Fernão Dias Pais Leme (São Paulo, c. 1608 – sertão do Espírito Santo, provavelmente Quinta do Sumidouro, em 1681) foi um bandeirante paulista. Ficou conhecido como "O Caçador de Esmeraldas". É o bandeirante de mais largo renome, juntamente a Antônio Raposo Tavares. miniaturadaimagem|Autógrafo de Fernão Dias. Origens Fernão Dias Pais Leme nasceu em 1608, nas proximidades da vila de São Paulo dos Campos de Piratininga, filho de uma família de boa situação da Capitania de São Vicente. Ele era filho de Pedro Dias Pais Leme, por sua vez de Fernão Dias Pais Leme e de Lucrécia Leme, com Maria Leite da Silva, filha de Pascoal Leite Furtado, dos Açores, de nobre família, e Isabel do Prado. miniaturadaimagem|250x250px|Pátio do Colégio, centro de São Paulo, pintado por Benedito Calixto. São Paulo nessa época era um pequeno vilarejo muito pobre que tinha em torno de 2 mil habitantes.
Nome Nos documentos da época, seu nome é grafado Fernam Diaz Paes, que em sua grafia contemporânea seria Fernão Dias Pais. O acréscimo do sobrenome Leme é atribuído ao seu sobrinho-neto Pedro Taques de Almeida Pais Leme, por conta de interesses nobiliárquicos e genealógicos.
Contudo, Luís Gonzaga da Silva Leme, em sua Genealogia Paulistana, afirma que Fernão Dias efetivamente descendia da família Leme, apesar de não ter utilizado o seu nome. Esse ramo de sua família descenderia de um Maerten Lems, flamengo do Condado de Flandres, que, cansado das lutas contra a Espanha, se mudou para Lisboa, constituindo família em Portugal. Um ou mais filhos de Marten, já nascidos em Portugal, migraram para a Ilha da Madeira e de lá para o Brasil, para a Capitania de São Vicente.
Portanto o hábito do alongamento do nome provém certamente do fato de que seus descendentes adotaram os nomes de Pais Leme para a sua família. Com a fundação da Vila de São Paulo de Piratininga, subiram a Serra do Mar e se transformaram numa das mais importantes famílias paulistanas. Desse tronco descende Fernão Dias e outros Lemes, principalmente no interior de São Paulo, Paraná e no sul do Rio de Janeiro e de Minas Gerais.
Fernão Dias Pais, eis como sempre assinou, quer nos inventários de seu Pai e de sua mãe, nas atas da Câmara Municipal de São Paulo e no registro geral de sua república. Assim também nos autos de questões judiciais em que se envolveu.
Biografia
Primeiros anos Em 22 de janeiro de 1609, a família Dias recebeu do Capitão-Mor da Capitania de São Vicente Gaspar Conqueiro uma Sesmaria, na Vila de São Paulo dos Campos de Piratininga. Fernão Dias residia em sua fazenda do Capão, no atual Pinheiros, e, em 1626, assumiu o cargo de Fiscal de Rendas da câmara municipal. miniaturadaimagem|Casa do Butantã, em São Paulo, construída no século XVIII. Significativo exemplo de casa bandeirista. Localizada próximo ao rio Pinheiros. A bandeira de 1638
Integrou a famosa bandeira de Antônio Raposo Tavares, ao sul do Brasil, em 1638, que devassou os atuais estados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e talvez o Uruguai. Nos ataques às reduções do Ibicuí, no atual Rio Grande do Sul, acompanhava-o o irmão Pascoal Leite Pais, que, sofrendo uma derrota a tropa que comandava, como capitão, em Caaçapaguaçu, em 1638, foi preso pelos espanhóis comandados por D. Pedro de Lugo e levado para o rio da Prata. Somente anos depois voltaria a sua fazenda de Parnaíba em São Paulo para tomar parte em bandeiras até morrer em 1681. thumb|Mapa dos Trinta Povos das Missões, entre Paraguai, Argentina e o Rio Grande do Sul. Os Sete Povos na área cor de rosa (antiga região do Tape). A bandeira de 1644 Defensor da expulsão dos jesuítas, que não concordavam com a escravização dos índios, partiu em nova bandeira, de 1644 a 1646, dessa vez pelo sertão paulista. Ele seria eleito juiz ordinário em 1651 e, em 1653, promoveria uma reconciliação entre paulistas e jesuítas.
Reforma do Mosteiro de São Bento miniaturadaimagem|250x250px|Largo e Mosteiro de São Bento, 1830. Pintura de José Wasth Rodrigues. Acervo de Museu do Ipiranga. A vila de São Paulo, que apenas em 1711 seria promovida ao estatuto de cidade, desenvolveu-se em torno do Colégio dos Jesuítas, a partir de 1554. Desde essa época a vila contou com a presença da Ordem de São Bento, que, por iniciativa do frade beneditino Mauro Teixeira, vindo da Bahia, mandou construir "uma pequena capela sob a invocação de São Bento" na região da aldeia de Inhambuçu, na qual vivia o cacique Tibiriçá. Nessa localidade, que hoje corresponde ao Largo São Bento, no triângulo histórico do Centro de São Paulo, ao longo dos séculos seria construído o Mosteiro de São Bento.
Por volta de 1650 a capela local teria sido reformada com o auxílio de Fernão Dias. Segundo Afonso d'Escragnolle Taunay, em 1646 os beneditinos pediram à Câmara da vila de São Paulo ajuda para reverter o estado de penúria de suas instalações, e Fernão Dias teria intervindo, em 1650, prontificando-se a reformar a capela. Ele teria organizado a construção de três novos altares, de um púlpito, e de um novo dormitório para os religiosos, por meio do trabalho de numerosos indígenas escravizados. Além disso, ele passou a contribuir regularmente com dinheiro para a manutenção da igreja, e doou terras na região conhecida como Tijucuçu ou fazenda São Caetano, onde os beneditinos já possuíam propriedades, para contribuir na renda do Mosteiro. Seu envolvimento deu-se por questões de parentesco, visto que o abade do mosteiro era cunhado de sua irmã, Verônica Dias Leite, e também porque "o investimento na aquisição de bens simbólicos junto à Igreja [...] era uma estratégia bastante comum no esforço de distinção social nos marcos da cultura do Antigo Regime português".
A bandeira de 1661 Mas, em 1661, empreendeu novas expedições ao sertão, contra as missões jesuíticas em busca de índios para escravizar. Penetrou o Sul "até a serra de Apucarana", no "Reino dos índios da nação Guaianás", ou seja, no sertão do atual estado do Paraná. Retornou em 1665, com gente de três tribos, mais de quatro mil índios, mas, sem conseguir vendê-los, passou a administrá-los numa aldeia às margens do Rio Tietê, em suas terras, abaixo da vila de Parnaíba. Abastecia assim suas próprias lavouras.
As grandes expedições e descobertas por Lourenço Castanho Taques, Borba Gato, Matias Cardoso de Almeida e Fernão Dias se deram entre 1660 e 1670. Desde que uma entrada pelo Espírito Santo, chefiada por Marcos de Azeredo, dito O Velho, trouxe amostras de esmeraldas, em 1611, havia renascido o sonho de encontrar tais pedras.
Em 1671, Fernão Dias Pais Leme recebeu ordens do governador Afonso Furtado para penetrar no sertão em busca das esmeraldas da mítica serra do Sabarabuçu. Uma carta régia de 21 de setembro de 1664 tinha-lhe pedido para "ajudar Agostinho Barbalho Bezerra", de modo que a corte começava a tomar conhecimento das esperanças por ouro renascidas no Sabaraboçu.
A bandeira de 1674 Elogiado pelos seus grandes serviços pelas cartas régias de 27 de setembro de 1664, de 3 de novembro de 1674, de 4 de dezembro de 1677 e de 12 de novembro de 1678, o bandeirante predador de índios se animou à empresa. Escreveu ao governador – ou lhe escreveu D. Afonso Furtado de Castro do Rio de Mendonça, senhor e depois primeiro visconde de Barbacena e governador-geral desde 8 de maio de 1671, incentivando-o a buscar regiões de prata e esmeraldas. Deu-lhe carta patente de chefe da grande bandeira com o título de "governador das esmeraldas e da conquista dos índios Mapaxós."
Para outros historiadores, como Diogo de Vasconcelos, Fernão Dias Pais Leme se ofereceu ao governador. Diz ele: "Seria chefe de ilustre família, senhor de vastos latifúndios e milhares de escravos, aldeias de índios que administrava, e grossos cabedais, além de corpo de armas numeroso."
De qualquer jeito, data de 30 de outubro de 1672 sua patente de "governador das esmeraldas", vinda da Bahia. No início dos preparativos, usou Manuel Pires Linhares, outro sertanista notável que viria a figurar, juntamente a Marcos de Azeredo Coutinho, como o descobridor das minas no distrito dos Cataguás ou Cataguazes. Teria Fernão declarado, em 1672, à câmara de São Paulo, "que ia aventurar pelas informações dos antigos e que se reportava ao que tinha escrito ao governo deste Estado sobre minas de prata e esmeraldas".
Teria sessenta anos: D. Lucrécia Leme, sua avó, viúva de Fernão Dias Pais Leme, em termo de inventário de 12 de maio de 1606, declara ter tido seu quinto filho Pedro Dias Pais (pai de Fernão Dias Pais Leme) aos 22 anos. Fernão Dias foi o primogênito.
Na carta recebida do rei, elogiando seus grandes serviços, insinuava a conquista dos índios goianás. Ora, parte dessa nação, aterrada, se refugiara além da serra atual de Apucarana, onde formaram reino em que, em breve, guerreariam entre si. Eram os índios de melhor índole em sociedade, monógamos, cultivando a terra, vivendo em aldeias, mostrando noções de governo incomuns. Fernão Dias aproveitara a ocasião e penetrou o sertão, quando da guerra de extermínio entre eles, e conquistou-os para os apresentar ao grêmio da Igreja, conduzindo mais de cinco mil para as terras do rio Tietê junto à vila de Parnaíba, de sua propriedade. Quando da morte depois de seu régulo Tombu, que recusara de início receber o batismo por não crer numa lei em que o Senhor não castigava de pronto os infratores, mas afinal se batizara e recebera nome de Antônio, os goianás quiseram voltar ao sertão, mas Dias Pais os impedira, e com eles compôs a principal coluna da leva com que mais tarde marchou para o sertão.
A 8 de agosto de 1672, Fernão Dias Pais Leme se apresentou à câmara de São Paulo a chamado de seus oficiais e declarou que, em cumprimento da carta régia, partiria em março seguinte para o sertão de Sabarabuçu a fim de descobrir prata e esmeraldas. Itaverava-uçu ou Sabarabuçu era a "serra que resplandece", inventada por Filipe Guilhem: sertanista castelhano, a procurar nas "gerais" sem tamanho a misteriosa montanha de prata ou esmeralda, visão do paraíso... Buscavam também o lugar denominado por Marcos de Azeredo Coutinho, o primeiro que penetrou aqueles sertões, onde morreu de carneiradas, de que mais tarde será também será vitima o próprio Fernão Dias Pais Leme no rio Sumidouro, chamado Anhonhecanduva pelos índios.
Sua bandeira foi precedida pela bandeira de Matias Cardoso de Almeida, enviado em 1673 com a missão de plantar as indispensáveis roças de mantimentos. Matias Cardoso havia conhecido os tais índios mapaxós, aos quais obrigara a ir cada vez para mais longe. A outra parte da bandeira, ou segunda vanguarda, comandada por Bartolomeu da Cunha Gago, partiu no início de 1674, procedendo às colheitas e armazenando-a ao longo da jornada.
A partida Em 20 de julho de 1674, Fernão Dias escreveu carta a Bernardo Vieira Ravasco em que diz: "minha partida que será amanhã, sábado, 21 de julho de 1674, com 40 homens brancos e tenho quatro tropas minhas com toda a carga de mais importância no serro onde está o capitão Matias Cardoso esperando por mim, o qual me mandou pedir gente escoteira com pólvora e chumbo."
Matias Cardoso de Almeida se unira à expedição com um terço de sua própria dependência, armado a sua custa. Por vanguarda, já Bartolomeu da Cunha Gago fora enviado na frente.