thumb|250px|Bandeira com a cruz de Santo André ou de Borgonha, adotada como insígnia dos terços Um terço (do espanhol: tercio) constituía um tipo de unidade militar dos exércitos dos países da Península Ibérica.

Internacionalmente, este tipo de unidade militar é também conhecida como "terço espanhol'" ou "quadrado espanhol", sendo este um sistema militar de síntese (entre a arma de fogo portátil, arcabuz, e os quadrados da infantaria de choque à moda suíça) que se desenvolve até 1550 e que assegurou à Espanha um poder sem igualBatalhas da Restauração com Humberto Nuno de Oliveira, por Nuno Lemos Pires.

Os terços, criados pelos Habsburgos, tornaram-se famosos pela sua bravura no campo de batalha, formando a elite das tropas espanholas. Durante muito tempo, foram a peça fundamental para a hegemonia terrestre do Império Espanhol. O Exército Português organizou terços — segundo o modelo espanhol — durante o reinado de D. Sebastião, mantendo-os até ao .

A partir da década de 1920 a designação "terço" voltou a ser atribuída, no Exército Espanhol, às unidades de escalão regimento da Legião Espanhola é às unidades carlistas. Também, em Portugal, o termo "terço", foi reavivado como designação das unidades de escalão companhia da Legião Portuguesa, entre 1936 e 1974.

Origem dos terços 350px|thumb|Desembarque de terços espanhóis na Ilha Terceira (1593) na luta contra as forças leais a D. António I de Portugal thumb|350px|Batalha de Pavia (1525), onde os terços espanhóis derrotaram as tropas francesas

Apesar de terem sido criados, oficialmente, pelo imperador Carlos V, na sequência da reforma do Exército de 1534 — para guarnição dos domínios dos Habsburgos na Itália e para operações expedicionárias no Mediterrâneo — as suas origens são mais antigas. A partir de 1494, Gonzalo Fernández de Córdoba (conhecido por el Gran Capitán), ao comandar as tropas espanholas em luta na Itália, organizou-as em "coronélias" que agrupavam várias "capitanias". No entanto, esta organização já vinha sendo desenvolvida, anteriormente, na Península Ibérica. Durante o reinado dos Reis Católicos, na sequência da guerra de conquista de Granada, as tropas de Aragão e Castela adoptaram o modelo dos piqueiros suíços. Pouco depois, as tropas eram divididas em três armas: piqueiros, escudados (armados com espadas) e besteiros, misturados com espingardeiros (armados com as primeiras armas de fogo portáteis). Pouco depois, desapareceram os escudados, passando os espingardeiros — e, depois, arcabuzeiros — a complementar os besteiros, até os substituírem completamente. As vitórias espanholas, na Itália, sobre os franceses, ocorreram quando ainda não se tinha completado o processo de organização dos terços. Os três primeiros terços são criados a partir das tropas estacionadas na Itália: da Sicília, de Nápoles e da Lombardia. Pouco depois, são criados os terços da Sardenha e das galés (este, considerado a primeira unidade infantaria naval do mundo). Estas cinco primeiras unidades são conhecidas pelos "terços velhos", as criadas posteriormente são conhecidas pelos "terços novos". A grande novidade dos terços é a sua constituição por soldados profissionais permanentes, em comparação com as tropas formadas por levas (mobilização) ou por mercenários até então usadas.

Inicialmente, os terços não eram unidades de combate, mas apenas unidades administrativas. Cada terço constituía uma espécie de estado-maior, do qual estavam dependentes várias companhias, territorialmente dispersas, que asseguravam a guarnição de diversas praças de Itália. Esta caraterística manteve-se, quando foram mobilizados terços para combater na Flandres. O comando do terço e das suas companhias era diretamente atribuído pelo rei, podendo, assim, as companhias agregar-se ou desvincular-se do terço segundo a conveniência. Assim, até ao século XVII, o caráter administrativo do terço tornava-o mais parecido a uma brigada do século XVIII do que a um regimento da mesma época. Esta situação só se alterou em meados do século XVII, quando os terços começaram a ser levantados por nobres — às suas próprias custas — que nomeavam os capitães das suas companhias e que eram os proprietários efetivos das suas unidades, como acontecia nos regimentos dos restantes exércitos da Europa.

Os terços inspiravam-se na legião romana, sendo unidades regulares, sempre em pé de guerra, mesmo que não existisse uma ameaça iminente. Alguns terços, no entanto, seriam criados especificamente para combaterem em determinada campanha, sendo identificados pelo nome do seu mestre de campo ou pelo teatro de operações onde atuavam.

A origem do termo "terço" ("tercio" em Espanhol) é algo obscura. Umas opiniões defendem que isso se deve o facto de terem sido, inicialmente, criados três terços, cada qual correspondendo a 1/3 das tropas espanholas estacionadas na Itália. Outros defendem que isso se deve a que, inicialmente, cada terço deveria incluir os três tipos de combatentes de infantaria da época: os piqueiros, os escudados e os besteiros. Uma terceira opinião defende que a origem do termo está nos homens que constituíam o efetivos dos primeiros terços.

Terços de Portugal thumb|350px|Terços portugueses na Batalha de Alcácer-Quibir (1578). Portugal adoptou o terço de modelo espanhol, ainda no século XVI. No âmbito da reorganização do Exército, levada a cabo por D. Sebastião, foram levantados, em 1578, quatro terços: Terço de Lisboa — comandado por Diogo Lopes de Sequeira —, Terço de Santarém (Terço da Estremadura) — comandado por D. Miguel de Noronha —, Terço do Alentejo — comandado por Vasco da Silveira — e Terço do Algarve — comandado por Francisco de Távora. Cada terço resultava do agrupamento de oito companhias de ordenanças — organizadas em 1570 — totalizando cerca de homens. Estes quatro terços, juntamente com o Terço dos Aventureiros (totalmente composto por nobres), três terços mercenários — o de Alemães comandado por Martim da Borgonha, o de Italianos e o de Castelhanos — e os atiradores da guarnição de Tanger constituíram o núcleo da infantaria portuguesa que combateu na Batalha de Alcácer-Quibir.

Durante a união real com Espanha, entre 1580 e 1640, o modelo militar espanhol influenciou ainda mais o das forças portuguesas. Durante esta época foi criado o Terço da Armada da Coroa de Portugal, antepassado remoto dos atuais Fuzileiros Navais Portugueses. Também, nesta época, foi formado o Terço Departamental de Portugal com base no Terço de Niño que tinha integrado o exército de Filipe II de Espanha que invadiu Portugal em 1580. Este terço passou a chamar-se "Terço de Infantaria Espanhola da Cidade de Lisboa" ou, simplesmente "Terço de Lisboa". Depois de 1640, este terço manteve-se no Exército Espanhol, passando a designar-se "Regimento de Infantaria Lisboa" no século XVIII e, mais tarde, "Regimento de Infantaria Zaragoça Nº 12", até ser extinto em 1963.

Depois da Restauração de Independência, a 1 de dezembro de 1640, D. João IV organizou o Exército Português de modo a estar capaz de repelir as tentativas de reanexação espanholas. Foi restaurada a organização militar do tempo de D. Sebastião, reorganizando-se as Ordenanças, parte das quais passou a integrar a nova categoria dos Auxiliares, tropas de 2ª linha, cuja infantaria estava organizada em terços auxiliares. Foram introduzidas também as tropas pagas (1ª linha), cuja infantaria foi organizada segundo o modelo espanhol de terços pagos. Entre 1641 e 1642 foram criados 10 terços pagos: um na província de Entre-Douro-e-Minho, dois na Beira, dois na Estremadura e cinco no Alentejo. Mais tarde foram criados os terços novos da Guarnição da Corte e de Entre-Douro-e-Minho. Tendo sido atingido o número de terços autorizados pelas Cortes, existiam terços que eram pagos por entidades exteriores ao Exército: Terço da Armada — mantido pelo Conselho Ultramarino —, Terço da Junta — mantido pela Junta do Comércio — e Terço do Porto — mantido pela Câmara Municipal do Porto. Estes terços contribuíram decididamente para a vitória portuguesa na Guerra da Restauração.

Em 1707, estando as tropas portuguesas a combater na Guerra da Sucessão de Espanha, D. João V ordena que os terços pagos sejam transformados em regimentos de infantaria, comandados por coronéis, segundo o modelo em vigor no resto da Europa. A alteração teve, sobretudo, a ver com a harmonização das designações das unidades e postos militares do Exército Português com as dos exércitos aliados estrangeiros. No que diz respeito aos terços auxiliares, os mesmos mantiveram-se até 1796, altura em que passaram a designar-se regimentos de milícias.

História e primeiros combates 150px|esquerda|thumb|Bandeira do Terço da Liga. 150px|direita|thumb|Bandeira do Terço de Spinola. 150px|direita|thumb|Bandeira do Terço de Alburquerque. A estrutura militar, implementada pelos Reis Católicos para a conquista de Granada e para as campanhas na Itália, sofreu uma forte influência do modelo suíço. As vitórias da infantaria suíça, que combateu a pé firme contra a cavalaria pesada da borgonhesa numa série de batalhas campais, revolucionaram os métodos de guerra da Idade Média. Os teóricos militares da época aprenderam a lição que, quadrados de piqueiros bem formados e disciplinados, poderiam derrotar qualquer cavalaria que lhe aparecesse pela frente.

A eficácia em combate, dos terços espanhóis, baseava-se num sistema de armas que unia a arma branca (o pique) à arma de fogo (o arcabuz). A superioridade do terço, em relação ao quadrado compacto suíço, estava na sua maior capacidade em subdividir-se em unidades mais móveis até chegar ao combate corpo a corpo individual. Essa fluidez tática favorecia a predisposição combativa do soldado de infantaria espanhol.

O Terço da Lombardia participou na conquista espanhola do Ducado de Milão em 1534, logo um ano após a sua criação.

Na Batalha de Mühlberg, em 1547, as tropas do imperador Carlos V venceram uma liga de príncipes protestantes alemães, graças, sobretudo, à atuação dos piqueiros imperiais.

Em 1557, o Exército Espanhol derrotou completamente o Exército Francês na Batalha de San Quintin e, um ano depois, na Batalha de Gravelines. Nestas batalhas destacou-se a eficaz atuação dos terços.

Organização 350px|esquerda|thumb|Organização de um Terço.

A organização dos terços variou bastante, durante a sua existência. A estrutura original dos terços de Itália dividia-os em 10 capitanias ou companhias (oito de piqueiros e duas de arcabuzeiros), com 300 homens, cada uma. Cada companhia incluía o capitão, o alferes, o sargento e 10 cabos (cada um comandando uma esquadra de 30 homens). Além dos oficiais, cada companhia incluía alguns funcionários administrativos e auxiliares como furriel, capelão, músicos e pajem do capitão.

Posteriormente, os terços da Flandres adoptaram uma organização a 12 companhias, cada qual com 250 homens. Dessas companhias, 10 eram de piqueiros e duas de arcabuzeiros. Cada grupo de quatro companhias formava uma coronélia. O estado-maior (conhecido por "plana-maior") dos terços da Flandres incluía um mestre de campo (comandante do terço, nomeado pela autoridade real), um sargento-mor (segundo comandante) e três coronéis (um por cada coronélia). Posteriormente, desapareceriam os coronéis.

Os terços apresentavam-se, no campo de batalha, agrupando os piqueiros no centro da formação, escoltados pelos arcabuzeiros. Alguns arcabuzeiros eram colocados fora da formação principal, formando mangas, para fustigar o inimigo.

Com a evolução dos armamentos e das táticas de combate, as caraterísticas dos terços foram-se aproximando das dos regimentos existentes no resto da Europa. As companhias de piqueiros e de arcabuzeiros foram sendo substituídas por mosqueteiros e estas, posteriormente por fuzileiros (armados com espingardas) Assim, a partir do final do século XVII, o terço incluía, normalmente, oito companhias de fuzileiros e uma companhia de granadeiros.

Recrutamento