No Brasil, existem mais de 400 espécies de cobras, sendo todas consideradas peçonhentas. Muitas espécies de cobras do Brasil são peçonhentas, mas apenas individuos de três famílias são de interesse médico, pelo maior número de encontros e potência da peçonha: Elapidae e Viperidae.

À família Elapidae pertencem dois gêneros: Micrurus e Leptomicrurus, conhecidas popularmente por corais-verdadeiras. Já à família Viperidae pertencem os gêneros Bothrocophias, Bothrops (conhecidos popularmente por jararacas, jararacuçus, urutus ou caissacas), Crotalus (cascavel) e Lachesis (sururucu ou pico-de-jaca). A família Elapidae caracteriza-se por serpentes que medem de 20 cm a quase um metro e meio e possuem olhos pequenos com pupilas redondas, escamas do corpo lisas e padrão de coloração composto por anéis coloridos (preto, vermelho, branco ou amarelo, mas algumas espécies da Amazônia não apresentam esse padrão). Apresentam hábitos terrícolas e fossoriais, sendo pouco agressivas, não dando botes, e perigosas apenas quando manuseadas. Muitas espécies não venenosas mimetizam as corais-verdadeiras e a única forma precisa de se identificar uma coral é pela dentição, que é do tipo proteróglifa nas verdadeiras e opistóglifa nas miméticas. Essa dentição se caracteriza por presas pequenas localizadas anteriormente na maxila, de tamanho relativamente pequeno e imóveis.

As serpentes da família Viperidae, subfamília Crotalinae, possuem uma estrutura chamada fosseta loreal (exclusiva do grupo). Além dessas, outras serpentes da família possuem pupila vertical, escamas quilhadas e dentição solenóglifa. A dentição solenóglifa se caracteriza por presas inoculadoras de veneno localizadas anteriormente na maxila, se projetando num ângulo de 90º no momento do bote. Os gêneros que ocorrem no Brasil podem ser diferenciados principalmente pelo formato da cauda: Bothrocophias e Bothrops (jararacas e urutus) caracterizam-se pela ponta da cauda lisa, sem guizo (chocalho); Crotalus (a cascavel) pelo chocalho na ponta da cauda e Lachesis (a surucucu) pela escama final da cauda em forma de espinho e escamas do corpo lembrando a casca de uma jaca.

Essas famílias de serpentes são facilmente identificadas, apesar da confusão gerada por chaves de identificação baseadas em espécies do Neotropico e América do Norte. Características como cabeça triangular, cauda que afila abruptamente e pupilas verticais (também presentes nas jiboias, que não são venenosas); anéis que dão a volta completa ao redor do corpo em espécies com padrão de coral (tanto as corais-verdadeiras quanto as falsas-corais possuem esse padrão) assim como padrão de coloração (não é possível dar um padrão básico do arranjo de cores nas corais) e desenhos em forma de triângulo na lateral do corpo (presentes em inúmeras espécies que mimetizam as jararacas) não são características seguras na identificação das serpentes peçonhentas no Brasil.

Basicamente, a identificação do gênero já é de grande utilidade para o leigo. Deve-se salientar que os nomes populares são problemáticos na identificação das espécies de serpentes, pois muitas vezes eles se referem a inúmeras espécies não venenosas. Um caso exemplar é o nome bico-de-papagaio ou papagaia, que pode se referir tanto à jararaca-verde (Bothrops bilineatus) que é peçonhenta, quanto à jiboia-verde (Coralus caninus), não peçonhenta. Em alguns casos, como a surucucu (Lachesis muta) e a cascavel (Crotalus durissus), os nomes são bastante específicos, mas geralmente, por conta da aversão que as pessoas têm das cobras, nomes como jararaca ou surucucu são aplicados indiscriminadamente para qualquer espécie, mesmo quando não são cobras peçonhentas.

Acidentes ofídicos no Brasil As peçonhas têm como função imobilizar a presa, assim como pré digeri-la, além de eventualmente serem utilizadas na defesa. Elas são misturas complexas de substâncias orgânicas e inorgânicas. Entre os componentes orgânicos, destacam-se as proteínas (algumas das quais são enzimas), carboidratos, lipídios, nucleotídeos, aminoácidos e peptídeos. E entre as substâncias inorgânicas, as mais frequentemente encontradas são cálcio, cobre, ferro, potássio, magnésio, sódio, fósforo, cobalto e zinco. Esses componentes químicos são os responsáveis pelas atividades biológicas dos venenos, destacando-se atividades neurotóxicas, miotóxicas, coagulantes e hemorrágicas.

Essas atividades biológicas são muitas vezes específicas dos gêneros e provocam sintomas típicos de cada acidente ofídico, permitindo a identificação de pelo menos o gênero da espécie que picou o acidentado. Vale ressaltar que as substâncias que compõem os venenos dessas espécies podem ser úteis para os seres humanos. O veneno da jararaca-comum (Bothrops jararaca) deu origem a dois medicamentos anti-hipertensivos: o captopril e o evasin (sigla em inglês para endogenous vasopeptidase inhibitor). O veneno da cascavel (Crotalus durissus) deu origem a um poderoso analgésico chamado enpak (sigla em inglês para endogenous pain killer).

Deve-se salientar que outras famílias de cobras, principalmente os colubrídeos, podem causar acidentes com inoculação de veneno, e muitas vezes representam entre 20% e 30% dos casos atendidos nos hospitais. Apenas espécies com dentição opistóglifa são capazes de inocular veneno, e frequentemente os sintomas são parecidos com o acidente botrópico. Dentre as espécies que podem provocar esse tipo de acidente estão as muçuranas (gêneros Boiruna e Clelia), a cobra-verde (Philodryas olfersii), a parelheira (Philodryas patagoniensis) e a corre-campo (Thamnodynastes pallidus). Esses acidentes acontecem geralmente quando elas são pisoteadas ou manuseadas, visto que as espécies desta família geralmente fogem rapidamente do contato com seres humanos.

+ Identificação de acidentes ofídicos do Brasil Acidente Gênero (s)ImagemAtividade biológicaPorcentagem dos acidentesSintomas BotrópicoBothrocophias, Bothrops150pxProteolítica, Coagulante, Hemorrágica90,5%Dor, sangramento no local da picada, edema que pode evoluir para todo o membro atingido, hemorragias, equimose, abscesso, necrose. Vítima pode morrer por insuficiência renal. Letalidade de 0,7%. LaquéticoLachesis150pxProteolítica, Coagulante, Hemorrágica, Neurotóxica1,4% Semelhante ao acidente botrópico, diferindo por conta de sintomas neurotóxicos: bradicardia, hipotensão arterial, sudorese, vômitos, náuseas, cólicas abdominais e diarreia. Esses últimos sintomas servem como diferencial para identificar o gênero da serpente. Pode matar por insuficiência renal. Letalidade de até 0,9%. CrotálicoCrotalus150pxNeurotóxica, Miotóxica, Coagulante7,7%Dor e edema discretos, até mesmo ausentes, no local da picada, além de parestesia, ptose palpebral, diplopia, visão turva, urina avermelhada ou marrom. Insuficiência respiratória aguda em casos graves. Pode matar por insuficiência renal. Taxa de letalidade de 1,8%. ElapídicoMicrurus, Leptomicrurus150pxNeurotóxica>1%Dor local, parestesia, ptose palpebral, diplopia, sialorreia, dificuldade de deglutição e mastigação, dispneia. Casos graves podem evoluir para insuficiência respiratória.

Cobras que imitam serpentes peçonhentas Existem espécies de outras famílias que mimetizam as serpentes das famílias Elapidae e Viperidae. As mais famosas são as falsas-corais, com 49 espécies pertencendo à família Dipsadidae, mimetizando a coloração aposemática das corais-verdadeiras. Outras duas espécies, Simophis rhinostoma e Rhinobothryum lentiginosum, pertencem à família Colubridae e uma, Anilius scytale, à família Aniliidae. Nem todas mimetizam de forma perfeita uma coral-verdadeira, apenas imitando alguns aspectos da coloração, mas outras podem ser facilmente confundidas com as corais-verdadeiras (como o caso das cobras do gênero Erythrolamprus), sendo possível diferenciá-las apenas pela dentição, que é do tipo áglifa ou opistóglifa, diferente dos elapídeos (que possuem dentição proteróglifa).

Outros colubrídeos que imitam serpentes peçonhentas, são a boipeva ou falsa-jararaca (Xenodon merremii), a jararaca-da-praia (Xenodon dorbignyi) e as cobras-espadas (gênero Tomodon), se assemelhando às jararacas.

Conservação das cobras peçonhentas brasileiras Apesar de um número significativo de espécies de cobras peçonhentas no Brasil, não existem muitas espécies consideradas como ameaçadas de extinção. A IUCN não avaliou muito das espécies que ocorrem no Brasil e só considera três espécies de jararacas em algum grau de ameaça. Isso não ocorre porque elas estão em uma situação de baixo risco, mas porque ainda pouco se conhece sobre a biologia e estado de conservação das serpentes brasileiras. As corais são as serpentes menos estudadas, principalmente por serem difíceis de serem encontradas no campo. Entretanto, se não perseguidas, as serpentes brasileiras geralmente tendem a se adaptar aos ambientes modificados pelo homem. As espécies consideradas com maior risco de extinção são aquelas endêmicas de ilhas do litoral de São Paulo, e apresentam população pequena e restrita.

A lista brasileira oficial atual considera apenas 5 espécies de jararacas em algum grau de ameaça: a jararaca-de-alcatrazes (B. alcatraz), a jararaca-ilhoa (B. insularis), e a B. otavioi como criticamente em perigo (essas são serpentes endêmicas de ilhas do litoral paulista), a jararacuçu-tapete (B. pirajai) e a B. muriciensis como em perigo.PORTARIA No - 444, DE 17 DE DEZEMBRO DE 2014 Além das já citadas espécies, listas estaduais já consideraram a subespécie da surucucu (Lachesis muta rhombeata) que ocorre na Mata Atlântica (Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo), a urutu-cruzeiro (B. alternatus) (São Paulo), a jararaca-verde (B. bilineatus) (Rio de Janeiro), a cotiara (B. cotiara) (São Paulo), a B. fonsecai (São Paulo), a B. itapetiningae (São Paulo) e a jararacuçu (B. jararacussu) como ameaçadas de extinção.

Lista de cobras peçonhentas do Brasil Nome científicoNome científico da espécieNome vernáculoNome vernáculo da espécie em português, que pode ser um termo genérico a outras espécies do mesmo gêneroEstado IUCNEstado de conservação segundo a IUCNOcorrênciaEstados em que a espécie ocorre no BrasilDescriçãoBreve descrição da espécie