A eleição presidencial brasileira de 1955 aconteceu no dia 3 de outubro e foi a décima-sexta eleição presidencial e a décima-quarta direta.

Feita em um cenário conturbado, com pouco mais de um ano do Suicídio de Getúlio Vargas, a pequena margem de 5,41% de Juscelino para Távora deu mais força para a UDN e setores das Forças Armadas questionarem os resultados, resultando no Golpe Preventivo que Garantiu a Posse de Juscelino em janeiro do ano seguinte.

O feito de ganhar uma eleição perdendo no estado mais populoso, São Paulo, só seria repetido, em eleições diretas, em 2006, 2010, 2014 e 2022; por Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, Dilma novamente, e Lula novamente, respectivamente.«Resultado da eleição 2006». Justiça Eleitoral. Consultado em 8 de novembro de 2022«Estatísticas». Justiça Eleitoral. Consultado em 8 de novembro de 2022«Dilma vence em 15 estados; Aécio, em 11 e no DF | Eleições 2014 no G1 – Eleição em números». g1.globo.com. Consultado em 8 de novembro de 2022

Contexto histórico O ex-presidente Getúlio Vargas, já septuagenário, retornou à presidência, dessa vez pelas vias democráticas. Este governo foi extremamente conturbado, em razão, principalmente, da ação da oposição, que atuou de todas as maneiras para obstruir o governo de Vargas.

O principal partido de oposição ao seu governo era a direitista União Democrática Nacional (UDN), que apresentava uma oposição ferrenha ao legado político do varguismo. A postura dos políticos udenistas durante o segundo governo de Vargas foi radical, e isso deu margem para uma crise política, que se estendeu durante todo esse governo.

A crise política e os ataques da UDN enfraqueceram o governo de Vargas. A classe trabalhadora também começou a se mobilizar contra o governo por conta do aumento da inflação, que corroía o salário. Além disso, medidas como a nomeação de João Goulart para o Ministério do Trabalho e o aumento do salário mínimo em 100% só reforçaram a oposição ferrenha dos udenistas. João Goulart era filho de um amigo íntimo de Getúlio e somente seguiu carreira na política após ter recebido um convite do próprio Getúlio para ingressar no PTB.

O polêmico reajuste do salário mínimo, em 100%, ocasionou, em fevereiro de 1954, um protesto público, em forma de manifesto à nação, dos militares, (um dos quais foi Golbery do Couto e Silva), contra o governo, seguido da demissão do ministro do trabalho João Goulart.

Houve no governo de Getúlio uma grande mobilização nacional conhecida como a campanha "O petróleo é nosso" em torno da criação da PETROBRAS. Getúlio tentou, mas não conseguiu, criar a Eletrobras, que só seria criada em 1961. Em 1954, entrou em operação a Usina Hidrelétrica de Paulo Afonso I. Foi iniciada a construção da Rodovia Fernão Dias ligando São Paulo a Belo Horizonte, e que seria concluída por Juscelino Kubitschek.

Porém também houve uma série de acusações de corrupção a membros do governo e pessoas próximas a Getúlio, o que levou a imprensa golpista a dizer que Getúlio estava sentado em um "mar de lama". A acusação mais grave de corrupção, que jogou grande parte da opinião publicada contra Getúlio, foi a comissão parlamentar de inquérito (CPI) contra o jornal Última Hora, de propriedade de Samuel Wainer. Samuel Wainer era acusado por Carlos Lacerda e outros de receber dinheiro do Banco do Brasil para apoiar Getúlio.

O atentado da Rua Tonelero e o Suicídio de Vargas No dia 5 de agosto de 1954, o jornalista Carlos Lacerda, da Tribuna da Imprensa, sofre uma tentativa de assassinato e sai com um ferimento no pé, ao contrário do major-aviador Rubens Vaz, que estava junto na ocasião e foi morto. As investigações apontaram Gregório Fortunato como o responsável pelo acontecimento. Gregório era chefe da guarda pessoal do então presidente Getúlio Vargas, e logo, a oposição e os militares exigiram que Vargas renunciasse. O Manifesto dos Generais, de 22 de agosto de 1954, pedia a renúncia de Getúlio. Foi assinado por 19 generais de exército, entre eles, Castelo Branco, Juarez Távora e Henrique Lott.

Getúlio disse: "só morto sairei do Catete". Às 8 horas e 30 minutos do dia 24 de agosto de 1954, Getúlio se suicida com um tiro no coração em seus aposentos no Palácio do Catete no Rio de Janeiro.Por que Getúlio se matou? Neto, Lira. (1/8/2004) Aventuras na História, Guia do Estudante. Acessado em 16/11/2011.

Com a morte de Vargas, assumiu o vice-presidente potiguar João Café Filho, que governou num período de agitação, manipulado pelos políticos da UDN. Em 8 de novembro de 1955, após a eleição ser realizada, Café Filho é afastado do governo após um ataque cardíaco.João Fernandes Campos Café Filho UOL Biografias. Acessado em 16/11/2011. Assume o Presidente da Câmara dos Deputados Carlos Luz, que é deposto três dias depois ao pretender dar um golpe de Estado e evitar a posse do presidente eleito Juscelino Kubitschek.Carlos Luz UOL Biografias. Acessado em 16/11/2011. O Congresso decidiu que o presidente do Senado Nereu Ramos terminaria os dois meses e meio de mandato, e passaria o governo para JK.Nereu Ramos UOL Biografias. Acessado em 16/11/2011.

Juscelino Kubitschek conta que foi chamado para uma reunião em setembro de 1955 na casa de Nereu Ramos, onde se encontrava o governador de Pernambuco, Etelvino Lins. Etelvino propôs a JK que as eleições fossem adiadas, pois "não havia possibilidade para as eleições, por causa da agitação que havia no país, dos traumas que o país tinha passado." Na União Democrática Nacional, todos estavam de acordo. JK respondeu que não poderia transigir com aquilo.OLIVEIRA, Juscelino Kubitschek de. Juscelino Kubitschek I (depoimento, 1974). Rio de Janeiro, CPDOC, 1979. 15 p. dat. Página 8.

Constituição de 1946 De acordo com a Constituição de 1946, o mandato do presidente vigoraria por cinco anos. Assim, Dutra governara até 31 de janeiro de 1951, passando a faixa presidencial para Vargas, eleito em 1950.Constituição de 1946 dos Estados Unidos do Brasil/Título I/Capítulo III/Artigo 82 Acessado em 12/11/2011. O direito ao voto foi permitido a todos os brasileiros com mais de dezoito anos de ambos os sexos, mas os analfabetos eram proibidos de votar.Júnior, Alfredo Boulos. História, Sociedade e Cidadania. 9º ano. 1ª edição - São Paulo - 2009. Foi determinado, também, que a eleição para presidente e vice-presidente ocorreriam de forma separada.

Candidatos

PresidenteCargo político anteriorVice-presidente (apoiado)ColigaçãoCandidatoPartidoCandidatoPartidoAdemar de Barros(Campanha) PSPGovernador de São PauloDanton Coelho PSPJuarez Távora(Campanha) UDNMinistro da AgriculturaMilton Campos UDNFrente de Renovação NacionalJuscelino Kubitschek(Campanha) PSDGovernador de Minas GeraisJoão Goulart PTBAliança Social TrabalhistaPlínio Salgado(Campanha)PRPDeputado estadual por São Paulo colspan="3" Juscelino Kubitschek (PSD) thumb|250px|right|Primeira cédula eleitoral oficial, com candidatos a presidente e vice. A coligação do Partido Social Democrático (PSD), do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), do Partido Republicano (PR), do Partido Trabalhista Nacional (PTN), do Partido Social Trabalhista (PST), e do Partido Republicano Trabalhista (PRT) lançam como candidato o médico e então governador de Minas Gerais Juscelino Kubitschek, do centrista PSD. O slogan da campanha desenvolvimentista era 50 anos de progresso em 5 de governo. O jingle de campanha de JK, era em forma de marchinha de carnaval e ressaltava o nacionalismo e o populismo. O jingle era assim: "Gigante pela própria natureza /há 400 anos a dormir / são 21 estados, são teus / filhos a chamar / agora vem lutar, vamos trabalhar. / Queremos demonstrar ao mundo inteiro / e a todos que nos querem dominar / que o Brasil pertence aos brasileiros, / e um homem vai surgir para trabalhar. / Aparece como estrela radiosa / neste céu azul de anil / o seu nome é uma bandeira gloriosa / pra salvar este Brasil. / Juscelino Kubitschek é o homem / vem de Minas das bateias do sertão / Juscelino, Juscelino é o homem / Que além de patriota é nosso irmão. / Brasil, vamos para as urnas / Povo democrata, gente varonil / Juscelino, Juscelino, Juscelino, / Para presidente do Brasil!"Jingle da campanha à presidência de JK em 1955 Propagandas antigas. Acessado em 17/11/2011. (Link inativo )Para a candidatura de JK, os estados de Pernambuco, Santa Catarina e Rio Grande do Sul não o apoiaram. Em entrevista a 1 de março de 1974 para Maria Victoria Benevides, JK diria: "Uma das maiores dificuldades para articular a aliança com o PTB, era a hostilidade de setores mais conservadores do PSD em relação ao nome de Jango. Mas eu sabia que uma aliança com o PTB era imprescindível; somente uma aliança muito forte poderia enfrentar a oposição e sair vitoriosa; e somente com um candidato que conseguisse a reconciliação entre o voto rural do PSD e o voto urbano do PTB. Foi por isso que insisti no nome de Jango para a vice-presidência; como candidato, tinha que pensar em termos de cálculo político e isto me obrigava a uma aliança com o PTB. No PTB, o nome de Goulart era o que reunia maiores possibilidades."Oliveira, Página 9 .

Na época, o então presidente Café Filho fez fortes críticas a JK na Hora do Brasil. Para poder fortalecer a candidatura, Juscelino deu uma entrevista para o jornal Correio da Manhã, rebatendo as críticas e desmentindo Café.Oliveira, Página 11 . JK conta em entrevista, que no início de 1955, fez várias viagens pelo país, e, em uma cidade do Amazonas, "estava caminhando para a praça para fazer comício, e me disseram: 'A rádio está noticiando que o senhor foi intimado pelos militares a interromper a sua campanha política, e que ou o senhor aceite, ou será preso'. Respondi: 'Não sei se é verdade, mas vou dizendo que não há força humana que me tire da campanha, a não ser morto. A bandeira que trouxe levarei até o Catete. Eu respeito a democracia e a Constituição'."Oliveira, Página 13 .

Pela mesma coligação de JK, foi lançado o ex-ministro do trabalho João Goulart (Jango) como candidato a vice-presidente.

Acredita-se que o clima de comoção popular devido à morte de Getúlio, teria facilitado a eleição de Juscelino Kubitschek à presidência da república e de João Goulart (o Jango) à vice-presidência, em 1955, derrotando a UDN, adversária de Getúlio. Juscelino Kubitschek e João Goulart são considerados, por alguns, como dois dos "herdeiros políticos" de Getúlio.

Juarez Távora (UDN) A coligação formada pela União Democrática Nacional (UDN), o Partido Democrata Cristão (PDC), o Partido Libertador (PL), e o Partido Socialista Brasileiro (PSB) lançaram o militar cearense Juarez Távora da conservadora UDN como candidato.

Pela mesma coligação de Juarez Távora, foi lançado o ex-governador de Minas Gerais Milton Campos como candidato a vice.

Ademar de Barros (PSP) O populista de direita Partido Social Progressista não fez alianças políticas, e lançou o médico e empresário Ademar de Barros como candidato. O PSP lançou Danton Coelho como candidato para vice-presidente.

Plínio Salgado (PRP) O Partido de Representação Popular não fez alianças políticas, e lançou como candidato o seu fundador, o jornalista e ex-líder integralista Plínio Salgado. O partido não lançou candidato à vice-presidência.

Resultados

Nesta eleição, pela primeira vez no Brasil, se utilizou a cédula eleitoral oficial confeccionada pela Justiça Eleitoral. Antes de 1955 os próprios partidos políticos confeccionavam e distribuíam as cédulas eleitorais.

Presidência da República Eleição para presidente do Brasil em 1955CandidatoVotosPorcentagem Juscelino Kubitschek (PSD/PTB/PR/PTN/PST/PRT) 3.077.411 35,68% Juarez Távora (UDN/PDC/PL/PSB) 2.610.462 30,27% Ademar de Barros (PSP) 2.222.725 25,77% Plínio Salgado (PRP) 714.379 8,28% Votos nominais 8.624.977 (100%) Votos brancos 161.852 (1,77%) Votos nulos 310.185 (3,40%) Votos apurados 9.097.014 (100%) <small>Fonte:Eleição Presidencial - 3 de outubro de 1955 (Domingo). (Pós 1945) Acessado em 19/11/2011.