Chipre do Norte (em turco: Kuzey Kıbrıs), oficialmente a República Turca de Chipre do Norte (RTCN) (em turco: Kuzey Kıbrıs Türk Cumhuriyeti — KKTC) é um estado de facto, e ocupa o terço norte da ilha de Chipre, no Mediterrâneo Oriental. Sua capital de facto é Nicósia do Norte (em turco: Lefkoşa), cidade dividida com a internacionalmente reconhecida República de Chipre.

A Turquia é o único país que a reconhece; todos os demais governos e as Nações Unidas reconhecem a soberania da República de Chipre sobre toda a ilha. A Organização da Conferência Islâmica reconhece à República Turca de Chipre do Norte como um estado constituinte, sob o nome de Estado Turco Cipriota.

Colônia britânica de facto desde 1878, a ilha de Chipre proclamou a sua independência em 1960, ainda que com a oposição da minoria turca, que habitava a ilha em conjunto com a maioria grega. A Organização das Nações Unidas viu-se obrigada a enviar uma força de paz permanente.

Em 2014, a República Turca de Chipre do Norte, iniciou um diálogo com as Nações Unidas e Chipre, para o reconhecimento como estado soberano.

História Devido à sua localização geográfica e à sua importância estratégica, a ilha de Chipre foi invadida por hititas, assírios, egípcios, persas, ptolemeus, romanos, bizantinos, nomes da Casa de Lusinhão e venezianos.

Em 1571, a ilha foi conquistada pelo Império Otomano. Os otomanos governaram a ilha mediante o sistema millet onde todos os indivíduos eram classificados segundo sua religião. Chipre esteve sob o domínio turco até 1878, quando iniciou-se a ocupação britânica.

Até à Primeira Guerra Mundial, a ilha pertenceu legalmente à Turquia, quando em 1914 o Reino Unido passou a considerá-la como parte de seu império devido à aliança da Turquia com os Impérios Centrais. A posse oficial de Chipre como colônia da coroa britânica ocorreu apenas a partir de 1925.

Em 1960, obteve a sua independência.

Independência de Chipre O domínio britânico não pôde conter as aspirações próprias de ambas as comunidades. Os greco-cipriotas haviam iniciado em 1830, quando nasceu o estado grego, uma reivindicação pela enosis (união com a Grécia, com quem tinham vínculos culturais e históricos).

Contrariamente, os turco-cipriotas conformaram a Volkan, uma milícia que em 1958 passou a chamar-se Organização de Resistência Turca (TMT) cujo objetivo era evitar a enosis apoiando o taksim, divisão da ilha entre Turquia e Grécia.

As demandas derivaram em uma luta violenta, dirigida pela Organização Nacional de Lutadores Cipriotas (EOKA), com o respaldo de Makarios III, arcebispo e primado da Igreja Autocéfala Ortodoxa de Chipre (ou Igreja Ortodoxa Cipriota). Ante tal situação, os turcos passaram a apoiar o domínio britânico para evitar que fossem súditos de um estado grego.

Diante do custo militar e de vidas humanas que demandava ao Reino Unido manter a situação colonial, este país convidou a Grécia e a Turquia a encontrarem uma solução para a questão cipriota.

Ele derivou no Acordo de Zurique de 1958 e no Acordo de Londres de 1959. Os mesmos entraram em vigor em 16 de agosto de 1960 com o nascimento da República de Chipre através de uma complexa constituição cujos principais pontos eram:

República bicomunal com estatuto igualitário de ambas as comunidades;

Grécia, Turquia e o Reino Unido seriam as potências garantidas, com direito de intervenção quando o regime constitucional estivesse em perigo;

Com a finalidade de evitar a enosis, declarou-se que Chipre não podia unir-se a nenhum estado, ou a grupos de estados, ou a organizações das quais Grécia e Turquia não fossem parte. Também estabeleceu-se a não participação, em todo ou em parte, da República de Chipre em uma união política ou econômica com outro Estado;

O poder executivo ficava a cargo de um presidente greco-cipriota, e um vice-presidente turco-cipriota, eleitos por suas respectivas comunidades por sufrágio universal;

Ambos gozariam de poderes idênticos, com direito a veto;

O poder legislativo (casa dos representantes) com integrantes eleitos por cada comunidade em proporção 70/30;

Cada comunidade disporia de sua própria câmara legislativa comunal com competências no âmbito religioso e cultural entre outras.

As duas comunidades aceitaram nos tratados renunciar a suas demandas de enosis e taksim.

Divisão intercomunal

thumb|250px|Castelo de Cirénia

O líder greco-cipriota, Makarios III, contrário à igualdade intercomunal, procurou eliminar o direito a veto dos turco-cipriotas através da modificação da constituição. O rechaço destes provocou diversos atos de violência no ano de 1963, que tiveram seu cume no mencionado ano, ao seguinte e em 1967.

Consequentemente, os turco-cipriotas viram-se obrigados a deixar setores da ilha, exilar-se em enclaves e deixar seus postos de trabalho. O Conselho de Segurança da ONU aprovou a instalação de uma força de paz, a UNFICYP, empregada em toda a ilha.

Operações militares turcas

Em 15 de julho de 1974 efetua-se na ilha um golpe de Estado contra o governo de Makarios. Este foi liderado por um grupo de militares gregos e greco-cipriotas com a intenção de reviver a enosis. O mesmo contava com o respaldo da denominada ditadura dos coronéis que governou a Grécia entre os anos de 1967 e 1974.

Isto espantou a Turquia, que temia pela minoria turco-cipriota com a qual se havia comprometido a defender pelo tratado de garantias que havia dado origem ao estado cipriota. Por ele, levou a cabo uma maciça invasão do setor do norte de Chipre através da denominada Operação Átila (também denominada pelos turcos "Operação de Manutenção da Paz").

Consequentemente, 37% do território ficou nas mãos turcas e, entre e greco-cipriotas tiveram que fugir da parte norte da ilha.

Desde então, a volta dos refugiados a suas terras e a suas propriedades é reclamada pelos greco-cipriotas. A Turquia, por sua parte, respondeu com a proclamação em 1975 do "Estado Federado Turco de Chipre" e em novembro de 1983 com uma declaração de independência convertendo-se na República Turca de Chipre do Norte (RTNC).

Situação posterior à invasão turca

Desde a realização da operação de 1974, a ONU tentou resolver o conflito sem êxito.

Em 1999, a União Europeia estabeleceu no Conselho Europeu de Helsínquia que a reunificação não era uma condição para a adesão de Chipre. A Grécia ameaçou vetar a candidatura da Turquia se não se incluísse esta decisão.

As Nações Unidas realizaram numerosos esforços para a solução do conflito através da reunificação. As propostas realizadas pelo Secretário Geral das Nações Unidas em 1984, 1986 e em 1992 foram rechaçadas pelos greco-cipriotas por não admitir a igualdade política entre as duas comunidades. Outras tentativas de solução ao conflito fracassaram em 1996 e 1997, devido a que aos turco-cipriotas não era reconhecido como Estado independente.

O então Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan, apresentou uma nova proposta em 2002 que incluía conceitos que provocaram fortes reticências entre a comunidade grega. Revisada em 2003, estabelecia a criação de uma federação de dois estados — o Estado Greco-Cipriota e o Estado Turco-Cipriota — unidos conjuntamente por um governo federal com escasso poder, algo similar ao que está em vigor na Bósnia e Herzegovina ou ao que governava a Sérvia e Montenegro até à sua dissolução.

Depois de numerosas conversas, em 24 de abril de 2004, o plano de paz do Secretário-Geral das Nações Unidas para Chipre foi apresentado a sua ratificação em referendo em ambas as comunidades.

Os turco-cipriotas, ignorando o conselho de seu presidente Rauf Denktash (que recomendava votar contra), aprovaram a proposta por 65% de sua população. A comunidade greco-cipriota rechaçou o plano e, com isso, acabavam-se todas as esperanças de que um Chipre unificado pudesse ascender à União Europeia em 1 de maio de 2004. Grande parte da população greco-cipriota pensava que o plano dava demasiados poderes à parte turca. A principal opção foi a oposição grega porque todos os refugiados greco-cipriotas não puderam voltar a suas casas, que as tropas turcas puderam permanecer na ilha indefinidamente e que também o fizeram os colonos turcos instalados na mesma.

Governo e política thumb|right|300px|Mapa da Ilha de Chipre. Ao norte, a República Turca de Chipre do Norte. Ao sul, a República de Chipre. Forma do Estado: República secular e parlamentar baseada na constituição de 1985, muito parecida à da Turquia.

Chefe de Estado: presidente eleito por eleição direta e por um período de cinco anos. O atual presidente é Ersin Tatar, eleito em abril de 2020 como quinto presidente da república.

Legislatura: unicameral. A assembleia legislativa (Cumhuriyet Meclisi), tem 50 membros eleitos de forma direita por sufrágio universal, e por um período de cinco anos.

Executivo: a cargo do conselho de ministros nomeados pelo presidente por conselho do primeiro-ministro.

Principais partidos políticos

Partidos parlamentares

Partido Republicano Turco (CTP) Partido Nacional da Unidade (UBP) Partido Democrata (DP) Movimento da Paz e Democracias (BDH)

Partidos não parlamentares

Partido Comunista de Libertação (TKP) Partido do Novo Chipre (YKP)

Sistema judicial

A corte mais alta é a Suprema Corte de Justiça. Esta funciona como corte constitucional, corte de apelações e Alta Corte Administrativa. Possui sete juízes.

Cortes subordinadas:

O poder judicial é exercido, além da Suprema Corte de Justiça, pelas cortes de Assize, do distrito e da família.

Corte Suprema de Justiça

Composta pelo presidente e juízes da Suprema Corte, um membro nomeado pelo Presidente da República Turca de Chipre do Norte, outro nomeado pela Assembleia Legislativa, o Fiscal Geral e um membro eleito pela Associação Bar, é responsável do nomeação, ascensão, transferência e assuntos de disciplina de todos os juízes.

As nomeações dos presidentes e juízes da Corte Suprema encontram-se sujeitas à aprovação do Presidente da República.

Geografia right|thumb|300px|Topografia de Chipre. A República Turca de Chipre do Norte tem uma população em torno de habitantes, aproximadamente 190 km de largura, 65 km de comprimento e de área, compreendendo 36% da ilha.

Chipre é a ilha mais oriental do mar Mediterrâneo e a terceira em tamanho atrás da Sicília e da Sardenha. O ponto mais próximo da Turquia é a 67 km, da Síria a 102 km e do Egito a 417 km.

Sua geografia caracteriza-se por uma sucessão de cadeias montanhosas, planícies e planaltos. A cadeia montanhosa de Cirénia (Pentadáktylos ou Beşparmak, significando cinco dedos) percorre em sentido leste-oeste; tem seu ponto máximo no monte İçova de de altitude; partindo do leste da ilha, perde altura e estende-se ao largo da península de Karpas.

Principais Cidades Ao sul da cadeia montanhosa de Cirénia encontra-se Nicósia (Lefkosia) (população do setor controlado pela RTNC: 61 mil habitantes), capital da República Turca de Chipre do Norte. Através dela situa-se a Linha Verde, que divide a cidade em duas.

Outras cidades maiores são Famagusta (Magusa, habitantes), Cirénia (Girne, habitantes) e o centro citrícola de Morphou (Guzelyurt, habitantes).

Economia

Durante os anos de 1963 a 1974, a economia turco-cipriota tinha grandes sintomas de subdesenvolvimento. As principais razões desta condição eram o bloqueio econômico e que sua base produtiva era inadequada.

Nos anos seguinte, com a ajuda de novas administrações e de métodos mais atualizados, esses problemas foram superados quando tornou-se uma economia mais saudável e estável. Os planos focalizaram-se a reativar a indústria secundária e o turismo. Estes esforços são bastante satisfatórios pelo que depois de um período de rápido crescimento passou-se a um crescimento mais modesto e sustentável.