Força de Submarinos (ForSub) da Marinha do Brasil é o componente da Esquadra que organiza esses meios e suas bases navais, navios auxiliares, escolas de instrução e mergulhadores. Seus componentes operativos são quatro submarinos, um navio de socorro, um aviso e uma unidade de operações especiais, o Grupamento de Mergulhadores de Combate. Seu principal ancoradouro e sede do comando é a Ilha da Madeira, em Itaguaí, com outras instalações na Ilha de Mocanguê Grande, Niterói, ambas no estado do Rio de Janeiro.

O Brasil opera submarinos desde 1914, com a classe Foca. Historicamente há uma média de quatro a cinco submarinos em serviço, com um máximo de dez em 1977–1978. Eles foram construídos no exterior até os anos 1980, quando a indústria brasileira se tornou a primeira no Hemisfério Sul a montar submarinos. A fonte tecnológica passou da Itália para os Estados Unidos, o Reino Unido, a Alemanha e atualmente a França. Da Segunda Guerra Mundial até o início da Guerra Fria, nas fases italiana e americana, a prioridade foi o treinamento das forças de superfície na guerra antissubmarino.

A partir dos anos 1970 os estrategistas da Marinha repensaram os submarinos como peças de uma esquadra balanceada de águas azuis e/ou instrumentos de negação do uso do mar numa campanha defensiva ao largo do litoral. A Estratégia Nacional de Defesa de 2008 confirmou sua prioridade na agenda da Marinha, e desde então o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (ProSub) visa construir no Brasil uma frota mista de submarinos convencionalmente armados de propulsão convencional (diesel-elétrica) e nuclear. Os convencionais, único tipo atualmente em serviço, são mais apropriados à guerra de posição. O futuro submarino nuclear brasileiro será um complemento de maior autonomia e mobilidade, oficialmente para a dissuasão e a patrulha das águas jurisdicionais.

Os submarinistas brasileiros são voluntários formados no Centro de Instrução e Adestramento Almirante Áttila Monteiro Aché (CIAMA). A carreira de tripulante de submarino é prestigiosa, altamente especializada e psicologicamente exigente. O ambiente de trabalho é isolado, confinado, artificial e tem sua própria cultura. Os riscos são constantes. O maior acidente da ForSub foi o afundamento do Tonelero (S-21) no cais em 2000, mas não houve mortos ou feridos.

Origens Nos anos 1890 o tenente Felinto Perry fez campanha na imprensa pela aquisição de submersíveis. Outros oficiais navais como Luís de Mello Marques, Luís Jacinto Gomes e Emílio Júlio Hess apresentaram projetos dessas embarcações, mas nenhum teve recursos para a construção. Somente após a compra de submarinos italianos da classe Foca a Marinha ativou a "Flotilha de Submersíveis" em 17 de julho de 1914, sob o comando do oficial Perry, agora capitão de fragata. Esta organização foi precursora da atual Força de Submarinos. Em 1928 ela mudou sua denominação para Flotilha de Submarinos, que foi extinta em 1933, recriada em 1937 e renomeada à designação atual em 1963. Sua sede foi localizada na Ilha de Mocanguê Grande, Niterói, da sua criação até 2021, quando foi transferida à sua base atual em Itaguaí.

Doutrina e funções miniaturadaimagem|esquerda|Submarino submergindo Nos primeiros anos do século XX, o papel a ser dado aos submersíveis não era claro e tendia a ser defensivo. Os primeiros submersíveis brasileiros não tinham raio de ação, porte ou armamento para contribuir em muito mais que a defesa de portos. A própria terminologia — submersível e não submarino — evoca a diferença tecnológica para com as embarcações atuais, embora o momento e as características que distinguem um e outro não sejam unânimes e nem todo idioma faça a distinção.

Na doutrina naval do século XXI o submarino é uma arma ofensiva, embora enquadrada numa estratégia nacional defensiva. Ele é "o único navio de guerra capaz de operar de modo independente, durante longo tempo, em mares dominados pelo inimigo". Menos dependente do apoio logístico e das condições climáticas que os navios de superfície, pode operar isolado e desde o início das hostilidades. Sua discrição e mobilidade tridimensional permitem atacar com a vantagem da surpresa e infligir danos desproporcionais ao seu próprio custo, embora ele suporte poucos danos se for atingido. Suas armas usuais, os mísseis e torpedos, não permitem graduar o poder destrutivo à situação, e sua presença numa área em crise por si só agrava as tensões. Do ponto de vista do direito internacional, o submarino tem dificuldades no resgate a náufragos e na identificação de alvos.

Guerra antissubmarino miniaturadaimagem|Submarino da Classe Tupi com uma aeronave Sea King do 1.º Esquadrão de Helicópteros Antissubmarino Em ambas Guerras Mundiais (1914–1918 e 1939–1945) os submarinos encontraram um nicho na guerra de corso, afundando navios mercantes para sufocar as linhas de comunicação marítimas do inimigo. Ataques de submarinos alemães à marinha mercante brasileira foram as causas imediatas da entrada do Brasil em ambas as Guerras Mundiais. Nas décadas seguintes, a Marinha do Brasil trabalharia com a hipótese de uma Terceira Guerra Mundial com ataques de submarinos soviéticos ao tráfego marítimo., Parte 1. De sua participação na Segunda Guerra até os anos 1970, o Brasil subordinou-se à lógica de defesa coletiva do Hemisfério Ocidental, dentro do arranjo diplomático do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR). As marinhas latinoamericanas teriam foco na guerra antissubmarino em papel complementar à da liderança hemisférica, a Marinha dos Estados Unidos.

Isto relegou aos seus submarinos a tarefa de treinar as forças de superfície (os contratorpedeiros, o porta-aviões e seu grupo aéreo embarcado) em escolta de comboio e identificação de submarinos inimigos. A guerra no mar passava a ter três dimensões, com prioridade às forças de superfície e às missões de controle de área marítima.

Já havia, ainda assim, uma capacidade técnica para ações ofensivas desde a incorporação do em 1929; este submarino tinha potencial dissuasório, podendo bloquear um porto inimigo através da minagem ou da sua simples presença nas redondezas. Ao menos contra um inimigo de poderio naval inferior, os submarinos brasileiros seriam usados para o ataque. A doutrina brasileira ainda reconhece possibilidades na área antissubmarino: contra os submarinos oponentes, a Força de Submarinos poderia atacar bases e centros de controle ou ser posicionada nas suas zonas de patrulha e nos acessos aos seus alvos potenciais.

A guerra antissubmarino perdeu prioridade a partir dos anos 1970, quando a Marinha brasileira buscou maior autonomia de sua equivalente americana. O sonho da nova geração de oficiais era uma marinha de águas azuis, centrada em porta-aviões e submarinos nucleares, com plenas capacidades de projetar poder e negar o uso do mar ao inimigo. Eles puderam apontar à Guerra das Malvinas de 1982: quando a Marinha Real britânica, também focada na guerra antissubmarino, foi obrigada a lidar com um cenário inesperado pelos seus estrategistas, os submarinos nucleares foram sua grande vantagem contra a Armada Argentina. O afundamento do ARA General Belgrano pelo submarino negou o mar aos argentinos, que retraíram sua esquadra de superfície aos seus portos e deixaram isolada sua guarnição nas Ilhas Malvinas. O único navio de guerra argentino a continuar em ação foi o submarino ARA San Luis, que ainda exigiu grandes esforços dos britânicos para proteger sua força-tarefa.

Negação do mar

O emprego tradicional do submarino é na negação do uso do mar (NUM) ao inimigo, e houve treinamento neste sentido mesmo quando predominava a função antissubmarina. A NUM é uma das tarefas básicas do poder naval na doutrina brasileira, lista que se estende ao controle de área marítima (CAM), a projeção de poder sobre terra (PPT) e a dissuasão. O receio de um submarino oculto é uma opção clássica de NUM: um número muito maior de forças defensivas é necessário para proteger os possíveis alvos de um pequeno número de submarinos, um efeito desproporcional ao seu número. A mera possibilidade pode contribuir à dissuasão. Em determinadas circunstâncias os submarinos podem ser usados no CAM, ou mesmo na PPT, protegendo navios de desembarque ou infiltrando forças de operações especiais. Suas missões secundárias também incluem o esclarecimento e busca de informações.

A posição oficial em 1997 dava igual valor às tarefas de NUM e CAM. Na virada do século XXI os submarinos eram poucos e não havia direção estratégica bem definida. Por inércia, o CAM tinha alguma prevalência. Alguns chefes navais já defendiam a preponderância da NUM, mas a mudança de mentalidade teria que ser gradativa.

A Estratégia Nacional de Defesa de 2008 hierarquizou as tarefas: "na maneira de conceber a relação entre as tarefas estratégicas de negação do uso do mar, de controle de áreas marítimas e de projeção de poder, a Marinha do Brasil se pautará por um desenvolvimento desigual e conjunto". "A prioridade é assegurar os meios para negar o uso do mar a qualquer concentração de forças inimigas que se aproxime do Brasil por via marítima. A negação do uso do mar ao inimigo é a que organiza, antes de atendidos quaisquer outros objetivos estratégicos, a estratégia de defesa marítima do Brasil. Essa prioridade tem implicações para a reconfiguração das forças navais". "Para assegurar o objetivo de negação do uso do mar, o Brasil contará com força naval submarina de envergadura".Decreto nº 6.703, de 18 de dezembro de 2008. Diante de um inimigo superior ou nos estágios iniciais do conflito, os submarinos, satélites e aeronaves seriam os primeiros a entrar em ação, enquanto os meios de superfície seriam uma reserva tática ou estratégica.

Edições subsequentes da END reiteraram a intenção de construir uma força submarina expressiva. A END de 2012 admitiu duas opções estratégicas, uma de defesa do litoral e da águas jurisdicionais contra um adversário mais perigoso, priorizando os submarinos, e outra de foco na CAM e PPT, com uma força naval balanceada.

Interesse na propulsão nuclear miniaturadaimagem|Transferência de seção do submarino convencional , em construção em 2023 Na tarefa de NUM, os submarinos histórica e atualmente disponíveis seriam melhor usados na patrulha de áreas focais, tendo já designadas zonas de guerra ou exclusão que afastem a navegação civil, com o apoio de meios de esclarecimento, campos minados defensivos, instalações navais e aviação baseada em terra. A limitação é sua propulsão convencional, ou diesel-elétrica.

A velocidade, autonomia e discrição do submarino convencional são menores. Ele precisa periodicamente subir até uma profundidade, a cota periscópica, estender um esnórquel à superfície e alimentar de ar os motores diesel que carregam suas baterias. No processo, expõe-se à detecção visual, acústica e por radar. Abaixo da cota periscópica, precisa economizar o gasto de energia das suas baterias. Consequentemente, seu uso mais adequado é numa estratégia de posição ou patrulha, não muito longe da costa, devidamente informado do trajeto dos comboios inimigos. Ele só tem uma chance para o ataque, pois pode evadir em alta velocidade, mas terá que desacelerar para se posicionar a um novo ataque. Se o submarino convencional não receber autorização a um ataque quando houver a chance, perderá seu valor estratégico, e se atacar sem autorização, poderá escalar a crise. Ele pode ser pensado como um "campo minado móvel".