Narciso Horacio Doval (Buenos Aires, 4 de janeiro de 1944 — Buenos Aires, 12 de outubro de 1991) foi um futebolista argentino naturalizado brasileiro.QUADROS, Raul (22 de julho de 1977). Ainda somos professores. Placar n. 378. Editora Abril, pp. 12-14 Fez sucesso nos rivais Flamengo e Fluminense, sendo admirado por todas as torcidas cariocas.REZENDE, Marcelo (26 de janeiro de 1979). O Flu volta com tudo: dívidas, dispensas, decepções. Placar n. 457. Editora Abril, p. 51 Os dois times que defendeu em seu país natal, San Lorenzo (com o qual é mais identificado na Argentina) e Huracán, curiosamente, também são rivais.LEAL, Ubiratan (março de 2009). Orgulhosamente bairrista. Trivela n. 37. Trivela Comunicações, pp. 56-61 Foi descrito como o "argentino mais carioca que existiu"REZENDE, Marcelo (26 de setembro de 1980). Os 3 malandros do Flu. Placar n. 543. Editora Abril, pp. 12-13 - e, de fato, chegou a ser diplomado como cidadão carioca honorário.AZEDO, Maurício; QUADROS, Raul (10 de novembro de 1977). A pose do malandro. Placar n. 394. Editora Abril, pp. 4-6 "Doval é para o Rio de Janeiro o que Pelé é para o Brasil" foi outro comentário, feito por Manolo Eppelbaum, compatriota que trabalhava como correspondente do jornal argentino Clarín no Brasil.
Fazia sucesso com o público masculino por seu futebol e, com o feminino, pela sua fisionomia de galã.FONTENELLE, André (30 de outubro - 5 de novembro de 2001). "El Loco" Doval. Placar n. 1203. Editora Abril, p. 57 No campo, dosava velocidade e potência em doses iguais,FUENTES, Fernando. "El Loco" Doval. San Lorenzo: el diccionario azulgrana. 1 ed. Buenos Aires, 2007, p. 64 demonstrando também força, valentia, agressividade e fôlego: cansava seus marcadores intercalando piques com paradas em suas investidas pelo ataque, conseguindo assim passar pelas defesas ou cavar faltas para Zico ou Rivellino cobrarem. Oportunista, costumava também antecipar-se aos zagueiros, sendo ainda bom cabeceador.Rivelino pilotou a Máquina (junho de 2005). Placar Especial 35 Anos - Coleção de Aniversário n. 5, "Os Grandes Esquadrões". Editora Abril, pp. 36-39 Enquanto atuava na Argentina, era tido como um jogador tão talentoso e extremamente hábil como também indisciplinado e nada responsável, tendo evoluído no autocuidado após vir ao futebol brasileiro, ainda que mantivesse personalidade forte.
Considerado não apenas um dos argentinos de maior sucesso no futebol brasileiro,Ídolos, sí, señor! (junho de 2005). Placar n. 1283-A. Editora Abril, pp. 36-37 mas também como um dos futebolistas estrangeiros em geral no Brasil: em 2001, dez anos após a sua morte, ficou em terceiro em uma votação da Placar promovida para eleger o melhor forasteiro do Campeonato Brasileiro de Futebol, atrás apenas de Elías Figueroa e Pedro Rocha.FONTENELLE, André (janeiro de 2001). O jogo do século. Placar n. 1171. Editora Abril, pp. 76-79 Com 31 gols, ele chegou a manter-se por décadas entre os cinco maiores artilheiro estrangeiros do torneio; em 2003, estava abaixo apenas de Víctor Aristizábal, Rodolfo Fischer e Dejan Petković.Gringol (outubro de 2003). Placar n. 1263. Editora Abril, p. 81 A partir da década de 2010, foi ultrapassado também por Andrés D'Alessandro, Darío Conca, Marcelo Moreno, Paolo Guerrero, Hernán Barcos, Giorgian de Arrascaeta e Germán Cano. Na lista geral, abrangendo de amistosos a gols em estaduais, Doval segue entre os três primeiros: levantamento da Placar em 2025 lhe atribui ao todo 166 gols, abaixo apenas de 168 de Henry Welfare e dos 170 de Petković.
Doval, que também é o estrangeiro que mais gols fez pelo Flamengo (95), morreu prematuramente, aos 47 anos, justamente quando festejava uma vitória deste seu ex-clube, em decorrência de um ataque cardíaco, a despeito de todos os cuidados que tomava em relação à sua saúde QUADROS, Raul (10 de setembro de 1976). Tenho só 27 anos. Placar n. 335. Editora Abril, pp. 16-18 - e que ele não deixara de manter mesmo após parar de jogar. A mesma causa já havia provocado também a morte de seu pai. Em 2020, em um ranking elaborado por especialistas dos jornais O Globo e Extra, figurou na 26ª posição entre os maiores ídolos de futebol da história do Clube de Regatas do Flamengo, sendo um dos quatro estrangeiros presentes nessa lista.
Carreira em clubes San Lorenzo thumb|right|250px|Los Carasucias, celebrada linha ofensiva do San Lorenzo nos anos 1960, lembrada pela juventude e irreverência.CARDOSO, Maurício; CERRETTI, Mauro (5 de março de 1976). Só faltava essa milonga. Placar n. 308. Editora Abril, pp. 6-8 Da esquerda para a direita: Doval, Fernando Areán, Héctor Veira, Victorio Casa e Roberto Telch
Começou a carreira nos juvenis do clube. Fora levado pelo próprio vice-presidente da instituição na época; este o havia observado em uma pelada no bairro de Palermo, onde o garoto nascera e morava. Na ocasião, Doval estava jogando como goleiro por conta de um pé machucado, mas ainda assim se empolgou, driblou o time adversário e marcou um gol. Depois de dois anos nas categorias inferiores do San Lorenzo, já estava na equipe principal. Debutou em novembro de 1962, em derrota por 1 x 4 para o River Plate, atuando no ataque ao lado de um mito do clube, José Sanfilippo. No ano seguinte, jogou apenas três vezes, firmando-se no time titular somente em 1964.
Naquele 1964, a Associação do Futebol Argentino elaborou no início do ano a Copa Jorge Newbery, disputada por quatro dos cinco grandes do futebol argentino (o Independiente foi a exceção, pois na mesma época disputava a Taça Libertadores da América, da qual seria campeão) mais o Huracán e o Vélez Sarsfield. A competição foi criada devido à indefinição da realização do campeonato argentino, e finalizada justamente após definir-se o calendário do campeonato. O San Lorenzo, com mais pontos somados, foi declarado campeão.
Foi no minitorneio que o jovem ataque do San Lorenzo, formado por Doval juntamente com Fernando Nano Areán, Héctor Bambino Veira, Victorio Manco Casa e Roberto Oveja Telch, passou a ser bastante comentado na Argentina, desde o jogo inicial, contra o Racing. Doval, por sua vez, ficou conhecido como El Loco, e o conjunto, como Los Carasucias ("Os Cara-Sujas", expressão argentina para "moleques" ), que notabilizou-se pela juventude e irreverência, fazendo referência ao elenco da Seleção Argentina campeão sul-americana de 1957, que tinha o mesmo apelido e semelhanças na técnica e tática.FUENTES, Fernando (2007). Carasucias. San Lorenzo: el diccionario azulgrana. 1 ed. Buenos Aires, p. 35 "Quando a gente sentia que o jogo estava fácil, assim na base de 3 x 0, começava a fazer diabruras com a bola. Dávamos verdadeiros shows", disse. Já no campeonato, o Ciclón conseguiria uma razoável quarta colocação. Nos anos seguintes, porém, os Carasucias, apesar de encantarem, ficaram apenas em oitavo em 1965 e em outro quarto lugar em 1966. Em 1967, o campeonato foi dividido em dois torneios distintos, Metropolitano e Nacional, e neles o CASLA também ficou longe do título (não se classificou para as semifinais do Metropolitano e ficou em quarto no Nacional).
Ainda assim, Doval foi considerado um dos melhores atacantes argentinos em 1967, chegando neste ano à Seleção Argentina. Todavia, em uma viagem com o clube (outras fontes afirmam que foi com a própria seleção PERUGINO, Elías (setembro de 2011). Narciso Horacio Doval. El Gráfico Especial n. 32 - "100 Ídolos de San Lorenzo". Revistas Deportivas, p. 13), teria assediado uma aeromoça junto com alguns colegas. Chegou a defender-se afirmando que todos haviam cometido o erro, mas só três, incluindo ele, teriam sido punidos. Desceu do avião preso pelo comandante. Há relatos de que ele seria inocente no caso, tendo assumido a culpa para proteger o verdadeiro culpado, um colega casado, que seria Rafael Albrecht. O incidente acabaria encurtando sua passagem nos azulgranas e na própria seleção, valendo-lhe uma suspensão de dez meses que inicialmente seria de apenas um. Segundo ele, acabou agravada "porque resolvi me defender, com a ajuda de um jornalista, e o caso cresceu muito na Argentina. O interventor da AFA começou a me chamar de moleque, em público". Doval então insinuou na televisão que este seria homossexual e acabou enfrentando também dois processos por difamação. Pesou contra ele também a turbulenta atmosfera política daquele momento, em que a Argentina era governada pelo ditador Juan Carlos Onganía, militar considerado dos mais autoritários e moralistas do país. thumb|right|250px|O elenco de 1965 do San Lorenzo. Doval, o primeiro agachado, foi o artilheiro do time naquele ano.
Sua suspensão, aos fins de 1967, revoltou o público argentino, que o tinha como ídolo, e por um tempo houve faixas e panfletos pedindo a sua volta. Ironicamente, Doval não pôde atuar na campanha cuerva no Metropolitano (que, apesar do nome, era o torneio mais valorizadoDois campeões por ano (2003). Anuário Placar 2003. Editora Abril, pp. 702-704) de 1968. Os Carasucias, então lembrados com admiração apesar da falta de resultados mais expressivos, transformaram-se ali em Los Matadores por conseguirem um feito inédito no país: naquela edição do torneio, tornaram-se a primeira equipe a sagrar-se campeã argentina profissional de forma invicta. Com isso, Doval ficaria conhecido como El Matador que no jugó ("o Matador que não jogou"). Quando o museu virtual do San Lorenzo relembrou os 45 anos da conquista, em 2013, ressaltou que "e como se fosse pouco, não pôde jogar este campeonato Doval (por suspensão)".
Naquele ano, voltou a tempo de disputar cinco partidas do torneio Nacional e marcou quatro gols. Apesar do título, na época o Torneio Metropolitano ainda não fornecia vaga na Libertadores, algo só alterado a partir de década de 1970: o próprio campeão da Copa Libertadores da América de 1968, o Estudiantes de La Plata, havia participado dela não como vencedor do Metropolitano de 1967, mas como vice-campeão do Torneio Nacional de 1967. Em 1969, Doval chegou a participar apenas da Copa Argentina e de alguns jogos do Metropolitano antes de deixar o clube.
O técnico brasileiro Tim, já no Flamengo, havia sido treinador da equipe de Boedo no título de 1968. Fã de Doval, mesmo não podendo utilizá-lo, resolveu convidá-lo para jogar na nova equipe. Temeroso de que encerrassem sua carreira, Doval, que consideraria Tim o melhor treinador que teve, aceitou. Também sentia que o futebol argentino vinha ficando truncado, "cheio de milongas que enfeiam o espetáculo". Doval foi um dos numerosos argentinos a terem sido contratados por clubes do país vizinho a partir do final da década de 1960, estando valorizados pelas boas campanhas de clubes argentinos na Libertadores, cujo troféu ficou na Argentina em doze ocasiões no período de quatorze anos entre 1964 e 1978.
O San Lorenzo, que curiosamente não venceu nenhuma vez o torneio, mas que atravessava crise financeira,LIBÓRIO, Carlos (14 de dezembro de 1973). Eu quero é voar!. Placar n. 196. Editora Abril, p. 16 foi um dos que mais cederam jogadores: dentre os antigos colegas de El Loco, iriam ao Brasil José Sanfilippo (Bangu e Bahia), Carlos Buttice (America, Bahia e Corinthians), Héctor Veira (Corinthians) e Rodolfo Fischer (Botafogo e Vitória), além de outro sanlorencista com quem não chegaria a jogar, Oscar Ortiz (Grêmio).Outros destaques de "nossos argentinos" (junho de 2005). Placar n. 1283-A. Editora Abril, p. 37
Chegada ao Flamengo thumb|220px|Doval e Fio Maravilha em 1971