Peribessene, Perabessene (), ainda chamado As-Peribessene, As-Perabessene (), Sete-Peribessene ou Sete-Perabessene é o nome sereque de um faraó que reinou durante a . Sua posição cronológica dentro desta dinastia é desconhecida e é contestado quem governou antes e depois dele. A duração de seu reinado também é desconhecida. Sua tumba foi achada em 1898 em Abidos. Foi bem preservado e mostrou traços de restauração realizados durante os períodos dinásticos posteriores.

Evidência arqueológica

O sereque de Peribessene foi achado prensado em selos feitos de barro e lama e inscrições em vasos de alabastro, arenito, pórfiro e xisto preto escavados em seu túmulo e num sítio em Elefantina. Além desses, um selo de argila com seu nome foi encontrado dentro da mastaba K1 em Beite Calafe.

Duas grandes estelas de granito foram encontradas em seu sepulcro. Sua forma é incomum e parecem inacabadas e ásperas. Os egiptólogos suspeitam que isso tenha sido feito deliberadamente, mas as razões são desconhecidas. Um selo cilíndrico de proveniência incerta mostra o nome Peribessene dentro dum cartucho e dá o epíteto Meri-netjeru ("amado dos deuses"). O arranjo leva egiptólogos e arqueólogos a concluir que o selo foi sido criado mais tarde, in memoriam, pois o uso de cartuchos reais começou muito depois do reinado de Peribessene. Outro selo do mesmo material mostra o nome sem cartela, mas com o título real Nessute-Biti ("rei do Alto e Baixo Egito").

As visões céticas existentes sobre a existência de Peribessene são baseadas nas listas reais raméssidas, como a Lista Real de Abidos, a Tabuleta de Sacará e o Cânone de Turim, que omitem seu nome. Elas, porém, foram criadas quase anos após sua morte. Foram achadas várias tumbas de sacerdotes da que executavam seu culto funerário e nas quais seu nome é citado corretamente. Sua existência indica que era visto como faraó legítimo, não sujeito a damnatio memoriae tal como Aquenatom mais tarde. Historiadores e egiptólogos, assim, consideram a possibilidade de que o nome tenha sido de fato esquecido ao longo do tempo ou que seu nome tenha sido preservado de forma distorcida e com erros de ortografia.

thumb|305px|Impressão de seu selo

Nome

O nome real de Peribessene gera debate entre os egiptólogos, pois está mais ligado à divindade Sete do que a Hórus, como era tradicional no nome do faraó. Tradicionalmente, o nome de Hórus era escrito dentro de um sereque: a imagem da fachada do palácio real sob um falcão representando Hórus. Em vez disso, escolheu ter o animal Sete, que representa o deus, em seu sereque. Embora seja o único faraó conhecido a ter tal animal presidindo sozinho seu sereque, não é o único a se associar ao deus, como Sete da , os e da e Setenaquete da .

O debate continua sobre por que Peribessene escolheu tal nome. Teorias alegavam de que o Egito foi dividido em dois reinos durante seu tempo ou que era um herege que procurava iniciar uma nova religião monoteísta com Sete como o deus único. Contudo, evidências e avaliações mais recentes tendem a mostrar que o reino estava unificado, mas passou por reforma vasta e profunda durante a II dinastia. Impressões de selos das tumbas desta época revelam grandes mudanças em títulos mantidos por altos funcionários, apontando à redução de seu poder. Já outras impressões indicam que várias divindades eram adoradas sob Peribessene, refutando a teoria do monoteísmo, e que a gramática foi aperfeiçoada à época, com as primeiras impressões de selos com frases completas sendo atestadas. Assim, seu reinado foi de fato um tempo de avanço cultural e religioso.

esquerda|thumb|170px|Sete (animal) e Rá (disco solar) em seu sereque thumb|esquerda|170px|Estela de granodiorito de Peribessene, hoje no Museu Britânico Teorias religiosas unindo Peribessene e Sete Velhas teorias

Uma teoria popular até meados do , apoiada pelos egiptólogos Percy Newberry, Jaroslav Černý, Walter Bryan Emery e Bernhard Grdseloff, sustentava que Peribessene era um herege que procurava introduzir um nova fé monoteísta, com Sete como o único deus adorado. Achou-se que suas ações fossem semelhantes às do muito posterior Aquenatom, da , que exigira que os egípcios servissem apenas a Atom. Newberry propôs que os sacerdotes de Hórus e Sete lutaram entre si "à maneira de uma Guerra das Rosas" durante a segunda metade da II dinastia.

Tal teoria se pautou em três observações: que o nome "Peribessene" foi excluído de listas reais póstumas, que sua tumba foi destruída e saqueada durante a Antiguidade e, finalmente, que suas estelas, que exibiam o animal Sete, foram arranhadas com a clara intenção de apagá-lo. Egiptólogos levantaram a hipótese de que essas foram ações de oponentes religiosos à casta de sacerdotes setianos. Lauer e Firth confiaram na teoria do "herege Peribessene" para explicar a enorme quantidade de vasos de pedra inscritos com o nome de reis da I e II dinastias achados sob a Pirâmide de Djoser em sacos com selos de Quenerés e Djoser. Propuseram que Peribessene havia saqueado os túmulos de seus antecessores, seguidores de Hórus, e espalhado seus equipamentos funerários. Esses vasos foram reunidos no tesouro real no reinado de Quenerés após a reunificação do Egito e finalmente colocados sob a pirâmide de Djoser, num ato de devoção piedosa.

Teorias coetâneas

Hoje, tal teoria, assim como as conclusões de Lauer e Firth, é amplamente questionada. Evidência arqueológica de Peribessene foi achada quase inteiramente no Alto Egito. Em particular, seu nome não aparece nos registros do Baixo Egito que sobreviveram a partir desse ponto. Pensa-se que pode não ter governado todo o Egito e, portanto, não tinha autoridade para forçar uma mudança na religião. Outra evidência que argumenta contra é a porta falsa do sacerdote Xeri em Sacará, que ocupou o ofício no começo da . A inscrição liga o nome de Peribessene numa frase ao do pouco conhecido Setenés. De acordo com o adendo, Xeri era "superintendente de todos os sacerdotes uabe de Peribessene na necrópole de Setenés, em seu templo mortuário e em todos os outros lugares". Isso implica que o culto funerário de Peribessene continuou pelo menos até a IV dinastia, inconsistente com a suposição de que o nome de Peribessene não podia ser mencionado. Além disso, egiptólogos como Herman te Velde apontam que Xeri não foi o único sacerdote da IV dinastia a participar do culto funerário de Peribessene. , possivelmente um irmão ou primo de Xeri, também possuía o título de "supervisor dos sacerdotes do Cá de Peribessene".

As impressões de selos achadas no túmulo de Peribessene em Abidos mostram várias divindades: , Mim e Bastete, sugerindo sua veneração em seu reinado, o que depõe contra o faraó adorando um único deus ou promovendo o monoteísmo. A teoria de Newberry, Černý, Grdseloff e outros foi criada a partir de informações arqueológicas muito limitadas disponíveis durante suas vidas. A maioria das impressões em selos de argila ainda eram indecifradas e não traduzidas em seu tempo.

A sílaba egípcia sn significa "eles, deles", revelando claro plural. Te Velde e Sainte Fare Garnot estão convencidos de que usou o animal heráldico de Sete como patrono no sereque, mas também ligou seu nome a Hórus. Se for verdade, provaria que adorou ambos em pé de igualdade durante sua vida. Um significado no plural com ambiguidade religiosa não era incomum nos nomes dos faraós nas primeiras dinastias egípcias. Peribessene pode ter sido visto como encarnação viva de Hórus e Sete em igual medida, assim como seus predecessores no trono. Portanto, o seu nome pode realmente não mostrar interrupção na tradição sagrada. Como exemplos adicionais, os títulos das primeiras rainhas dinásticas usavam deidades padroeiras plurais, como "ela que tem permissão para ver Hórus e Sete" e "ela que carrega Hórus e Sete". Da mesma forma, o sereque incomum de Quenerés, o último governante da II dinastia, mostra as divindades juntas no topo do sereque. Hórus usa a Coroa Branca do Alto Egito e Sete usa a Coroa Vermelha do Baixo Egito. Os dois deuses são retratados um em frente ao outro num gesto de beijo. Este nome especial foi concebido para ilustrar a dupla encarnação do faraó como representante deles, com poder sobre todo o Egito. O nome de Quenerés pode ser interpretado como uma forma avançada do nome de sereque de Peribessene.

Os egiptólogos Ludwig David Morenz e Wolfgang Helck observam que o ataque direcionado aos animais Sete não ocorreu até o tempo do Reino Novo . O apagamento da quimera de Sete nas estelas da tumba de Peribessene foi atribuído à atividade logo após a sua morte pelos apoiadores da teoria "herética", mas novas descobertas sugeriram que a difamação ocorreu séculos depois. O historiador Dietrich Wildung afirma que a necrópole de Abidos não foi a única saqueada na Antiguidade: os túmulos de Sacará e Gizé também foram saqueados. Assim, conclui que qualquer ação específica contra um faraó em particular pode ser excluída.

thumb|thumb|305px|Impressão de sua tumba com a primeira frase egípcia completa conhecida thumb|305px|Inscrição na porta falsa da mastaba de Teorias políticas

As teorias anteriores de Newberry, Černý e Grdseloff disseram que o Estado de Peribessene sofreu várias guerras civis, de origem econômica ou política. Se foi responsabilizado pela miséria no passado, isso poderia explicar por que as listas de reis posteriores excluíram-o. Em contraste, teorias mais recentes agora sustentam que, se o reino estava dividido, a divisão aconteceu pacificamente. Egiptólogos como Michael Rice, Francesco Tiradritti e Wolfgang Helck apontam para os mastabas, outrora palacianos e bem preservados, em Sacará e Abidos, pertencentes ao alto oficialato como Ruabene e . Tudo isso é datado do tempo de Binótris ao de Quenerés. Os egiptólogos consideram o registro arqueológico da condição dos mastabas e a arquitetura original como prova de que os cultos funerários para faraós e nobres ocorreram com sucesso por toda a dinastia. Se verdadeira, sua preservação é inconsistente com a teoria das guerras civis e dos problemas econômicos durante o reinado de Peribessene. Rice, Tiradritti e Helck pensam que Binótris decidiu deixar um reino dividido por razões privadas ou políticas e que a divisão foi uma formalidade sustentada pelos faraós da II dinastia.

A origem da divisão política é desconhecida. Pode ter acontecido no início do governo de Peribessene ou pouco antes. Como escolheu a divindade Sete como seu novo patrono do trono, os egiptólogos são da opinião de que era um chefe de Tinis ou um príncipe da casa real tinita. Essa teoria baseia-se em Sete ser uma divindade de origem tinita, o que explicaria a escolha: sua mudança de nome pode ter sido nada mais que uma propaganda política (e religiosa) inteligente. Pensa-se que ganhou o trono tinita e governou apenas o Alto Egito, enquanto outros governantes ocuparam o trono menfita e governaram o Baixo Egito.

Identidade

Os egiptólogos Walter Bryan Emery, Kathryn A. Bard e Flinders Petrie acreditam que também era conhecido como Sequemibe, outro governante da II dinastia que havia ligado seu nome ao deus Hórus e cujos selos foram achados na entrada do túmulo de Peribessene. Sua tumba, porém, ainda não foi encontrada.

thumb|esquerda|300px|Fragmento de um vaso com seu nome