Faiçal I (em árabe: فيصل الأول العراق; Taife, 20 de maio de 1885 – Berna, 8 de setembro de 1933) foi Rei do Reino Árabe da Síria entre março e julho de 1920, e Rei do Iraque de 1921 até sua morte em 1933. Era o terceiro filho do rei Huceine ibne Ali, o Grande Xarife de Meca e Rei de Hejaz, que se proclamou Rei das terras Árabes em outubro de 1916.
Faiçal promoveu a união entre Muçulmanos Sunitas e Xiitas para estimular a lealdade comum e promover o Pan-arabismo com o objetivo de criar um Estado Árabe que incluísse o Iraque, a Síria e o resto do Crescente Fértil. Enquanto esteve no poder, Faiçal tentou diversificar a sua administração incluindo diferentes grupos étnicos e religiosos em posições importantes. No entanto, a tentativa de Faiçal de nacionalismo pan-Árabe pode ter contribuído para o isolamento de certos grupos religiosos.
Início da vida Faiçal nasceu em Meca, Império Otomano (na atual Arábia Saudita) em 1885, o terceiro filho de Huceine ibne Ali, o Grande Xarife de Meca. Ele cresceu em Constantinopla e aprendeu sobre liderança com o seu pai. Em 1913, ele foi eleito como representante à cidade de Jidá para o parlamento Otomano.
Em 1916, em uma missão a Constantinopla, Faiçal visitou Damasco duas vezes. Em uma dessas visitas, ele recebeu o Protocolo de Damasco, junto com o grupo de nacionalistas Árabes Al-Fatat.
Primeira Guerra Mundial e Revolta Árabe thumb|esquerda|Delegação do Emir Faiçal em Versalhes, durante a Conferência de Paz de Paris de 1919. Esquerda à direita: Rustum Haidar, Nuri as-Said, Príncipe Faiçal, Capitão Pisani (atrás de Faiçal), T. E. Lawrence, membro desconhecido de sua delegação, Capitão Tahsin Kadry Em 23 de Outubro de 1916, em Hamra, no Wadi Safra, Faiçal conheceu o capitão T. E. Lawrence, um oficial júnior da inteligência Britânica do Cairo. Lawrence, que imaginava um estado Árabe independente No pós-guerra, procurou o homem certo para liderar as forças Haxemitas a alcançar esse objetivo.Lawrence, T.E. The Seven Pillars of Wisdom. Wordsworth Editions Limited, 1997. p. 76. Em 1916-18, Faiçal liderou o Exército do Norte da rebelião que confrontou os Otomanos na região que viria a se tornar mais tarde na Arábia Saudita ocidental, na Jordânia e na Síria.Faisal of Arabia, Jerusalem Post Em 1917, Faiçal, desejando um império para si mesmo em vez de conquistar um para seu pai, tentou negociar um acordo com os Otomanos sob o qual ele governaria os vilaietes Otomanos da Síria e Mosul como um vassalo Otomano.Karsh, Efraim Islamic Imperialism A History, New Haven: Yale University Press, 2006 paginas 137-138 Em Dezembro de 1917, Faisal contatou o General Jemal Paxá declarando sua disposição de desertar para o lado Otomano, desde que lhe dessem um império para governar, dizendo que o acordo Sykes-Picot o tinha desiludido e agora queria trabalhar com os seus companheiros Muçulmanos.Karsh, Efraim & Karsh, Inari The Empires of the Sand, Cambridge: Harvard University Press, 1999 pagina 195. Apenas a falta de vontade das Três Paxás para subcontratar uma parte governante do Império Otomano para Faiçal o manteve leal ao pai quando finalmente se deu conta de que os Otomanos estavam apenas a tentar dividir e conquistar as forças Haxemitas. Em seu livro Os Sete Pilares da Sabedoria, Lawrence procurou dar um melhor brilho a conduta de Faiçal, uma vez que contrariava a imagem que ele procurava promover de Faiçal como amigo fiel dos Aliados traídos pelos Ingleses e pelos Franceses, alegando que Faiçal estava apenas procurando dividir as facções "nacionalistas" e "islâmicas" no Comitê para a União e o Progresso (CUP).Karsh, Efraim & Karsh, Inari The Empires of the Sand, Cambridge: Harvard University Press,, 1999 pagina 196. Os historiadores Israelenses Efraim Karsh e sua esposa Inari escreveram que a veracidade do relato de Lawrence está em aberto, uma vez que a principal disputa dentro da CUP não foi entre o Islamista Jemal Paxá e o nacionalista Mustafa Kemal como alegado por Lawrence, mas entre Enver Paxá e Jemal Paxá.Karsh, Efraim & Karsh, Inari The Empires of the Sand, Cambridge: Harvard University Press,, 1999 pagina 197. Na primavera de 1918, após a Alemanha ter lançado a Operação Michael em 21 de Março de 1918, que pareceu por um tempo preordenar a derrota dos Aliados, Faiçal novamente contatou Jemal Paxá pedindo paz desde que ele fosse autorizado a governar a Síria como um vassalo Otomano. Jemal confiante da vitória se recusou a considerar. Depois de um cerco de 30 meses, ele conquistou Medina, derrotando a defesa organizada por Facri Paxá e saqueando a cidade. O Emir Faiçal também trabalhou com os Aliados durante a Primeira Guerra Mundial na sua conquista da Grande Síria e na captura de Damasco em outubro de 1918. Faiçal tornou-se parte de um novo governo Árabe em Damasco, formado após a captura da cidade em 1918. O papel do Emir Faiçal na Revolta Árabe foi descrita por Lawrence em Seven Pillars of Wisdom. No entanto, a precisão desse livro, não menos importante a importância dada pelo autor à sua própria contribuição durante a Revolta, tem sido criticada por alguns historiadores, incluindo David Fromkin.
Pós Primeira Guerra Mundial
Participação na conferência de paz thumb|Reino da Síria em 1918 Em 1919, o Emir Faiçal liderou a delegação Árabe na Conferência de Paz de Paris e, com o apoio da experiente e influente Gertrude Bell, defendeu o estabelecimento de emirados Árabes independentes para as áreas predominantemente árabes anteriormente mantidas pelo Império Otomano.
Grande Síria
Forças britânicas e árabes tomaram Damasco em outubro de 1918, que foi seguido pelo Armistício de Mudros. Com o fim do governo turco em outubro, Faiçal ajudou a estabelecer um governo Árabe, sob proteção Britânica, na Grande Síria controlada pelos Árabes. Em maio de 1919, foram realizadas eleições para o Congresso Nacional da Síria, que se reuniu no ano seguinte.
Acordo Faysal-Weizmann thumb|Faiçal (direita) com Chaim Weizmann na Síria, 1918 thumb|Coroação do Príncipe Faiçal como Rei do Iraque
Em 4 de Janeiro de 1919, o Emir Faiçal e o Dr. Chaim Weizmann, Presidente da Organização Sionista, assinaram o Acordo Faiçal-Weizmann à Cooperação Árabe-Judaica, no qual Faiçal aceitou condicionalmente a Declaração Balfour, um documento em tempo de guerra que prometia apoio Britânico ao desenvolvimento de uma pátria Judaica na Palestina, sobre a qual ele fez a seguinte declaração:
Estas promessas não foram cumpridas imediatamente, em alguns casos até depois do estabelecimento do estado judaico de Israel,Aceitação de Faiçal da Declaração Balfour Jewish Virtual LibraryRegistros oficiais da Segunda Sessão da Assembléia Geral (A/364/Add.2 PV.21), United Nations, 8 de Julho de 1947 mas uma vez que os estados Árabes receberam autonomia das potências europeias, anos após o Acordo Faisal-Weizmann, e estes novas nações Árabes foram reconhecidas pelos europeus e pela ONU, Weizmann argumentou que, desde que o prometido foi eventualmente cumprido, o acordo para uma pátria Judaica na Palestina ainda existe. Na verdade, porém, essa esperada parceria tinha pouca chance de sucesso e era uma carta morta no final de 1920. Faiçal esperava que a influência Sionista na política Britânica fosse suficiente para impedir os projetos Franceses na Síria, mas a influência Sionista nunca pode competir com os interesses Franceses. Ao mesmo tempo, Faiçal não conseguiu uma simpatia significativa entre seus defensores da elite Árabe à ideia de uma pátria Judaica na Palestina, mesmo sob a suserania Árabe.
Rei da Síria e do Iraque thumb|esquerda|Uma foto do Rei Faiçal I do Iraque tirada no início dos anos 1900 Em 7 de março de 1920, Faiçal foi proclamado Rei do Reino Árabe da Síria (Grande Síria) pelo governo do Congresso Nacional Sírio de Hashim al-Atassi. Em abril de 1920, a conferência de San Remo deu à França o mandato à Síria, o que levou à Guerra Franco-Síria. Na Batalha de Maysalun, em 24 de julho de 1920, os Franceses foram vitoriosos e Faiçal foi expulso da Síria. Ele foi morar no Reino Unido em agosto daquele ano.
Em março de 1921, na Conferência do Cairo, os Britânicos decidiram que Faiçal era um bom candidato para governar o Mandato Britânico do Iraque por causa de sua aparente atitude conciliatória em relação às Grandes Potências e com base no conselho de TE Lawrence, mais conhecido como Lawrence da Arábia. Mas, em 1921, poucas pessoas a viver no Iraque sabiam quem Faiçal era ou já ouvira o seu nome. Com a ajuda de autoridades Britânicas, incluindo Gertrude Bell, ele fez campanha com sucesso entre os Árabes do Iraque e conquistou o apoio popular.
O governo Britânico, detentores do mandato no Iraque, estavam preocupados com a agitação na colónia. Eles decidiram se afastar da administração direta e criar uma monarquia para liderar o Iraque enquanto eles mantivessem o mandato. Após um plebiscito mostrando 96% a favor, Faiçal concordou em tornar-se rei. Em agosto de 1921, ele foi feito rei do Iraque. O Iraque era uma nova entidade criada a partir dos antigos vilaietes Otomanos (províncias) de Mosul, Bagdá e Baçorá. Os vilaietes otomanos geralmente recebiam o nome da sua capital - assim, o vilaiete de Baçorá era o sul do Iraque. Dado este pano de fundo, não havia senso de nacionalismo iraquiano nem mesmo de identidade nacional iraquiana quando Faiçal assumiu seu trono.Allawi, Ali Faisal I of Iraq, New Haven: Yale University Press, 2014 pages 339-340. Durante seu reinado como Rei, Faiçal encorajou o nacionalismo pan-arábico que visava, em última análise, aproximar os mandatos Franceses da Síria e do Líbano do mandato Britânico da Palestina sob seu governo pois Faiçal estava ciente de que sua base de poder era com os Árabes sunitas do Iraque, que formavam uma minoria.Masalha, N "Faisal's Pan-Arabism, 1921-33" paginas 679-693 de Middle Eastern Studies, Volume 27, capitulo # 4, Outubro de 1991 pagina 679. Em contraste, se a Síria, o Líbano e a Palestina fossem incorporados ao seu reino, então os Árabes Sunitas comporiam a maioria de seus súditos, tornando os Xiitas Árabes e os Curdos do Iraque em minorias. Além disso, os Xiitas Árabes do Iraque tinham tradicionalmente buscado liderança na Pérsia, e o grito de guerra do Pan-Arabismo poderia unir os Árabes Sunitas e Xiitas em torno de um senso comum de Identidade Árabe.Masalha, N "Faisal's Pan-Arabism, 1921-33" paginas 679-693 de Middle Eastern Studies, Volume 27, Capitulo # 4, Outubro de 1991 paginas 679-680. No Iraque, a maioria dos Árabes eram Xiitas que não haviam respondido ao pedido para que o Xarife Hussein se unisse à "Grande Revolta Árabe", pois o Xarife era um Sunita do Hejaz, tornando-o um duplo forasteiro.Karsh, Efraim & Karsh, Inari The Empires of the Sand, Cambridge: Harvard University Press, 1999 pagina 196. Em vez de arriscar a ira dos Otomanos em nome de um forasteiro como Hussein, os xiitas do Iraque ignoraram a Grande Revolta Árabe. No Império Otomano, a religião do estado era o Islamismo Sunita e os Xiitas tinham sido marginalizados por sua religião, tornando a população xiita mais pobre e menos instruída do que a população sunita. thumb|Estátua do Rei Faiçal numa praça com o seu nome no final da Rua de Haifa em Bagdá