Fernão Carlos Botelho Bracher (São Paulo, – São Paulo, ) foi um banqueiro e advogado brasileiro. Com formação em direito pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco e especialização em Heidelberg e Freiburg (Alemanha), construiu extensa carreira no setor financeiro. Exerceu funções como diretor responsável pela área externa do Banco Central do Brasil entre 1974 e 1979, vice-presidente do Bradesco e presidente do Banco Central de agosto de 1985 até fevereiro de 1987, no período do governo Sarney. Ao sair do governo, criou o Banco BBA, que posteriormente se integrou ao Banco Itaú e formou o Itaú BBA.

Origens e formação Neto paterno de avó alsaciana de Mulhouse e de imigrante suíço germanófono do cantão de Berna, Bracher era descendente de Antônio Carlos de Arruda Botelho, conde do Pinhal (1827–1901). Seus pais eram Eduardo Bracher e Zilda de Arruda Botelho.

Completou sua formação em direito pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco em 1957. Em 1958, deslocou-se à Alemanha para aprimoramento profissional. Ali estudou em Heidelberg e Freiburg, posteriormente estagiando em escritório de advocacia em Munique.

Início de carreira Retornando ao Brasil, atuou no escritório Pinheiro Neto (onde estagiara antes). Em 1961, abandonou a carreira forense para a gestão bancária: ingressou no Banco da Bahia S.A. em funções de direção regional e depois como coordenador de operações internacionais.

Em 1973, o Banco da Bahia foi adquirido pelo Bradesco, mas Bracher permaneceu na diretoria por mais um ano.

Banco Central — Diretoria da Área Externa Em 1974, após Mário Henrique Simonsen assumir o Ministério da Fazenda, Bracher tornou-se responsável pela administração da Área Externa do Banco Central. De 1974 a 1976, integrou o Grupo dos 20 junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI), participando de propostas de reformulação do sistema monetário. Seu ingresso deu-se em período de crise econômica ("milagre econômico brasileiro" em colapso) e execução do II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) sob Geisel.

Saiu do Banco Central em 1979, indo para a iniciativa privada como vice-presidente executivo da Atlântica (Companhia Nacional de Seguros). Em 1981, ascendeu à vice-presidência executiva do Bradesco com direção em empresas do grupo. Durante 1982, ingressou no Conselho de Economia da FIESP e na vice-presidência da Associação de Bancos de Investimentos (Anbid).Banco Central do Brasil. Fernão Carlos Botelho Bracher. Brasília : Banco Central do Brasil, 2019. Coleção História Contada do Banco Central do Brasil; v. 12.

Presidência do Banco Central (1985–1987)

Posse e diretrizes Em agosto de 1985, o ministro da Fazenda Dílson Funaro o nomeou presidente do Banco Central, sucedendo Antônio Carlos Lemgruber. Em discurso de posse, defendeu coordenação entre governo e setor privado, opôs-se à tabelação de juros, e comprometeu-se com contenção monetária e ajuste fiscal. A diretoria incluía André Lara Resende e Pérsio Arida, arquitetos do Plano Cruzado (implementado em fevereiro de 1986).Fernão Bracher, banqueiro, aos 83. Jornal do Brasil.

Liquidação de bancos Em novembro de 1985, Bracher determinou o encerramento das operações de três instituições financeiras — Comind, Auxiliar e Maisonnave — que passavam por grave crise e dependiam essencialmente de aportes estatais para continuarem funcionando.

Renegociação da dívida externa Em dezembro de 1985, deslocou-se a Nova Iorque para tratativas com o Comitê de Assessoramento da Dívida Brasileira sobre renegociação de prazos. Obteve acordo renovando linhas internacionais de curto prazo, reduzindo spreads, e alinhando as taxas ao euromercado (abaixo das taxas americanas anteriores). As tratativas ocorreram sem supervisão do FMI. Em janeiro de 1986, viajou a Londres para consolidação do acordo com bancos britânicos.

Em outubro de 1986, após sua participação na assembleia do FMI/BID em Washington, manifestou com firmeza a recusa do governo brasileiro em aceitar qualquer forma de fiscalização internacional sobre suas políticas econômicas, embora descartasse completamente a opção de suspensão do pagamento da dívida.

Últimos meses e demissão Em dezembro de 1986, o presidente da Associação dos Acionistas Minoritários acusou Bracher de ter autorizado recursos públicos para operações rurais.

Em janeiro de 1987, solicitou sua saída a Funaro, alegando divergências com a cúpula econômica: pedira elevação de juros e contenção de consumo sem êxito, e seu empréstimo compulsório fora rejeitado. Funaro recusou. Bracher voou a Nova Iorque buscando respaldo norte-americano com o Clube de Paris. Ausente, enfrentou críticas do PMDB, especialmente de João Manuel Cardoso de Melo e Maria da Conceição Tavares (economistas que culpavam os juros elevados por ele defendidos).

Voltando, reiterou seu pedido, aprovado em 11 de fevereiro de 1987. Francisco Gros o sucedeu.

Assessor especial do Ministério da Fazenda Com a entrada de Luís Carlos Bresser Pereira na Fazenda (abril de 1987), Bracher virou assessor especial e chefe negociador externo. O contexto era crítico: reservas cambiais em queda, moratória decretada em fevereiro. Em outubro, viajou a Paris e Nova Iorque buscando acordo com o FMI, mas insistindo que seus recursos fossem para investimentos produtivos, não para pagar credores privados.

Em dezembro, denunciou o cartel de credores privados que negociava dívidas de nações em desenvolvimento, vendo-o como principal obstáculo ao progresso. Naquele mês, Maílson da Nóbrega substituiu Bresser Pereira, e Bracher deixou seu cargo de assessor.

Banco BBA Em maio de 1988, Bracher e Antonio Beltrán Martínez (parceiro de Bradesco) fundaram o CA-BB Banco de Investimentos.Bracher, Beltran e Associados (BBA) foi constituída como uma instituição de investimentos bancários inovadora, reunindo expertise em operações de mercado financeiro internacional e orientação para serviços customizados de investimento. A parceria entre Bracher e Beltrán Martínez combinou a trajetória de ambos no setor financeiro brasileiro com visão estratégica de incorporar tecnologia e práticas internacionais de gestão de investimentos. A instituição operava com foco em operações de câmbio, operações de crédito estruturado, assessoria em fusões e aquisições, além de consultoria financeira especializada para grandes corporações e instituições públicas. Era associado ao banco austríaco Creditanstalt Bankverein com capitalização inicial de 20 milhões de dólares. Posteriormente incorporou os direitos do Banco Bahia, transformando-se em BBA Creditanstalt, com Bracher como presidente. Itaú leva BBA-Creditanstalt por R$ 3,3 bi e cria holding Por Sandra Balbi. Folha de S.Paulo, 6 de novembro de 2002.

Em 1996, o BBA adquiriu a Mappin Financeira, ampliando a atuação na área de crédito direto ao consumidor, e em seguida comprou o BCN, então sexto banco privado nacional, operação realizada com recursos externos sem a ajuda do Proer.

Posteriormente, o controle do BBA passou ao Banco Itaú, formando o Itaú BBA, com Bracher permanecendo como presidente da instituição.Itaú leva BBA-Creditanstalt por R$ 3,3 bi e cria holding Por Sandra Balbi. Folha de S.Paulo, 6 de novembro de 2002. Em 2005, dissociou-se definitivamente da presidência, que foi passada ao filho Candido Bracher, que em 2017 assumiria a presidência do Itaú Unibanco.Candido Bracher assume comando do Itaú no lugar de Roberto Setubal. Por Raquel Landim, Tássia Kastner e Renata Agostini. Folha de S.Paulo, 9 de novembro de 2016

Vida pessoal e morte Casou-se com a educadora Sônia Maria Sawaya Botelho Bracher (1936–2015).Lei de Marquinho dá nome de Sonia Botelho Bracher à Biblioteca da EMEB Afonso Fioca Vitalli, camarasaocarlos.sp.gov.br, 7 de outubro de 2021. O casal teve cinco filhos — Beatriz, Candido, Carlos, Eduardo e Elisa Bracher — além de 15 netos e três bisnetos.

Faleceu aos 83 anos, ao meio-dia de 11 de fevereiro de 2019, no Hospital Israelita Albert Einstein, em consequência de complicações após uma queda em sua fazenda no interior de São Paulo.

Bibliografia

Ligações externas

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