Os (; ) formam o quinto livro do Novo Testamento. Geralmente conhecido apenas como "Atos", ele descreve a história da Era Apostólica. O autor é tradicionalmente identificado como Lucas, o Evangelista.

O Evangelho segundo Lucas e o livro de Atos formavam apenas dois volumes de uma mesma obra, à qual daríamos hoje o nome de História das Origens Cristãs, e no início do segundo século, esses dois livros acabaram sendo separados um do outro pelo Evangelho segundo João, o último evangelho a ser escrito. Lucas provavelmente não atribuiu a este segundo livro um título próprio. Somente quando seu evangelho foi separado dessa segunda parte do livro e colocado junto com os outros três evangelhos é que houve a necessidade de dar um título ao segundo volume.CARSON, D A et al. Atos in Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997, p. 203; Isso se deu muito cedo, por volta de Tanto em sua intenção quanto em sua forma literária, este escrito não é diferente dos quatro evangelhos.CULLMAN, Oscar. A formação do Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 2001. Pág. 37;

Escritores dos séculos II e III fizeram várias sugestões para nomear essa obra, como O memorando de Lucas (Tertuliano) e Os atos de todos os apóstolos (Cânon Muratori). O nome que finalmente iria consagrar-se aparece pela primeira vez no prólogo antimarcionista de Lucas (final do )BRUCE, FF. The Book of Actos. Grand Rapidis: Londres, 1954. Pág. 5 nota 6; e em Ireneu.Adv. Haer. 3.13.3; A palavra Atos denotava um gênero ou subgênero reconhecido, caracterizado por livros que descreviam os grandes feitos de um povo ou de uma cidade. O título segue um costume da literatura helenística, que conhecia os Atos de Anibal, os Atos de Alexandre, entre outros.

O objetivo desse livro é mostrar a ação do Espírito Santo na primeira comunidade cristã e, por ela, no mundo em redor. O conteúdo do livro não corresponde ao seu título, porque não se fala de todos os apóstolos, mas somente de Pedro e de Paulo. João e Filipe aparecem apenas como figurantes. Entretanto, não são os atos desses apóstolos que achamos no livro, mas antes a história da difusão do Evangelho, de Jerusalém até Roma, pela acção do Espírito Santo.

Estrutura O livro pode ser dividido em duas partes: o período das missões locais e o período das missões estrangeiras: Estrutura I. Período das missões locais, onde Jerusalém é o centro. A obra concentra-se principalmente na Palestina entre os judeus, sendo o apóstolo Pedro a figura preeminente. 1. Os acontecimentos preparatórios a) A comissão divina, 1:4-8 b) A ascensão do Senhor, 1:10,11 c) A descida do Espírito, 2:1-4 d) O equipamento dos obreiros, 2:4; 4:31 2. Os ministérios a) De Pedro, no Pentecoste, 2:14-40; o segundo sermão de Pedro, 3:12-26; Pedro no Sinédrio, 4:5-12 b) De Estêvão, 7:1-60 c) De Filipe e Pedro, 8:5-25 d) De Filipe, 8:26-40 3. Atos acerca da igreja a) Seu crescimento b) Sua plenitude do Espírito Santo, 4:31 c) Sua unidade e benevolência, 4:32-37 d) Seu poder espiritual, 5:12-16 e) A eleição dos diáconos, 6:1-6 4. As perseguições à igreja a) Perseguições diversas, 4:1-3,17-22; 5:17,18,40; 6:8-15 b) Perseguições sob Saulo de Tarso, 8:1-3; 9:1 II. O período das missões estrangeiras, onde o centro de operações, inicialmente em Jerusalém, é transferido pouco depois para Antioquia da Síria. 1. Acontecimentos preliminares que levaram às missões por todo o mundo a) O ministério de Filipe em Samaria, em companhia de Pedro e João, 8:5-25 b) A conversão de Paulo, que veio a ser o grande missionário e a figura preeminente da igreja nesse período, 9:1-30 c) A ampliação dos pontos de vista de Pedro por causa de sua visão em Jope, resultando em seu ministério entre os gentios de Cesareia, 10:1-43 d) O derramamento do Espírito Santo sobre os gentios de Cesareia e a defesa do ministério de Pedro ali, 10:44—11:18 e) Ratificação da obra em Antioquia por Barnabé, representante da igreja de Jerusalém, 11:22-24 f) Saulo de Tarso levado por Barnabé a Antioquia. Os dois cooperam no estabelecimento da igreja, no lugar em que os discípulos foram chamados cristãos pela primeira vez, 11:25,26 g) Parêntese. Perseguição à igreja de Jerusalém por Herodes; morte de Tiago; encarceramento e libertação de Pedro, 12:1-19 2. O acontecimento da época na história das missões estrangeiras a) Sob a direção do Espírito Santo, Paulo e Barnabé são enviados como missionários pela igreja de Antioquia; João Marcos os acompanha, 13:1-5 3. Primeira viagem missionária de Paulo a) Missionários: Paulo, Barnabé e João Marcos, 13:4—14:26 b) Lugares visitados e eventos principais: ilha de Chipre, onde o procônsul se converte e o nome de Saulo é mudado para Paulo no livro de Atos, 13:4-12; Perge e Panfília, onde João Marcos abandona o grupo, 13:13; Antioquia da Pisídia, onde Paulo prega um grande sermão na sinagoga, 13:14-41; oposição dos judeus e a obra entre os gentios, 13:44-49; expulsos da cidade pelos judeus, os missionários vão para Icônio, onde trabalham algum tempo, mas surge uma perseguição e eles fogem para Listra e Derbe, 14:6; a cura de um paralítico em Listra leva o povo a querer adorar Paulo e Barnabé, mas os judeus levantam oposição, e Paulo é apedrejado — imperturbáveis, os dois heróis escapam para Derbe, onde pregam o evangelho e ensinam a muitos, 14:8-20; desse ponto, os missionários retornam pela mesma rota, visitando e organizando as igrejas, e em Antioquia da Síria apresentam o relatório da viagem, 14:21-28 4. O Concílio de Jerusalém a) O assunto em pauta, 15:5,6 b) O argumento de Pedro a favor da liberdade cristã, 15:7-11 c) Paulo e Barnabé relatam suas experiências, 15:12 d) Palavras de Tiago e a decisão do concílio a favor de eximir os gentios das regras da Lei, 15:13-29; os apóstolos enviam Judas e Silas a Antioquia como portadores da carta do concílio à igreja, 15:27-30 5. Segunda viagem missionária de Paulo a) Eventos preliminares: desacordo entre Paulo e Barnabé acerca de João Marcos; Silas é escolhido por Paulo para acompanhá-lo na viagem, 15:36-40 b) Lugares visitados e principais eventos: visita às igrejas da Síria e Cilícia, 15:41; em Listra, Timóteo une-se aos missionários, que visitam várias cidades da Ásia Menor, fortalecendo as igrejas, 15:41—16:5; o Espírito guia-os a Trôade, onde Deus os convoca à Europa por meio de uma visão, 16:7-10; em Filipos, as autoridades encarceram Paulo e Silas — o carcereiro se converte, e os apóstolos estabelecem uma igreja, 16:12-34; o acontecimento mais importante a seguir é a fundação da igreja em Tessalônica, onde se levanta a perseguição, e eles vão para Beréia, 17:1-10; em Beréia, os missionários encontram alguns fiéis estudantes da Palavra, que são receptivos, 17:11,12; uma tormenta de perseguições abate-se novamente sobre eles, e Paulo vai para Atenas, deixando o estabelecimento da igreja a cargo de Silas e Timóteo, 17:13-15; em Atenas, Paulo encontra a cidade cheia de ídolos e prega um sermão na colina de Marte, mas poucos se convertem à fé, 17:15-34; em Corinto, Silas e Timóteo unem-se a Paulo e fundam uma igreja — a obra é levada a cabo em meio a perseguições que duram dezoito meses, 18:1-17; após um tempo considerável, Paulo despede-se dos irmãos e parte para a Síria, fazendo breve escala em Éfeso, e termina a viagem em Antioquia, 18:18-22 6. Terceira viagem missionária de Paulo a) Lugares visitados e eventos principais: visita às igrejas na Galácia e na Frígia, 18:23; parêntese. Apolo em Éfeso, 18:24-28; Paulo regressa a Éfeso e encontra um grupo de discípulos ainda não perfeitamente instruídos e dirige-os à vida plena do Espírito, 19:1-7; continua a obra em Éfeso durante dois anos, 19:8-10; o Senhor mostra-lhe que aprova o trabalho, outorgando-lhe o dom de curar, 19:11,12; os pecadores convertem-se, e muitos queimam seus livros de magia, 19:11-20; logo se levanta um alvoroço entre os artífices, pois estes temem que os ensinos de Paulo arruínem a indústria dos ídolos, 19:23-41; Paulo sai de Éfeso e, depois de visitar as igrejas da Macedônia, vai para a Grécia, 20:1,2; depois de três meses na Grécia, regressa à Macedônia e vai para Trôade, onde prega, 20:3-12; de Trôade, vai para Mileto e manda chamar os anciãos efésios; em Mileto, entrega uma mensagem de despedida aos anciãos, 20:17-38; de Mileto, inicia a viagem de regresso a Jerusalém, advertido pelo Espírito dos sofrimentos que ali o aguardam, 21:1-17 7. Paulo em Jerusalém e em Cesareia a) Relato à igreja das experiências de seu ministério entre os gentios, 21:18-20 b) Para evitar suspeitas, faz um voto, 21:20-26 c) Os judeus lançam mão dele no Templo, mas os soldados romanos o resgatam, 21:27-40 d) Sua defesa diante da multidão, 22:1-21 e) Declara sua cidadania romana a fim evitar ser açoitado, 22:25-30 f) Comparece perante o Sinédrio, 23:1-10 g) O Senhor aparece-lhe de noite com uma mensagem de ânimo, 23:11 h) A conspiração de alguns judeus para matá-lo provoca seu envio a Cesareia, 23:12-33 i) Acusação contra ele pelos judeus e sua defesa perante o governador Félix, 24:1-21 j) Discurso perante Félix acerca de sua fé em Cristo, 24:24-26 k) Defesa perante Festo e o apelo a César, 25:1-12 l) Discurso perante Agripa, 26:1-29 8. A viagem de Paulo, como prisioneiro, a Roma a) Primeira etapa da viagem, 27:2-13 b) A tempestade e a fortaleza espiritual de Paulo, 27:14-36 c) O naufrágio e o livramento, 27:38-44 d) As experiências na ilha de Malta, 28:1-10 e) A chegada a Roma e seu ministério ali, 28:16-31

Composição Autoria

Enquanto a identidade exata do autor é discutida, o consenso é que este trabalho foi composto por um gentio de fala grega que escreveu para uma audiência de cristãos gentios. Os Pais da Igreja afirmaram que Lucas era médico, sírio de Antioquia e companheiro do Apóstolo Paulo. Os estudiosos concordam que o autor do Evangelho segundo Lucas é o mesmo que escreveu o livro de Atos dos Apóstolos. A tradição diz que os dois livros foram escritos por Lucas companheiro de Paulo (nomeado em ). Essa visão tradicional da autoria de Lucas é "amplamente aceita, visto que a autoria Lucana é quem mais satisfatoriamente explica todos os dados".Donald Guthrie em New Testament Introduction (Leicester, Inglaterra: Apolo, 1990) diz que a visão tradicional é "amplamente aceite como o ponto de vista que mais satisfatoriamente explica todos os dados." (p. 119), enquanto RE Brown em Introdução ao Novo Testamento. (São Paulo: Paulinas, 2009) afirma que a opinião sobre a questão é "dividida" (p. 267-8); A lista de estudiosos que mantém a autoria de Lucas é longa e representa a opinião teológica maioritária.Para listar apenas algumas: H. Marshall, Atos - Introdução e Comentário (2009), p. 44-45; FF Bruce, The Acts of the Apostles (1952), p. 1-6; CSC Williams, The Acts of the Apostles, In: Black's New Testament Commentary (1957); W. Michaelis, Einleitung, p. 61-64; Bo Reicke, Glaube und Leben Der Urgenmeinde (1957), p. 6-7; FV Filson, Three Crucial Decades (1963), p. 10; M. Dibelius, Studies in the Acts of the Apostles (1956); Grant RM, A Historical Introduction to the New Testament (1963), p. 134-135; B. Gärtner, The Aeropagus Speech and Natural Revelation (1955), WL Knox, Sources of the Synoptic Gospels; RR Williams, The Acts of the Apostles; EM Blaiklock, The Acts of the Apostles, in Tyndale New Testament Commentary (1959); W. Grundmann, Das Evangelium nach Lukas, p. 39. No entanto, não há consenso. De acordo com Raymond E. Brown, a opinião corrente sobre a autoria de Lucas é 'dividida'.

Título

thumb|Ilustração bizantina do . Nela, Lucas escreve seu dois livros do Novo Testamento. De acordo com os especialistas, os livros de Lucas e Atos faziam parte da mesma obra.