Hinduísmo é um termo genérico para uma ampla gama de tradições religiosas e espirituais indianas (sampradayas) que são unificadas pelo conceito de dharma ('dharma hindu'), uma ordem universal mantida por seus seguidores por meio de rituais e vida justa. A palavra hindu é um exônimo e embora o hinduísmo tenha sido considerado a religião mais antiga do mundo, também foi descrito como Sanātana Dharma ("darma eterno"), um uso moderno, baseado na crença religiosa de que suas origens estão além história humana, conforme textos sagrados hindus. Outro endônimo para o hinduísmo é Vaidika Dharma ("darma védico").
O hinduísmo é a terceira maior religião do mundo, com aproximadamente 1,2 bilhão de seguidores, ou cerca de 15% da população global, conhecidos como hindus. É a fé mais amplamente professada na Índia, Nepal, Maurício e em Bali, Indonésia. Um número significativo de comunidades hindus são encontradas nos países do Sul da Ásia, Sudeste Asiático, Caribe, Oriente Médio, América do Norte, Europa, Oceania, África e em outras regiões do mundo.}}
O hinduísmo envolve diversos sistemas de pensamento, marcados por uma gama de conceitos compartilhados que discutem teologia, mitologia, entre outros tópicos em fontes textuais. Os textos hindus foram classificados em shruti ("ouvidos") e smṛiti ("lembrados"). As principais escrituras hindus são os Vedas, os Upanixades, os Puranas, o Mahabharata (incluindo o Bagavadeguitá), o Ramáiana e os Ágamas. Temas proeminentes nas crenças hindus incluem karma (ação, intenção e consequências), saṃsāra (o ciclo de morte e renascimento) e os quatro puruṣārthas, objetivos ou metas adequadas da vida humana, a saber: dharma (ética/deveres), artha (prosperidade/trabalho), kama (desejos/paixões) e moksha (libertação/liberdade das paixões e, finalmente, o saṃsāra). As práticas religiosas hindus incluem devoção (bhakti), adoração (puja), ritos de sacrifício (yajna), meditação (dhyana) e ioga. As duas principais denominações hindus são o vixenuísmo e o xivaísmo, além de outras denominações, como o shaktismo e smartismo. As seis escolas ásticas de filosofia hindu que reconhecem a autoridade dos Vedas são: sânquia, ioga, niaia, vaisesica, mīmāṃsā e vedanta.
Enquanto o tradicional Itihasa-Purana e sua cronologia épico-purânica derivada apresentam o hinduísmo como uma tradição existente há milhares de anos, os estudiosos consideram o hinduísmo como uma fusão ou síntese da ortopraxia bramânica com várias culturas indianas, tendo raízes diversas e nenhum fundador específico. Esta síntese hindu surgiu após o período védico, entre a 200 a.C. e 300 d.C., no período da segunda urbanização e do início do período clássico do hinduísmo, quando os épicos e os primeiros Puranas foram compostos. Floresceu no período medieval, com o declínio do budismo na Índia. Desde o século XIX, o hinduísmo moderno, influenciado pela cultura ocidental, adquiriu grande apelo no Ocidente, refletido principalmente na popularização do ioga e de várias seitas, como a meditação transcendental e o movimento Hare Krishna.
Etimologia Hindū é o nome em persa do rio Indo, encontrado pela primeira vez na palavra Hindu (həndu) do persa antigo, correspondente ao sânscrito védico Sindhu.Lipner, Julius (1998), Hindus: Their Religious Beliefs and Practices, Routledge, ISBN 0-415-05181-9, visitado em 24-07-2008. O Rigveda chama a terra dos indo-arianos como Sapta Sindhu ("Sete rios sagrados no noroeste da Ásia Meridional, um deles o Indo), que corresponde ao Hapta Həndu no Avestá (Vendidade, 1.18), escritura sagrada do zoroastrismo. O termo foi utilizado para designar aqueles que viviam no subcontinente indiano, ou para além do "Sindhu".Ver Leis sonoras do indo-europeu para uma discussão sobre a transição de Sindhu para Hindu.
O termo persa (persa médio Hindūk, persa moderno Hindū) entrou na Índia pelo Sultanato de Déli e aparece nos textos do sul da Índia, bem como da Caxemira, a partir de 1323 d.C.,David Lorenzen, Who Invented Hinduism? Nova Déli, 2006, pgs. 24-33; Rajatarangini de Yonaraja: "Hinduka" e a partir daí é cada vez mais utilizado, especialmente durante o período da Índia britânica (Raj britânico). Desde o fim do a palavra passou a ser usada no Ocidente como um termo que abrange a maioria das tradições religiosas, espirituais e culturais do subcontinente, com a exceção do siquismo, budismo e jainismo que são religiões distintas."…that many-sided and all-enfolding culture which we in the West have chosen to call Hinduism" Jan Gonda, Visnuism and Sivaism, Munshiram Manoharlal. 1996, ISBN 81-215-0287-X p. 1. citado por
Definições thumb|Templo hinduísta em Mysore, Índia O hinduísmo não tem um "sistema unificado de crenças, codificado numa declaração de fé ou um credo", mas sim é um termo abrangente, que engloba a pluralidade de fenômenos religiosos que se originaram e são baseados nas tradições védicas.Smith, W.C. (1962) The Meaning and End of Religion. San Francisco, Harper and Row. p. 65Stietencron, on, Hinduism: On the Proper Use of A Deceptive Term, pp.1-22Halbfass, (1991) Tradition and Reflection. Albany, SUNY Press. pp. 1-22Smart, (1993) The Formation Rather than the Origin of a Tradition,in DISKUS: A Disembodied Journal of Religious Studies, vol. 1, no. 1, p. 1
Hindu é originalmente um termo persa, em uso desde os tempos do Sultanato de Déli, e que se referia a qualquer tradição nativa da Índia, em contraste com o islã. Hindu é usado no inglês no sentido de "pagão indiano" desde o ,O OED cita J. Davies, trad. Mandelslo's Trav. 74 (1662) The King of Cambaya, who was a Hindou, or Indian, that is, a Pagan. ("O rei de Cambaya, que era um hindu, ou indiano, isto é, um pagão.") e sir T. Roe, em Voy. E. Ind. P. della Valle's Trav. E. Ind. 374 (1665) The Inhabitants in general of Indostan were all anciently Gentiles, called in general Hindoes. ("Geralmente os habitantes do Indostão eram todos gentis desde os tempos antigos, e chamados em geral de hindus.") porém a noção do hinduísmo como uma tradição religiosa identificável, qualificando uma das religiões do mundo, surgiu apenas durante o século XIX.
A característica da tolerância compreensiva às diferenças de credo e a abertura dogmática do hinduísmo o torna difícil de ser definido como uma religião de acordo com o conceito ocidental tradicional.Turner, Bryan S. Essays on the Sociology of Fate, p. 275 Muitas pessoas manifestam algum tipo de problema ao tentar chegar a uma definição do termo, principalmente devido à ampla gama de tradições e ideias incorporadas ou cobertas por ele. Embora seja descrito como uma religião, o hinduísmo costuma ser definido com mais frequência como uma 'tradição religiosa'.O hinduísmo é definido de diversas maneiras, como "religião", "grupo de crenças e práticas religiosas", "tradição religiosa" etc. O tópico é discutido em Establishing the boundaries, de Gavin Flood (2003), pgs. 1-17. É descrito como a mais antiga das religiões mundiais, e mais diversa em tradições religiosas.Merriam-Webster's Encyclopedia of World Religions, p. 434
A maior parte das tradições hindus reverenciam um corpo de literatura sagrada ou religiosa, os Vedas, embora existem exceções; algumas tradições religiosas acreditam que certos rituais específicos sejam essenciais para a salvação, mas diversos pontos de vista sobre o assunto podem coexistir. Algumas filosofias hindus postulam uma ontologia teística da criação, sustento e destruição do universo, enquanto outros hindus são ateus. O hinduísmo por vezes é caracterizado pela crença na reencarnação (samsara), determinada pela lei do karma (karma), e que a salvação é a liberdade deste ciclo de sucessivos nascimentos e mortes; outras religiões da região, no entanto, como o budismo e o jainismo, também acreditam nisto, mesmo estando fora do escopo do hinduísmo. O hinduísmo é visto como a mais complexa de todas as religiões históricas vivas do mundo, porém a despeito desta complexidade é não apenas numericamente a maior delas, como também a mais antiga tradição em existência na Terra, com raízes que se estendem até a pré-história.
Uma definição do hinduísmo dada pelo primeiro vice-presidente da Índia, o reputado teólogo Sarvepalli Radhakrishnan, diz que ele não é "apenas uma fé", mas que, por estar ele próprio relacionado à união da razão e intuição, não pode ser definido, apenas experimentado.Bhagavad Gita, Sarvepalli Radhakrishnan: "Hinduism is not just a faith. It is the union of reason and intuition that can not be defined but is only to be experienced." De maneira similar, alguns acadêmicos sugerem que o hinduísmo pode ser visto como uma categoria com seus limites pouco definidos, e não uma entidade rígida e bem-definida. Algumas formas de expressão religiosa são centrais ao hinduísmo, enquanto outras não são tão centrais, porém ainda enquadram-se dentro da categoria; com base nisto desenvolveram-se algumas teorias acerca da definição do hinduísmo, como a 'teoria dos protótipos'.Ferro-Luzzi,(1991)The Polythetic-Prototype Approach to Hinduism in G.D. Sontheimer and H. Kulke (ed.) Hinduism Reconsidered. Déli: Manohar. pp. 187-95
Os problemas com uma única definição do que realmente se quer dizer pelo termo 'hinduísmo' frequentemente são atribuídas ao fato de que o hinduísmo não tem um fundador histórico único ou comum. O hinduísmo ou, como alguns dizem, 'hinduísmos', não tem um sistema único de salvação, e apresenta diferentes metas de acordo com a seita ou denominação. As formas da religião vêdica são vistos não como uma alternativa ao hinduísmo, mas como a sua forma mais antiga, e praticamente não há justificativa para as divisões estabelecidas pela maior parte dos acadêmicos ocidentais entre o vedismo, o bramanismo e o próprio hinduísmo.
Uma possível definição de hinduísmo é ainda mais complicada pelo uso frequente do termo "fé" como sinônimo para "religião". Alguns acadêmicosKnott, Kim. Hinduism in Britain (2000) "The South Asian Religious Diaspora in Britain, Canada, and a United States". e diversos praticantes se referem ao hinduísmo com uma definição nativa, como '', uma frase em sânscrito que significa "a eterna lei" ou "eterno caminho".The Concise Oxford Dictionary of World Religions. ed. John Bowker. Oxford University Press, 2000; o uso moderno do termo remonta aos movimentos de reforma do hinduísmo do fim do (J. Zavos, Defending Hindu Tradition: Sanatana Dharma as a Symbol of Orthodoxy in Colonial India, Religion (Academic Press), Volume 31, Número 2, abril de 2001, pgs. 109-123; ver também R. D. Baird, "Swami Bhaktivedanta and the Encounter with Religions," Modern Indian Responses to Religious Pluralism, editado por Harold Coward, State University of New York Press, 1987); pode ser traduzido também, de maneira menos literal, como "caminho eterno" (). Ver também René Guénon, Introduction to the Study of the Hindu Doctrines (1921 ed.), Sophia Perennis, ISBN 0-900588-74-8, parte III, capítulo 5 "The Law of Manu", p. 146. Sobre o significado da palavra "Dharma", ver também Guénon, Studies in Hinduism, Sophia Perennis, ISBN 0-900588-69-3, cap. 5, p. 45 Num sentido mais abrangente, o hinduísmo engloba o bramanismo, isto é, a crença na "Alma Universal", Brâman; num sentido mais específico, o termo é empregado para designar apenas o sistema cultural e religioso da Índia medieval e posterior. De acordo com o livro História das Grandes Religiões, "o hinduísmo é um estado de espírito, uma atitude mental dentro de seu quadro peculiar, socialmente dividido, teologicamente sem crença, desprovido de veneração em conjunto e de formalidades eclesiásticas ou de congregação: e ainda substitui o nacionalismo".Encyclopædia Britannica, verbetes "Hinduism" e "Saint"
Crenças thumb|Escultura no templo de Hoysaleswara representando a Trimúrti: Brama, Xiva e Vixnu