Paratinga é um município brasileiro no interior do estado da Bahia, Região Nordeste do país. Localiza-se a uma distância de 710 quilômetros a oeste da capital estadual, Salvador, e 749 quilômetros a leste da capital federal, Brasília. Ocupa uma área de aproximadamente e sua população no censo demográfico de 2010 era de habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, sendo então o nonagésimo segundo mais populoso do estado e terceiro de sua microrregião.
Parte do propósito de povoação do interior do Brasil, Paratinga é uma das cidades mais antigas da Bahia. Se desenvolveu a partir do século XVII em fazendas e terras do latifundiário Antônio Guedes de Brito. O município tornou-se local importante da região por abrigar um porto estratégico do qual populações passavam pelo Rio São Francisco. Foi o centro do poder econômico e político dos Guedes de Brito e, no século XVIII, seu território era o maior do estado e abrangia até a divisa com o estado de Minas Gerais. Com o passar dos anos, o território foi reduzido com a emancipação de vários municípios, como Bom Jesus da Lapa, Ibotirama e Macaúbas.
Atualmente, Paratinga é berço de um considerável patrimônio histórico. Várias de suas construções antigas contam com influências do neobarroco e do art déco. Além de seu arcabouço cultural, o município é destaque em turismo, especialmente com as fontes termais do distrito de Águas do Paulista e um de seus povoados, Brejo das Moças. No entanto, a cidade, assim como toda a região são franciscana, vive desafios ambientais e econômicos, influenciados pelo descaso da administração pública nacional, ocorrida desde a colonização portuguesa e aos períodos do país como império e república.
A sede do município possui uma temperatura média anual de 27,9 graus Celsius. Localizada em plena caatinga, com clima semiárido, Paratinga é banhada pelo Rio São Francisco e possui alguns cursos de água sob seu território. O seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), segundo dados de 2010, é de 0,590, considerado baixo pela Organização das Nações Unidas (ONU). Com distâncias médias de grandes capitais brasileiras, como Salvador, Brasília, Goiânia e Belo Horizonte, o município é servido pela rodovia estadual BA-160, que a liga para várias cidades baianas até a divisa com Minas Gerais. Embora tenha índices pouco favoráveis em certas áreas como a educação, os indicadores socioeconômicos e de infraestrutura apontam melhoras nos últimos anos.
Etimologia
O nome Paratinga, escolhido para batizar a cidade, é uma adaptação de origem tupi ao antigo nome do município, Rio Branco, por meio do Decreto Estadual nº 141, de 31 de dezembro de 1943. O nome consiste na junção dos vocábulos indígenas pará ("rio") e tinga ("branco").
História Primeiros povos e colonização A região à esquerda e direita do Rio São Francisco, no oeste baiano, no qual Paratinga se localiza, era ocupada por várias populações indígenas, dentre elas os tamoios, cataguás, xacriabás, aricobés, tabajaras, amoipira, tupiná, ocren, sacragrinha e tupinambás. Especificamente em Paratinga, acredita-se que o grupo indígena predominante era o dos tuxás.
Os primeiros registros da chegada portuguesa à Paratinga datam do século XVI, quando Duarte Coelho Pereira, o capitão donatário de Pernambuco, esteve na região, em uma expedição exploratória, entre os anos de 1543 e 1550. Em 1553, o rei de Portugal D. João III determinou que Tomé de Sousa conhecesse as nascentes do São Francisco. O espanhol Francisco Bruza Espinosa, residente em Porto Seguro, foi o responsável pela expedição que, segundo estudiosos, pode ter chegado até Bom Jesus da Lapa, um ano e meio após o seu início. No entanto, não houve ocupação permanente no local por lusodescendentes. Ainda, em 1602, o bandeirante Belchior Dias Moreia passou pela região.
A colonização, de fato, ocorreria somente no século XVII, quando o pecuarista e latifundiário Antônio Guedes de Brito recebeu sesmarias que compreendiam muitas áreas do interior da Bahia, o que incluía a região de Paratinga, assim formando o seu latifúndio, a Casa da Ponte, que era o segundo maior do Brasil Colonial. Guedes de Brito, conhecido pelo desbravamento, foi também reconhecido pela extinção de grande parte da população indígena da região do Médio São Francisco, escravizando os sobreviventes.
Mais tarde, após sua morte, sua neta D. Joana da Silva Caldeira Pimentel Guedes de Brito tornou-se proprietária de várias fazendas herdadas pela família. Dentro da Fazenda Santo Antônio do Urubu de Cima surgiu o arraial de mesmo nome, simplesmente conhecido como Urubu, um vilarejo caracterizado pelas atividades pecuaristas e agropecuárias cujos moradores eram formados por luso-brasileiros, indígenas e africanos e que se formou ao redor de uma capela em louvor a Santo Antônio construída em 1680, sendo o templo mais antigo da região do Médio São Francisco. Reza a lenda que o nome da povoação veio por conta da descoberta de uma imagem de Santo Antônio debaixo de uma árvore, enquanto um urubu estava por cima, protegendo-a do sol.
Pela existência do arraial e de grandes currais de gado, já no início do século XVIII, a região de Paratinga tornou-se ponto estratégico para pousada e passagem de boiadeiros que transitavam entre o interior de Minas Gerais e da Bahia. Além disso, parte do gado que passava pelo local era comercializado em Goiás e Mato Grosso.
No Vale do São Francisco, os Guedes de Brito possuíam dez fazendas de gado, que eram: Boa Vista, Batalha, Volta, Campos de São João, Itibiruba (Itibiraba), Mocambo, Campo Grande, Curralinho, Riacho dos Porcos e Santo Antônio do Urubu. A região foi mapeada pelo sertanista Joaquim Quaresma Delgado em 1734, contratado para percorrer e mapear o interior da Bahia e de Minas Gerais.
Naquela época, a grande maioria dos proprietários das fazendas da região eram ausentes de suas posses e, com isso, escravos e outros moradores possuíam certa independência. Na ausência dos senhores, pessoas específicas entre livres, escravos e forros, de origem indígena e afro-brasileira, desempenhavam atividades administrativas e, com isso, gozavam de certo poder hierárquico entre os demais.
O arrendamento era um importante sistema utilizado da época da Casa da Ponte, e envolvia pessoas de várias regiões e poder econômico, incluindo romeiros que passavam por Bom Jesus da Lapa. Com esta atividade, muitos portugueses e paulistas se estabeleceram com famílias em Santo Antônio do Urubu de Cima ao comprar e arrendar terras dos Guedes de Brito. A comunicação e interação entre parte da população de viajantes de Santo Antônio do Urubu de Cima, Bom Jardim e Santuário do Bom Jesus da Lapa era fundamental no desenvolvimento e povoamento da região, através de rotas terrestres.
Período colonial e pré-imperial thumb|esquerda|200px|João foi herdeiro das fortunas dos Guedes de Brito, e governou a capitania da Bahia durante a chegada da família real no país. Na década de 1710, o então Arcebispo da Bahia, D. Sebastião Monteiro da Vide, solicitou ao Rei de Portugal D. João V a criação de novas freguesias, delimitadas em um quadro no ano de 1712. É neste contexto que mais de vinte arraiais, inclusive Urubu, receberam maior destaque. Com o seu crescimento e por conta da Igreja Matriz de Santo Antônio, Sebastião determinou em 11 de abril de 1718 que o Arraial de Santo Antônio do Urubu de Cima se tornasse uma freguesia, com esse mesmo nome. Em 1714, contava com 362 fogos e habitantes.
Em 23 de março de 1746, o Rei João V ordenou, após uma consulta ao Conselho Ultramarino da corte lusitana, que André de Melo e Castro, o Conde das Galveias, criasse a Vila de Santo Antônio do Urubu, desmembrada da de Jacobina. No entanto, a instalação da vila se deu somente em 27 de setembro de 1749, por meio do ouvidor Francisco Marcolino de Souza.
Na segunda metade do século XVIII, a vila de Santo Antônio do Urubu de Cima constituía um dos principais "mercados negreiros", ou seja, um centro de comercialização de pessoas cativas escravizadas, dos sertões interioranos da Capitania da Bahia, tendo recebido nesse período 601 escravizados, o que fez da vila de Urubu de Cima o segundo maior "mercado negreiro" da Comarca de Jacobina, à qual, apesar de desmembrada administrativamente, continuava judicialmente vinculada, somente perdendo o primeiro lugar para a vila de Santana do Caetité que tinha recebido no mesmo período 1.514 pessoas escravizadas.
Após a morte de Joana, sua herança e sobrenome passou para o marido através do morgado Guedes de Brito. O último dono das fortunas da família foi João de Saldanha da Gama Melo Torres Guedes Brito, governador da capitania da Bahia entre 1805 e 1809 e responsável pela recepção da família real portuguesa no Brasil, refugiada das guerras napoleônicas, em 1808. Morreu durante o exercício do cargo e, em 1819, os territórios da sesmaria foram tombados e divididos em seis distritos administrativos que receberam o nome dos municípios que os gerenciavam. A ação foi tomada por Pedro Francisco de Castro, procurador e administrador geral da Casa da Ponte. Além de Urubu, Rio de Contas, Rio Pardo, Caetité, Xique-Xique e Jacobina foram contemplados. Segundo o periódico literário O Patriota, em 1813 Urubu correspondia a 18 léguas.
Na época que prenunciava a independência do Brasil, a província da Bahia vivia um processo de agitação política. Rio de Contas, como uma das principais vilas da região, buscava o apoio de Caetité e Urubu para constituir uma nova província, com territórios baianos e mineiros, da qual Rio de Contas se tornaria capital. A proposta de autonomia, feita em diferentes anos, causou certo mal-estar na relação entre Rio de Contas e Caetité e, mesmo tendo certo impacto na região, não chegou a ser aprovada pela Coroa.
No mesmo período, em meados de 1822 e 1823, os moradores de Urubu produziram um ofício solicitando um novo ouvidor para a vila por não confiarem em quem estava exercendo a função. Francisco Pires de Almeida Freitas era o responsável pelo cargo àquela altura e a desconfiança da população se dava pelo fato de Freitas ter solicitado ao ministro do Império a mudança da Justiça e Cartório de Urubu para o arraial de Macaúbas, tendo como justificativa uma epidemia de febres ribeirinhas supostamente ocorrida na vila. Outra versão da história consiste em correspondências direcionadas ao Conselho Interno que a mudança era necessária pelos "ataques de despotismo contra os cidadãos", o aliciamento de cativos feito por portugueses e, também, contra ao processo de independência, para garantir a "obediência" de Urubu, em oposição à tensão criada por Rio de Contas.
Em 10 de abril de 1823, a representação dos moradores da vila, por meio de sete documentos, se posicionou contra a decisão do ouvidor. Não adiantou: a portaria de 17 de dezembro de 1823 determinou a mudança da Justiça e Cartórios para o sítio de Macaúbas. A mudança foi revista apenas em 1834, depois de várias manifestações da população local contra a decisão e por Macaúbas ter-se emancipado em 1832 de Urubu, tornando-se vila independente.
Período imperial Naquele período, Urubu vivia várias mudanças e gozava de destaque na região são-franciscana, principalmente por centralizar parte do poder público local e ser uma referência comercial e cultural. Em termos de extensão territorial, era o maior município do estado da Bahia. No ano de 1827, a vila limitava-se, ao norte, com a Vila de Pilão Arcado; ao sul com o estado de Minas Gerais; a oeste, com Barra do Rio Grande e Campo Largo; a leste, com Vila de Santo Antônio da Jacobina, Rio de Contas e a Vila Nova do Príncipe e Santana de Caetité.Anuário Estatístico 2002, v. 1, SEI, Salvador ISSN 0102-0676 É neste contexto que, em 1830 Urubu recebe sua primeira escola pública; em 2 de maio de 1835, foi criada a Comarca do Urubu, com objetivo de levar o poder do governo imperial à região.