão cerebral e as funções cognitivas e motoras. A mudança do comportamento de Gage é atribuído à extensa lesão no lobo frontal, uma das regiões que regulam o controle dos impulsos. Lesões nesta área podem levar a um comportamento egoísta e anti-social.

O cérebro e a localização das funções mentais right|150px|thumb|A frenologia buscava relacionar as regiões do cérebro com funções como a comunicação e a moralidade No processo de desvendamento do cérebro, houve várias teorias sobre como ele deveria funcionar. Muitas destas teorias eram concorrentes. Dentre elas, ocupa destaque na história da neuropsicologia a disputa entre o localizacionismo versus o holismo ou globalismo.LENT, Roberto. Cem bilhões de neurônios: conceitos fundamentais de neurociências. Ed. rev. ampliada. São Paulo: Atheneu, 2005.

Os globalistas defendiam que as funções mentais estariam distribuídas na massa encefálica, sem estar situada especificamente numa ou noutra região. Elas seriam o resultado do funcionamento do cérebro como um todo. Alguns dados de pesquisa apoiavam esta tese, visto que a remoção de grande massa encefálica causava mais prejuízo nas funções mentais, enquanto que a remoção de massas menores, causaria danos menores ou parcialmente identificáveis. Por sua vez, os localizacionistas apostavam que as funções mentais seriam o resultado do trabalho de neurônios localizados em áreas específicas do cérebro; lesões nestas áreas causariam dano em habilidades específicas. Os trabalhos de Paul Broca (1824-1880) identificaram uma área específica do cérebro que processa a capacidade de comunicação verbal, que em sua homenagem foi chamada de área de Broca. Atualmente, está prevalecendo a tese de que o cérebro possui áreas especializadas, embora estudos mais recentes apontem que uma delimitação absoluta de regiões cerebrais seja uma utopia.NICOLELIS, Miguel. Muito além do nosso eu. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

A neuropsicologia se embasa no conhecimento do funcionamento das diferentes áreas cerebrais, buscando correlacionar na medida do possível a função à região. Essa associação permite ao profissional compreender, por exemplo, qual pode ser a extensão da lesão e, ao analisar uma tomografia, estimar quais funções executivas podem estar sendo prejudicadas.

Avaliação neuropsicológica left|150px|thumb|Modelo 3D do percurso e lesão da estrutural do crânio e cérebro de Phineas Gage em exposição na Escola de Medicina de Harvard

A avaliação neuropsicológica consiste na utilização de exame clínico, aliado a outras ferramentas diagnósticas (exames de neuroimagem, tais como tomografia computadorizada, ressonância magnética, SPECT (sigla para do inglês Single Photon Emission Computed Tomography, em português do Brasil: tomografia computadorizada por emissão de fóton único), observação do comportamento, relatos da família do paciente e a instrumentos psicológicos, como inventários e outros testes. É um processo complexo, que precisa ser conduzido caso a caso, escolhendo as técnicas mais adequadas à situação real apresentada.CUNHA, Jurema A. O ABC da avaliação neuropsicológica. In: CUNHA, J. A. et al. Psicodiagnóstico-V. 5 ed. rev. ampl. Porto Alegre: Artmed, 2000. Cap. 15, p. 171-176. A avaliação neuropsicológica é o primeiro passo para a futura reabilitação neurológica, pois irá identificar as áreas cognitivas com maior dano e, a partir disso, será elaborado o plano de tratamento.

Como em qualquer passo de avaliação, é fundamental que o profissional conheça aspectos relevantes da vida do paciente, pregressa ao aparecimento dos sintomas, bem como os dados que fundamentem a formulação de hipóteses de trabalho para, em seguida, selecionar as estratégias adequadas para a avaliação. Usualmente são avaliadas as funções de percepção, armazenamento da informação (memória), pensamento (cognição propriamente dita) e execução (funções executivas).

Essencialmente, a avaliação psicológica não difere dos métodos desenvolvidos pela psicometria desde as origens da psicologia ou psicologia cognitiva a não ser quanto a especificidade de seu objeto (as funções executivas), e por estabelecer conexões entre as funções avaliadas e a neurofisiologia. A proposição é, portanto, avaliar, identificar e detectar a integridade das funções mentais superiores: atenção, consciência, memória, linguagem e inteligência (principalmente através do exame de processos lógicos e linguagem). No passado, havia um forte esforço para tentar associar, pela avaliação neuropsicológica, um determinado déficit com uma área encefálica lesionada, mas atualmente esta busca está em segundo plano, sendo prioridade a avaliação das funções propriamente ditas (mesmo a questão da localização cerebral de forma fixa está sendo questionada por Miguel Nicolelis e outros neurocientistas, como apontado acima).

Reabilitação neuropsicológica right|150px|thumb|Além da reabilitação motora, é fundamental planejar a reabilitação cognitiva O processo de reabilitação após a ocorrência de perda ou prejuízo nas funções cognitivas é fundamental, e é orientado pelos resultados derivados da avaliação neuropsicológica. Foi após a II Guerra Mundial que o campo da reabilitação neuropsicológica passou a ser reconhecido, haja vista o elevado número de soldados que tiveram lesão cerebral. A reabilitação pode ocorrer visando as diversas funções executivas lesadas, através do uso de exercícios como palavras cruzadas, desenhos, jogos de memória e outros. Pode-se dizer que a reabilitação é um processo multidisciplinar, envolvendo vários profissionais tais como psicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e fisioterapeutas, além do médico.