A língua kaingang, também chamada jêMuseu do Índio recebe líder da Terra Indígena de Mangueirinha(PR). SERCE/MI. Disponível em http://www.museudoindio.org.br/template_01/default.asp?ID_S=29&ID_M=668 . Acesso em 11 de agosto de 2012. e kaigang,MUNDURUKU, D. Contos indígenas brasileiros. Ilustrações de Rogério Borges. Segunda Edição. São Paulo. Global. 2005. p. 43 é uma língua indígena brasileira em situação definitivamente ameaçada de acordo com a UNESCO.Com uma população de aproximadamente 30.000 pessoas, presentes nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o kaingang é uma das quatro línguas indígenas mais faladas no Brasil, com mais de 27 mil falantes.

A língua pertence ao tronco linguístico Macro-jê, compõe a família linguística Jê e, junto a língua laklãnõ, forma o ramo linguístico Jê Meridional.

Etimologia A partir da metade do século XIX havia se generalizado a denominação de "Coroados" para se referir aos Kaingang e Laklãnõ, pelo uso do que se considerava coroas de plumas na cabeça ou mesmo cortes de cabelo que lembravam uma coroa.

A denominação "Kaingang" foi introduzida por Telêmaco Borba a partir de 1882, formado pela junção dos termos kaa (árvore, mato) e ingang (morador do) e significa "gente da floresta" ou "donos da mata".

Atualmente são considerados duas etnias com um passado remoto comum que, com a separação histórica, desenvolveram processos socioculturais específicos que os tornaram relativamente diferenciados.

Distribuição

Distribuição geográfica O povo caingangue ocupa uma vasta área, hoje composta por 48 terras indígenas isoladas entre si, contidas entre o baixo Rio Tietê no norte e a bacia do Alto Rio Uruguai no sul. A situação em relação à língua falada varia de lugar para lugar: em algumas comunidades, todos falam caingangue, em outras, todos, exceto os mais velhos, são bilíngues e, em outras, a maior parte da população é bilíngue ou fala apenas o português.

Há pelo menos dois séculos sua extensão territorial compreende a zona entre o Rio Tietê (SP) e o Rio Ijuí (norte do RS). No século XIX seus domínios se estendiam, para oeste, até San Pedro, na província argentina de Misiones.

Dialetos e línguas relacionadas miniaturadaimagem|294x294px|Mapa dos dialetos caingangues

A língua caingangue apresenta um alto grau de variação diatópica, podendo ser subdividida em cinco dialetos. São eles: o kaingang paulista (entre os rios Tietê e Paranapanema), o kaingang do paraná (no estado homônimo, entre os rios Paranapanema e Iguaçu), o kaingang central (no oeste de Santa Catarina, entre os rios Iguaçu e Uruguai), o kaingang do sudoeste (ao sul do rio Uruguai e a oeste do rio Passo Fundo) e o kaingang do sudeste (ao sul do rio Uruguai e leste do rio Passo Fundo). Os dialetos diferenciam-se em várias partes de sua estrutura, sendo as diferenças mais evidentes as fonológicas. O dialeto paulista é considerado o mais divergente, caracterizado pelo maior grau de obsolescência, apresentado algumas fusões fonológicas parciais.

Estes dialetos ainda existem, embora estejam passando por transformações constantes. Observa-se o fato de migrações espontâneas de famílias de uma região para a outra, assim como também contatos esporádicos entre todas as regiões. Cresceu a preocupação de ter uma língua de comunicação para o grupo como um todo, especialmente na sua forma escrita. A realização deste desejo foi facilitada pelo fato que, com contatos ficando mais frequentes após os anos 70, os falantes dos dialetos Central, Sudoeste e Sudeste espontaneamente reconheceram o dialeto Paraná como referencial. Os falantes do dialeto São Paulo, sendo muito poucos e com poucos contatos com os outros grupos, estão deixando o uso da língua caingangue em favor do Português.

miniaturadaimagem|226x226px|Terra Indígena do Ibirama miniaturadaimagem|226x226px|Terra Indígena do Ibirama vista de cima Parte dos caingangues vivem na Terra Indígena do Ibirama, junto aos povos Laklãnõ, Guarani Mbya e Guarani Ñandeva. +Quadro comparativo entre as línguas caingangue e laklãnõ Pronomes pessoaisCainganguelaklãnõSingular1ª pessoainhẽnh2ª pessoaãa, ahã3ª pessoati (masculino) fi (feminino)ti, ta (masculino) zi (feminino)Plural1ª pessoaẽgãg2ª pessoaãjagme ã3ª pessoaag (masculino) fag (feminino)óg

História

Primeiros contatos thumb|Mĩg (onça)Os primeiros contatos oficiais, amistosos e reconhecidos com comunidades caingangues pela sociedade portuguesa aconteceram nos campos de Guarapuava, no centro do Paraná, a partir de 1812 (cf. D'Angelis 1984:8 - 10). Na sequência, estabeleceram-se contatos (por conta, obviamente, da invasão e da ocupação do território indígena) com os caingangues das regiões sul-riograndenses de Nonoai, em (1845), de Guarita, em (1848) e do nordeste do Rio Grande do Sul, em (1850), além das regiões paranaenses de Palmas, em (1839), do norte do Paraná, em (1859), do extremo oeste paranaense, em (1880) e assim sucessivamente. Os últimos grupos forçados às relações pacíficas com os brasileiros foram os caingangues paulistas, da região dos rios Feio e Aguapeí.

Desde os primeiros contatos, os caingangues foram alvo de ações catequéticas pela Igreja Católica. De fato, ao tempo do império, isso era parte da política indigenista oficial. A expedição militar que ocupou Guarapuava contava com o capelão Francisco das Chagas Lima (que antes missionara os puri-coroados, em São Paulo) e que, desde o primeiro momento, buscou catequizar os caingangues. No Rio Grande do Sul, poucos anos após o estabelecimento dos primeiros aldeamentos dos caingangues, jesuítas liderados pelo padre Bernardo Parés atuaram na catequese da gente de Nonoai, de Guarita e de Votouro. No norte do Paraná, a partir das iniciativas mais permanentes de ocupação brasileira no vale do Tibagi, o governo provincial determinou a fundação de um aldeamento em São Jerônimo da Serra, com a catequese entregue a capuchinhos italianos (o mais conhecido deles, frei Timóteo de Castellnuovo). E foi um capuchinho italiano, frei Mansueto Barcatta de Val Floriana, no início do século XX, o responsável pelo primeiros trabalhos de fôlego sobre a língua caingangue: uma gramática e um vasto dicionário (Floriana 1918 e 1920). Antes dele, apenas se contam com vocabulários (alguns, de certa extensão e interesse).

Nos anos 1940, surgiram trabalhos mais acurados, ainda que menos volumosos, na linha da linguística histórico-comparativa, assinados por Mansur Guérios (1942 e 1945). Na sequência dele, merecem registro os estudos de Wanda Hanke, tanto do xoclengue (Hanke 1947) como do caingangue norte-paranaense (Hanke 1950).thumb|Goj (água). Lê-se "ngoi".|esquerdaNo final dos anos 1950, instalou-se, na divisa da área indígena de Rio das Cobras, no sudoeste do Paraná, a missão e centro de pesquisa linguística do Summer Institute. A língua caingangue passou a ser estudada, ali, por Ursula Wiesemann (e, ao que parece, posteriormente, por Gloria Kindell). Em 1959, por exemplo, um primeiro estudo foi tornado público, em reunião da Associação Brasileira de Antropologia: era intitulado "Notas sobre o protocaingangue: um estudo de quatro dialetos" (cf. Wiesemann 1959). Durante os anos 1960, Wiesemann preparou material de ensino da língua caingangue para missionários (Wiesemann 1967) e, finalmente, estabeleceu uma sugestão de ortografia oficial e iniciou a produção de cartilhas para alfabetização em caingangue. Estabeleceu-se, então, um convênio envolvendo a Fundação Nacional do Índio, o SIL International e a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e criou-se a primeira escola para formação de "monitores bilíngues" na área de Guarita, no Rio Grande do Sul. Iniciou-se, assim, um dos primeiros programas de educação escolar indígena bilíngue no Brasil, mas numa perspectiva claramente transicional, em que a língua indígena não recebeu valorização. Ao contrário, serviu apenas de ponte para o ensino em português. Em contato permanente com as comunidades caingangues do oeste de Santa Catarina, norte do Rio Grande do Sul e sudoeste do Paraná desde 1977, o pesquisador que assina este texto avalia que a introdução desse tipo de ensino bilíngue acelerou um processo de abandono da língua pelas gerações caingangues mais jovens (cf. D'Angelis 2002a).

Estudo da linguagem thumb|Kempo (pulga)Estudos da língua caingangue amparados por instituições universitárias brasileiras começaram a surgir apenas em meados dos anos 1980. Em 1987, Marita Cavalcante apresentou dissertação sobre fonologia e morfologia dos caingangues de São Paulo e, no ano seguinte, José Baltazar Teixeira descreveu a fonologia do dialeto caingangue de Nonoai (RS). No primeiro caso, tratou-se de uma abordagem gerativa padrão, com algumas soluções inspiradas em Anderson (1974 e 1976). No segundo caso, uma abordagem segmental estruturalista, bastante calcada em Wiesemann e Kindell (1972).

Em 1989, Silvia Braggio publicou um pequeno trabalho sobre o processo de alfabetização entre crianças caingangues de Guarapuava em revista de linguística aplicada (Braggio 1989). Em 1986, Braggio havia defendido tese nos Estados Unidos sobre o mesmo assunto (cf. Braggio 1986).

A partir de meados dos anos 1990, Silvia Nascimento passou a estudar aspectos da sintaxe do caingangue nos marcos de modelos recentes da teoria gerativa (cf. Nascimento 1995 e 1996).

A aparente profusão de estudos fica diluída quando observamos que a grande maioria deles mantém-se na área da fonologia e, mais ainda, quando observamos que algumas áreas da linguística jamais foram investigadas em relação ao caingangue. esquerda|miniaturadaimagem|Sãsã (cascavel). Lê-se "xãxã". Já nos anos 1990, D'Angelis passou a produzir trabalhos de análise da fonologia caingangue e, posteriormente, também sobre aspectos da sintaxe (cf. D'Angelis 1991, 1992a, 1992b, 1995a), culminando com um trabalho teórico explorando os limites das teorias fonológicas com base em dados de sua investigação daquela língua indígena (cf. D'Angelis 1995b, 1998). Suas investigações prosseguem em ambas as direções, dando atenção ainda a aspectos fonéticos da língua, em sua relação com a fonologia (cf. D'Angelis 1999a), à fonologia propriamente (cf. D'Angelis 1999b, 2000c, 2002c, 2003c), à sintaxe (D'Angelis 2002d, 2004b), às questões de educação e de linguística aplicada (D'Angelis 1999b e 1999c), aos aspectos sociolinguísticos (cf. D'Angelis 1996, publicado em 2002a; D'Angelis & Veiga 1995, publicado em 2000b; D'Angelis 2002e), a aspectos semânticos (D'Angelis 2002b, 2004a), historiográficos (D'Angelis 2002f), literários (D'Angelis 2002i) e ortográficos (D'Angelis 2003c, 2005).

As "ferramentas" linguísticas escritas, como dicionários e gramáticas, são raras. Dos dois trabalhos de algum fôlego, intitulados "Dicionários" (bilíngues), apenas o de Val Floriana (1920) merece essa designação, apesar de todas suas limitações. Esse, porém, é desconhecido da quase totalidade dos caingangues. O de Wiesemann (1971) é pouco mais que um vocabulário, ao qual se agregam informações sobre pronúncia (da ortografia caingangue) e sobre sintaxe, como um pequeno adendo gramatical.

Os materiais chamados "didáticos" produzidos em língua caingangue, seja pelo SIL International, seja por iniciativas mais recentes, com recursos do ministério da educação para "oficinas" e publicação, restringem-se a cartilhas e a coletâneas de textos. Estas últimas, embora cumpram uma função importante (a de suscitar material de leitura na língua – embora não possamos ainda falar em "literatura caingangue" stricto sensu), não cobrem a lacuna da orientação de uma reflexão epilinguística e propriamente linguística no ensino escolar do caingangue, da mesma forma que não cobrem a lacuna igualmente enorme do não emprego da língua caingangue como língua de instrução nas disciplinas de história, geografia, matemática etc.

Fonologia

Consoantes O caingangue apresenta 14 fonemas consonantais.