thumb|A Rodovia BR-174 cortando a Terra Indígena Waimiri-Atroari em Roraima, no Brasil
Waimiri-Atroari é um povo indígena que habita o Sudeste do estado brasileiro de Roraima e o Nordeste do estado brasileiro do Amazonas, mais precisamente a Área Indígena Waimiri-Atroari. São do ramo linguístico Karib cujo território imemorial de ocupação está situado entre os rios Uatumã, Negro e Branco.
Foram conhecidos também como Crichanás, Jauapery, Uaimiri-Atroari, Bonari quando segmentos expansionistas da sociedade envolvente brasileira travaram seus primeiros contatos com eles, sobretudo a partir do Século XIX. Se autodenominam Kinja. Em 1905, Hubner e Koch-Grunberg os estimaram em 6000 pessoas. Suas terras eram pródigas em produtos de grande importância comercial para a época, atraindo, assim, a cobiça de colonizadores pioneiros que subiram pelos rios Uatumã, Negro, Branco e Jauaperi.
Mito de Origem No começo só existia água e céu. Mawé vivia sozinho. Ele mergulhou, pegou terra do fundo e criou o chão. Depois fez as plantas, os animais e os primeiros Kinja com barro. Como eram moles, Mawé soprou neles e deu força, sangue e vida. Por isso os Waimiri-Atroari dizem que são "gente de verdade", feitos para resistir.
Depois Mawé mandou seus dois filhos, os irmãos Iky e Mairy, para organizar o mundo. Iky era o irmão mais velho e sábio. Ele criou os rios, deu nome às coisas e ensinou os Kinja a fazer roça, a caçar e a usar o fogo, que ele roubou do urubu-rei. Mairy era o irmão mais novo e desobediente. Por causa de uma desobediência de Mairy, a morte entrou no mundo.
Os Kinja acreditam que os brancos, chamados de kaminja, são descendentes de Mairy. Por isso, os brancos não sabem viver direito, não respeitam a terra e quebram os acordos.
Organização social e política dos Waimiri-Atroari Antes da abertura da rodovia BR-174, a sociedade Waimiri Atroari, que se autodenomina Kinja, organizava-se de forma descentralizada e sem a presença de um Estado ou de classes sociais. A unidade política básica era a aldeia, formada por uma grande maloca que abrigava várias famílias extensas. Cada aldeia era autônoma e tomava suas próprias decisões. Não existia um chefe geral de todo o povo Kinja.
A liderança dentro da aldeia era exercida pelo “dono da maloca”, geralmente um homem mais velho reconhecido por sua oratória, generosidade e coragem na caça e na guerra. Esse prestígio não era hereditário: precisava ser mantido diariamente por meio da distribuição de alimentos e da realização de festas, as maryba. Caso o líder deixasse de ser generoso, os moradores podiam abandoná-lo e mudar-se para outra aldeia. As decisões importantes eram discutidas até se chegar a um consenso entre os homens adultos, em reuniões realizadas no pátio da aldeia.
O trabalho era dividido entre homens e mulheres de forma complementar. Os homens eram responsáveis por derrubar a mata para abrir roças, caçar, pescar, construir a maloca e participar de guerras. As mulheres cuidavam da manutenção da roça, colheita, preparo da farinha, coleta de frutas e lenha, confecção de cerâmica e redes, além do cuidado com as crianças. Ambos os papéis eram considerados fundamentais para a manutenção do grupo.
Embora as reuniões políticas formais no pátio fossem conduzidas por homens, as mulheres influenciavam as decisões por meio das relações familiares. Também existiam xamãs homens e mulheres, indicando que o poder espiritual não era exclusivo de um gênero.
Na sociedade Kinja não havia acúmulo de riqueza, classes sociais ou uma autoridade central que impusesse tributos. A terra e os recursos naturais eram de uso coletivo. Ao mesmo tempo, existiam hierarquias baseadas em idade, prestígio e gênero. Os mais velhos, grandes caçadores e bons oradores tinham mais autoridade. Assim, tratava-se de uma sociedade sem Estado, mas com formas de diferenciação social ligadas ao prestígio pessoal e à reciprocidade.
As festas maryba, realizadas entre aldeias aliadas, reforçavam os laços políticos e econômicos por meio da troca de alimentos e presentes, funcionando como mecanismo de redistribuição e manutenção da coesão social.
Língua e Festa Maryba pode ser traduzido como “festa, dança, canto”. É um momento ritual e festivo que ocorre durante vários períodos do ano, sem data específica, onde os Waimiri Atroari interrompem suas atividades cotidianas em prol de realizarem essas festas. As datas são marcadas com os eremy (cantores) e vários grupos locais se reúnem para essas festas, que tem um significado especial na vida dos Atroari.
Quando crianças atingem a idade de 3 a 4 anos, os Waimiri se preparam para a festa de iniciação masculina. Os pais da criança, após decidirem a data da festa com os eremy, tece um calendário feito com taquaras cortadas em lascas e ligadas umas as outras com uma fina corda de cipó titica, sendo as lascas representação dos dias que faltam para os convidados chegarem ao local da festa.
Nesse calendário também há uma marca, feita com faca, identificando o dia da coleta da banana para madurar e poder preparar-se o mingau.
As mulheres cuidam da culinária festiva, sendo as mães e avós as organizadoras das atividades da cozinha. Já os homens ficam responsáveis pela confecção dos artefatos (flechas e cestos). Essas flechas são oferecidas aos eremy como forma de “pagamento” e aos paxira (parentes distantes) como agradecimento pela presença, enquanto os cestos, são pra ofertar alimentos, em especial carnes moqueadas, e quando colocadas na cabeça do menino, desejando que sonhem bastante e sejam muito maty (bom caçador e pescador)
Chegando próximo à mydy taha, os paxira armam acampamento para aguardar a chegada da alvorada do dia da festa, geralmente o dia seguinte. Próximo do amanhecer, os eremy começam a cantar e a acordar todos. Flautas e cantos são ouvidos de longe e todos na mydy taha põem-se em estado de alerta para aguardar os seus convidados.
Os meninos a serem iniciados são levados para fora da maloca e sentados em um banco confeccionado especialmente para a ocasião. Todos os paxira adentram o espaço da aldeia cantando, sendo essa multidão liderada pelo pai e os eremy. Festejam circulando os meninos, entregam a caça para os anfitriões e se dirigem ao espaço interior da maloca, onde serão recepcionados com beijus e mingau de buriti.
Também há outros tipos de festa, como o ritual dos mortos-vivos (Irikwa maryba) e a mydy maryba (festa da casa nova). O Irikwa Maryba é feito quando algum espírito maligno está se aproximando da aldeia, e o objetivo é acalmá-lo e afastá-lo. Essa festa também pode ser realizada quando algum parente faleceu, para que sua alma não fique vagando no mundo dos vivos. Irikwa é uma entidade que não traz bons agouros; vive na floresta e o kinja que o ver é responsável a definhar até perecer, não havendo tratamento pra esse tipo de contágio. O Irikwa Maryba é feito sempre que necessário, sem ter uma periodicidade. Já a Mydy maryba é feita quando o grupo local termina os trabalhos de fechar e cobrir as as laterais da maloca. Participa dessa festa os diversos grupos domésticos e locais que foram convidados pelos mydy iapremy a auxiliarem nos trabalhos de construção da nova maloca. O objetivo é solicitar bons fluidos para a nova moradia, para que irikwa não chegue perto, e também para que o material utilizado em sua execução tenha longa durabilidade.
Contatos e conflitos No século XIX, os contatos mais conhecidos ocorreram na foz do rio Jauaperi, próximo às vilas de Moura e Airão, de forma quase sempre belicosa, com o apoio inclusive de forças policiais do Amazonas. Aldeias inteiras foram dizimadas por expedições oficiais do governo ou por matadores profissionais, porque sua população era tida como empecilho à livre exploração das riquezas naturais existentes nas terras que ocupavam.
Só por volta de 1870 é que aconteceu o primeiro contato amistoso, por intermédio do etnógrafo e botânico João Barbosa Rodrigues.
Povo Kinja e a Ditadura Militar de 1964 miniaturadaimagem|Mapa da Rodovia BR-174, construída em parte do território Waimiri durante a ditadura militar No século XX, sua história é marcada por uma importante resistência aos grandes projetos da Ditadura Militar (1964-1985). Por várias vezes, ao longo do século XX, suas terras foram objeto de esbulho e de abertura a empreendimentos que atendessem aos interesses econômicos da sociedade nacional. Mas foi na década de 1960 que foram iniciados, por parte da Ditadura Militar, um processo que culminou com o genocídio de mais de 2500 pessoas pertencentes a esse povo. O Serviço de Proteção ao Índio e, em seguida, a Fundação Nacional do Índio - órgãos indigenistas do estado brasileiro - , por meio dos trabalhos da Frente de Atração e Contato dos Waimiri-Atroari, foram pontas de lança para esse genocídio. O exército brasileiro teve papel fundamental nesse processo de extermínio dos Waimiri-Atroari, durante a construção da BR-174, rodovia que atravessou o território indígena e que tinha por finalidade a implantação de mineração dentro do território tradicional dos Waimiri-Atroari. Há registros do uso de metralhadoras, granadas, dinamite e até mesmo armas químicas contra os Waimiri-Atroari. Nos sucessivos massacres promovidos pelo Exército, que se estenderam ao longo de toda a década de 1970, morreram não somente os homens que revidavam aos ataques, mas também mulheres, idosos e crianças.
Essas memórias são retratadas pelos próprios índios entre os anos de 1985 e 1986, quando os missionários Egydio e Doroty Schwade, implementaram junto a esta etnia o método de alfabetização de Paulo Freire na aldeia Yawará em Roraima. Nesse período, os índios, por meio de desenhos, puderam demonstrar as atrocidades pelas quais eles tinham passado durante o regime civil-militar.
A análise desse processo foi aprofundada posteriormente pela Comissão Nacional da Verdade, que reconheceu a responsabilidade do Estado brasileiro em graves violações de direitos humanos contra esse povo. Mais do que episódios isolados, trata-se de uma política sistemática de extermínio e desestruturação social, que atingiu não apenas a integridade física dos indivíduos, mas também suas formas de organização, cultura e relação com o território
A alfabetização, a produção de registros históricos e a denúncia A experiência missionária de Egydio Schwade junto ao povo Waimiri-Atroari ocorreu de forma mais intensiva entre os anos de 1985 e 1986 na aldeia Yawará, localizada no estado de Roraima. Imbuído do desejo de desconstruir a imagem estigmatizada de "terroristas" e "assassinos" que o Exército e a FUNAI atribuíam aos indígenas para justificar ações violentas, Schwade adotou uma estratégia de aproximação baseada na convivência familiar, ingressando no território acompanhado de sua esposa, Doroti Müller Schwade, e de seus quatro filhos pequenos. A ação central do casal consistiu em um projeto de alfabetização bilíngue fundamentado na pedagogia de Paulo Freire, que priorizava a língua materna em detrimento do ensino imediato do português, permitindo que os próprios índigenas fossem os criadores de seu alfabeto.
Através do uso de desenhos e da codificação de palavras-chave de sua própria realidade, os indígenas passaram a recompor sua geografia e história, resultando em um progresso pedagógico rápido onde, em apenas quatro meses, diversos membros da aldeia já redigiam frases em sua própria língua. Esse processo educativo revelou-se um poderoso instrumento de resistência cultural, pois estimulou a emergência de memórias coletivas traumáticas sobre o genocídio sofrido durante o regime civil-militar, especialmente no período de construção da rodovia BR-174. Os cadernos e lousas da escola transformaram-se em registros históricos onde sobreviventes denunciavam, por meio da escrita e da arte, ataques com bombas, metralhadoras, fios elétricos e a introdução proposital de doenças que dizimaram comunidades inteiras.
As imagens destes desenhos podem ser acessadas através do link