Idealismo alemão é o nome genérico dado a um conjunto de filosofias idealistas desenvolvidas na Alemanha, marcando a era da "filosofia alemã clássica" entre as décadas de 1770 e 1840. Seus principais representantes são: Immanuel Kant (1724–1804), Johann Gottlieb Fichte (1762–1814), Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770–1831) e Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling (1775–1854). Esses três últimos também são enquadrados no idealismo pós-kantiano ou pós-kantianismo.Terry Pinkard, German Philosophy 1760-1860: The Legacy of Idealism, Cambridge University Press, 2002, p. 217.

A obra importante, que abre esta página do pensamento alemão, seria a Crítica da Razão Pura de Immanuel Kant. Duas outras grandes obras deste período intelectual seriam a Doutrina da Ciência de Fichte e a Enciclopédia das Ciências Filosóficas de Hegel, período que terminaria com a Spätphilosophie ("filosofia tardia") por Friedrich Schelling.

Além destas quatro figuras, outros pensadores devem ser mencionados, nomeadamente Friedrich Heinrich Jacobi, Karl Leonhard Reinhold, e Gottlob Schulze, mas são geralmente considerados menores.Artigo "Idéalisme allemand" em ''Dictionnaire des concepts philosophiques'', p. 386 Quanto a Friedrich Hölderlin, a sua recepção é posterior e estende-se até ao século XX. Hölderlin ocupa um lugar importante na formação do idealismo alemão, mas que ainda precisa ser explorado.

Este forte momento filosófico coincide na literatura com o período alto do clássico-romantismo alemão, por ele influenciado. Jacques Taminiaux escreve, por exemplo, que Schiller faz parte do idealismo alemão porque Weimar não fica longe de Jena, onde Fichte fala dele em 1794-1795. Lá ele ensina Os Fundamentos da Doutrina da Ciência em sua Totalidade, , do qual Hölderlin será o ouvinte direto.

Taxonomia Segundo o pesquisador do idealismo alemão Frederick C. Beiser, desenvolveram-se duas formas fundamentais dessa linha filosófica de 1781 a 1801. A primeira era o idealismo subjetivo ou formal de Kant e Fichte, os quais consideravam o sujeito transcendental como fonte das formas, mas este não era acessível como objeto de conhecimento. Ele privilegia o sujeito e centra nele e em sua mente a esfera do ideal e racional. No sentido oposto, o segundo tipo foi o idealismo objetivo ou absoluto dos românticos (Hölderlin, Novalis, Friedrich e August Schlegel, Schelling, Hegel), em que se afirmava que todas as formas da experiência são autossubsistentes e transcenderiam a sujeito e objeto, sem se privilegiar qualquer um desses dois. Sujeito e objeto eram manifestações do Absoluto ou do puro Ser, e o sujeito era dependente suas formas, e não sua fonte. O ideal é absoluto e independente do sujeito do conhecimento, servindo de arquétipo ou base estrutural. Foi com esses românticos, em meados da década de 1790, que se demarcou no conceito de "mundo inteligível" uma esfera mental do sujeito e outra arquetípica absoluta, as quais Leibniz e Kant não diferenciaram anteriormente. Essa distinção teve sua expressão mais clara no Differenzschrift (1801) de Hegel.

O que une ambos tipos de idealismo foi buscar explicar a possibilidade do conhecimento por meio do princípio da identidade sujeito-objeto: deve haver alguma identidade entre ambos para que haja correspondência e interação. Apesar de se buscar superar relativamente esse dualismo, ao mesmo tempo ele também era necessário aos sistemas do idealismo alemão, em dialética de identidade e não identidade.

Gênese complexa O primeiro testemunho do idealismo alemão é um texto coletivo chamado O Mais Antigo Sistema do Idealismo Alemão (Das älteste Systemprogramm des deutschen Idealismus). Segundo os comentaristas do trio do idealismo alemão, os três antigos Stiftler (Hölderlin, Hegel, Schelling), a data do texto pode oscilar entre 1795 e 1797 e há muito que se pergunta sobre o seu principal autor. Se Hegel, Hölderlin e Schelling foram mencionados sucessivamente, alguns hoje se inclinariam mais favoravelmente a Schelling. Além disso, costuma-se unir Fichte, o autor da Doutrina da Ciência ou Wissenschaftslehre, a estes três pensadores, mas este encontro sob o mesmo rótulo é fortemente contestado segundo Jean-Louis Vieillard-Baron.

Influência de Kant Basicamente, a influência de Kant através da sua concepção de razão é decisiva. Kant define filosofia como teologia rationis humanae: "A razão nada mais é do que uma faculdade de sistema e o interesse da razão visa trazer à luz a mais alta unidade possível da maior diversidade possível de conhecimentos." Esta questão do sistema, da sua coerência e da sua fundamentação tornar-se-á fundamental.

Para os filósofos dessa época, à crítica da razão deveria se suceder o sistema dela, com a emergência de uma ciência que procede de um "princípio único". Fichte não visava ver na Crítica da Razão Pura senão a exposição "da pesquisa sobre a possibilidade, significado e regras de tal ciência".Artigo "Criticisme" em ''Dictionnaire des concepts philosophiques'', p. 172

O ponto comum de todos os filósofos do idealismo alemão é que eles adotam, mas também vão além, do pensamento kantiano. O kantianismo anunciou a sua própria transcendência ao afirmar a impossibilidade da metafísica tradicional e o desenvolvimento futuro de um novo sistema metafísico que seria a realização da filosofia transcendental. Este sistema deveria, segundo Kant, conciliar a parte natural e a parte moral da filosofia, partes que se opunham na primeira Crítica. Os pensadores do idealismo alemão propõem estabelecer este sistema de natureza e moral reconciliadas, anunciado por Kant, e assim fundar uma nova forma de fazer metafísica. No entanto, como observa Émile Bréhier, Kant não foi o seu único guia.

Platonismo e neoplatonismo Uma profunda orientação ao platonismo e neoplatonismo foi fundamental particularmente aos pensamentos de Hegel, Hölderlin e Schelling, a qual se deveu inicialmente pela formação que esses três tiveram no Tübingen Stift. Essas correntes definiram a restauração da metafísica pelos idealistas pós-kantianos. A partir de seus estudos naquele seminário, Schelling incorporou a teoria de princípios platônica do Filebo para formar a sua tríade de potências dinâmicas, bem como o conceito da anima mundi. Apenas mais tarde que Plotino seria lido por Hegel e Schelling, este último tendo sido profundamente influenciado por ele. No entanto, no seminário os três já teriam contato com Proclo, que exerceu grande impacto sobre o pensamento de Hörderlin e Hegel. Para Hegel, Proclo era o maior dos neoplatônicos e superior a Plotino. O conceito de Geist (em alemão, Mente ou Espírito) para esses filósofos significava o Ser prototípico, o que foi adotado da metafísica neoplatônica em torno do Um. Daí também se deriva o monismo e as discussões de identidade e diferença entre os seres (ver metéxis). Segundo Frederick Beiser, o idealismo alemão, se desdobrando como uma "progressiva dessubjetivização do legado kantiano", passava a reconhecer mais uma realidade ideal, arquetípica e normativa, de modo que ele chega a afirmar: "A história do idealismo alemão é, portanto, mais a história do desenvolvimento progressivo do neoplatonismo".

Outras influências filosóficas Tanto Émile Boutroux como Alexandre Koyré e Henri Delacroix concordam em encontrar a origem da intuição metafísica fundamental do idealismo alemão na obra de Jakob Böhme. Outros também apontam influências de Mestre Eckhart.

Fontes mais recentes de inspiração filosófica seriam encontradas em Spinoza e Rousseau. Sem esquecer, à margem do idealismo, a influência daquele que é considerado o "pai" da hermenêutica moderna, Schleiermacher. Por outro lado, deve-se notar, como observa Émile Bréhier, que estes pensadores foram banhados pela renovação de um sentimento quase místico pela natureza acompanhado por um sentido de tradição histórica que é nutrido por numerosos trabalhos acadêmicos e arqueológicos, favorável desde meados do século XVIII.

Esses pensadores, por outro lado, viveram numa época em que, segundo Xavier Tilliette, "a Revolução Francesa e a Doutrina da Ciência de Johann Gottlieb Fichte, esses acontecimentos que Friedrich Schlegel associou, provocaram uma revolta de mentes, um tumulto confuso de ideias e sonhos"; uma época em que o progresso antimecanicista da ciência parecia tender a apagar as fronteiras entre o inorgânico e o orgânico (por exemplo, as descobertas relativas ao magnetismo e ao galvanismo) e dava o espetáculo de uma Natureza capaz de se tornar Espírito contra a corrente tradicional de uma filosofia que estabelecia a subjetividade como princípio de todo o seu conteúdo. Neste contexto, para eles tratava-se de defender a primazia do Espírito sobre a natureza. e 19

Eles assumem a ideia de que a subjetividade é um dos fundamentos de toda filosofia e deste ponto de vista seguem Kant, para quem a subjetividade é o fundamento de "filosofia transcendental" (cf. §16 da Crítica da Razão Pura ). Fichte, que procurou a filosofia de Kant "inacabada", pode ser considerado como "um degrau na escada que leva via Schelling de Kant a Hegel". miniaturadaimagem|Silhueta de Hölderlin, 1797. Friedrich Hölderlin, que leu Kant extensivamente e seguiu os ensinamentos de Fichte em Jena em 1794-1795, ocupa um lugar especial na formação do idealismo alemão: em um fragmento filosófico escrito por volta de 1795, "[Ser e Julgamento]", lembra-nos que o Ser não deve ser confundido com a identidade.Hölderlin, «[Être et Jugement]». In: Œuvres. Pléiade, nrf/Gallimard, Segundo Jacques Rivelaygue, Hölderlin criticou "o próprio princípio do idealismo alemão que quer, ao identificar o ser com o ente da subjetividade, fazer dela o fundamento" Rivelaygue acrescenta mais: "Schelling e Hegel reagirão à objeção" por Hölderlin "tentando encontrar soluções dentro da estrutura do idealismo absoluto": Hegel é "menos atento às objeções de Hölderlin do que Schelling".Jacques Rivelaygue, Leçons de métaphysique allemande, tome I, p.  205; 208-209; 216

Aufklärung, Revolução Francesa e idealismo alemão O idealismo alemão corresponde ao fim do Iluminismo alemão (o Aufklärung no século XVIII). Kant, Fichte, Schelling, Hegel ficaram fascinados pela Revolução Francesa. Diz-se que Kant interrompeu a sua caminhada diária, por uma das duas únicas vezes na sua vida, para conhecer a evolução da Revolução. Quanto a Hölderlin, Schelling e Hegel, diz-se que plantaram uma árvore da liberdade quando eram seminaristas no Stift de Tübingen.

O germanista Lucien Calvié analisa "a atitude dos intelectuais alemães em relação à Revolução Francesa": entre 1789-1845, observaríamos na cultura alemã "uma tendência à desvalorização ideológica da Revolução Francesa como uma transformação "puramente política" e a procura de um substituto para este modelo impossível, sob a forma de uma revolução alemã mais profunda (ética, estética, filosófica ou social)".Löwy Michael. Lucien Calvié, Le renard et les raisins: la Révolution française et les intellectuels allemands (1789-1845), Paris, EDI, 1989, In: L'Homme et la société, N. 102, 1991. État et société civile. p. 134

Segundo Jean-Édouard Spenlé, Kant desfere, no plano teórico, o golpe final no otimismo fundamental do novíssimo racionalismo do Aufklärung alemão, ao limitar, por um lado, o campo do conhecimento possível à experiência do mundo sensível, e ao defender por outro lado, a primazia da prática sobre a teoria..

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