Ianomâmis,Dicionário Escolar da Língua Portuguesa/Academia Brasileira de Letras. 2ª edição. São Paulo. Companhia Editora Nacional. 2008. 676. yanomami, yanomamDicionário Houaiss: 'Yanomami'; 'Yanomam'. Obs. - Trata-se de etnônimos brasílicos: vocábulos que, em Antropologia, designam os grupos indígenas do território brasileiro, quer extintos, quer atuais, utilizando uma grafia especial, cujas regras foram estabelecidas por antropólogos e linguistas: são invariáveis, em gênero e número, e grafados com inicial maiúscula). Ver Dicionário Houaiss: 'etnônimo', loc. 'etnônimo brasílico'Povos Indígenas no Brasil. Yanomami. Acesso em 20 de dezembro de 2015. ou yanoama, entre outras denominações,Também há registros das denominações Yanomano, Yanomame e Yanomama. Ver SILVA, Orlando Sampaio,Os Yanoama: denominações de um "povo" sem esperança. Comunicação apresentada no Simpósio sobre Indigenismo, na XI Reunião Brasileira de Antropologia, realizada em Recife, de 7 a 9 de maio de 1978. são um grupo de aproximadamente 35 mil indígenas que vivem em cerca de 200 a 250 aldeias na Floresta Amazônica, na fronteira entre Venezuela e Brasil. Compõe-se de quatro subgrupos: Yanomae, Yanõmami, Sanima e Ninam. Cada subgrupo fala uma língua própria. Juntas, essas línguas compõem a família linguística ianomâmi.Povos Indígenas no Brasil. Disponível em https://pib.socioambiental.org/pt/povo/yanomami/570. Acesso em 21 de dezembro de 2015.

A etnia Yanomami é a sétima maior etnia indígena brasileira, com 15 mil pessoas distribuídas em 255 aldeias relacionadas entre si em maior ou menor grau. No noroeste de Roraima, estão situadas 197 aldeias que somam 9 506 pessoas e, no norte do Amazonas, estão situadas 58 aldeias que somam 6 510 pessoas.

Etimologia O etnônimo Yanomami foi produzido pelos antropólogos a partir da palavra yanõmami, que, na expressão yanõmami thëpë, significa "seres humanos". Essa expressão se opõe às categorias yaro (animais de caça) e yai (seres invisíveis ou sem nome), mas também a napë (inimigo, estranho, não-índio).

Segundo o etnólogo Jacques Lizot:

História

Segundo uma das hipóteses mais aceitas no meio acadêmico, os ianomâmis são descendentes de um antigo grupo indígena denominado proto-ianomâmi, que se instalou há um milênio na serra Parima. O grupo teria se dividido pelo crescimento demográfico causado por novos plantios, como banana, obtenção de ferramentas de metal por meio de troca ou guerra, e a dizimação de outras comunidades indígenas por causa da colonização, que abriu espaço para a migração.

O primeiro relato dos ianomâmis ao mundo europeu é de 1654, quando uma expedição salvadorenha comandada por Apolinar Diez de la Fuente visitou alguns iecuanos que viviam no rio Padamo. Diez escreveu:

O primeiro contacto de ianomamis com ocidentais terá ocorrido em 1950 na Venezuela, através de um missionário de Novas Tribos Zerries, ocorrendo no Brasil em 1962, no Guarari, através do padre Góis, responsável pela instalação da missão do Amaturá. esquerda|miniaturadaimagem|Peças de artesanato ianomami, exibidas no MASP em dezembro de 1972

Entre 1968 e 1972, o padre italiano João Batista Saffirio, da congregação missionária da Consolatta, viveu entre comunidades indígenas do Território Federal de Roraima que descreveu como ianomamis. Saffiriu localizou as comunidades numa região próxima ao rio Catrimani, nas coordenadas . Os indígenas habitariam toda a região do Alto Catrimani, divididos por nove comunidades ou grupos tribais, autodenominados Korihanatéri, Opietéri, Vaicá, Xaxanapiutéri, Aiuvautéri, Vapocoipiutéri, Javari, Maracapiutéri e Maraxiutéri, com cada grupo correspondendo a uma grande aldeia, de forma oval, com o teto de forma cónica, sempre próximo de um igarapé, embora em terreno elevado fora do alcance das águas. Os indígenas cultivavam roças coletivas, nas quais produziam mandioca, bananas, tabaco e algodão. Cada comunidade era liderada por uma a duas chefias, e dois a três pajés. Em dezembro de 1972, Saffirio apresentou no Museu de Arte de São Paulo uma mostra de artesanato indígena Yanomami. A mostra precederia uma exibição fotográfica sobre as mesmas comunidades, da autoria de Claudia Andujar e George Love, que viveram entre os indígenas durante um ano.

Em Roraima, Brasil, durante década de 1970 teve lugar a implementação de projetos de desenvolvimento no âmbito do "Programa de Integração Nacional" lançado pela ditadura militar brasileira, o que significou a abertura de um trecho de estrada perimetral (1973-76) e vários programas de colonização em terras tradicionalmente ocupadas pelos ianomâmis. No mesmo período, o projeto de levantamento de recursos amazônicos Radam (1975) detectou importantes jazidas minerais na região, o que desencadeou um movimento progressivo de garimpeiros, que, depois de 1987, assumiu a forma de uma verdadeira corrida de ouro. Abriram-se centenas de pistas de pouso clandestinas por garimpeiros nos principais afluentes do rio Branco entre 1987 e 1990. Estimava-se, então, o número de garimpeiros na área ianomâmi de Roraima em 30 a 40 mil, cerca de cinco vezes a população indígena ali residente. Embora a intensidade dessa corrida de ouro tenha diminuído muito desde 1990, a garimpagem continua até hoje na terra ianomâmi, espalhando violência e graves problemas de saúde e sociais a esse povo.

A crescente pressão de fazendeiros, pecuaristas e garimpeiros, bem como dos interessados em proteger a fronteira brasileira com a construção de estradas e bases militares perto das comunidades ianomâmi, levou a uma campanha para defender os direitos desse povo de viver numa área protegida. Em 1978 criou-se a Comissão Pró-Yanomami (CCPY). Originalmente denominada Comissão para a Criação de um Parque Yanomami, é uma organização não governamental brasileira sem fins lucrativos dedicada à defesa dos direitos territoriais, culturais e civis e políticos dos ianomâmis. A CCPY dedicou-se a uma longa campanha nacional e internacional a informar e sensibilizar a opinião pública e pressionar o governo brasileiro a demarcar uma área adequada às necessidades dos ianomâmis. Após 13 anos, demarcou-se oficialmente a Terra Indígena Yanomami em 1991 - homologada e registrada em 1992 -, garantindo-lhes assim o direito constitucional ao uso exclusivo de quase 96.650 quilômetros quadrados localizados nos estados de Roraima e Amazonas.

A Reserva da Biosfera Alto Orinoco-Casiquiare foi criada em 1993 com o objetivo de preservar o território tradicional e o estilo de vida dos povos ianomâmi e iecuano. No entanto, embora a constituição da Venezuela reconheça os direitos dos povos indígenas aos seus domínios ancestrais, poucos receberam o título oficial de seus territórios e o governo anunciou que abrirá grandes partes da floresta amazônica para mineração legal.

Sociedade thumb|Ianomâmis uaicás

Os ianomâmis não se reconhecem como um grupo unido, mas sim como indivíduos associados com aldeias politicamente autônomas. As comunidades ianomâmis são agrupadas porque têm idades e parentesco semelhantes e coalizões militaristas entrelaçam-nas. Os ianomâmis têm laços históricos comuns com falantes de galibi que residiam perto do rio Orinoco e mudaram-se às terras altas do Brasil e da Venezuela, local que os ianomâmis ocupam atualmente.

Homens maduros detêm a maior autoridade política e religiosa. Um tuxawa (cacique) atua como líder de cada aldeia, mas nenhum líder sozinho preside o conjunto dos classificados como ianomâmi. Os chefes ganham poder político demonstrando habilidade em resolver disputas tanto dentro da aldeia quanto com as comunidades vizinhas. Um consenso de homens maduros geralmente é necessário para ações que envolvam a comunidade, mas os indivíduos não são obrigados a participar.

Vida doméstica thumb|Um shabono ianomâmi Grupos de ianomâmis vivem em aldeias geralmente compostas por seus filhos e famílias. As aldeias variam em tamanho, mas geralmente contêm entre 50 e 400 pessoas. Nesse sistema amplamente comunal, toda a aldeia vive sob um teto comum chamado shabono, que tem uma forma oval característica, com campos abertos no centro medindo em média 91 m, e constitui o perímetro da aldeia, se não for fortificado com paliçadas. Sob essa cobertura, existem divisões marcadas apenas por postes de apoio, compartimentando casas e espaços individuais. Constrem-se os shabonos a partir de matérias-primas da floresta tropical circundante, como folhas, cipós e troncos de árvores. São suscetíveis a grandes danos causados por chuvas, ventos e infestação de insetos. Como resultado, novos shabonos são construídos a cada 4 a 6 anos.

Famílias thumb|Crianças ianomâmis

As crianças ficam perto de suas mães quando pequenas e a maior parte da criação dos filhos é feita por mulheres. Os grupos ianomâmis são um exemplo famoso de cerca de cinquenta sociedades documentadas que aceitam abertamente a poliandria, embora a poliginia entre as tribos amazônicas também tenha sido observada. Muitas uniões são monogâmicas. As famílias polígamas consistem numa grande unidade familiar patrifocal baseada num homem e em subfamílias matrifocais menores: a unidade familiar de cada mulher, composta pela mulher e seus filhos. A vida na aldeia é centrada em torno da pequena unidade familiar matrilocal, enquanto a unidade patrilocal maior tem mais importância política fora da aldeia.Starkweather and Hames, 2012

Os homens ianomâmis passam boa parte do noivado vivendo com seus sogros e o casamento de levirato ou sororato pode ser praticado no caso de morte de um cônjuge. Grupos de parentes tendem a estar localizados em aldeias e sua profundidade genealógica é bastante superficial. O parentesco é crítico no arranjo do casamento e laços muito fortes desenvolvem-se entre grupos de parentes que trocam mulheres. Seu sistema de parentesco pode ser descrito em termos do padrão classificatório iroquês. Para citar o antropólogo Napoleon Chagnon, "Numa palavra, todos na sociedade ianomâmi são chamados por algum termo de parentesco que se pode traduzir no que chamaríamos de parentes de sangue".

Dieta Os ianomâmis são conhecidos como caçadores, pescadores e horticultores. As mulheres cultivam banana-da-terra e mandioca em roças como cultivo principal. Os homens fazem o trabalho pesado de desmatar áreas de floresta para as roças. Outra fonte de alimento para os ianomâmis são as larvas.Ya̦nomamö: the fierce people (Chagnon 1968; Chagnon 1977; Chagnon 1983; Chagnon 1992; Chagnon 1998; Chagnon 2012) Muitas vezes os ianomâmis cortam as palmeiras para facilitar o crescimento das larvas. A dieta tradicional ianomâmi é muito pobre em sal comestível. Sua pressão arterial está caracteristicamente entre as mais baixas de qualquer grupo demográfico."Yanomami Indians in the INTERSALT study" (acessado em 14 de janeiro de 2007)

As lavouras compõem até 75% das calorias da dieta ianomâmi. A proteína é fornecida por recursos selvagens obtidos através da coleta, caça e pesca. Quando o solo se esgota, os ianomâmis frequentemente se mudam para evitar áreas que se tornaram superutilizadas, uma prática conhecida como agricultura itinerante. Embora as mulheres não cacem, trabalham nas roças e colhem frutas, tubérculos, nozes e outros alimentos silvestres. As roças são divididas por família e cultivam bananas, plátanos, cana-de-açúcar, manga, batata-doce, mamão, mandioca, milho e outras culturas.Napoleon A. Chagnon (1992). Yanomamo. NY: Harcourt Brace College Publishers. Fourth edition.

Rituais