thumb|250px|A palavra lésbica refere-se a mulheres que sentem atração, seja sexual ou romântica, apenas por outras mulheres. (Sappho and Erinna in a Garden at Mytilene de Simeon Solomon) miniaturadaimagem|Duplo Vênus, símbolo lésbico
Lésbica é uma mulher que sente atração, seja sexual ou romântica, por mulheres.Zimmerman, p. 453.Dicionário UNESP do português contemporâneo. UNESP. 2005. p. 837. ISBN 978-85-7139-576-3. Os termos "lesbianidade" e "lesbianismo" são usados para designar o relacionamento ou comportamento sexual ou romântico entre mulheres e/ou pessoas não-binárias (agênero, demigirls, gênero-fluido, etc.) independentemente da orientação sexual, como na expressão "casal lésbico", embora haja quem use a expressão sáfico para evitar o apagamento bissexual.
O conceito de "lésbica" para diferenciar mulheres com uma orientação homossexual é uma construção do século XX. Ao longo da história, as mulheres não tiveram a mesma liberdade e independência para possuir relações homossexuais como os homens, mas foram perseguidas com violências específicas como o estupro corretivo (para controlar comportamento social ou sexual da vítima) e até executadas quando questionaram papéis de gênero e estereótipos de gênero e se recusaram a ceder acesso ao corpo a homens. Em vez disso, as relações lésbicas têm sido muitas vezes consideradas inócuas e incomparáveis com as relações heterossexuais, por não cumprimento da função reprodutiva e submissão ao conceito de família patriarcal. Como resultado, pouco da história foi documentada para dar uma descrição precisa de como a homossexualidade feminina foi expressa. Quando sexólogos no século XIX começaram a categorizar e descrever o comportamento homossexual, dificultados pela falta de conhecimento sobre a homossexualidade e sexualidade feminina, distinguiram lésbicas como mulheres que não aderem aos papéis de gênero feminino e as designaram incorretamente como doentes mentais, designação que foi revertida mais tarde pela Organização Mundial de Saúde, em 1991.
Neste período, mulheres em relacionamentos lésbicos esconderam suas vidas pessoais ou aceitaram o rótulo de "pária" e criaram uma subcultura e identidade que se desenvolveu na Europa e nos Estados Unidos, sendo algumas executadas durante o Holocausto como associais ou lésbicas, estas lésbicas eram obrigadas a usar um triângulo preto para identificação. Após a Segunda Guerra Mundial veio um período de repressão social, os governos passaram a perseguir homossexuais ativamente e as mulheres desenvolveram redes para socializar e educar umas as outras. Maior liberdade econômica e social permitiu-lhes gradualmente serem capaz de determinar como elas poderiam formar relacionamentos e famílias. Com a segunda onda do feminismo e crescimento de bolsas de estudos em história e sexualidade das mulheres no século XX, a discussão pelos direitos lésbicos foi iniciada, o que provocou um debate sobre a atração sexual como o principal componente para definir o que lésbica é.
Retratos de mulheres lésbicas na mídia sugerem que a sociedade em geral tem sido ao mesmo tempo intrigada e ameaçada por mulheres que desafiam os papéis de gênero feminino, e fascinada e horrorizada com mulheres que estão romanticamente envolvidas com outras mulheres. Mulheres com uma identidade lésbica compartilham experiências que formam uma visão semelhante a uma identidade étnica: como homossexuais, elas são unificadas pela discriminação homofóbica e rejeição potencial que enfrentam de suas famílias, amigos e outros como resultado da lesbofobia. As mulheres lésbicas podem ter problemas de saúde física ou mental distintos decorrentes de discriminação, preconceito e estresse. As condições políticas e atitudes sociais também afetam a formação dos relacionamentos lésbicos e suas famílias.
Origem e construção do termo
thumb|esquerda|alt=Pintura de uma mulher vestida com vestes gregas sentada em um banco de mármore com árvores e água ao longe|Safo da ilha de Lesbos (Grécia), aqui interpretada em um quadro de John William Godward (1904), deu origem ao termo lésbica com a conotação do amor entre mulheres. A palavra "lésbica" vem do latim "lesbius" e originalmente referia-se somente aos habitantes da ilha de Lesbos, na Grécia. A ilha foi um importante centro cultural onde viveu a poetisa Safo, entre os séculos VI e VII a.C., muito admirada por seus poemas sobre amor e beleza, em sua maioria dirigidos às mulheres. Por esta razão, o relacionamento sexual entre mulheres passou a ser conhecido como lesbianidade ou safismo (ainda que na antiguidade grega, "lesbiázō" (λεσβιάζω) se referisse à sexualidade feminina para com um homem). Até o século XIX, a palavra lésbica não tinha o significado que hoje lhe é dado, o termo mais utilizado até então era "tríbade". Muitos termos foram usados para descrever o amor entre mulheres nos últimos dois séculos, entre os quais: amor lesbicus, safismo, tribadismo, e outros. No poema Sapphic, de Algernon Charles Swinburne, de 1866, o termo "lésbica" aparece duas vezes mas em ambas como habitantes da ilha de Lesbos. Em 1875, George Saintsbury referiu-se ao poema de Swinburne em seus "Estudos lésbicos", em que ele inclui seu poema sobre "A Paixão de Delphine", que é sobre amor entre mulheres que não alude Lesbos, apesar de ser intitulado Lesbos. Lesbianismo e lesbianidade para descrever relações eróticas entre mulheres têm sido documentados desde 1870.Zimmerman, pp. 776–777. Em 1890 o termo "lésbica" foi usado no dicionário médico com um adjetivo para tribadismo. Os termos "lésbicas", "invertidas" e "homossexual" eram utilizados com "safista", "safismo", ao longo do século XX. O uso de "lésbica" na literatura médica tornou-se proeminente; em 1925, a palavra foi registrada como um substantivo para significar o equivalente feminino de sodomita.Zimmerman, pp. 776–777."Lesbian", Oxford English Dictionary, Second Edition, 1989. Retrieved on January 7, 2009.
O desenvolvimento do conhecimento médico foi um significante fator para as conotações do termo "lésbica". Em meados do século XIX, os escritores médicos tentaram estabelecer formas de identificar a homossexualidade masculina, que foi considerado um problema social "grave" na maioria das sociedades ocidentais. Esta categorização servia para indicar o comportamento "inverso". O sexólogo alemão Magnus Hirschfeld pesquisava categorizar o que foi o comportamento sexual "normal" para um homem e uma mulher.
Por último, a literatura focava na homossexualidade feminina depois da homossexualidade masculina. Os médicos não consideravam a homossexualidade feminina um problema significante e, em alguns casos, foi tida como algo que não existia. No entanto, sexólogos como Richard von Krafft-Ebing (Alemanha) e Havelock Ellis (Grã-Bretanha) escreveram algumas das primeiras categorizações e mais duradouras sobre atração pelo mesmo sexo em mulheres, aproximando-as a uma forma de insanidade.Faderman (1981), p. . 241 Krafft-Ebing, que considerou a lesbianidade (que ele chamou de "uranismo"), uma doença neurológica, e Ellis - que foi influenciado pelos escritos de Krafft-Ebing - discordava se a "inversão sexual" era geral. Ellis acredita que muitas mulheres que professavam amor por outras mulheres mudaram seus sentimentos sobre tais relações depois de terem experimentado casamento e uma "vida prática".Faderman (1981), p. p. 242.
No entanto, Ellis admitiu que houve "verdadeiras invertidas" que iria passar a vida buscando relações eróticas com mulheres. Estes eram membros da "terceiro sexo", como a polonesa Eva Kotchever, a "rainha do terceiro sexo", foi apelidada em Greenwich Village, ou seja, mulheres que rejeitaram os seus papéis como seres humanos subservientes, femininos e domésticos.Faderman (1981), p. . 240 "Inversão" descrevia os papéis de gênero oposto e também a atração relacionada às mulheres em vez de homens; desde que as mulheres na era vitoriana foram consideradas incapazes de buscar ou querer relações sexuais, as mulheres que o fizeram com outras mulheres foram consideradas como possuindo desejos sexuais masculinos.Jennings, p. 77.thumb|"Faust's Vision" de reflete a visão do século XIX das lésbicas.|258x258px
O trabalho de Krafft-Ebing e Ellis foi amplamente lido, e ajudou a criar a consciência pública da homossexualidade feminina. As reivindicações dos sexólogos que a homossexualidade era uma anomalia congênita foram geralmente bem aceitas por homens homossexuais; isto significava que o seu comportamento não deveria ser considerado um vício criminal, como era amplamente tido. Na ausência de qualquer outro material para descrever suas emoções, os homossexuais aceitaram a designação de "diferentes" ou "pervertidos", e usaram o seu estado "fora da lei" para formar círculos sociais em Paris e Berlim. A palavra "lésbica" começou a descrever os elementos de uma subcultura.Aldrich, 178-179.
As lésbicas, nas culturas ocidentais em particular, muitas vezes classificam-se como tendo uma identidade, que define a sua sexualidade individual, bem como a sua adesão a um grupo que compartilha traços comuns. Mulheres em muitas culturas ao longo da história tiveram relações sexuais com outras mulheres, mas elas raramente foram designadas como parte de um grupo de pessoas com base em suas relações físicas. Como as mulheres têm sido geralmente minorias políticas nas culturas ocidentais. A designação médica da homossexualidade tem sido motivo para o desenvolvimento de uma identidade subcultural.Aldrich, p. 239.
A sexualidade feminina muitas vezes não é adequadamente representada em textos e documentos. Até muito recentemente, muito do que tem sido documentado sobre a sexualidade das mulheres foi escrita por homens, no contexto de compreensão do sexo masculino, e relevante para as associações de mulheres a homens como suas esposas, filhas ou mães, por exemplo.Rabinowitz , p. 2. Muitas vezes, representações artísticas da sexualidade feminina sugerem tendências ou ideias em escalas amplas, dando aos historiadores pistas de como a era a aceitação generalizada das relações sexuais entre as mulheres.
Sexualidade e identidade lésbica miniaturadaimagem|Bandeira do orgulho lésbico, em referência ao mito da deusa Demétria, pelos seus rituais com relações lésbicas.SwadePages "Origin & History of Gay & Lesbian Symbols"|alt= miniaturadaimagem|Bandeira rosa derivada da . miniaturadaimagem|Bandeira da comunidade lésbica introduzida nas redes sociais em 2018, com a faixa laranja escura representando a variação de gênero. A noção de que a atividade sexual entre mulheres é necessária para definir um relacionamento lésbico ou uma lésbica continua a ser debatido. De acordo com a escritora feminista Naomi McCormick, a sexualidade feminina é construída por homens, cujo principal indicador da orientação sexual lésbica é a experiência sexual com outras mulheres. O mesmo indicador, entretanto, não é necessário para identificar uma mulher como heterossexual. McCormick afirma que as conexões emocionais, mentais e ideológicas entre as mulheres são tão ou mais importantes que as genitais.McCormick, pp. 60–61. No entanto, na década de 1980, um movimento significativo rejeitou a dessexualização da lesbianidade por feministas culturais, causando uma acalorada polêmica chamada de guerras sexuais feministas.Faderman (1991), pp. 246–252. Os papéis de butch e femme voltaram, embora não tão estritamente seguidos como eram na década de 1950. Eles se tornaram um modo de autoexpressão sexual escolhido por algumas mulheres nos anos 1990. Mais uma vez, as mulheres se sentiram mais seguras alegando ser mais aventureiras sexualmente, e a flexibilidade sexual tornou-se mais aceita.