miniaturadaimagem|485x485px|Teoria multirregional, unirregional e da assimilação (Figura adaptada de Gibbons, 2011). A origem dos humanos modernos (Homo sapiens) ainda é marcada por controvérsias. Um dos modelos científicos criados para descrever como ocorreu este processo é a teoria do multirregionalismo, também chamada de evolução multirregional ou teoria policêntrica. Ela compete com a teoria da assimilação e com a hipótese da origem unirregional (unirregionalismo).
É consenso entre estas três teorias que um dos primeiros representantes do gênero Homo, o Homo erectus, evoluiu a partir de outra espécie no leste da África há pelo menos 1,8 milhões de anos e migrou pioneiramente para diferentes regiões do velho mundo, como para outras regiões africanas, o oriente médio e o leste e sul asiático. Ele deu origem a múltiplas espécies humanas, incluindo o Homo neanderthalensis (Neandertais), os Denisovanos e os Homo sapiens (H. sapiens). Numerosos esforços se uniram na tentativa de descrever precisamente a maneira, o local e o período em que ocorreu o processo evolutivo gerador do H. sapiens, suscitando intensos conflitos no meio científico durante as décadas passadas.
O modelo do multirregionalismo teoriza que as populações humanas arcaicas de H. erectus, presentes em múltiplos centros regionais da África e da Eurásia após a migração há cerca de 1,8 milhões de anos, mantiveram ocasionalmente laços sociais e biológicos, evoluindo conjuntamente para formar o H. sapiens. Neste modelo, embora as populações em diversas localidades viveriam parcialmente isoladas, o que serviria para gerar a diversidade comportamental e biológica entre elas, eventos migratórios acabariam levando essas diferentes populações a entrarem em contato. Isso permitiria a troca de ideias (transmissão cultural) e de genes (intercruzamentos) entre elas. Devido à manutenção do intercruzamento, estas populações compartimentalizadas teriam dificuldade de se separar em diferentes espécies, mantendo-se efetivamente como uma única espécie (na definição de espécie de Ernst Mayer) e evoluindo em um contínuo ao longo do tempo (continuidade). Essa concepção possui um impacto profundo na compreensão da origem do H. sapiens, já que o H. erectus seria o seu ancestral mais recente (ancestral direto), além de que todas as outras espécies de hominíneos intermediárias entre H. erectus e H. sapiens descritas até hoje seriam consideradas a mesma espécie com variações regionais.
Esta visão foi desafiada pela hipótese unirregional, que define a origem dos humanos modernos em uma única localidade, o continente africano. Neste modelo, o H. sapiens origina-se a partir das populações humanas arcaicas derivadas de H. erectus que permaneceram na África após a migração há 1,8 milhões de anos. Uma data para a origem foi estimada em pelo menos há anos, tendo em consideração os registros fósseis mais antigos classificados como H. sapiens datados de há 土 5000 anos e um crânio adulto fossilizado datado em a anos, ambos encontrados na Etiópia (nordeste africano). Como nenhum ou muitos poucos cruzamentos entre as populações são teorizados neste caso, a especiação em diferentes localidades é possível. Desta forma, acredita-se que o H. sapiens tenha evoluído, vivido e se dispersado na África até expandir e sair deste continente para a Europa e a Ásia por volta de há anos. Em razão deste motivo, o modelo unirregional também é chamado de “Out of Africa” (saída da África). Ao contrário da teoria multirregional, ele prevê que, mediante processo migratório, o H. sapiens substituiu as populações humanas arcaicas que evoluíram do H. erectus fora da África, como é o caso dos Neandertais. Adicionalmente, alguns pesquisadores também defendem a origem unirregional em outras regiões, como a Eurásia e Ásia, com posterior migração para a África, embora a maior parte dos registros fósseis, genéticos e arqueológicos consonantes com a origem unirregional apontem para a origem na África.
O modelo da assimilação concilia pontos das duas teorias mencionadas anteriormente, uma vez que admite uma origem africana para o homem moderno nos mesmos critérios da hipótese unirregional enquanto nega a substituição das espécies ancestrais, assim como o modelo multirregional. Ela ressalta a importância da interconexão entre H. sapiens e as demais populações de hominíneos, proporcionando o fluxo gênico e a hibridização gradual para a assimilação de características destas diferentes populações arcaicas na espécie H. sapiens.
História do multirregionalismo O interesse por entender como se deu o início da espécie humana remonta provavelmente às primeiras religiões, que criaram diversos mitos de origem e outras interpretações da realidade à luz da imaginação e engenhosidade. Longe de serem explicações inócuas e sem valor, os mitos buscaram fornecer explicações para dúvidas cruciais no maior período da história humana. Com o advento da investigação empírica e a construção do conceito de ciência, as hipóteses para a origem humana passaram a ser acompanhadas de diversas evidências. Em 1858, Darwin e Wallace propuseram uma explicação mecanística para o conceito de evolução por meio de seleção natural, que é seguida posteriormente pela publicação de “The descent of man”, por Darwin em 1871. Este trabalho buscou propor um mecanismo para a diferenciação dos hominídeos, explicando como ocorreu a origem do ser humano a partir de espécies preexistentes. À época de Darwin, não havia evidências suficientes na forma de registros fósseis para estabelecer uma linhagem evolucionária que pudesse permitir a explicação detalhada da origem do Homo sapiens.
Os primeiros fósseis humanos registrados foram descobertos em 1823 na caverna “Got’s Hole”, na Grã-Bretanha. Um deles, a dama vermelha de Paviland, como viria a ser conhecida, era um homem do paleolítico enterrado há 23 mil anos. O primeiro achado hominíneo foi encontrado na caverna Feldhofer do Vale do Neander, Alemanha, em 1856, e viria a representar a espécie Neandertal. Uma série de sítios arqueológicos foram descobertos no final do século XIX e no século XX, rendendo um amplo material fóssil e cultural (ferramentas, pinturas, etc.) que permitiu analisar melhor a questão da origem dos homens modernos.
Antes da Segunda Guerra Mundial, o alemão Franz Weidenreich observou continuidades regionais anatômicas entre os fósseis que analisou, e então propôs um modelo de origem do H. sapiens que seria precursor do multirregionalismo. Este modelo postulou que vários grupos humanos modernos, que ele categorizou em 4 raças (Mongolianos, Africanos, Australianos e Eurasianos), tiveram origens em regiões diferentes e de forma independente. Eventualmente, algumas espécies cruzavam entre as quatro diferentes linhagens de evolução racial, o que foi demonstrado como linhas diagonais em um diagrama. Carleton Coon, em 1962, propôs linhas de evolução totalmente independentes no modelo de Weidenreich. Estas duas teorias foram criticadas por não se tratarem somente de um multirregionalismo, mas também de múltiplas origens do ser humano a partir de espécies ancestrais (poligenismo). Esse modelo é insustentável de um ponto de vista probabilístico, uma vez que preconiza muitas evoluções convergentes para as populações humanas de forma que, no final, há uma única espécie. Para superar este impasse, Weidenreich hipotetizou que as espécies teriam “a tendência inerente de transmutar de tipos primitivos para aqueles do homem recente”, o que também é um conceito desacreditado no processo evolucionário, onde não existe direção definida (determinismo). Este modelo foi posteriormente revisado por Milford Wolpoff, Alan Thorne e Wu Xinzi. Eles se basearam em achados arqueológicos de diferentes características morfológicas dos fósseis encontrados na China, Europa e Indonésia. Por exemplo, em um de seus estudos eles analisaram características crânios reconstruídos de um H. herectus indonesiano (Sangiran 17), datado à época com 500-800 mil anos, e de um H. sapiens encontrada na Austrália (KowSawp), com 9,5-14 mil anos. Eles notaram que ambos os esqueletos apresentaram muitos padrões craniométricos semelhantes na face e na porção interna que aloja o cérebro. Essas similaridades geraram uma dúvida: como pôde haver a continuidade dessas medidas morfológicas nesta região apesar de tanto tempo passado entre uma espécie e outra?. Como resposta, eles sugerem que, mais do que a possibilidade de uma espécie “pura” e “semi-isolada”, que “desafia os limites cronológicos” [para manter o fenótipo ancestral ao longo do tempo], seria possível a existência de um estado de equilíbrio regional, onde o maior fluxo gênico resultante da migração, contato e reprodução entre espécies destas duas regiões, se contraporia à força de pressão seletiva (quanto maior o fluxo gênico, menos variações a serem selecionadas). Isto impediria o acúmulo de divergências entre as espécies, minimizando as diferenças morfológicas que as distinguem. Em 1994, Wolpoff e colaboradores aplicaram este mesmo modelo para as populações humanas presentes na África, Europa e Ásia, propondo de vez o multirregionalismo com padrões semelhantes ao da teoria atual. Desde então, diversos achados têm sido utilizados para apoiar ou negar a hipótese multirregional. Por exemplo, um grupo de estudo reportou medições (basicraniais) diferentes na população hominínea recente, que evidenciaram descontinuidade deste registro fóssil indonesiano, contrapondo-se ao estudo de Wolpoff e colaboradores mencionado previamente. Este fato evidencia como a análise morfológica dos fósseis pode ser alvo de divergências. Ao longo das últimas décadas, tem-se buscado utilizar também marcadores genéticos na tentativa de pesquisar a validade dos modelos de origem do Homo sapiens.
Erros de interpretação da hipótese Segundo Wolpoff, John Hawks e Rachel Caspari, a hipótese multirregional tem sido mal-interpretada de maneira contínua, o que dificulta a sua validação. Em primeiro lugar, a hipótese não descreve um modelo de evolução paralela ou independente. Também não se refere ao aparecimento simultâneo de caracteres adaptativos em diferentes ambientes. Outro caso de má interpretação apontado pelo autor é a de que a hipótese indicaria múltiplas origens do Homo sapiens, quando na verdade ela descreve o processo de evolução dentro de uma única espécie a partir de diferentes populações.
Segundo eles, a origem histórica dos erros de interpretação deve-se a aproximação da teoria poligênica de Weindenreich e de Carleton Coon. Elas teriam sido interpretadas erroneamente por William W. Howells, que caracterizou a teoria de Weindenreich como um “modelo de candelabro”, que não contém as linhas diagonais previstas no modelo original, assim propondo a evolução independente e paralela dos hominíneos ancestrais após sua saída da África.
Métodos de testagem da hipótese multirregional Evidências para a origem dos humanos modernos vêm de múltiplas fontes. É o caso da análise de registros paleontológicos, como diversos materiais fósseis (craniais e pós-craniais) e culturais (ferramentas, pinturas e adornos), e das análises moleculares do padrão de variação do DNA humano. Neste caso, é possível fazer uma análise comparativa de padrões morfológicos, morfométricos e documentais para acessar dados relativos a diferentes aspectos biológicos, hábitos (rituais, alimentação), indústrias (de ferramenta), localização geográfica, entre muitas outras variáveis de uma espécie ancestral.