Robert Ezra Park (Harveyville, Kansas, 14 de fevereiro de 1864 Nashville, Tennessee, 7 de fevereiro de 1944) foi um sociólogo norte-americano e um dos mais eminentes pensadores da Escola de Chicago. O trabalho de Park se destaca por seus estudos em relações de raça, migração, assimilação, movimentos sociais e desorganização social no espaço urbano. O sociólogo dedicou seus trabalhos à tentativa de fornecer um modelo para compreensão dos processos de interação entre indivíduos e comunidades e seu ambiente urbano. Sua produção acadêmica é marcada por seu método de pesquisa empírica, influenciado em grande parte por sua experiência enquanto jornalista: Park sempre defendeu a necessidade de observar concretamente o comportamento humano e as relações entre indivíduos no contexto urbano, incentivando seus alunos a ir às ruas para ter contato direto com as comunidades marginalizadas da cidade. Grande parte de sua experiência empírica ocorreu em Chicago, que como muitas grandes cidades, é uma civilização comprimida em um pequeno espaço geográfico, apresentando uma dinâmica social marcada pela diversidade de grupos.

Vida Robert E. Park nasceu em 14 de fevereiro de 1864 em Harveyville, filho de Hiram Asa Park e Theodosia Warner Park. Sua família se mudou em seguida para Red Wing, Minnesota, onde cresceu e cursou o ensino médio. Em 1882, Park estudou por um breve período na Universidade de Minnesota em Minneapolis. Em 1883, o sociólogo iniciou seus estudos na Universidade de Michigan em Ann Arbor, onde receberia seu título de Ph.B em 1887. De 1887 a 1898, Park trabalhou como jornalista em Minneapolis, Detroit, Denver, Nova Iorque e Chicago. Em 1898, Park estudou psicologia e filosofia na Universidade de Harvard, obtendo seu M.A. em filosofia em 1899. No mesmo ano, o sociólogo viajou para a Alemanha e estudou na Universidade de Berlim. Posteriormente, ele estudou na Universidade de Estrasburgo, durante um semestre, e ainda na Universidade de Heidelberga, durante alguns anos. De volta aos Estados Unidos, Park ensinou filosofia na Universidade de Harvard e trabalhou mais tarde no Instituto Tuskegee, no Alabama. Em 1914, Park se mudou para Chicago e lecionou sociologia. Park foi o décimo quinto presidente da American Sociological Society em 1925. Seu pronunciamento presidencial, intitulado “The Concept of Position in Sociology”, foi proferido na reunião anual da organização, em Nova Iorque, em 1925. Após sua aposentadoria em 1933, o sociólogo tinha o hábito de passar os invernos em Nashville e os verões em Michigan. Park morreu em 2 de julho de 1944 em Nashville. Seu obituário foi publicado na American Sociological Review.

Vida Acadêmica Apesar da relutância inicial de seu pai, Park iniciou sua graduação em filosofia na Universidade de Michigan, se formando em 1887. Durante sua pós-graduação, o autor trabalhou em diversas instituições, concluindo seu doutorado em filosofia na Universidade de Heidelberga em 1899. Park teve contato com os filósofos John Dewey (na Universidade de Michigan), William James e Josiah Royce (na Universidade de Harvard) e com o sociólogo Georg Simmel (na Alemanha). O sociólogo participava de um círculo que incluía George H. Mead e Franklin Ford, os quais também buscavam na natureza humana e na sociedade as bases para um mundo melhor. Todo seu trabalho acadêmico foi feito depois de 11 anos de experiência enquanto jornalista em grandes centros urbanos, fato que estimulou seu interesse em problemas sociais. Park obteve seu A.B. na Universidade de Michigan em 1887, seu A.M. na Universidade de Harvard em 1899 e seu Ph.D. na Universidade de Heidelberga em 1904. No período de 1904 a 1905, Park lecionou filosofia em Harvard. De 1905 a 1914, Park trabalhou no Instituto Tuskgee, no Alabama, inicialmente como publicista e em seguida como diretor de relações públicas. Durante tal período, Park trabalhou com Booker T. Washington, personagem que em muito lhe influenciou e com quem mais tarde publicaria uma de suas principais obras. Posteriormente, o autor deu aulas na Universidade de Chicago de 1913 a 1933 e na Universidade Fisk de 1936 a 1943. Carreira jornalística e transição para a sociologia A vivência de Park no jornalismo se iniciou em Minneapolis e Detroit. De 1887 até o fim dos anos 90, Park trabalhou como reportador para jornais em Denver, Nova Iorque e em várias partes do Centro-Oeste. Tal experiência moldou sua visão quanto às dinâmicas de uma comunidade. Park entendia que o sociólogo era "um tipo de superjornalista, como o homem que escreve para Fortune relatando a longo prazo tendências que registram o que de fato está acontecendo, ao invés de relatar, superficialmente, o que meramente aparenta estar acontecendo”. Na Universidade de Michigan, Park foi apresentado a Franklin Ford, com quem planejou um jornal, The Thought News. A ideia consistia em um esforço para registrar a opinião pública e, apesar de nunca ter sido levada à prática, antecipou eventos futuros da atuação de Park enquanto jornalista. No começo do século XX, ele assumiu a posição de secretário da Congo Reform Association, instituição que relatava abusos sofridos por comunidades africanas. Ali, Park atuou como um dos primeiros jornalistas chamados “muckrakers”, expondo a exploração do povo do Congo Belga praticada pelo Rei Leopoldo. Park afirmou que sua experiência como jornalista o levou a estudar a função social do jornal, considerado por ele um registro dos fatos da atualidade. Sua tese “Masse und Publikum” e seu interesse pelo comportamento coletivo nasceram de suas aspirações enquanto jornalista. Como reportador, Park pôde explorar a cidade e estudar sistematicamente a comunidade urbana, despertando seu interesse em atuar no campo da sociologia.

Principais teorias

Cultura, civilização, migração e o "homem marginal" O trabalho de Park passa pela compreensão da cultura, da civilização, da relação entre estas duas e da transmissão do conteúdo cultural e seu papel dentro da sociedade. O sociólogo sempre direcionou seus esforços para entender o papel da cidade como espaço capaz de concentrar inúmeras manifestações culturais.

A cultura, para Park, “consiste naqueles hábitos, em indivíduos,que se tornam costumeiros, convencionais e aceitos na comunidade”. Ele considerava a transmissão fator indispensável à cultura, uma vez que os hábitos individuais se consolidam como cultura não quando são apenas aceitos, mas também quando passam a ser transmitidos para gerações posteriores. Quanto à transmissão, o autor entende que a cultura não seria ‘exportável’, mas apenas ‘difundível’. Isso porque a difusão implicaria necessariamente numa quebra do todo cultural, uma vez que o que é absorvido durante o processo seriam traços culturais (“unidade de descrição e análise cultural é o item de qualquer cultura existente capaz de difusão ou modificação independente”). Assim, a difusão não poderia ser mera transmissão porque o traço transmitido é necessariamente transformado e recriado. Ele por si só e em sua forma na cultura original pressupõe um contexto de existência de outros traços, revelando uma relação de interdependência entre eles que seria incompatível com a pura transmissão.

O autor também aborda a noção de mobilidade como meio de lidar com a perturbação da ordem socioeconômica vigente, explicando o fato de a cidade estar sempre no centro de mudanças sociais. Em uma sociedade marcada pela imobilidade seria normal haver maior consolidação de hábitos, congelando a estrutura de costumes. Havendo maior mobilidade a influência da cultura sobre os indivíduos seria notadamente menor. Em tal aspecto, Park se aproxima do trabalho de F. J. Tönnies em sua obra “Gemeinschaft und Gesellschaft”, onde Tönnies contrapõe sociedades sacralizadas, marcadas pela imobilidade, à sociedades seculares. A mobilidade tenderia a uma progressiva complicação das relações sociais, levando à emancipação das unidades que compõem a sociedade.

Park também contrapõe a civilização à cultura enquanto ordem que possibilita a ação coletiva às sociedades. Para ele, esta repousaria em crenças e valores comuns, enquanto aquela consistiria numa referência às ideias de territorialidade e de união remetente a trocas e comércio. A civilização seria composta pela absorção de grupos étnicos estrangeiros e 'estranhos' através da dominação destes e da secularização de suas crenças e religiões, impondo, assim, um domínio de uma ordem socioeconômica. O único fator ordeiro de uma civilização seria produzido pelo conflito de grupos étnicos. Park retoma o pensamento de Spengler segundo o qual toda cultura tenderia a se tornar uma civilização. A cidade, nesse contexto, seria a causa destruidora da cultura em razão do cosmopolitismo. A cidade implicaria individualização por se basear em relações seculares de comércio. Park destaca que a organização econômica seria quase impossível em sociedades culturais e quase inevitável em sociedades civilizatórias. O autor considerava a mobilidade um fator decisivo para mudanças culturais, um elemento de progresso. A morosidade trazida pela paz social seria prejudicial à conjuntura geral, uma vez que traria solidificação excessiva de valores, se aproximando, portanto, de uma sociedade sacralizada. Assim, retomando conceitos de outros pensadores, Park chega a considerar a guerra, em médio e longo prazos e numa escala macro, benéfica por promover o desenvolvimento cultural. A guerra seria uma das diversas formas de migração, de mobilidade. O sociólogo também toma a revolução como fator de progresso, mas fazendo a ressalva de que o progresso advindo da migração é fruto de conflitos culturais decorrentes de invasão e de imposição de valores, enquanto a revolução tem suas origens dentro da sociedade que elas se dispõem a modificar.

Segundo Park, com o crescimento do comércio e o advento de novas e melhores tecnologias, a migração passou a gerar gradualmente uma penetração mais pacífica de manifestações culturais do que no passado, quando tal processo implicava em invasão e em subjugação cultural forçosa. Ele nega a migração como mero movimento, já que ela quebra a estabilidade do grupo que a sofre. Uma vez rompida a estabilidade, decorreria a emancipação do indivíduo, assim livre dos laços que o prendiam à estrutura estática das tradições e dos costumes. O indivíduo emancipado tornar-se-ia mais consciente até ser reintegrado a uma nova ordem mais cosmopolita, efeito mais importante do fenômeno migratório. Nas palavras de Park, “O efeito da mobilidade e da migração é a secularização de relações anteriormente sacralizadas”. A cidade teria, assim, papel essencial devido à sua concentração de movimentos migratórios e de relações de comércio, inter-raciais e interculturais. Nela, a cultura tornar-se-ia civilização.

“Nessas grandes cidades, onde todas as paixões, todas as energias da espécie humana são liberadas, nós estamos em posição de investigar os processos de civilização como que por um microscópio”.É no sentido da emancipação do indivíduo que Park concebe a pessoa do homem marginal, o homem emancipado de uma cultura e não totalmente integrado em outra. Essa suspensão entre duas culturas, dois modos de vida diferentes levariam o homem marginal a um estado permanente de angústia moral gerado por um cosmopolitismo que leva a perturbações internas relevantes e mais duradouras que as dúvidas existenciais vividas por qualquer ser humano. 

Reações ao conceito do "homem marginal"