Cabula é um bairro de Salvador, localizado no chamado "miolo" central da cidade. Situa-se entre a BR-324 e a Avenida Luís Viana Filho (Avenida Paralela) e está próximo à região do Iguatemi. Na atual subdivisão administrativa municipal, foi incluído na Prefeitura-Bairro Cabula/Tancredo Neves, sendo que na regionalização anterior fazia parte da Região Administrativa (RA) XI/Cabula. O bairro faz divisa com todos os outros da região central de Salvador.
Sua configuração atual resulta de quatro processos históricos: a constituição de antigos quilombos, o povoamento associado a chácaras e fazendas de produção agrícola, a ação do Estado e, mais recentemente, a ação do capital imobiliário.Secretaria Municipal da Saúde do Salvador. Diretoria Estratégica de Planejamento e Gestão (DEPG). Plano Municipal de Saúde de Salvador 2022-2025. Volume II Distritos Sanitários. Secretaria Municipal da Saúde. Diretoria Estratégica de Planejamento e Gestão: Salvador, 2021, p. 43 ("Distrito Sanitário Cabula Beiru"), apud GOUVEIA, A. T. de A. Um olhar sobre o bairro: aspectos do Cabula e suas relações com a Cidade de Salvador. Universidade Federal da Bahia: Salvador, 2010.
História A ocupação da área do Cabula se processa basicamente em quatro fases:
durante o período colonial, formação de núcleos quilombolas, até o século XIX; estabelecimento de chácaras destinadas à produção de laranjas, até os anos 1940; construção de grandes conjuntos habitacionais populares, promovida pelo Estado, a partir dos anos 1970; atuação do capital imobiliário.
Antes da colonização portuguesa, as terras que hoje correspondem ao Cabula eram ocupadas por indígenas tupinambás. Queiroz, Iala Serra. Educação e participação popular: processo educativo socioambiental no antigo quilombo Cabula. 2017. Salvador: Universidade do Estado da Bahia, 2017.
No século XVI, essas terras teriam sido doadas por Tomé de Sousa a Antônio de Ataíde e posteriormente arrendadas a Natal Cascão, que lá construiu a capela de Nossa Senhora do Resgate, em torno da qual organizou-se um pequeno povoado.Lima, Jamile Brito de . "Os "Cabulas" de Salvador: Confrontando as delimitações de 1992 e de 2010", Revista Geográfica de América Central. Número Especial EGAL, 2011. Costa Rica, II Semestre de 2011 pp. 1-17, apud SANTOS, Elisabete; PINHO, José Antonio Gomes de; MORAES, Luiz Roberto Santos; FISCHER, Tânia. O Caminho das Águas em Salvador: Bacias Hidrográficas, Bairros e Fontes. Salvador: CIAGS/UFBA; SEMA, 2010.
Posteriormente, africanos escravizados fugitivos passaram a procurar refúgio na área, por ser de difícil acesso, com sua topografia acidentada e densa vegetação, mas também por ser dotada de nascentes e drenada pelos rios da bacia do rio das Pedras.Instituto de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (2013). Diagnóstico da qualidade ambiental dos rios de Salvador Ali se formaram quilombos.
O quilombo do Cabula foi desarticulado na noite de 30 de março de 1807. Na ocasião, pequenas comunidades constituídas de escravizados fugidos, negros libertos e raros brancos pobres que viviam na grande área do Cabula foram atacados por uma força militar organizada para destruir possíveis quilombos localizados na periferia de Salvador. Arquivo Histórico Ultramarino, 1807, apud Luciana C. A. Martins; Alfredo E. R. Matta, História pública de resistência quilombola: conexões e potencialidades do museu virtual em 3D do Quilombo do Cabula aplicado ao ensino de História. Revista História Hoje, vol. 10, nº 19. Os quilombos de Nossa Senhora dos Mares e do Cabula, também localizados nos arredores da cidade de Salvador, foram, como os demais de grande importância e periculosidade. Deles tomou conhecimento o então Governador e Capitão General da Bahia, João de Saldanha da Gama Melo Torres Guedes Brito, 6º Conde da Ponte, que de imediato providenciou a sua extinção, mandando, para isso, vir à sua presença, no dia 29 de março de 1807, o Capitão-mor das Entradas e Assaltos do Termo da Cidade do Salvador, Severino da Silva Lessa, ao qual determinou a convocação de uma tropa para a destruição dos referidos núcleos.
No dia 30 me requereu 80 homens da Tropa de Linha escolhidos, e bem municiados, e com os Oficiais de mato e cabos da polícia que lhe pareceram capazes, se cercaram várias destas casas e arraiais na distância de duas léguas desta cidade para os sítios que se denominaram Nossa Senhora dos Mares e Cabula, e com a fortuna de apreenderem setenta e oito pessoas destes agregados, uns escravos, outros forros, e dois dos principais cabeças; houve alguma resistência e pequenos ferimentos, mas nada que mereça maior atenção.Pedreira, Pedro Tomás. Os quilombos brasileiros. Salvador: Departamento de Cultura da SMEC, Arquivo Público do Estado da Bahia 1973; apud Mota, Flávio Oliveira; Freitas, Breno Braga de Souza. Uma busca pela identidade cultural de origem quilombola na região do Cabula em Salvador - Bahia. Anais do VII Congresso Brasileiro de Geógrafos, 10 a 16 de agosto de 2014.
O Quilombo do Cabula foi destruído em 1807, mas a área voltaria a ser ocupada pela população negra. Nas palavras de João José Reis:
As colinas, matas, lagoas e rios aí localizados serviam de suporte ecológico ao desenvolvimento de uma coletividade africana relativamente autônoma, e semiclandestina. A cidade estava cercada de quilombos e terreiros religiosos, comunidades móveis destruídas aqui para ressurgirem adiante, alimentadas pelo fluxo ininterrupto de escravos que sabiam tirar proveito da mobilidade proporcionada pela escravidão urbana. Reis, João José. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos Malês em 1835. São Paulo: Companhia das letras, 2003. , p. 70
Nos início da década de 1820, os remanescentes do Quilombo do Orobó, situado no atual município de Itaberaba, e que fora destruído por forças do governo colonial, em 1797, viriam a se estabelecer, em Cajazeiras/Pirajá e no Cabula. Esses remanescentes formaram, no início da década de 1820, o Quilombo do Urubu, também combatido e destruído pela polícia, em 1826.Oliveira, Suely Noronha de. Diretrizes curriculares para a educação escolar quilombola. O caso da Bahia e o contexto nacional. Rio de Janeiro: PUC-RJ, 2013, p. 156Bandeira, Viviane. Zeferina: Desafios e dilemas- A elaboração de um material didático sobre a mulher quilombola ensinodehistoria2017.bahia.anpuh.org Santana, Carlos Eduardo Carvalho de. Processos educativos na formação de uma identidade em comunidades remanescentes de quilombos - Um estudo sobre as comunidades de Barra / Bananal e Riacho das Pedras, no município de Rio de Contas-Ba. Salvador: UNEB, 2005Mota, Flávio Oliveira. A dinâmica afrodescendente no contexto espacial do Cabula – Salvador/BA. Salvador: UFBA, 2016
Mais tarde, a área passou a ser ocupada por fazendas e chácaras que se notabilizaram pela produção de laranjas. Porém, entre as décadas de 1940 e 1950, as plantações foram acometidas por uma praga que destruiu os laranjais.
Na mesma época, outra atividade de destaque no período foram as pedreiras, exploradas até a década de 1980, quando as escavações atingiram o lençol freático, e a exploração foi abandonada.
Etimologia A origem do nome do bairro está associada a pelo menos duas versões: uma que a liga às línguas bantas, significando mistério, segredo, algo escondido; e outra, também de origem africana, que atribui ao termo ao quicongo Kabula, nome de um rito religioso baseado em ritmo e dança.Fernandes, Rosali Braga. Las políticas de la vivienda en la ciudad de Salvador y los Processsos de urbanización popular en caso del Cabula. Feira de Santana: Universidade Estadual de Feira de Santana, 2003.
Laranja-da-baía A área do bairro já foi ocupada por chácaras produtoras de laranja-da-baía - também chamada laranja-de-umbigo, em razão do apêndice polposo característico dessa subespécie surgida na década de 1810. O fruto não tem semente, reproduzindo-se assexuadamente através de mudas e enxertia. Originária do Cabula,Passos, Orlando Sampaio et al.. Potencialidade do Submédio São Francisco para citriculturaainfo.cnptia.embrapa.br a laranja de umbigo foi, posteriormente, levada para a Califórnia. Em 1873, técnicos em citricultura de Riverside, na Califórnia, receberam 3 mudas de laranja-da-baía. Assim, a variedade se espalhou pelos Estados Unidos e outras partes do mundo, com o nome de Washington Navel.
A praga que destruiu os laranjais entre 1940 e início dos anos 1950 e a expansão horizontal da cidade foram fundamentais para a transformação do uso do solo no Cabula. As antigas chácaras foram sendo vendidas ou parceladas. Na década de 1970, a urbanização avança sobre as extensas áreas verdes do bairro, ligadas pelo caminho chamado de Estrada do Cabula, um prolongamento da Ladeira do Cabula, que dava acesso ao bairro.
Mata do Cascão O bairro abriga, ainda, um dos últimos remanescentes de Mata Atlântica da cidade. Trata-se de área pertencente à União (Exército Brasileiro) - a chamada "Mata do Cascão", nome provavelmente alusivo ao antigo arrendatário das terras, Natal Cascão -, situada nos fundos do quartel do 19º Batalhão de Caçadores.Caracterização Ambiental do Remanescente de Mata Atlântica do 19º BC, Cabula, Salvador, Bahia A área da antiga Fazenda Cascão, de 137 hectares,Lei nº 2.087 de 10 de dezembro de 1964. Autoriza o Poder Executivo a doar à União os terrenos da Fazenda Cascão e da Chácara Narandiba. Decreto nº 82.087, de 7 de Agosto de 1978. Autoriza o Serviço do Patrimônio da União a promover a aceitação da doação dos terrenos denominados Fazenda Cascão e Chácara Narandiba. confina com a Avenida Paralela. É contornada por muros e o acesso é controlado. As trilhas, antes eram percorridas somente pelos soldados em treinamento, podem ser utilizadas por visitantes e pesquisadores, mediante autorização do comando do 19° BC.
Apesar da presença de espécies exóticas, como jaqueira e mangueira, a mata está em regeneração, o que pode ser notado pela presença de espécies nativas como pau-pombo, matataúba,Matataúba (Didymopanax morototo) pau-paraíba, janaúba, ingá, jenipapeiro, sucupira, pindaíba.
A densa vegetação protege as nascentes do rio Cascão, que alimenta um reservatório de 4.400 metros quadrados de espelho-d'água, construído entre 1905 e 1907, pelo engenheiro Teodoro Sampaio. Todavia o corpo d'água, antes límpido, foi contaminado nos últimos anos por esgotos domésticos, lançados diretamente no rio Cascão (ou rio das Pedras), oriundos de condomínios residenciais e invasões instaladas nas vizinhanças.A Dinâmica ambiental verificada no bairro do Imbuí, Salvador, por Antonio Leonardo Guimarães de Mello e Dária Maria Cardoso Nascimento. Em razão disso, a pesca e o banho foram proibidos.19º BC é reduto de mata na Paralela, por Maiza de Andrade. A Tarde, 21 de setembro de 2008.
Demografia O bairro do Cabula tem uma população de habitantes (0,95% da população total de Salvador), sendo 46,21% homens e 53,79% de mulheres.
Historicamente, a área foi habitada por quilombolas predominantemente negros.Arquivo Histórico Ultramarino, 1807, apud Luciana C. A. Martins; Alfredo E. R. Matta, História pública de resistência quilombola: conexões e potencialidades do museu virtual em 3D do Quilombo do Cabula aplicado ao ensino de História. Revista História Hoje, vol. 10, nº 19. A população local ainda é majoritariamente composta por pretos ou pardos (70,3%). Segundo dados do censo de 2010 do IBGE, 14,38% dos habitantes se declaram brancos; 30,39%, pretos; 1,46%, amarelos; 53,45%, pardos e 0,28% indígenas. Barros, Ana Batriz dos Santos et al.. (2021) Análise estatística de como a cor/raça branca e preta influencia na qualidade de vida do morador de Salvador. Resultados e Discussão. Porcentagem de cor/raça por região
No tocante à renda, 29,04% dos chefes de família estão na faixa de renda mensal de 5 a 10 salários mínimos.
Quanto à escolaridade, constata-se que 49,56% dos chefes de família têm de 11 a 14 anos de estudos.
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