Cidade de Deus é um filme de ação brasileiro de 2002 produzido pela O2 Filmes, VideoFilmes e distribuído pela Lumière Brasil. É uma adaptação roteirizada por Bráulio Mantovani a partir do livro de mesmo nome escrito por Paulo Lins. Foi dirigido por Fernando Meirelles, codirigido por Kátia Lund e estrelado por Alexandre Rodrigues, Leandro Firmino e Alice Braga.
O filme retrata o crescimento do crime organizado na Cidade de Deus, uma favela que começou a ser construída nos anos 1960 e tornou-se um dos lugares mais perigosos do Rio de Janeiro no começo dos anos 1980. Para contar a trajetória deste lugar, o filme narra a vida de diversos personagens e eventos que se entrelaçam no decorrer da trama. Tudo pelo ponto de vista do Buscapé, o protagonista-narrador que cresceu em um ambiente muito violento. Porém, encontra subsídios para não ser fisgado pela vida do crime.
A adaptação cinematográfica iniciou-se no segundo semestre de 1997, um pouco depois de Heitor Dhalia presentear Fernando Meirelles com o livro de Paulo Lins. Dhalia sugeriu a adaptação a Meirelles que, tempos depois, acatou a sugestão, comprou os direitos e chamou Bráulio Mantovani para escrever o roteiro, que, por sua vez, foi concluído em tempo recorde, tendo seu primeiro tratamento no início de 1998. Durante um longo período, Meirelles e a equipe trabalharam com mais de 400 jovens e adultos em uma oficina de atores feita exclusivamente para o filme. As filmagens duraram nove semanas, entre junho e agosto de 2001.
Cidade de Deus é considerado um dos filmes brasileiros mais importantes de todos os tempos, sendo enaltecido pela crítica especializada, que, em geral, enfatizou suas qualidades artísticas e estéticas. O longa representa o marco final no período de reflorescimento da produção cinematográfica brasileira, conhecido como "cinema da retomada". Foi lançado no Brasil em 30 de agosto de 2002, acumulando um público total de espectadores. Mudou o paradigma do cinema brasileiro ao ser o primeiro a receber quatro indicações ao Oscar, nas categorias de melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor edição e melhor fotografia, número igualado apenas na premiação de 2026, por O Agente Secreto.
Enredo Na cena de abertura, galinhas são preparadas para o almoço quando uma escapa e é perseguida por um grupo armado pelas ruas da favela Cidade de Deus. A galinha para entre a gangue e um jovem chamado Buscapé, que acredita que a gangue quer matá-lo. Buscapé, o narrador, começa a contar a história de sua infância, e o filme volta ao final dos anos 1960.
Nos anos 1960, a favela é um complexo habitacional recém-construído longe do centro do Rio de Janeiro, com pouco acesso à eletricidade e água. Três ladrões amadores conhecido como "Trio Ternura" — Cabeleira, Alicate e Marreco — aterrorizam os negócios locais. Marreco é o irmão de Buscapé. Como Robin Hood, eles dividem parte do dinheiro roubado com os habitantes da favela chamada de Cidade de Deus e, em troca, são protegidos por eles. Vários garotos acompanham e idolatram o trio, e um deles, chamado de Dadinho, os convence a roubar um motel. A gangue concorda, porém decide por não matar ninguém e, achando que Dadinho é pequeno demais para participar, deixa-o como vigia. Insatisfeito, Dadinho dá um tiro de advertência no meio do roubo e procede para satisfazer seu desejo assassinando todos ocupantes no motel. O massacre chama a atenção da polícia, fazendo com que o Trio Ternura deixe a favela. Alicate se junta à igreja, Cabeleira é morto pela polícia ao tentar escapar com sua namorada e Marreco é morto por Dadinho depois de tentar roubar o dinheiro do menino e seu amigo Bené, que estavam se escondendo após os crimes cometidos no motel.
O tempo avança alguns anos. Buscapé se junta a um grupo de jovens que gostam de fumar maconha. Ele desenvolve um interesse em fotografia ao tirar fotos de seus amigos, especialmente de uma garota, Angélica. Ele tenta várias vezes se aproximar dela; porém, todas elas são arruinadas por um grupo de jovens arruaceiros conhecidos como Caixa Baixa. Dadinho muda seu nome para Zé Pequeno e, junto com seu amigo de infância Bené, estabelece um império do tráfico de drogas eliminando toda a sua competição, com a exceção de um traficante chamado Cenoura.
Uma relativa paz chega à Cidade de Deus com Zé Pequeno no comando, que evita chamar a atenção da polícia abordando e matando um dos Caixa Baixa, que estava cometendo crimes na área. Zé planeja matar seu concorrente, Cenoura, porém é impedido por Bené, que é amigo de Cenoura. A certa altura, junto com Angélica, ele decide deixar sua vida criminal para trás e se mudar para uma fazenda; assim, ele faz uma grande festa de despedida. Zé, não conseguindo dançar com uma garota por quem se interessou, humilha o namorado desta, um homem chamado Mané Galinha. Mais tarde, Bené é morto por um antigo traficante, Neguinho, que estava tentando matar Zé. Bené era o único homem que impedia Zé Pequeno de atacar os negócios de Cenoura. Sua morte deixa Zé em perigo e Cenoura com medo.
300px|miniaturadaimagem|Cena em que Zé Pequeno toma a boca de fumo de Neguinho, onde é dita a frase "Meu nome agora é Zé Pequeno", considerada um marco e titulada como uma das mais inesquecíveis do cinema.
Após a morte de Bené, Zé Pequeno estupra a namorada de Mané Galinha e mata seu tio e irmão. Galinha, procurando vingança, se alia a Cenoura. Depois de matar um dos homens de Zé e ferir o próprio, uma guerra entre as duas facções começa envolvendo toda a Cidade de Deus. Ambos os lados recrutam mais e mais "soldados", com Zé fornecendo armas para os Caixa Baixa, com a condição destes lutarem para ele. Com inveja da notoriedade de Galinha, Zé Pequeno faz Buscapé tirar fotos dele e da sua gangue. Sem o conhecimento de Buscapé, uma repórter decide publicar as fotos no jornal. Buscapé, erroneamente achando que Zé Pequeno quer matá-lo, teme por sua vida. Na verdade, Zé fica muito satisfeito com seu ganho de notoriedade.
Voltando ao início de filme, confrontado pela gangue, Buscapé se surpreende quando Zé manda que ele pegue a galinha que fugiu. Enquanto Buscapé se prepara para capturar a ave, Mané Galinha e Cenoura aparecem e um tiroteio começa entre as duas gangues e, mais tarde, a polícia intervém. Mané Galinha é morto por Otto, um menino que havia se infiltrado na gangue para vingar a morte de seu pai, morto por Galinha em um assalto a banco. Zé Pequeno e Cenoura são presos. Zé é revistado e humilhado pelos policiais, porém é solto; com tudo sendo fotografado por Buscapé. Depois da saída dos policiais, os Caixa Baixa cercam Zé e o matam em vingança de seu amigo. Buscapé tira fotos do corpo de Zé e as leva para o jornal. Temendo as represálias da polícia, Buscapé opta por só entregar as fotos de Zé morto, conseguindo um bom emprego no jornal. Os Caixa Baixa assumem a criminalidade na Cidade de Deus, e tudo recomeça outra vez.
Elenco
Alexandre Rodrigues como Buscapé: É o personagem principal e narrador. Um jovem calmo, honesto, que tem o sonho de se tornar fotógrafo, e o único personagem que apesar da vivência com a grande violência não consegue ser fisgado pelo mundo do crime e nem morto pela guerra das facções da favela Cidade de Deus. Seu nome verdadeiro é Wilson Rodrigues. Leandro Firmino como Zé Pequeno/Dadinho:Um traficante de drogas sociopata que tem prazer sádico em matar seus rivais. Quando seu único amigo, Bené, é morto, ele sofre grande distúrbios de raiva se tornando ainda mais sem limites. Dadinho é seu apelido quando criança, tendo o mudado para Zé Pequeno em uma cerimônia de candomblé. Douglas Silva interpreta Dadinho na infância. Alice Braga como Angélica: Uma velha amiga e interesse amoroso de Buscapé, e mais tarde a namorada de Bené, que o motiva a abandonar a vida criminosa. Phellipe Haagensen como como Bené: Amigo de infância de Zé Pequeno, que cresceu com ele no mundo do crime. Ele é bastante amado por todos na Cidade de Deus por seu modo de tratar cada morador. Michel Gomes retrata Bené na infância. Jonathan Haagensen como Cabeleira: O irmão mais velho de Bené e líder do Trio Ternura, um grupo de assaltantes que partilham os seus lucros com a população da Cidade de Deus em uma alusão a Robin Hood. Matheus Nachtergaele como Sandro Cenoura: Um traficante de drogas amigo de Bené, que detém um ponto de tráfico na Cidade de Deus e rivaliza com Zé Pequeno. Cenoura é um personagem decisivo no início da guerra pelo poder na favela nos anos 1980. Seu Jorge como Mané Galinha: Um homem bonito, honesto e carismático. Zé Pequeno estupra sua namorada e massacra vários membros da família de Mané Galinha, fazendo-o unir forças com Cenoura para vingar-se de Zé Pequeno. Renato de Souza como Marreco: Um membro do Trio Ternura e irmão de Buscapé. Seu nome verdadeiro é Renato Rodrigues. Roberta Rodrigues como Berenice: Namorada de Cabeleira, que é irmão de Bené. Daniel Zettel como Tiago: Um viciado em drogas e namorado ruivo de Angélica. Mais tarde rompe o namoro e torna-se sócio de Zé Pequeno. Darlan Cunha como Filé com Fritas: Um jovem menino que se junta à quadrilha de Zé. Charles Paraventi como Tio Sam: um fornecedor de armamentos ilegais, conseguidos através de um esquema com policiais corruptos. Ele fornece armas tanto para o bando de Zé Pequeno, quanto para o de Cenoura. Graziella Moretto como Marina Cintra: Jornalista do Jornal do Brasil, que contrata Buscapé como fotógrafo. Rubens Sabino como Neguinho: um traficante cuja boca é tomada por Zé Pequeno. Mais tarde, por vingança, tenta matar Zé e acaba assassinando Bené.
O elenco também inclui Thiago Martins (Lampião), Marcos "Kikito" Junqueira (Otávio), Marcelo Mello Jr., Bernardo Santos, Diego Batista, e Micael Borges como membros do grupo de menores infratores conhecidos como Caixa Baixa; Babu Santana como o Grande, um dos primeiros chefes do tráfico da Cidade de Deus e antecessor de Cenoura; Sabrina Rosa vive a namorada de Mané Galinha, violentada por Zé Pequeno; Gero Camilo como o pedreiro Paraíba, um morador da Cidade de Deus nos anos 1960, enquanto Karina Falcão interpreta sua mulher e Dani Ornellas uma vizinha do casal; Mumuzinho interpreta Salgueirinho, um membro do bando de Zé Pequeno, enquanto Mary Sheila vive a mulher de Neguinho; e Edson Montenegro interpreta o pai de Buscapé.
Produção Desenvolvimento 180px|miniaturadaimagem|direita|Fernando Meirelles dirigiu Cidade de Deus em conjunto de Kátia Lund. Em 1997, foi publicado o livro de Paulo Lins, no qual o longa Cidade de Deus é baseado. O livro foi rapidamente aclamado pela critica especializada, sendo considerado um dos primeiros romances contemporâneos a narrar, com eloquência e qualidade literária, a vida dos moradores da favela com um ponto de vista único. Pouco tempo depois do lançamento nas livrarias, Fernando Meirelles ganha de presente o livro de Heitor Dhalia — que na época era redator de agência de publicidade e admirava Meirelles por seus trabalhos no meio publicitário. Dhalia sugeriu a adaptação cinematográfica a Meirelles, que de imediato recusa, considerando não ser apto ao projeto por morar em São Paulo. "Sabia pouco sobre a organização da favela e sobre o tráfico e jamais sairia de São Paulo para rodar um longa-metragem no Rio, sobre um assunto tão distante da minha realidade", analisa Meirelles.
As resenhas publicadas sobre o livro eram bastante positivas — juntamente com Andrea Barata Ribeiro, sócia na produtora O2 Filmes, foram responsáveis por estimular Meirelles a mudar de pensamento e resolver ler o romance. Meirelles relatou que, ao chegar na página 100, foi obrigado a concordar que havia um argumento interessante. Continuando a leitura, começou a grifar ao acaso as passagens importantes. Quando chegou ao fim, já havia anotado desenhos de cenários e os personagens principais.