thumb|295px|Localização de Ferrol

Ferrol é uma cidade espanhola situada no noroeste da Galiza, no norte da província de A Coruña. A cidade encontra-se no interior da ria de Ferrol, embora o município abranja também uma destacada faixa litoral aberta ao oceano Atlântico.

É uma cidade orientada tradicionalmente para as atividades marítimas, através do porto de pesca e comercial, estaleiros civis e militares, instalações da Marinha ou praias turísticas.

Com uma população de 64.785 habitantes (INE 2021),​ é o terceiro município mais povoado da província de A Coruña e o sétimo da Galiza. A área metropolitana de Ferrol, conhecida como Ferrolterra, reúne as comarcas de Ferrol, Eume e Ortegal, com uma população perto dos 200.000 habitantes.

História miniatura|295px|O castro de Santa Comba é um povoado galaico da Idade do ferro. O típico castro peninsular cuja ocupação se prolongou até à Idade Média.

Pré-história e Idade Antiga O território ferrolano mantém numerosos sítios arqueológicos que testemunham a longa ocupação que estas terras têm tido na história. Os restos mais antigos situam-se nas colinas próximas a Brión (Ferrol), no chamado Monte da Chá de Brión, e Espadañido (Esmelle), onde se encontram numerosos jazigos megalíticos ou "mámoas" associados ao período Neolítico, entre os anos 5000 y 2500 a. C.

Da tradicional e intensa relação com o mar entre a população das costas das actuais Galiza, Irlanda, ocidente da França e Grã-Bretanha, surgiu uma cultura conhecida como a idade do bronze atlântica. Nesse momento, por volta de 1500 a.C, nascem as primeiras aldeias calcolíticas, começam a utilizar-se os primeiros metais (cobre) e surgem as reapresentações pétreas conhecidas como petroglifos. Nas proximidades de Ferrol, no monte de Chamorro, registram-se as agrupações de petroglifos mais destacáveis deste período.Rey, J. A. C., & Valcarce, R. F. (2003). O Petroglifo de Chamorro (San Salvador de Serantes, Ferrol). Gallaecia, (22), 73-86.

Na idade do ferro, por volta dos anos 900-800 a.C, inicia-se o uso do ferro, metal mais resistente que permite a evolução tecnológica primitiva. O tipo de ruínas arqueológicas mais características desta época são os povoados fortificados conhecidos como "castros", e alguns dos seus melhores exemplos estão no território de Ferrol. Há mais de uma dúzia, muitos ainda visíveis, com uma grande diversidade de tipologias: costeiros ou peninsulares como os castros de Lobadiz e Santa Comba; castros situados na cima das colinas como os de Tralocastro, Croa de Fontá ou Santa Mariña; e castros de planície como os de Leixa ou Gafos.Troncoso, V. A. (1997). Ferrolterra galaico-romana.

Romanização Estas povoações castrejas tornaram-se parte definitivamente do Império Romano desde que Octávio Augusto se impôs militarmente por volta do 19 a.C. Embora a maior parte dos castros galaicos, como os das terras ferrolanas, ainda estavam habitados, gradualmente foram esvaziando-se a favor de uma nova forma de exploração romana, a villae. Fazendo parte da província romana de Gallaecia, as villae estabelecidas entre os séculos III-VI ao pé da ria de Ferrol especializaram-se na exploração pesqueira e conserveira. Exemplo disso são os sítios arqueológicos da vila de Noville (Mugardos) e Cariño (Ferrol).Barrios, L. L. (2001). La producción de salsas y conservas de pescado en la Hispania Romana, II a. C.-VI (Vol. 11). Edicions Universitat Barcelona.

Idade Média No ano 411 terminou o domínio romano no território galaico. Vindos da Gália, os suevos migraram para a Hispânia durante as Invasões bárbaras, fundando um reino na antiga província romana da Gallaecia (atual norte de Portugal e Galiza) que duraria entre 409 e 585 d.C., data em que foi anexado pelos visigodos, transformando-a num reino cujo primeiro monarca foi Hermerico (409-438). Apesar disso, a primeira referência escrita de uma aldeia com o nome de Ferrol, 'não aparece até 1087, nomeadamente no documento assinado em 30 de março do mesmo ano, no qual se faz uma doação ao mosteiro próximo de San Martín de Jubia,

Idade Moderna Ao longo da idade Moderna, devido às boas condições da sua ria para a atracação de embarcações, Ferrol vive períodos de prosperidade negociando com Inglaterra, França e os Países Baixos. No entanto, as guerras que o imperador Carlos V do Sacro Império Romano-Germânico manteve contra a França e ainda mais o conflito do rei Filipe II de Espanha com Inglaterra, cortaram o fluxo comercial e converteram a vila num local onde os exércitos se abasterceram, arrasando com tudo e apropriando-se dos bens do povo.Archivo General de Galicia, G. S. 17-L núm. 8, in Almanaque de Ferrol para 1.905 Imprenta de “El Corrego Gallego” 1904, pp 73-76. A pilhagem e a destruição pelas Reales Armadas de Filipe II de Espanha constituiu um período de declínio, ficando reduzida a população de 250 vizinhos que tinha previamente a ter menos de 100 em 1603.

No ano 1724 Filipe V de Espanha ordenou a construção dos maiores estaleiros do norte de Espanha na ria de Ferrol, no local de A Graña, encarregados ao engenheiro militar Francisco Montaigut, e Ferrol. No 1749 Fernando VI de Espanha dispôs a instalação dos estaleiros em Esteiro, e que Ferrol fosse a capital do Departamento Marítimo (Zona Marítima).

Nos dias 25 e 26 de agosto de 1800 teve lugar a Batalha de Brión, uma tentativa dos ingleses para tomar Ferrol e destruir os estaleiros, com mais de cem navios e 15.000 homes, comandados pelo almirante Warren e general Pulteney, que acabou com a derrota e retirada das forças inglesas.

Idade contemporânea Isabel II de Espanha concedeu o título de "ciudad" (cidade), no ano 1858 à, nessa altura, "vila de Ferrol", título solicitado, anos antes, pelo Conselho municipal e a Câmara de Comércio.

A Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e a vitória franquista constituiu que os estaleiros, oficinas, fundições e docas de Ferrol foram tomadas pelo Estado em 1945 sob o nome de «Bazán», depoís renomeados como «IZAR» e desde janeiro de 2005 como «Navantia» (sociedade pública espanhola dedicada à construção naval civil e militar).

Durante a guerra, dado que o Chefe de Estado surgido do conflito, Francisco Franco (1892-1975), nasceu em Ferrol, em 1938 o nome do município foi mudado por El Ferrol del Caudillo, denominação que, com a chegada da democracia, voltou a mudar para Ferrol em 1982.

Desde 1982 até ao fin da década de 1990, a cidade de Ferrol tem tido numerosos problemas devidos ao declínio do setor naval.

Em qualquer caso, o novo milénio tem sido um tempo de relativa prosperidade económica, com a criação de novas infra-estruturas como a Autopista del Atlántico ou a construção do porto exterior de Ferrol.

Demografia + Variação demográfica do município entre 1857 e 2020 (I) 1857 1877 1887 1900 1910 1920 1930 1940 1950 1960 18.669 23.848 25.701 25.281 26.331 30.350 35.563 59.829 77.030 74.766 <small> Fonte: Censo de población (INE Archivo) / INEbase

+ Variação demográfica (II) 1970 1981 1996 2000 2005 2010 2015 2019 2020 87.736 87.691 83.048 81.255 77.155 73.638 69.452 66.06565.560 <small> Fonte: Censo de población (INE Archivo) / INEbase

Arquitetura miniatura|295px|O mosteiro de San Martín de Jubia, nas proximidades de Ferrol, é o centro monástico mais antigo do município. De vila medieval a cidade Iluminista Quanto à arquitetura, ainda é visível em Ferrol o traçado medieval do bairro de Ferrol Velho, ainda a se recuperar do abandono institucional. Embora não há nada das antigas construções da primitiva vila, sim há vestígios gráficos e documentais do século XVIII graças à planta de Ferrol do engenheiro Francisco Montaigut de 1732."Plano de la Villa de Ferrol y del proyecto que se ha formado para un Arsenal de Marina en el mes de marzo de 1732. Conservado en el A.Z.M.C.") A referida planta mostra a vila de Ferrol como um diminuto vilarejo agrícola e pesqueiro de forma triangular, com um porto e um tecido urbano medieval, que se desenvolveu ao longo do século XIII

A morfologia urbana e arquitectónica do Ferrol do presente surge com os estaleiros e o Arsenal construídos durante a Ilustração no reinado dos primeiros Bourbones, especialmente de Fernando VI de Espanha e Carlos III de Espanha. O projeto salientou o desenvolvimento de um novo espaço urbano, que marginalizou o Ferrol velho, com a criação de um bairro principal, de inspiração racionalista, com traçado ortogonal e predios representativos da burguesía,, "A Magdalena", habitada por uma população ligada ao estamento militar; e um outro, o bairro de "Esteiro", habitado por operarios ligados à construção naval.

O estadista Pascual Madoz descreveu assim o Ferrol no seu "Dicionário geográfico-estadístico-histórico de España e as suas posses de ultramar", de 1847:

O bairro de La Magdalena, que começou a ser construído no ano 1761, foi declarado Conjunto histórico-artístico em 1983.

O esforço para fazer de Ferrol um centro militar e naval dotou à cidade de um grande arsenal. Aqui estão reunidos os melhores exemplos de arquitetura neoclássica dos quais se destaca a Cortina uma muralha fortificada com 500 metros de comprimento que emerge da água para defender os Arsenais dos ataques marítimos. Ao mesmo tempo, ergueu-se o Castelo de São Filipe a construção militar mais importante de Ferrol, situado num ponto privilegiado da entrada da ria. miniatura|295px|dcha|Planta da cidade de Ferrol, de seu recinto fortificado e dos Arsenais da Marina, de 1858.

Expansão da cidade O período de 1900 a 1936 caracteriza-se por a demolição do muro do século XVIII que rodeava a cidade. Ferrol expande sua rede urbana por meio de uma ampliação que reordena os acessos, ruas, e infra-estruturas rodoviárias, naquela época muito deficitárias. A Câmara municipal estabeleceria uns “Decretos Municipais” para regulamentar a utilização e a estructura urbana.

No ano 1900 é criado o posto de Arquiteto da Câmara para exercer o control municipal sobre o desenvolvimento urbanístico e arquitetónico da cidade. O primeiro em desempenhar o posto foi Nicolás Pérez de Agreda y Álvarez-Pol. Destaca a figura de Rodolfo Ucha Piñeiro, que foi Arquiteto da Câmara de Ferrol de 1909 a 1936, e desenhou muitos dos seus edifícios emblemáticos. Foi seguido por Nemesio López Rodríguez.

Entre 1900 e 1920 praticou-se em Ferrol a arquitetura eclética e a historicista, associadas aos gostos estéticos da sociedade e à dos próprios arquitetos. No entanto, estes dependiam na sua atividade das encomendas, nem sempre inovadoras, dos clientes. Apesar disso, a evolução para novas estéticas surgiu principalmente da construção de residências privadas, muitas delas de estilo art nouveau. Na década de 1930 Ferrol já tinha um conjunto de edifícios de ar moderno, a par das novas tendências que prevaleciam na Europa. De esse período são alguns dos prédios ainda existentes dos arquitectos Manuel Riva de Soto, Nicolás Pérez de Ágreda y Álvarez Pol, Pedro R. Marino Ortega, Julio Galán Carvajal (introdutor do art nouveau em Ferrol com o seu projeto de Dispensário Antituberculose) e Rodolfo Ucha Piñeiro. miniatura|295px|dcha|Casa Antón ou chalet Antón, edifício de estilo arte nova situado na cidade de Ferrol (Galiza, España), obra do arquiteto galego Rodolfo Ucha Piñeiro.

Novo urbanismo de Ferrol Entre 1940 e 1959, período da posguerra espanhola em que se desenvolveu o modelo de autarquia económica, as novas construções da cidade voltaram à situação de preguerra, tanto na aparência como na qualidade arquitetónica. Além disso, ocorre uma involução construtiva com o regresso de estilos imperiais ou academicistas causada pelo uso político do poder do regime contra as correntes modernas ligadas ao progressismo.

Ao longo do último terço do século XX, Ferrol conheceu um crescimento urbano arbitrário, seguindo o traçado, em ambos os lados, das estradas principais de acesso, como a estrada de Castela. Ao mesmo tempo, o bairro histórico de La Magdalena foi perdendo população, que se mudou para municípios limítrofes como Narón.