(c. 1541 – 4 de novembro de 1596), cujo nome formal de registro samurai (imina) era ou Masashige, foi um célebre samurai, estrategista e comandante militar japonês do período Sengoku. Notabilizou-se por sua lealdade inabalável a Tokugawa Ieyasu, fundador do Xogunato Tokugawa, a quem serviu como líder das forças de infiltração, escolta e reconhecimento compostas pelos lendários combatentes da região montanhosa de Iga (os chamados Iga-mono ou shinobi).

Hanzō granjeou fama de guerreiro impiedoso e destemido nos campos de batalha, o que lhe rendeu o cognome militar de , distinção que também servia para diferenciá-lo de outro respeitado general de Ieyasu, Watanabe Moritsuna, conhecido como Yari-Hanzō ("Hanzō da Lança"). Na historiografia e na memória cívica de Tóquio, seu nome batizou o monumental portão ocidental do Castelo de Edo (Hanzōmon) e a Linha Hanzōmon do metropolitano da capital japonesa. Ao longo dos séculos, sua figura foi amplamente mitificada pelo folclore e pela ficção, tornando-se o arquétipo definitivo do ninja mestre nas artes marciais e na espionagem.

Origens e contexto familiar Hanzō nasceu por volta de 1541 na província de Mikawa (parte da moderna prefeitura de Aichi), no seio de uma linhagem guerreira menor subordinada ao clã Matsudaira. Seu pai, Hattori Yasunaga (服部 保長), era um guerreiro com raízes ancestrais na província montanhosa de Iga (atual prefeitura de Mie) — território historicamente célebre pelo desenvolvimento de clãs independentes especializados em táticas de guerrilha, infiltração noturna e espionagem (ninjutsu). Yasunaga havia deixado as montanhas natais para colocar-se como vassalo a serviço de Matsudaira Kiyoyasu (avô de Tokugawa Ieyasu).

Ao crescer nos domínios de Mikawa, o jovem Masanari foi rigorosamente educado nas disciplinas marciais tradicionais do samurai, com ênfase no combate com lança (sōjutsu), equitação militar e tiro com arco. Contudo, devido aos fortes laços de sangue e alianças de sua família em Iga, Hanzō manteve canais diretos de comunicação e confiança mútua com os clãs de shinobi locais, atuando como elo vital entre os samurais regulares de Matsudaira e os combatentes irregulares das montanhas.

Carreira militar ao serviço de Tokugawa Ieyasu

Primeiros combates e o resgate de Kaminogō (1562) Hattori Hanzō teve o seu batismo de fogo aos dezesseis anos de idade, em 1557, durante o cerco noturno ao Castelo de Udo, liderando um ataque surpresa bem-sucedido contra as guarnições hostis sob o comando do jovem Matsudaira Motoyasu (posteriormente renomeado Tokugawa Ieyasu). Por sua bravura e competência técnica na condução de tropas no escuro, Ieyasu recompensou-o publicamente.

Sua primeira façanha estratégica de grande repercussão ocorreu em 1562, no resgate do Castelo de Kaminogō. Naquela conjuntura, Ieyasu rompera a suserania que mantinha com o clã Imagawa após a morte de Imagawa Yoshimoto na Batalha de Okehazama (1560). Em retaliação, o novo chefe dos Imagawa, Imagawa Ujizane, mantinha a esposa legítima de Ieyasu (Dama Tsukiyama) e seu primogênito (Matsudaira Nobuyasu) como reféns no Castelo de Sunpu. Para reaver a sua família, Ieyasu encarregou Hanzō de tomar o Castelo de Kaminogō, defendido por Udono Nagamochi, parente próximo dos Imagawa.

Sob a escuridão da noite, Hanzō liderou um contingente de guerreiros e comandos de Iga que escalaram as muralhas, atearam fogo aos depósitos internos e capturaram vivos dois filhos de Udono Nagamochi. A posse desses reféns de alto valor permitiu a Ieyasu negociar uma troca direta de prisioneiros com Ujizane, resgatando a sua esposa e o seu herdeiro em segurança para Mikawa.

As grandes campanhas de unificação Ao longo das décadas de 1570 e 1580, Hanzō participou das mais violentas e decisivas batalhas do período de guerras civis: Batalha de Anegawa (1570): As forças conjuntas de Oda Nobunaga e Tokugawa Ieyasu enfrentaram a coligação dos clãs Asai e Asakura. Hanzō atuou na vanguarda das forças de Tokugawa, contribuindo para desorganizar as alas inimigas e repelir os contra-ataques com estocadas precisas de lança. Batalha de Mikatagahara (1572): Quando o lendário general Takeda Shingen invadiu Mikawa e destroçou as linhas de Tokugawa no planalto de Mikatagahara, Hanzō operou na retaguarda defensiva. Durante o recuo caótico das tropas para o Castelo de Hamamatsu, comandou escaramuças de contenção e ações noturnas de sabotagem que frearam o avanço da cavalaria de Shingen, assegurando a sobrevivência de Ieyasu. Batalha de Nagashino (1575): Destacou-se na coordenação do fogo de arcabuzes e no patrulhamento das linhas de suprimento contra as investidas de Takeda Katsuyori.

A tragédia de Matsudaira Nobuyasu (1579) Em 1579, Oda Nobunaga suspeitou de conspiração e traição envolvendo a esposa de Ieyasu, Dama Tsukiyama, e o jovem herdeiro Matsudaira Nobuyasu, acusando-os de manter correspondência secreta com os inimigos do clã Takeda. Para preservar a aliança vital com Nobunaga, Ieyasu viu-se constrangido a ordenar a execução da esposa e o suicídio ritual (seppuku) do próprio filho Nobuyasu.

Hattori Hanzō, que nutria grande afeição pelo príncipe e o havia tutelado militarmente, foi formalmente designado para agir como kaishakunin (o assistente que decepa a cabeça do executante para abreviar o sofrimento do seppuku). No momento em que Nobuyasu desferiu o golpe no ventre, no templo de Futamata, Hanzō caiu de joelhos aos prantos, incapaz de desembainhar a espada contra o filho de seu senhor: declarou que preferia a própria morte a manchar a lâmina com o sangue de seu amo. Outro vassalo presente, Amakata Michitsuna, interveio rapidamente e consumou a decapitação. Ao ser informado do ocorrido, Tokugawa Ieyasu elogiou a humanidade de seu general, sentenciando: "Mesmo um demônio tem lágrimas; Hanzō provou ser o mais nobre entre nós" (aludindo à alcunha de Oni-Hanzō).

A travessia de Iga (Iga-goe, 1582) thumb|left|220px|Monumento dedicado às tradições históricas dos guerreiros de Iga, essenciais para a segurança de Tokugawa. A contribuição histórica mais decisiva de Hattori Hanzō ocorreu no verão de 1582, durante o episódio conhecido como o Incidente de Honnō-ji. Oda Nobunaga foi traído e assassinado em Quioto pelo general Akechi Mitsuhide. Naquele instante, Tokugawa Ieyasu encontrava-se em Sakai (perto de Osaka) em visita diplomática com uma comitiva civil reduzida a cerca de trinta homens desarmados, tornando-se um alvo imediato para os traidores e para bandidos errantes (rōnin).

Com as vias principais patrulhadas pelas tropas golpistas de Mitsuhide, a única rota de fuga viável rumo à segurança de Mikawa cortava os desfiladeiros perigosos e hostis das serras de Iga e Kōga. Hanzō tomou a frente da situação: enviou emissários aos chefes dos clãs de Iga e Kōga, garantindo que Ieyasu lhes concederia anistia, títulos de nobreza e proteção futura se garantissem a passagem do comissariado.

Centenas de combatentes de Iga e Kōga uniram-se a Hanzō para escoltar a comitiva de Ieyasu, neutralizando emboscadas e guiando o futuro xogun por picadas secretas nas matas ao longo de três dias extenuantes. A fuga bem-sucedida preservou a vida de Ieyasu e a continuidade do clã Tokugawa. Em gratidão perpétua, Ieyasu incorporou permanentemente os clãs de Iga à sua estrutura de defesa pessoal militar, colocando-os sob a liderança direta de Hattori Hanzō.

Estabelecimento em Edo e o portão Hanzōmon thumb|250px|O portão Hanzōmon do Palácio Imperial de Tóquio, batizado em memória da guarnição de Hattori Hanzō. Em 1590, após a vitória definitiva de Toyotomi Hideyoshi na campanha de Odawara contra o clã Hōjō, Tokugawa Ieyasu foi transferido para as províncias da região de Kantō. Ao estabelecer a sua nova capital militar na vila fortificada de Edo (atual Tóquio), Ieyasu confiou a Hanzō a segurança do flanco ocidental do complexo do Castelo de Edo.

Hanzō foi nomeado comandante do corpo especial de guardas Iga-gumi (composto por cerca de 200 homens de armas e vigias de elite). Esse regimento foi aquartelado na entrada oeste do castelo, na rota que conduzia diretamente à província de Kōshū (estrada de Kōshū Kaidō), considerada o ponto mais vulnerável a invasões surpresa pela retaguarda. O grande portal do castelo passou a ser formalmente denominado Hanzōmon (), nome que se perpetuou na toponímia da metrópole contemporânea.

Morte e sepultamento Hattori Hanzō faleceu em 4 de novembro de 1596, aos 55 anos de idade. Conquanto algumas narrativas folclóricas posteriores tenham romanceado a sua morte com alegadas emboscadas de ninjas rivais (como Fūma Kotarō), os registros contemporâneos do clã Tokugawa apontam que ele sucumbiu a causas naturais decorrentes de doença súbita.

Após a sua morte, seus restos mortais foram sepultados no cemitério do templo budista Sainen-ji (), localizado no atual bairro de Wakaba, no distrito de Shinjuku, em Tóquio. O próprio Hanzō havia financiado a construção do templo como uma promessa de expiação religiosa pela alma do falecido príncipe Matsudaira Nobuyasu, tornando-se monge leigo nos últimos anos de vida sob o nome religioso de Sainen.

No templo Sainen-ji encontram-se preservados o túmulo de Hanzō, uma urna com relíquias de Nobuyasu e o capacete cerimonial de batalha do general. No local conserva-se igualmente a sua icônica lança de combate (yari), originalmente com 3,15 metros de comprimento e peso de cerca de 7,5 quilogramas — ofertada ao templo após a sua morte como objeto votivo patrimonial sagrado da cidade de Tóquio.

Sucessão e declínio da linhagem Com a morte de Hanzō, a liderança militar dos vassalos de Iga e o comando do clã foram herdados por seu primogênito, Hattori Masanari II (1565–1615). Diferentemente do pai, o jovem Masanari carecia de carisma e habilidade militar, tratando os orgulhosos guerreiros de Iga como meros criados domésticos. A tensão culminou em 1605 em uma revolta aberta da guarnição de Iga (a insurreição dos Iga-dōshin), forçando as autoridades do xogunato a destituir o herdeiro de seu comando direto sobre as tropas.

O segundo filho de Hanzō, Hattori Masashige, assumiu funções civis e administrativas a serviço dos ramos menores de Tokugawa, mas o prestígio autônomo da casa Hattori enquanto comando supremo de combatentes especializados foi progressivamente dissolvido e burocratizado sob a paz do período Edo.

Historiografia: entre o samurai real e o ninja mítico A pesquisa histórica moderna sobre o período Sengoku estabelece uma nítida distinção entre o Hattori Hanzō histórico e o mito popular consagrado pelo teatro Kabuki, pela literatura popular do período Meiji e pelo cinema moderno: O comandante samurai: Hanzō foi, perante as leis e a hierarquia social do Japão feudal, um respeitado general samurai (bushi), titular de terras, proprietário de armadura completa e cavalo, e com assento de conselheiro direto junto a Tokugawa Ieyasu. O coordenador de inteligência: Sua associação com os ninjas decorre da sua ascendência geográfica em Iga. Hanzō funcionava como superintendente e oficial de ligação, contratando e dirigindo redes de reconhecimento, sabotadores, batedores e informantes de Iga e Kōga para missões clandestinas, sem que ele próprio vivesse como um espião marginal ou assassino solitário de aluguel.

Influência e presença na cultura popular A imagem de Hattori Hanzō transcendeu a história bélica japonesa para converter-se em um dos ícones mais universais da cultura pop: Cinema e televisão: Na célebre franquia de televisão japonesa Kage no Gundan (Shadow Warriors), Hanzō foi interpretado pelo ator de artes marciais Sonny Chiba, personificando o protótipo do mestre ninja honorável. No filme Kill Bill: Volume 1 (2003), dirigido por Quentin Tarantino, o próprio Sonny Chiba interpreta um ferreiro mestre espadachim aposentado em Okinawa chamado Hattori Hanzō, que forja a lendária espada utilizada pela noiva (Beatrix Kiddo). Videogames: