thumb|Brasão de Marrocos thumb|Carta de Marrocos moderno com o território reivindicado do Saara ocidental

Marrocos é um país do Norte da África cujo nome é derivado de Marraquexe (cidade imperial e capital de 1062 a 1269, e depois de 1524 a 1659). Habitado desde a Pré-história por populações berberes, o país conheceu povoamentos de fenícios, cartagineses, romanos, vândalos, bizantinos antes de ser islamizado pelos árabes. Foi em 788 que Idris I, fugindo as perseguições do Califado Abássida, e exilado nesta região, deu origem ao nascimento dum estado neste Magrebe Extremo (Maghreb el-Aqça).B. Lugan, Histoire du Maroc p.15 Marrocos guardou sempre, a não ser uma independência absoluta, pelos menos uma muito grande autonomia.Durante o período francês, Marrocos tinha o estatuto de protetorado e por conseguinte apresentava-se como estado soberano. Répertoire de la jurisprudence de la cour internationale de justice (1947-1992)

Segundo o historiador Bernard Lugan, são, entre outras, as riquezas provenientes do comércio do sul (o Saara e a África subsariana) com o norte (a Europa) que vão atrair vários tribos, com Marraquexe (a porta do deserto) por cidade chave, que, naturalmente, se tornou a capital de várias dinastias, especialmente das que têm origem no sul: (Almorávidas, almóadas, sádidas); é a razão pela qual toda a história de Marrocos (dos Idríssidas aos Alauitas) foi marcada por este comércio.Mouvement almoravide in Encyclopædia Universalis

Os primeiros vestígios de povoamento

thumb|povoamento Ibero-Maurisiano

O homem deixou muitos vestígios durante todo o período pré-histórico, marca de um povoamento muito antigo, provavelmente facilitado por um clima mais favorável do que o de hoje.B. Lugan, Histoire du Maroc p.19

Durante o Acheuliano (Paleolítico Inferior), índices que datam pelo menos de há 700 mil anos mostram uma primeira atividade humana. Esses homens viviam principalmente da colecta e da caça. A ferramenta dessa época é constituída de seixos talhados, de bifaces, de rachadores, encontrados particularmente nas áreas de Casablanca e Salé. O Musteriense (Paleolítico Médio) entre 120 e 40 mil, é caracterizado pelo desenvolvimento das ferramentas. Este período tem rendido rodos e raspadores, particularmente na indústria da pedra de Jbel Irhoud. O período Ateriano é conhecido apenas no Norte de África. Este período é caracterizado pelo controlo da produção de ferramenta com pedúnculos para facilitar a montagem. Este período também conheceu uma mudança climática, uma vez que a fauna e a flora tornaram-se escassas, deixando o deserto do Saara.

O Paleolítico Superior é marcado pela chegada do Homo sapiens, que trazia a indústria Ibero-Maurisiana. Em Taforalt (Oujda), as ferramentas encontradas datam de Ritos funerários são identificados: os mortos têm o corpo em decúbito lateral e ossos pintados. Essas populações mantêm-se até cerca de , sendo a partir daí eliminadas ou absorvidas pela chegada dos primeiros antepassados das populações berberes actuais: os capsianos (nome derivado da antiga cidade de Capsa, hoje Gafsa na Tunísia ) chegam do oriente (como demonstram estudos linguísticos, que classificam na mesma família as línguas egípcias e berberes). Sítios neolíticos mostrando o surgimento de uma sedentarização e o nascimento da agricultura são encontrados perto de Skhirat (Necrópole de Rouazi-Skhirat) e de Tetuão (grutas de Kaf Taht el Ghar e de Ghar Kahal).

Antiguidade

450px|thumb| Mauritânia Tingitana ao oeste, Mauritânia Cesariana no centro-oeste, Numídia ao centro-este e África no este

Os fenícios, comerciantes empreendedores, originários da terra de Canaã, instalam seus primeiros estabelecimentos na costa de Marrocos a partir do e criam feitorias como Tingi (Tânger) ou Lixo (perto de Larache). A partir da fundação de Cartago (na Tunísia), a região começa a ser verdadeiramente explorada.

A influência da civilização púnica será sentida quase mil anos em Marrocos: com efeito, a partir do , os cartagineses, em busca de metais preciosos (extraídos do Atlas e do Vale do Drá), de púrpura (a partir de um molusco, o murex, encontrado em Mogadouro por exemplo, que dá o corante do mesmo nome), vão comerciar com a população local e introduzir elementos culturais próprios à sociedade fenícia.

É a partir do que aparece no norte de Marrocos a primeira organização política do país: o reino da Mauritânia, resultado da federação de diferentes tribos berberes impregnadas dos valores fenício-púnicos de estado unitário. A Mauritânia tinha uma organização centralizada em torno do rei, que detinha todo o poder. As cidades eram administradas por magistrados chamados sufetes, inspirados do modelo cartaginês. Os chefes das tribos conservavam alguma autonomia, mas eram obrigados a contribuir com guerreiros para as tropas. O púnico é a língua oficial utilizada nos documentos administrativos, nas relações diplomáticas e nos cultos de Baal e Tanit.

thumb|esquerda|upright=0.8|Busto de Ptolomeu da Mauritânia, v. 30–40 depois de J.-C., Museu do Louvre

Quando os romanos chegaram por volta do , após a destruição de Cartago, aliam-se com Boco, rei da Mauritânia. Esta estratégia permite-lhes vencer o seu inimigo, o chefe númida Jugurta, genro de Boco. Este ganha o título de Amigo do povo dado pela República Romana, e a estima de Caio Mário. A Mauritânia tornou-se então um reino vassalo, um "estado-cliente" que, apesar de depender muito de Roma e participar em todas as lutas internas do Império, continua a ser de facto independente. O rei () distingue-se pela sua abertura a todas as culturas da bacia do Mediterrâneo. Criado na cultura grega clássica, casou com Cleópatra Selene, filha de Marco António e de Cleópatra. Uma civilização mauritana constitui-se assim, principalmente urbana, sintetizando com originalidade as influências púnicas, helênicas e egípcias.

Em 40, o reino perde seu último monarca, Ptolomeu da Mauritânia. Calígula, que o fez assassinar, enfrenta a guerra de Edemão: quatro anos se passaram até que vença a revolta, e em 46, o imperador Cláudio anexou o reino, que se tornou a província da Mauritânia Tingitana, tendo como capital a cidade de Tingis. O domínio romano limitou-se às planícies do norte (até a região de Volubilis perto de Mequinez) e o Império não pretende controlar a região brutalmente.

Mas Roma tem que lutar constantemente contra os berberes das montanhas do Atlas e os das planícies do Atlântico, como os famosos getulos. A Mauritânia Tingitana é uma província militar diretamente sob o governo imperial, administrada por um Promagistrado da ordem equestre romana. O Promagistrado era assistido por cortes de auxiliares contratados, em Espanha, Gália, Grã-Bretanha, Ilíria e na Síria. Estas unidades eram distribuídas principalmente no triângulo Volubilis-Salé-Tingis, dispositivo apoiado por importantes campos militares como Ópido Novo (Alcácer Quibir), Tamusida (perto de Quenitra) e estruturas da região de Sidi Kacem. Da mesma forma, as tropas dos mouros são recrutadas pelos romanos, mas para defender as fronteiras do Império no Reno, Danúbio e Eufrates.

thumb|A cavalaria moura atacando os Dácios sob as ordens de Lúsio Quieto, detalhe da Coluna de Trajano em Roma thumb|mosaico romano da biga de Anfitrião em Volubilis thumb|vestígios do capitólio de Volubilis

As cidades de Tingitana adotam o esquema urbanístico romano clássico, com suas avenidas em linha reta, um fórum, arco triunfal, basílica e capitólio, o templo dedicado ao culto da Tríade Capitolina (Júpiter, Juno e Minerva). As áreas residenciais para as classes sociais abastadas também são construídas perto dos monumentos oficiais. A cidade de Volubilis, a mais conhecida da Mauritânia Tingitana, atinge no seu apogeu até habitantes, incluindo uma elevada proporção de mouros romanizados, mas também romanos originários da Itália e da Hispânia, gregos, judeus e árabes da Arábia Pétrea. Algumas famílias da aristocracia local alcançam grandes carreiras, ao ponto de enviar seus membros para servir no senado romano. As zonas rurais são valorizadas por grandes proprietários que também provêm desse Patriciado provincial. A principal riqueza agrícola da Tingitana é o azeite, amplamente exportado para o resto do Império. As planícies também produzem trigo e frutas, e as florestas são exploradas para o cedro e Thuja. Tudo isso é transportado para os portos como Tingi e Salé, que conhecem então uma muito forte atividade comercial.Le Maroc antique de J. Carcopino

Assim como o resto do Norte de África, a Mauritânia Tingitana vai conhecer a cristianização. Dezenas de dioceses vão cobrir a região, dirigindo-se aos romanos e depois às populações romanizadas. Foi em 298, em Tânger, quando reinava Diocleciano, que São Marcelo, o centurião romano, foi decapitado.Anne Bernet,Les chrétientés d'Afrique, éditions de Paris, 2006, p 174-176 Foram identificados dois bispados na Tingitana (em Tânger e em Lixo), mas é possível que tenha havido quatro. Mas a difusão do Cristianismo fica muito baixa em comparação com as outras províncias africanas. A pequena comunidade cristã da Tingitana parece fiel ao catolicismo romano e fica de fora das discussões sobre o donatismo, que agita as províncias vizinhas.

No , o império recua. É também o caso no Norte da África e especialmente em Marrocos: a Mauritânia Tingitana encontra-se reduzida à única cidade de Tingi e à costa do norte. Aliás está administrativamente ligada à Hispânia. As cidades do sul são abandonadas, inclusive Volubilis. No sul, apenas o porto de Salé é conservado pelo Império. As razões para este declínio não são claras: pressões dos berberes da montanha e do Sul? Grave crise econômica na região? Fragilização devida a conflitos internos do Império com o episódio dos dois GordianosB. Lugan, Histoire du Maroc, p. 33?

Aproveitando o enfraquecimento do Império Romano do Ocidente, uma coalizão de bárbaros em maioria Germanos, formada por suevos, vândalos e alanos, atravessa o Reno em 406. Os vândalos descem até à Hispânia e depois passam para África em 429. Chegam a Hipona (Argélia) em 430. O governo de Constantinopla apela em vão por uma expedição naval contra a invasão. Os vândalos instalam-se no norte da África Ocidental durante mais de um século. É preciso esperar até 533-534 para que se faça a campanha de África decidida pelo imperador Justiniano e dirigida pelo general trácio Belisário. A força expedicionária bizantina destrói o Reino Vândalo e deporta suas elites para a Ásia Menor. A pacificação do território conquistado é mais trabalhosa e colide com a combatividade dos mouros, especialmente com os do oeste da África do norte.Arnold Joseph Toynbee, La Grande Aventure de l'humanité, chap. 42 - 43

A Mauritânia Tingitana não é inicialmente afetada pela conquista e dominação dos vândalos. Os germanos apenas irão controlar alguns pontos da costa mediterrânea do Rif. A região passa sob controle bizantino em 534, mas os mouros, acostumados a uma independência real durante mais de um século, resistem ferozmente com o príncipe Garmel e perseguem as legiões de Belisário. Os bizantinos edificam o extremo norte de Marrocos, em torno de Tânger, Ceuta e Lixo na província da Mauritânia Segunda, administrada por um exarca e um conde, com extensão para o sul de Espanha, que conquistam aos visigodos. A Mauritânia Segunda conhece então alguma renovação econômica e demográfica. Mas esta presença bizantina frágil, ameaçada tanto pelos godos como pelos berberes, subsiste até a conquista árabo-muçulmana.

Conquista árabo-muçulmana miniaturadaimagem|As Montanhas Grand Rif, na província de Chefchaouen. Sexta-feira, 16 de abril de 2007.