Esparta (em grego dórico: ; em grego ático: ) ou () foi uma proeminente pólis (cidade-Estado) da Grécia Antiga, situada nas margens do rio Eurotas, na Lacônia, sudeste do Peloponeso. Ela surgiu como uma entidade política em torno do século X a.C., quando os invasores dórios subjugaram a população local. Por volta de 650 a.C. a cidade passou a se tornar o poder terrestre militar dominante na Grécia Antiga.
Dada a sua preeminência militarista Esparta era reconhecida como a líder de todas as forças gregas combinadas durante as Guerras Greco-Persas. Entre 431 e 404 a.C. a cidade foi o principal inimigo de Atenas durante a Guerra do Peloponeso, conflito do qual Esparta saiu vitoriosa junto com sua Liga do Peloponeso, embora por um grande custo. A derrota de Esparta por Tebas na Batalha de Leuctra em 371 a.C. acabou com o papel proeminente de Esparta na região e iniciou o período da hegemonia tebana. No entanto, ela manteve a sua independência política até a conquista romana da Grécia em 146 a.C.. Em seguida a cidade passou por um longo período de declínio, especialmente durante a Idade Média, quando muitos espartanos mudaram-se para viver em Mistras. A Esparta Moderna é a capital da unidade regional da Lacônia, na Grécia contemporânea, e um centro para produtos como frutas cítricas e azeitonas.
A cidade era única na Grécia Antiga por conta de seu sistema social e constituição, que eram completamente focados no treinamento militar de excelência. Seus habitantes eram classificados como esparciatas (cidadãos espartanos, que gozavam de plenos direitos), periecos (libertos) e hilotas (servos estatais, população local não espartana escravizada). Os esparciatas realizavam o agōgē, um rigoroso regime de treinamento e educação, sendo que as falanges espartanas eram amplamente consideradas entre as melhores no campo de batalha. As mulheres espartanas tinham consideravelmente mais direitos e igualdade em relação aos homens do que em outras partes do mundo clássico.
Esparta foi objeto de fascínio em sua própria época, assim como no Ocidente após o Renascimento da cultura clássica. Este amor ou admiração de Esparta é conhecido como laconismo ou laconofilia. No seu auge, por volta de 500 a.C., o tamanho da cidade teria sido de cerca de 20 mil a 35 mil habitantes livres, além dos inúmeros periecos e hilotas. Com entre 40 mil e 50 mil habitantes, seria uma das maiores cidades-Estado gregas.Once Again: Studies in the Ancient Greek Polis. Acessado em 12 de novembro de 2014. No entanto, de acordo com Tucídides, a população de Atenas em 431 a.C. era de 360 a 610 mil habitantes, o que torna improvável que Atenas fosse menor do que Esparta durante o século V a.C..
História thumb|esquerda|Ruínas do teatro da antiga Esparta com o monte Taigeto ao fundo Esparta surgiu em meados do século IX a.C.. Durante a época micénica existiram ao sul do local onde nasceria Esparta dois centros urbanos, Amiclas e Terapne. Nesta última cidade encontraram-se santuários dedicados ao rei Menelau e à sua esposa Helena, personagens da Ilíada de Homero.
À semelhança de outras partes da Grécia a Lacónia conheceu um decréscimo populacional com o fim da era micénica. No século X a.C. os Dórios penetraram na região. No século seguinte quatro aldeias da Lacónia uniram-se para fundar Esparta. No século seguinte a cidade de Amiclas foi incluída em Esparta.
Ao final da Segunda Guerra Messênia Esparta estabeleceu-se como uma potência local no Peloponeso e no resto da Grécia. Durante os séculos seguintes a reputação de Esparta como força de combate terrestre foi inigualável."A Historical Commentary on Thucydides". David Cartwright, p. 176
Perante o problema gerado pelo aumento populacional e pela escassez de terra Esparta optou pela via militar para solucionar a questão, ao contrário de outras pólis gregas que recorreram à fundação de colónias (Esparta fundou apenas uma colónia, Tarento, actual Taranto, no sul da Itália). Assim, Esparta decidiu conquistar os territórios vizinhos, tendo conquistado toda a planície da Lacónia no final do século VIII a.C. Na luta pelo domínio no Peloponeso Esparta teve como rival Argos, cidade do nordeste do Peloponeso. direita|thumb|180px|Ruínas de Esparta.
Em 570 a.C. uma tentativa de conquista da Arcádia revelou-se um fracasso, tendo Esparta optado por alterar a sua política no sentido da diplomacia. Assim, Esparta ofereceu a outras localidades do Peloponeso a possibilidade de integrar uma liga por si liderada, a chamada Liga do Peloponeso. A maioria dos estados do Peloponeso integraria esta liga, com excepção de Argos.
Durante as Guerras Persas Esparta liderou as forças que defenderam a Grécia em terra, enquanto que Atenas defendia pelo mar. Com o final da guerra as relações com Atenas deterioraram-se, culminando na Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.), que os Espartanos venceram.
Em 1834 o governo do então reino da Grécia fundou a moderna cidade de Esparta, que ocupa parte da antiga Esparta e que é capital do departamento da Lacónia.
Origem mitológica Segundo os espartanos o primeiro habitante da região se chamava Lélex.Descrição da Grécia, 3.1.1, por Pausânias (geógrafo) Seu neto, Eurotas, teria dado origem ao rio Eurotas ao dragar os pântanos da Lacônia.
Eurotas foi sucedido por Lacedemão, casado com Esparta.Descrição da Grécia, 3.1.2, por Pausânias (geógrafo) Lacedemão mudou o nome da região para o seu e fundou a cidade de Esparta.
Várias gerações depois, Héracles interveio em Esparta, reinstalando o rei Tíndaro, que havia sido deposto por seu irmão Hipocoonte.Descrição da Grécia, 3.1.4 - 5, por Pausânias (geógrafo)
Durante as invasões dóricas, Esparta foi conquistada, e a diarquia de Esparta começa com os irmãos gêmeos Eurístenes e Procles.Descrição da Grécia, 3.1.7, por Pausânias (geógrafo)
Sociedade thumb|180px|Estátua do século V a.C. de um hoplita (Museu Arqueológico de Esparta) thumb|Jovens Espartanos Exercitando-se, por Edgar Degas A sociedade espartana era fortemente estratificada, sem qualquer possibilidade de mobilidade entre os três grupos existentes: os Esparciatas, os Periecos e os Hilotas.
Demografia No seu auge, por volta de 500 a.C., Esparta tinha cerca de 20 000 a 35 000 cidadãos, além de numerosos hilotas e periecos. O total provável de 40 000 a 50 000 fez de Esparta uma das maiores cidades-estado gregas; entretanto, de acordo com Tucídides, a população de Atenas em 431 a.C. era de 360 000 a 610 000, tornando-a muito maior. Segundo Tucídides, os cidadãos atenienses no início da Guerra do Peloponeso (século V aC) eram 40 000, perfazendo um total de 140 00 pessoas incluindo suas famílias. Os metecos, ou seja, aqueles que não tinham direitos de cidadão e pagavam pelo direito de residir em Atenas, somavam mais 70 000, enquanto os escravos eram estimados entre 150 000 e 400 000.
Esparciatas
Pertenciam, a este grupo, todos os que fossem filhos de pai e mãe espartanos, sendo os únicos que possuíam direitos políticos (governo da cidade), constituindo o corpo dos cidadãos (homoioi, pares). Deviam dedicar sua vida ao estado espartano, permanecendo à disposição do exército ou dos negócios públicos. Além disso, para se pertencer a este grupo, era obrigatório ter recebido a educação espartana e estar inscrito numa sissítia, onde tomavam a refeição em comum.
Segundo Políbio e Plutarco, todos os cidadãos de Esparta receberam uma parte igual das terras públicas. A terra teria sido dividida em parcelas, os klêroi, no mesmo número dos cidadãos existentes. Estas parcelas de terras eram inalienáveis e indivisíveis, passando de pais para filhos. As mulheres podiam herdar o klêros, mas só no caso de não ter existido descendência masculina e com o objectivo de o transmitirem. Os espartanos não podiam exercer o comércio.
Periecos
Eram os habitantes das cidades da periferia (que descendiam dos povos conquistados pelos esparciatas) que estavam integrados no estado espartano e ao qual pagavam impostos. Apesar de serem livres, não tinham direitos políticos e dependiam dos Espartanos em matéria de política externa. Estavam obrigados a participarem das guerras, mesmo não tendo recebido a mesma educação dos esparciatas. Eles combatiam ao lado dos Espartanos, embora em contingentes particulares. Ao contrário dos Espartanos, os periecos podiam dedicar-se ao comércio e à indústria artesanal.
Hilotas
Eram os servos que, pertencendo ao estado espartano, trabalhavam nos kleros (lotes de terra), entregando metade das colheitas ao Espartano. Eram duramente explorados. Deviam cultivar essa terra a vida inteira e não podiam ser expulsos de seu lugar. Levavam uma vida muito dura, sujeita a humilhações constantes. Foram protagonistas de várias revoltas contra o estado espartano. Para controlar as revoltas e manter os hilotas sob clima de terror, os espartanos organizavam expedições anuais de extermínio (cripteia), onde os hilotas eram obrigados a participar. Tratava-se de um massacre anual que consistia na perseguição e morte dos hilotas considerados perigosos, no qual os espartanos competiam para ver quem matava mais hilotas.
Instituições políticas
thumb|Território da Esparta Antiga no Peloponeso
Diarquia
Os reis eram dois, oriundos das duas famílias reais que se afirmavam descendentes de Hércules, através dos gêmeos Eurístenes e Procles, cujos filhos, Ágis e Euriponte, teriam dado nome às dinastias reinantes: ágidas e euripôntidas. Entre suas funções, destacavam-se os serviços de caráter militar e religioso. Em tempo de guerra, um dos reis exercia o comando dos exércitos. Eram membros da Gerúsia e gozavam de certos privilégios, como o direito a uma guarda pessoal, direito a refeição dupla na sissítia e a terem uma parte superior aos outros no despojo de guerra.
A Apela
A Assembleia de Esparta era composta por todos os Espartanos maiores de 30 anos, menos periecos e hilotas, e recebia o nome de Apela. Reunia-se uma vez por mês ao ar livre, em local que a arqueologia moderna ainda não conseguiu identificar. Elegia os membros da Gerúsia e aprovava ou rejeitava as leis encaminhadas por eles.
Decidia sobre questões ligadas à política externa, elegia os magistrados e designava os gerontes. Porém, na prática, tinha pouca influência na vida política da pólis. Segundo as informações legadas por Plutarco, não podia discutir as propostas que lhe eram apresentadas, mas apenas aprová-las ou rejeitá-las na totalidade.
A Gerúsia
A Gerúsia preparava as propostas que seriam apresentadas à assembleia (Apela), funcionando também como tribunal supremo.
Era constituída por trinta elementos (vinte e oito gerontes eleitos vitaliciamente, de entre os Espartanos com mais de sessenta anos, e os dois reis) eleitos através de um procedimento que Aristóteles classifica de pueril na sua obra Política: os candidatos passavam diante da Assembleia, sendo eleito o que recebesse maior número de aplausos, avaliados por um júri encerrado num compartimento próximo.
Tinha funções administrativa (supervisão), legislativa (elaboração de projetos de lei) e judiciária (tribunal superior).
Eforato
O Conselho dos Éforos - em número de cinco - formava um colégio que era eleito anualmente por altura do Outono pela Apela. Detinha amplos poderes: os éforos eram os verdadeiros chefes do governo espartano. Presidiam a assembleia (coordenavam as reuniões da Gerúsia e da Apela), davam a ordem de mobilização em caso de guerra, controlavam a administração (a vida econômica e social da cidade) e a educação, podendo vetar os projetos de lei e fiscalizar as atividades dos reis.
Possuíam também poderes judiciais, podendo banir os estrangeiros e condenar os periecos à morte, sem necessidade de julgamento.
Não era exigida nenhuma condição de censo ou de nascimento para se ser eleito éforo, pelo que o eforato representava o elemento de igualitarismo nas instituições políticas espartanas. A curta duração do seu mandato impedia eventuais abusos de poder.
Sistema educacional