thumb|370px|Detalhe do altar principal da Cartuxa de Miraflores, Espanha, obra de Gil de Siloé. Madeira policroma, 1496-1499
A escultura do Gótico representa a segunda grande escola internacional de escultura da Europa a florescer na Idade Média, entre aproximadamente meados do e do XVI,NOTA: A cronologia do período varia significativamente conforme a fonte consultada evoluindo a partir da escultura românica e dissolvendo-se na escultura do Renascimento e do Maneirismo. Quando os valores clássicos voltaram a ser apreciados no Renascimento a escultura dos séculos imediatamente anteriores foi vista como disforme e rude, sendo-lhe dado o nome de gótica, já que se acreditou que era fruto da cultura dos godos, povos tidos como bárbaros e supostos responsáveis pelo desaparecimento do Império Romano. Mas os que viveram durante o período Gótico jamais deram esse nome a si mesmos e tampouco se consideravam bárbaros. Ao contrário, em seu aparecimento a arte gótica foi vista como inovadora e foi chamada de opus modernum (trabalho moderno), sendo a escultura uma das suas mais importantes e sofisticadas expressões. Mas a apreciação negativa perdurou até meados do , quando surgiu um movimento revivalista, chamado Neogótico, que recuperou seus valores, e modernamente se sabe que a arte gótica de fato nada tem a ver com os godos, mas a denominação permaneceu, consagrada pelo uso."Gothic art". In: Encyclopædia Britannica OnlineRothschild, Lincoln. Sculpture through the Ages. Read Books, 2007, pp. 105-107
A escultura gótica nasceu intimamente ligada à arquitetura, sendo o resultado da decoração das grandes catedrais e outros edifícios religiosos, mas eventualmente ganhou independência e passou a ser trabalhada como uma arte autônoma. Surgindo na França, na região de Paris, teve na reforma da Basílica de Saint-Denis, realizada entre 1137 e 1144, sua primeira expressão importante. Sua primeira fase desenvolveu um estilo austero, estilizado, com proporções alongadas e um aspecto geral hierático, desejando transmitir uma impressão de espiritualidade, bastante longe da anatomia real de um corpo. A partir de c. 1200 o estilo começou a evoluir em direção a um maior naturalismo e realismo, com a progressiva absorção de influências clássicas e uma maior observação da natureza. Mudanças na doutrina religiosa, que levaram a uma aproximação de Deus em relação ao homem e a um abrandamento em seu caráter, antes inacessível e inflexível, também contribuíram para influenciar a evolução das formas e das temáticas preferenciais. Em c. 1300 o estilo gótico já ultrapassava amplamente as fronteiras francesas, formavam-se importantes escolas regionais, e em torno de 1400 dominava a maior parte da Europa, depois iniciando um declínio que seguiu padrões diferentes nas diferentes regiões. A escultura gótica em suas fases tardias continuou a ser bastante empregada na decoração arquitetural, mas os escultores a esta altura já haviam experimentado os mais diversos materiais e explorado os mais variados usos para os relevos e estátuas, formando um acervo de extraordinária riqueza e variedade.Jaeger, C. Stephen. The Envy of Angels: Cathedral Schools and Social Ideals in Medieval Europe, 950-1200. Middle Ages series. University of Pennsylvania Press, 1994, pp. 346
A história da escultura gótica ainda possui muitas incertezas e pontos obscuros, e seu estudo ainda está em boa parte por ser feito. Em vários momentos da história houve destruições em massa de monumentos e obras de arte medievais, como por exemplo na questão iconoclasta ao longo da Reforma Protestante, e durante a Revolução Francesa, e dessa forma a determinação da cronologia, da genealogia e da distribuição geográfica do estilo apresenta muitas lacunas impossíveis de serem preenchidas. Soma-se isso ao fato de que quando o Gótico finalmente foi reapreciado na segunda metade do , por falta de conhecimentos mais profundos foram feitas muitas restaurações inadequadas nos monumentos sobreviventes. Mesmo diante de tantas dificuldades o legado da escultura gótica ainda é vasto e continua vivo em edifícios, coleções, museus, em livros escolares de ampla circulação e outras formas.Nash, Susie. Northern Renaissance Art. Oxford history of art. Oxford University Press, 2009, pp. 12-24
Visão geral e cronologia do Gótico
Antecedentes teóricos O estilo Gótico foi em grande parte o resultado da definição de um novo vocabulário visual para a representação de imagens, acompanhado o debate que acontecia sobre determinados conceitos da religião cristã. Um dos pontos mais importantes nesse debate era sobre a validade da representação de imagens sacras, um problema que remontava à própria origem do Cristianismo e ainda não estava suficientemente esclarecido. O Cristianismo primitivo nutria uma aversão à figuração de personagens sagrados, uma reserva que havia sido herdada da religião judaica, que proibia a criação de imagens de culto, temendo a idolatria. Uma ordem explícita contra a representação havia sido deixada nos Dez Mandamentos, onde o terceiro determina: "Não farás para ti nenhum ídolo". Por outro lado, a antiga tradição clássica pagã, que forneceu elementos essenciais para a formulação da nova fé, era plenamente favorável à representação dos deuses, e ambas as correntes permaneceram em constante atrito ao longo da Idade Média. Uma das primeiras declarações cristãs consistentes favoráveis à representação veio do papa Gregório, o Grande, que em cartas ao bispo de Marselha escritas em torno do ano 600 definiu os fundamentos da polêmica que se seguiu. Nelas o papa dizia que, assim como as outras coisas materiais, as imagens não deviam ser adoradas, mas tampouco deviam ser destruídas, porque a representação de cenas da história sagrada e dos personagens bíblicos eram úteis para o ensino da doutrina às massas analfabetas, que "poderiam ler nelas o que não podiam ler nos livros", e sua contemplação poderia conduzir o devoto à contemplação de Deus. Gregório havia recorrido para isso à opinião de Basílio, o Grande, que afirmara séculos antes que "a honra dada à imagem ascende ao seu protótipo". A declaração gregoriana, partindo de um papa considerado sábio - mais tarde elevado à condição de Doutor da Igreja, da mesma forma que Basílio - junto com a contribuição de São João Damasceno, foram poderosos argumentos na questão iconoclasta que agitava os cristãos desde o início e grassou com força no Império Bizantino.
Apesar de a questão ter sido oficialmente resolvida em 787, no Segundo Concílio de Niceia, que legalizou a veneração das imagens, o debate continuou, e ao longo dos séculos seguintes vários outros prelados escreveram defendendo a arte sacra, e tanto textos da igreja primitiva quanto de filósofos da Antiguidade continuaram sendo invocados como autoridades. Especialmente ligados ao surgimento do Gótico foram os escritos do Pseudo-Dionísio, um autor que havia bebido na fonte platônica através de Plotino e que foi muito estimado na França a partir dos séculos IX-X, sendo uma influência sobre o abade Suger, idealizador da primeira igreja gótica a ser erguida. Nesta altura, o problema iconoclasta havia sido finalmente superado por uma quantidade de outras contribuições teóricas e a arte sacra havia se consolidado definitivamente, mesmo que aqui e ali ainda se ouvissem protestos, e se tornara não apenas biblia pauperum ("livros para os incultos"), mas também oferecia versões autorizadas, supervisionadas pela hierarquia eclesiástica constituída, para a retificação de tradições orais que deturpavam ou embelezavam indevidamente a história sagrada.Kessler, Herbert. "Gregory the Great and Image Theory in Northern Europe during the Twelfth and Tirtheenth Centuries". In: Rudolph, Conrad. A companion to medieval art: Romanesque and Gothic in Northern Europe, Volume 2 de Blackwell companions to art history. Wiley-Blackwell, 2006, pp. 151-163Bredin, Hugh. ""Medieval Art Theory". In: Smith, Paul & Wilde, Carolyn (eds). A companion to art theory. Volume 5 de Blackwell companions to literature and culture. Wiley-Blackwell, 2002, pp. 29-30 thumb|esquerda|210px|Exemplo românico: Portal da Abadia de Saint-Pierre de Moissac, thumb|esquerda|210px|Exemplo precursor do estilo Gótico: cabeça de profeta, c. 1137-1140, originalmente na Basílica de St. Denis thumb|esquerda|210px|Portal oeste da Catedral de Chartres, c. 1145-1155 thumb|esquerda|210px|Estátuas colunares do portal oeste da Catedral de Chartres, c. 1145-1155
Gótico primitivo ou Baixo Gótico A prova desse sucesso está na grande proliferação de representações sacras que aconteceu durante a fase final do Românico, entre os séculos XI e XII, estabelecendo um corpo de motivos temáticos e formas aptos para veicularem a doutrina religiosa. No que diz respeito à escultura, a principal iconografia românica foi deixada na decoração dos tímpanos sobre as entradas principais das igrejas e catedrais, concebidos como uma introdução visual e uma preparação espiritual para o culto que ia acontecer no interior, o que coincide com o aparecimento dos primeiros exemplos góticos no .Chapuis, Julien. "Romanesque Art". In: Heilbrunn Timeline of Art History. The Metropolitan Museum of Art, 2000 De fato, os programas iconográficos românicos exerceram naturalmente grande influência sobre os góticos, sendo estes uma evolução natural a partir daqueles. Assim, a distinção estilística entre a escultura românica e a gótica primitiva se torna muitas vezes sutil. As mais evidentes inovações do Gótico primitivo foram a aplicação de esculturas às arquivoltas e às colunas laterais dos portais, e uma crescente tendência a uma organização das cenas menos compacta, mais aberta e racional, e a um alongamento nas proporções das figuras, acompanhando o maior verticalismo dos edifícios."Western sculpture: Romanesque". In: Encyclopædia Britannica Online
Em linhas gerais, a distribuição das imagens, derivada da herança românica já consolidada e que já dera grandes frutos, era produzida sob o seguinte esquema: sobre a entrada principal havia invariavelmente uma cena com o Cristo, amiúde o Juízo Final, o Cristo em Majestade ou a Crucificação. Nas arquivoltas em seu redor havia figuras de santos e anjos, nas colunas e frisos abaixo, apóstolos e outras figuras do Antigo Testamento ou ocasionalmente alegorias, como a das Virgens Prudentes e as Virgens Tolas, personificações das Artes Liberais, ou personagens históricas mais recentes como algum campeão da fé ou um patrono devoto. Se a igreja possuísse entradas secundárias, seus tímpanos poderiam ser decorados com alguma cena da vida de Virgem Maria, cujo culto conheceu grande incremento nesse período, e com algum evento da vida do santo padroeiro da igreja. Longe de serem escolhas arbitrárias, as imagens da iconografia fachadista gótica eram cuidadosamente selecionadas para formarem um coerente programa didático para o observador, ilustrando a evolução da fé desde sua fundação pelos patriarcas hebreus até o advento do Cristo encarnado com sua doutrina de redenção, e por fim apresentando seu corolário teleológico na condenação apocalíptica dos maus e na apoteose dos bons no Reino dos Céus.Fowler, Harold North. A History of Sculpture. Kessinger Publishing, 1916-2005, pp. 204-208