Emil Gustav Friedrich Martin Niemöller (Lippstadt, 14 de janeiro de 1892 — Wiesbaden, 6 de março de 1984) foi um pastor luterano alemão. Em 1966, foi-lhe atribuído o Prêmio Lênin da Paz. Desde a década de 1980, tornou-se conhecido pelo seu discurso/poema antinazista, largamente adaptado e parafraseado, conhecido no Brasil como "E não sobrou ninguém...".

Biografia Filho de um pastor luterano, foi educado para a fidelidade ao imperador e com sentimento patriótico alemão. Depois de concluir o curso colegial, ele ingressou na Marinha como soldado de carreira. Durante a Primeira Guerra Mundial, serviu como comandante de submarino, vindo a ser condecorado com a Cruz de Ferro. Após a guerra, durante a Revolta do Ruhr, em 1920, foi comandante do III. Bataillon der Akademischen Wehr Münster, pertencente a forças paramilitares (Freikorps).

Estudou Teologia em Münster. Foi ordenado em 29 de junho de 1924. Em 1931, tornou-se pastor da Jesus Christus Kirche, em Dahlem, um influente bairro de Berlim."Niemöller, (Friedrich Gustav Emil) Martin". The New Encyclopædia Britannica. Chicago: University of Chicago, 1993, 8:698.

Mesmo depois de formar-se em Teologia, permaneceu fiel à sua ideologia nacionalista e conservadora. Portanto, apoiou a ascensão de Hitler ao poder, em 1933, acreditando que isso significaria um novo despertar nacional. Mas, pouco depois, Niemöller entraria em conflito crescente com o novo governo.

Inicialmente, ele concordava com o antagonismo dos nazistas ao comunismo e à República de Weimar, mas ficou alarmado com a tentativa de Hitler em dominar a Igreja Luterana impondo-lhe o movimento neopagão dos "Cristãos Germânicos" da Igreja do Reich e de seu bispo Ludwig Müller.George P. Blum, The Rise of Fascism in Europe, Westport, CT, Greenwood Press, 1998, pp. 109-110 Sendo um nacionalista e não estando inteiramente livre de preconceitos antissemitas,Robert Michael, "Theological Myth, German Antisemitism, and the Holocaust: The Case of Martin Niemoeller", Holocaust Genocide Studies, 2, 1987, pp. 105-122; idem, e Karin Doerr, Nazi-Deutsch/Nazi-German: An English Lexicon of the Language of the Third Reich, Westport, CT, Greenwood Press, 2002, pp. 9- 10; Martin Niemöller, Here Stand I!, Nova Iorque, 1937, pp. 193–198. Niemöller protestou decididamente contra a aplicação do "parágrafo ariano", na Igreja, e contra a falsificação da doutrina bíblica pelos cristãos alemães de ideologia nazista. No outono de 1933, para impedir a segregação de cristãos de origem judaica, Niemöeller criou, com Dietrich Bonhöffer, a Pfarrernotbund ("Liga Pastoral de Emergência"), destinada a apoiar os pastores não-arianos ou casados com não-arianas. A Pfarrernotbund foi transformada na Bekennende Kirche (Igreja Confessional) em 1934. A Igreja Confessional recusou obediência à direção oficial da Igreja Evangélica, tornando-se um importante centro da resistência alemã protestante ao regime Nazista.

Em 1934, Niemöller acreditava ainda que poderia discutir com os novos donos do poder. Numa recepção na Chancelaria em Berlim, ele contestou Hitler, que queria eximir a Igreja de toda responsabilidade pelas questões "terrenas" do povo alemão:

Perseguição nazista A partir deste incidente, Niemöller fica cada vez mais na mira do regime. É observado pela Gestapo e proibido de fazer pregações, o que ele não aceita. Em 1935, é preso pela primeira vez e logo libertado. Martin Niemöller já era tido nessa época como o mais importante porta-voz da resistência protestante. No verão de 1937, ele pregava:

Em julho de 1937, Niemöller foi preso novamente. Passados cerca de sete meses, no dia 7 de fevereiro de 1938, começou então o seu processo diante do Tribunal Especial II em Berlim-Moabit. Segundo a acusação, Martin Niemöller teria criticado as medidas do governo nas suas pregações "de maneira ameaçadora para a paz pública", teria feito "declarações hostis e provocadores" sobre alguns ministros do Reich e, com isto, transgredido o "parágrafo do Chanceler" e a "lei da perfídia". A sentença: sete meses de prisão, bem como dois mil marcos de multa.

Os juízes consideraram a pena como cumprida, em função do longo tempo de prisão preventiva. Niemöller deveria assim ter deixado a sala do tribunal como homem livre. Para Hitler, no entanto, a sentença pareceu muito suave. Ele enviou o pastor como seu "prisioneiro pessoal" para um campo de concentração. Até o fim da guerra, durante mais de sete anos, Martin Niemöller permaneceu preso — inicialmente, no campo de concentração de Sachsenhausen, depois no de Dachau. Foi libertado pelos aliados.

Após a Guerra, Niemöller participou da reorganização da Igreja Protestante em Hesse, foi conselheiro da Igreja Evangélica na Alemanha e presidente do Conselho Mundial de Igrejas. Foi crítico ao rearmamento da Alemanha Ocidental, à corrida armamentista e às posições da Igreja frente a Guerra Fria. Morreu aos 92 anos.

"Eu me calei"

Niemöller é o autor de um pequeno texto antinazista - muito conhecido mas raramente atribuído a ele:

Originalmente, o texto foi extraído de um sermão ministrado por Niemöller, na Igreja Confessional de Frankfurt, em 6 de janeiro de 1946, e cuja tradução parcial é a seguinte:

Posteriormente, o autor viria a usar o mesmo texto, como uma citação poética, em outras palestras, introduzindo algumas variações, a depender das características de plateia. Isso gerou muita controvérsia quanto ao conteúdo original da citação, já que os grupos citados variam (católicos, testemunhas de Jeová, judeus, sindicalistas, socialistas ou comunistas), conforme a versão. Uma frase que não aparece na primeira versão é a seguinte: "Depois eles vieram pelos judeus, e eu não protestei porque não era judeu." No entanto, o ponto central, segundo ele, era de que os alemães - e em particular, os líderes das igrejas protestantes - foram cúmplices dos nazistas, por seu silêncio, diante da prisão, da perseguição e do assassinato de milhões de pessoas.MARCUSE, Harold, The Origin and Reception of Martin Niemoller's Quotation, "First they came for the communists...", in BERENBAUM et al., Remembering for the Future - Armenia, Auschwitz and beyound. Paragon House, 2015.

Nas últimas décadas, o texto de Niemöller tem sido muito citado publicamente,Teoria do Caos. Portal Geledés, 6 janeiro de 2012. embora com alterações as mais diversas e, quase sempre, sendo atribuído a autores bem mais célebres - Brecht ou Maiakovski -, tal como ocorreu no caso do poeta fluminense Eduardo Alves da Costa, na sua paráfrase ao texto de Niemöller, denominada "No caminho, com Maiakovski".

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