Samba-rock é nome dado a um estilo de dança e a um gênero musical que funde samba com rock, soul e funk, todos com origens na década de 1950. Como gênero musical, o gênero teve mais destaque nas décadas de 1960 e 1970. Podem ser citados como principais expoentes do estilo Jorge Ben Jor, Erasmo Carlos, Bedeu, Bebeto, Trio Mocotó e o Clube do Balanço. A dança une os movimentos do rockabilly com o gingado brasileiro de se dançar samba. Nasceu ao som dos primeiros DJs, depois, das equipes de som.
Em 1978, foi lançada a primeira coletânea contendo músicas tocadas nos bailes de samba-rock, Samba Rock - o Som dos Blacks e deu início a uma nova era. Continha vários sucessos de bailes da época facilitando o acesso a essas músicas, que até então eram músicas fora de catálogo e difíceis de se encontrar. O surgimento das coletâneas acabou ajudando a difundir o samba-rock ainda mais.
Fusão de ritmos Na virada dos anos 1960 para os 1970, o Brasil testemunhou a definição de um novo gênero musical, a partir da fusão das bases rítmicas e temáticas do samba com um discurso e uma musicalidade absorvidos diretamente da música negra americana. Já há algum tempo, músicos oriundos de diversas tendências, conectados com as influências da cultura internacional, dialogavam, criando novos ritmos a partir da fusão da matriz comum do arquigênero do samba com o jazz, o rock e a soul musicOriginalmente, a música soul foi uma versão secular da música gospel norte-americana, e se tornou a principal forma de black music nos anos 1960 e 1970. Paralelamente a este cenário musical, novas experimentações interpretativas eram desenvolvidas em São Paulo por negros das periferias, que criaram os primeiros passos de uma dança que misturava influências coreográficas do rockabilly americano (derivado do lindy hop) à marcação do samba. A esta nova dança convencionou-se chamar samba-rock, que acabou por definir também uma nova maneira de se fazer música, um novo gênero musical.
Tecnicamente, nas composições de samba-rock, é feito um deslocamento da acentuação rítmica, cujo compasso binário de samba (2/4) é adaptado ao compasso quaternário (4/4) do rock e da soul music, utilizando, ainda, naipes de metais importados dos grupos de soul e funk americanos.
thumb|Exemplo de canção samba-rock
Estruturalmente, é a denominação dada ao samba interpretado à base de guitarra, no estilo popularizado por vários artistas, cujo ícone foi Jorge Ben. embora o mesmo não goste do termo. Em várias regiões do país, artistas desenvolviam paralelamente músicas dentro do conceito da mistura do samba com o rock e com o soul. Em Porto Alegre costumava-se chamar de suíngue; samba-rock era mais utilizado em São Paulo e, no Rio de Janeiro, expressões como sambalanço e, posteriormente, samba-soul e samba-funk eram mais recorrentes. Apesar do uso do termo sambalanço, ele é impreciso, pois se trata de um estilo anterior ao samba-rock, embor Jorge Ben se inspirasse em Orlandivo em seu começo de carreira, ele incorporou influências do rock americano como o rock e o R&B de Little Richard e o rockabilly de Ronnie Self.
Apesar dos sotaques musicais diferentes, a matriz da fusão era sempre mantida, com a modulação rítmica clássica do rock and roll, composta por bateria, baixo, guitarra e teclados, articulada à levada do samba através do violão, da cuíca, do pandeiro e da timbal.
Década de 1950 Na década de 1950, com a chegada do rock and roll e do rockabilly, surgiu bailes em São Paulo, por conta do ecletismo na seleção musical, ficaram conhecidos como bailes de samba-rock. Artistas como Djalma de Andrade, mais conhecido como Bola Sete, Waldir Calmon e o conjunto Bolão e Seus Roquetes, já faziam fusões de samba com o rock sendo tocados nos primeiros bailes de São Paulo.miniaturadaimagem|Jackson do Pandeiro
Em 1959, Jackson do Pandeiro gravou Chiclete com Banana,"Eu só boto bee-bop no meu samba/ Quando o Tio Sam tocar num tamborim/ Quando ele pegar no pandeiro e na zabumba/ Quando ele aprender que o samba não é rumba/ Aí eu vou misturar Miami com Copacabana/ Chiclete eu misturo com banana/ E o meu samba vai ficar assim./ É o samba-rock meu irmão". "Chiclete com banana/ Forró de Surubim", compacto de 1959, Columbia 78. de Gordurinha e Almira Castilho, esposa de Jackson, uma composição que fazia uma alusão crítica à invasão americana na música brasileira, em 1959. A canção é classificada como samba-coco.
Década de 1960 thumb|Tim Maia no Teatro Opinião, janeiro de 1972 thumb|left|Wilson Simonal, 1969 thumb|left|Os Mutantes. thumb|Erasmo Carlos miniaturadaimagem|left|Os Originais do Samba, setembro de 1972 O desenvolvimento do sambalanço se deu a partir do crescimento vertical da população urbana e da multiplicação de casas noturnas frequentadas por plateias de média e alta classe. Em contraponto aos minúsculos palcos da bossa nova do Beco das GarrafasO Beco das Garrafas é uma rua sem saída do bairro de Copacabana, Rio de Janeiro, onde, em 1961, surgiram várias pequenas casas de espetáculo e a bossa nova floresceu. O nome Beco das Garrafas deve-se ao fato da vizinhança, na época, atirar garrafas no beco por causa da intensa atividade musical do lugar. onde a música era para ser ouvida e mal havia espaço para a prática da dança de salão. Surgiam grandes boates, que serviram de palco para a definição destes novos gêneros, com uma maior separação da bossa nova, a partir da atuação do organista Ed Lincoln, do violão sincopado de Durval Ferreira, o rei dos bailes, e de Orlandivo (chamado de o "sambista da chave", por utilizar um chaveiro como acompanhamento percussivo), entre outros, que criaram o chamado sambalanço. Todos estes músicos conviviam e apresentavam-se no Beco das Garrafas, onde também tocava J.T. Meirelles, instrumentista considerado o criador do samba-jazz. Junto com seu conjunto Copa 5, praticava um estilo musical com influências do bebop de Sonny Rollins e do cool jazz de Stan Getz, mesclados aos ritmos do samba.Dentre os precursores do cool jazz estão Miles Davis e Lester Young, que, no final da década de 1940, desenvolveram um estilo mais introspectivo e cerebral de jazz. O cool surgiu em reação ao bebop, cujo ritmo é cheio de síncopas e de figuras complexas. Seus maiores expoentes são Charlie Parker e Dizzy Gillespie.
J.T. Meirelles fez os arranjos e tocou nos primeiros discos de um jovem cantor do Beco das Garrafas, ainda desconhecido, que dava os primeiros passos de sua carreira como crooner:Crooner era a denominação dada a cantores de sucessos da canção popular norte-americana dos anos 1920 até a década de 1960. Normalmente sendo acompanhados por grandes orquestras, o sucesso dos crooners coincidiu com o advento do rádio e da gravação eletrônica. O termo é oriundo do verbo crooning, técnica vocal que mesclava o canto operístico às nuances sutis do jazz. Jorge Ben, tocando um misto samba-enredo, bossa nova, baião e rock, Jorge Ben costumava apresentar-se em festinhas de amigos, até começar a cantar profissionalmente. Em 1963, foi contratado pela gravadora Philips, lançando seu primeiro 78 rpm 14, que obteve grande êxito. Também naquele ano foram lançados o primeiro LP, Samba Esquema Novo, companhado pelo conjunto de samba jazz Meirelles e os Copa Cinco e o segundo, Sacudin Ben Samba, também de bastante sucesso. Autodidata, Ben não conseguia imitar a técnica refinada dos músicos da bossa-nova, e acabou desenvolvendo uma maneira original de tocar violão, a partir de uma batida inusitada que misturava o rock, o sambalanço de Orlandivo. e o estilo intimista do seu ídolo, João Gilberto. Em 1966, Roberto e Erasmo compuseram Toque o Balanço, um sambalanço gravado por Elza Soares.
Jorge Ben se apresentava tanto em O Fino da Bossa (apresentado por Elis Regina e Jair Rodrigues), programa ligado a música brasileira tradicional, quanto no Jovem Guarda, programa de música jovem, após um ultimato da produção de O Fino da Bossa, preferiu participar apenas do Jovem Guarda, embora ambos fossem exibidos pela Rede Record, havia um preconceito por parte dos artistas da MPB com a Jovem Guarda, a ponto de ocorrer a Marcha contra a Guitarra Elétrica, tempo depois, Elis Regina gravaria canções de Jorge, Roberto e Erasmo. Em 1967, Jorge Ben lança O Bidú: Silêncio no Brooklin, trazendo uma parceira com Erasmo em Menina Gata Augusta, o título remete ao bairro paulista onde Jorge e Erasmo dividiram um apartamento, a banda The Fevers gravou o instrumental do álbum, Jorge define o estilo do álbum como jovem samba, no ano seguinte, Jorge saiu do Jovem Guarda (que também terminaria naquele mesmo ano) e integrou, o Divino, Maravilhoso da TV Tupi, apresentado por Caetano Veloso e Gilberto Gil, ambos fundariam a Tropicália, movimento que misturava a música brasileira com as guitarras do rock psicodélico, a banda Os Mutantes, também ligada ao tropicalismo, grava de A Minha Menina de Jorge em seu disco de estreia,Samba-Rock - Cliquemusic Roberto Carlos lança O Inimitável, notadamente influenciado pela soul music em faixas como Se Você Pensa e Ciúme de Você, em 1969,essa última, foi composta por Luiz Ayrão (um artista associado ao samba-joia) como um samba-rock inspirado em Jorge Ben.Especial O Rei dá samba: Da bossa ao iê-iê-iê - O Dia Erasmo grava seu primeiro samba-rock, Coqueiro Verde, embora a autoria seja atribuída como uma parceria com Roberto, foi composta apenas por ele.Paulo Cesar de Araújo (2006). Roberto Carlos em Detalhes [S.l.]: Editora Planeta, 2006. ISBN 9788576652281
Em 1964, Roberto Carlos havia gravado uma versão de Unchain My Heart de Ray Charles no álbum É Proibido Fumar, a versão recebeu o título Desamarre O Meu Coração. Sobre a influência da soul music, Roberto Carlos comentou:
Tim Maia volta dos Estados Unidos trazendo influencias do soul e do funk, Maia é gravado por Eduardo Araújo no álbum A Onda é Boogaloo (1968) e também por Erasmo Carlos (Não Quero Nem Saber), Roberto Carlos (Não Vou Ficar) e Elis Regina (These Are the Songs), após alguns compactos, grava seu primeiro álbum primeiro álbum em 1970, apesar de trazer os ritmos importados, Maia também faz fusões com samba, baião, xote e bossa nova, gravando com a banda Os Diagonais, composta por Genival Cassiano, seu irmão Camarão e Amaro.Motta, Nelson. Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia Editora Objetivax, 2007. ISBN 9788539000807 Outro artista conhecido pelas fusões rítmicas foi Wilson Simonal, na década de 1950, era apresentado por Carlos Imperial como o Harry Belafonte brasileiro, uma referência ao cantor americano de calypso, um estilo afro-caribenho, na década de 1960, cantava samba, bossa nova e jazz, até que enveredou pelo estilo conhecido como Pilantragem, um misto de rock, soul e samba, Simonal também gravaria vária canções de Jorge Ben, e excursionaria pelo funk.ALEXANDRE, Ricardo. Nem vem que não tem: a vida e o veneno de Wilson Simonal. São Paulo: Globo, 2009. ISBN 9788525047281 O grupo de samba Os Originais do Samba gravou canções de Jorge Ben como Cadê Tereza (1969) e Tenha Fé Pois Amanhã Um Lindo Dia Vai Nascer (1971), o grupo também ficou notório por ter revelado Antônio Carlos Bernardes Gomes, o Mussum, que também integraria o humorístico Os Trapalhões.
Década de 1970 thumb|left|Jorge Ben e o Trio Mocotó, no Teatro da Lagoa, 1971