Cosa Nostra Americana ou La Cosa Nostra é como chamam os estadunidenses a atualidade à Máfia italiana dos Estados Unidos. É uma das organizações criminosas mais conhecidas da atualidade, tendo já sido a mais poderosa em todo o país.

A máfia nos Estados Unidos emergiu dos empobrecidos bairros e guetos italianos em Nova Iorque, especialmente no East Harlem, Lower East Side e Brooklyn. Ela também surgiu em várias outras grandes cidades, regiões metropolitanas e subúrbios na Costa Leste dos Estados Unidos (como Nova Orleães e Chicago) durante o final do século XIX e no começo do século XX, após várias ondas imigratórias para a América, vindos especialmente da Sicília e outras regiões do sul da Itália.

Tem suas raízes na Máfia Siciliana, mas, uma vez nos Estados Unidos, se separou em várias organizações. Várias grupos criminosos italianos da Campânia e Calábria, uma vez estabelecidos em solo americano, junto com outros grupos criminosos italianos, eventualmente se fundiram à Máfia Siciliana para criar a versão atual da máfia ítalo-americana. Hoje em dia, a máfia americana possui vários laços com organizações criminosas italianas, como a Camorra de Nápoles e a 'Ndrangheta da Calábria. A estrutura da máfia nos Estados Unidos se deu, assim como na Itália, em forma de "família". Apesar do nome, o grupo não é mantido por laços familiares, com um líder não mantendo laços sanguíneos com outros.Roberto M. Dainotto (2015), The Mafia: A Cultural History, pp.7-44

No auge do seu poder, em meados do século XX, as principais famílias mafiosas americanas dominavam 26 cidades americanas, com vários associados em diversas outras localidades. Foi na cidade de Nova Iorque que a máfia prosperou mais e se tornou "famosa" na cultura pop moderna. O controle do crime organizado nova-iorquino estava nas mãos das chamadas "Cinco Famílias": os Gambino, os Lucchese, os Genovese, os Bonanno e os Colombo. No seu auge, a Máfia dominava praticamente todo o crime organizado nos Estados Unidos. Cada uma das famílias mafiosas (exceto as Cinco grandes) tinham seus próprios territórios e operavam de forma independente, enquanto a coordenação nacional ficava nas mãos da chamada "Comissão", que era formada pelos líderes das mais poderosas famílias criminosas.

No século XXI, a máfia americana, apesar de bem enfraquecida, ainda mantém força na Região Nordeste dos Estados Unidos, especialmente em Nova Iorque, Filadélfia, Nova Jérsei e na Nova Inglaterra, em áreas como Boston, Providence e Worcester; também possuem negócios em Chicago e em boa parte do Centro-Oeste americano, em cidades como Detroit e Cleveland, além da Flórida e Las Vegas, com famílias menores, associados e integrantes espalhados também por todo o país. De acordo com o FBI, atualmente há mais de 3 000 "homens feitos" e associados por todos os Estados Unidos, lidando com extorsões, contrabando, fraude, racketeering, formação de quadrilha, corrupção, roubos, subornos, lavagem de dinheiro, apostas ilegais, prostituição, pornografia, assassinatos e tráfico de drogas.

História miniaturadaimagem|Paolo Antonio Vaccarelli (conhecido como Paul Kelly)

A primeira organização a assumir os traços da máfia original nos EUA foi a Família Morello, fundada pelo imigrante = corleonês Giuseppe Morello,Mike Dash, The First Family, 2009 que já era iniciado em uma das coscas da máfia siciliana. Critchley, pág.32, 2008 Apesar disso, gangues ítalo-americanas menos sofisticadas já estavam presentes no país anteriormente, como no caso da gangue de Charles Matranga em Nova Orleans. Posteriormente, haviam outras duas "borgatas" estabelecidas e independentes dos Morellos em NY: uma comandada por Nicolo Schiro no Brooklyn, e outra por Salvatore D'Aquila, que na realidade era uma antiga ramificação dos Morellos antes do encarceramento do líder.

A consolidação da máfia americana como o fenômeno poderoso que se tornou, teve início com a introdução da "Lei Seca", ou "Proibição", em 1920. A criminalização de um produto de altíssima demanda criou uma nova e gigantesca oportunidade para os grupos mafiosos, que aumentaram exponencialmente seus lucros, entrando em outro patamar de enriquecimento. A ascensão ao poder de Benito Mussolini na Itália por sua vez, e sua feroz perseguição a Cosa Nostra e outros grupos criminosos, provocou a fuga maciça de mafiosos novatos e experientes para os Estados Unidos, como era o caso de Joe Bonanno e seu mentor Salvatore Maranzano. Raab, pág.24, 2014

Nos anos de 1920, a antiga gangue de Morello havia sido fundida com a organização do também siciliano Giuseppe "Joe The Boss" Masseria, após anos de sucessivas perdas na guerra contra a Camorra, e posteriormente contra Salvatore D'Aquila. No início dos anos de 1930, o reinado de Masseria finalmente sofreu oposição em virtude as taxas abusivas que este cobrava de outras gangues que o reconheciam como "Capo di Tutti Capi". Insatisfeitos, mafiosos da área de Nova Iorque buscaram apoio em Salvatore Maranzano. A colisão entre as duas facções resultou num sangrento conflito conhecido como "Guerra Castellammarese", que moldaria para sempre a máfia no país, dando traços definitivos a sua forma moderna.

O conflito teve fim após oito meses de luta sangrenta e infrutífera que arruinou os lucros de ambos os lados. Liderados por Lucky Luciano, um grupo de dissidentes da facção de Masseria entrou em acordo com Maranzano. Sob o contexto de planejar a próxima tentativa de assassinar Maranzano, Luciano marcou uma reunião com Masseria em 15 de abril de 1931. Antes da sobremesa, Lucky levantou-se para ir ao banheiro. Nesse momento, os guardas que acompanhavam Masseria deixaram o estabelecimento e em troca, quatro atiradores entraram no salão executando Joe The Boss com inúmeros disparos. Raad, pág.28, 2014.

Com a morte do rival, Salvatore Maranzano organizou as antigas gangues da máfia em Nova Iorque em Cinco Famílias. Lucky Luciano foi recompensado com a chefia da maior delas, da qual Masseria comandava. Entretanto, Maranzano tinha planos ainda mais ambiciosos para ele mesmo, e numa reunião com os chefes de várias organizações de todo o país se auto proclamou Capo di Tutti Capi em Nova Iorque, e portanto de todo o país dada a proeminência das gangues da cidade. Algumas das resoluções do novo chefe foram aceitas e consolidadas, entretanto a exigência de obediência absoluta de outras famílias, incluindo de outras cidades, não foi bem recebida.

Através das informações de Tommy Luchese, Luciano descobriu que Maranzano planejava eliminá-lo tendo passado o contrato ao gangster irlandês Vincent "Mad Dog" Coll. Em 10 de Setembro, Maranzano convocou Luciano, Vito Genovese e Frank Costello para uma reunião em seu escritório. Convencido de que se tratava de uma emboscada, Luciano e seus comparsas decidiram agir.

Em 10 de setembro de 1931, Maranzano esperava a visita de agentes da receita, e portanto havia ordenado que seus guardas no escritório estivessem desarmados. Raad, pág.30, 2014. Com a ajuda de seu associado e amigo, Meyer Lansky, Luciano recrutou atiradores judeus que seriam disfarçados de agentes do governo, evitando qualquer suspeita. Os assassinos entraram no escritório, renderam os guardas de Maranzano, enquanto uma parte da equipe entrou na sua sala e o executou com tiros e facadas.

A morte de Maranzano marcou o fim do domínio dos antigos chefes nascidos e iniciados na máfia do velho mundo, conhecidos pela nova geração de Luciano como "Mustache Petes". Com a vitória, Luciano abdicou de qualquer pretensão de se auto nomear "chefe dos chefes" organizando ao invés disso um sindicato nacional do crime, conhecido pelo nome de "A Comissão" que englobaria as principais famílias do país, incluindo a gangue de Al Capone de Chicago e a família de Buffalo comandada por Stefano Maggadino. A formação da Comissão tinha por objetivo estabelecer diretrizes para todas as famílias da Cosa Nostra no país, além de evitar futuros conflitos, resolvendo problemas quando possível através de negociações. Raad, pág.33, 2014.

A nova ordem da máfia estabelecida por Luciano e seus pares marcou o início do apogeu da Cosa Nostra nos EUA. Com a queda da Proibição, as mais organizadas e coesas famílias mafiosas - melhor preparadas para explorar outras atividades, sem o contrabando de bebidas - consolidaram sua supremacia sepultando o antigo poder das gangues irlandesas e judaicas. Para esses grupos, foi relegado cada vez mais papeis secundários no submundo como equipes complementares de capangas ou parceiros comerciais minoritários dos italianos. Raad, pág.39-41 2014.

O período dourado da máfia americana durou por mais de 40 anos até que o estatuto de "Conspiração Criminosa e Organizações Corruptas" (Racketeer Influenced an Corrupt Organizations Act, "RICO") foi promulgado em 1970. Associado a crescente expansão do tráfico de entorpecentes como atividade mais lucrativa das organizações criminosas, as novas leis e penas de prisão muito mais rigorosas foram um golpe fatal contra a Cosa Nostra Americana. Casos de informantes e delações de membros indiciados nas famílias se tornaram comuns; períodos de violência voltaram ao cotidiano das famílias, como no assassinato de Paul Castellano por John Gotti e Sammy "The Bull" Gravano, e a segunda e terceira guerra dos Colombos. Desses reveses a máfia americana não se recuperou, tendo entrado em declínio contínuo dos anos 80 em diante.

Segundo o ex-agente infiltrado do FBI Joe Pistone (o Donnie Brasco), o poder da Máfia Americana foi reduzido a uma relevância não maior que qualquer outro grupo criminoso organizado no país. Entretanto, segundo o autor Selwyn Raab, os ataques terroristas de 11 de Setembro teriam dado as Cincos Famílias de NY, e outras pelo país, uma importante trégua para se recuperarem dos sucessivos golpes do governo. O foco das agências de inteligência, do FBI e das forças de segurança passou a ser a ameaça terrorista, muito mais perigosa e iminente que a já combalida Cosa Nostra Americana.

O estreitamento das relações entre a Máfia Americana e a sua matriz do velho continente, estaria sendo usado como forma das famílias mafiosas nos EUA completarem seus quadros envelhecidos e desgastados com uma nova leva de mafiosos da Cosa Nostra original.

Unione Siciliana e Mão Negra A Cosa Nostra utilizou uma organização beneficente para se estabelecer, a Unione Siciliana, que auxiliava os imigrantes de origem siciliana que chegavam sem lugar para morar ou dinheiro para comida e com muitos filhos para alimentar. Tal organização logo caiu nas mãos dos mafiosos para a utilizarem como fachada para recrutar novos membros, fazerem agiotagem a juros exorbitantes aos recém-chegados e receberem doações da sociedade civil. A fachada era tão bem feita que logo a Cosa Nostra nos EUA foi sendo chamada entre os seus de Unione Siciliana, principalmente em Chicago, onde houve uma disputa entre os sicilianos (liderados por Joseph Aiello) e os napolitanos (comandados por Al Capone) pelo seu domínio.

Nos redutos e guetos italianos, gangues de chantagistas implementavam o sistema de extorsão conhecido como "Mão Negra", em virtude do símbolo em tinta preta enviado nas cartas de ameaças. Apesar desse sistema eventualmente ser praticado também por grupos mafiosos, isto é aqueles ligados a Cosa Nostra, nem todos os criminosos da "Mão Negra" (ou Mano Nera em italiano) eram parte ou tinham ligação com a máfia.

Lei Seca Um dos principais motivos que tornou a máfia italiana algo tão poderoso nos EUA nas primeiras décadas do século XX foi a chamada Lei Seca (Volstead Act), entre 1922 e 1933. A proibição de fabricação e venda de bebidas alcoólicas foi vista pelos gangsters (não só italianos) como uma grande oportunidade lucrativa, pois o povo estadunidense não havia ficado nada contente com a nova lei e comprariam bebidas alcoólicas de qualquer forma não importando a procedência. Então, surgiram milhares de pequenas fábricas clandestinas por todo o país, assim como bares.